13.10.08

Alguns apontamentos

Paul Strand


Antes que a memória me apanhe desprevenida,
tomo alguns apontamentos de lavoura:
os cestos de vime escondem os sobressaltos
do vento de outono, no meio do azinho
cortado no verão;
os sulcos de trigo inquietam-se
com as chuvas estivais, quando os guizos
das cabras soam de nordeste;
um temporal pode explodir no bico dos melros,
se o tempo das cerejas sair do calendário,
ou o sol não brilhar no mês de março;
na próxima floração acenderemos o forno
e o pão que comermos será caseiro.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

40 comentários:

  1. Sublimes estes apontamentos!! Beijos.

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  2. E porque me terá feito pensar em Torga... da terra, da profunda lucidez.

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  3. Há sobressaltos do encanto que soa de norte a sul, de leste a oeste, na sua palavra. Sempre parece ser tempo de poesia no seu calendário, Graça, não importa o tom do estio, pois versos inquietos de beleza brilham como sol nas suas mãos.

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  4. Extraordinaria exaltação da vida fora das grandes cidades.

    Excelente, Graça.

    (Apenas duas notas:
    1ª O nosso quotidiano está cheio de memorias e esquecimentos para que as emoções ocorram;
    2ª A nota de ideia de felicidade de Savater «A felicidade como anseio...» é sublime)

    (É bom aceder a comentários que acrescentam valor.)
    Bjs

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  5. Querida Graça,
    que lindo, envolvem-me as suas palavras e alarga-se-me o peito!!!
    Lindo, cheio de emoçao pura.
    Vi tudo e aqueçi os dedos na lareira e partilho agora o pao consigo.
    Merci pour Hatsué.
    Paris vous embrasse!
    Eu também,
    Bjos,
    LM

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  6. Graça....
    Já te disse hoje que sou tua fã?
    Pois é.... Sou sua fã!

    E que o tempo das cerejas NUNCA acabe!
    Beijucas querida

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  7. o teu olhar tem com toda a certeza uma memória especial.!!!!!


    um "cesto" que recolho. e aonde me "escondo".


    G.


    (como é bom vir aqui....)

    obrigada.


    beijooooo.

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  8. Preciosos apontamentos para quando a memora nos falha...

    Beijito


    olharIndiscreto

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  9. Anónimo9:00 p.m.

    "na próxima floração
    acenderemos o forno
    e o pão que comeremos
    será caseiro"
    Apontamento muito importante... Será que me poderás convidar para esse banquete?
    Beijo.

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  10. a memória rebenta-nos tantos temporais...


    na fonética

    com que
    nos
    e os escutamos...

    _______

    essas são para guardar sim, num cesto, junto do sol.

    bjs Graça

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  11. Anónimo10:39 p.m.

    O máximo!gostava que fosse a:arte-e-ponto.blogspot.com

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  12. E apontas bem, com toda a pontaria...
    Bj.

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  13. Que bom! Pão caseiro!
    Hoje é tudo à inglesa, Nem côdea tem...
    Bjs

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  14. Anónimo12:44 a.m.

    um poema com o sabor a lembranças de rugas dum sol tardio...

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  15. Tão poeticamente bucólico, Graça!
    Sempre fico tão 'sobressaltada' com as imagens que crias.
    beijo grande

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  16. Senti esse cheiro a vime e a azinho seco... sentei-me à lareira... fechei os olhos, ouvi o soprar do vento e os guizos das cabras ao longe... adormeci e acordei com o cheiro a pão quente a saír do forno.

    Obrigada, pela mensagem de esperança
    bjs

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  17. Momentos de ternura campestre.
    Como me transportam às memórias da minha infância.

    O aroma do pão acabado de cozer...

    A fruta colhida das árvores e comida sem se lavar :-D

    As vindimas...

    as desfolhadas...

    Sim, excelentes apontamentos.
    Beijo de agradecimento.

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  18. Desculpe a ousadia mas são apontamentos tão meus. Ainda hoje comi pão caseiro amassado pelas mãos da minha querida mãe.

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  19. que poema tão comestível e bem cheiroso!
    Lindo.
    Telúrico, rural, fisiológico.
    A alma, contente.
    Beijo.
    EA

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  20. E que bem que se lê os teus "apontamentos"!
    Gostei mto!

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  21. que bons e frescos apontamentos, Graça...

    abraço

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  22. Muito bonito, profundo e leve ao mesmo tempo.

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  23. que belo odor a pão cozido. amassado pelas próprias mãos.

    adorei. pelo teu talento. pela beleza dopoema.

    ... e pelas minha memórias.

    beijo

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  24. ... e subitamente apeteceu-me sair
    da cidade, voltar a essa infância
    que, construída, nunca existiu de
    facto...
    Um beijo, Graça.

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  25. Uma ode perfeita aos aromas e sabores com que a natureza nos presenteia, fazendo-me regressar aos tempos da minha infância!
    Maravilhoso: "um temporal pode explodir no bico dos melros,
    se o tempo das cerejas sair do calendário"!
    Parabéns pela sua constante inspiração!
    Beijo terno.

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  26. absolutamente fantástico!!


    parabéns a quem tão bem escreve!


    e um beijo

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  27. a beleza dos gestos simples...leve pq inteiramente poético...

    abraços

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  28. Fabuloso cara amiga. Mais uma vez, parabéns pela tua criatividade.
    Só podes ter nascido e criada no campo... quem nasce na cidade não é crível que escreva com tanta riqueza de imagens (há quem não saiba, por exemplo, que os melros gostam de cerejas ou de que quadrante vem a chuva...).
    Para além disso és boa observadora...
    Beijinhos.

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  29. Anónimo12:08 a.m.

    Que texto maravilhoso, Graça!!!
    Palavras que me aconchegaram
    Emocionei-me...
    Beijinho

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  30. Na Linha de Cabotagem há algo para si.

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  31. vim pelo link de já nem sei quem.
    Gostei tanto de ler isto que me sentei apenas a reler de cafe na mão e um sentimento de cumplicidade. Aqui não há guizos de cabras, apenas o seu balir bem perto a chamar-me. E o tempo das cerejas não pode faltar nunca.
    Fez-me sonhar. E apresentou-me um belo quadro rústico. ;)
    Creio que este link está disponivel no vida de vidro. Vou confirmar.

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  32. aponto o meu beijp. calado.


    grato.



    muito.



    _________________.

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  33. Está espectacular, querida Graça!
    A ideia... o desenvolvimento da mesma, com a desenvoltura de palavras que tu usas para exprimir tudo o que sentes!
    Beijos ternos, amiga.

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  34. Anónimo6:36 p.m.

    Gosto do Outono, centra-me em memórias e ritos ancestrais que muito estimo. Encontro os ecos disso no poema. "Antes que a memória nos apanhe desprevenidos", façamos crónica!
    Um prazer ler este poema, Graça.
    Um beijo

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  35. Anónimo3:31 a.m.

    dizes de coisas que me são mui queridas. quantas vezes passeei por essas tuas palavras? muitas: e em todas elas me deliciei. grato.

    deixo um abraço fraterno.

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  36. Reter na memória e no pensamento...
    épocas transmutadas... que só em letras, quem sabe, no futuro sentiremos...

    Beijo

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  37. como fazes do Outono um poema!

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  38. ...que belas palavras...enchem o ar...
    Que bom é o cheirino do pão quente:))

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