Ortografia do olhar

Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.

29.7.12

De seda

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São pequenas as jarras de porcelana onde deixámos os lírios brancos que resistiram ao tempo da secura. E quando os nossos olhos orv...
22.7.12

Sílabas de som tenso

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Ton Koene Um exílio começa no ferrete dos lábios queimando o ébano dos pianos que fazem gemer o prelúdio das mãos. A boca, com síl...
15.7.12

De muito longe

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Conta-se que há laranjais que rebentam ao pé dos poços deixando um aroma de pétalas branquíssimas no bordo dos cântaros. Todos os d...
8.7.12

Somos a sombra de uma vara

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De pé, demoradamente invocando o grito do destino, somos a sombra de uma vara, presa à inclinação do sol, que define a vertigem que no...
1.7.12

Como se esperasse ser salva

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Katia Chausheva É sobretudo ao anoitecer que ouço exaustivamente o fado em vozes solitárias. Deixo que um xaile negro me cubra os ombros ...
24.6.12

Antes do homem havia a terra

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A ntes do homem havia a terra: geografia mágica, sagrada que,   na luz e na treva, explodiu de espanto e guardou, milenarmente, os mi...
17.6.12

A cor convicta do poente

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Quando a aurora começa a dissipar as trevas   na palidez da terra avançamos com a argúcia da palavra sobre a imperfeição de cada inst...
10.6.12

Quase lágrimas

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  Walker Evans O viajante ajoelhou-se sobre a terra e cantou e cantando rezou. Carregava nos ombros o afluente de um rio para o larg...
3.6.12

Enquanto abrigas nas mãos

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István kerekes Toco-te. Percorro-te. Os dedos subitamente peregrinos tangendo a matriz sensual da tua pele. A pérgula das buganvíl...
27.5.12

Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo

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Ana Pires Os rituais da infância não nos deixam esquecer: Era verde a sombra das árvores no pátio da escola. Eram verdes os trigais pejad...
16.5.12

CONVITE

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11.5.12

Do meu país vos digo

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Do meu país vos digo: Dos aromas de urze e alfazema. Dos caminhos de rosmaninho e alecrim. Dos matizes, no verão, rasando a terra se...
5.5.12

Onde estás, Mãe?

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Vieira da Silva Defino geometrias na memória, para reconstruir a casa onde nasci e, apenas, a lenta urgência dos teus passos e...
30.4.12

A escassez do amor e do pão de cada dia

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Dorothea Lange                        Desconhecemos as cicatrizes das mãos que manejaram a mó dos moinhos e a fadiga das que mond...
24.4.12

Na esperança de um só dia

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19.4.12

As palavras andam por aí

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Sarah Afonso As palavras penetram o espaço e o tempo. Amadurecem em papel de seda, manipulando a cor, ateando o silêncio, incendiando ...
12.4.12

A túnica lilás

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Sandro Botticelli A túnica lilás desesperava-se de ser anjo no meu corpo de criança. Rasguei-a há muito tempo. Os anjos não perdoam que...
5.4.12

Um requiem pelos sonhos

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Manuel Fazenda Lourenço Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar para que ninguém veja os passos em falso com que trilhamos o d...
29.3.12

A vigília do olhar

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Uma explosão sobrevoa a vigília do olhar preso às pontas do vento. Vejo da minha janela as labaredas da suspeita galgando as árvores. R...
21.3.12

A poesia não morreu

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Pedro Pires A minha impaciência não cabe no poema ou na pedra afiada pelo silêncio que me fere os pulsos. Gravei a sangue o furor dos di...
15.3.12

Nostalgia

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Dorothea Lange Um vento de norte arrefeceu o passado que nos resta e pôs em perigo a noite que, desde a meninice, nos seduzia. Há páss...
8.3.12

Elas

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Lempicka Elas têm olhos de vespa como as antigas deusas e mordem o freio que lhes sangrou os lábios. Fazem minuciosamente o inventário do...
1.3.12

O nevoeiro da espera colado nos sonhos

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Desenrola-se em nossos olhos a vertigem transparente que agride o declínio do dia quando a lua se encosta nos vidros e temos o nevoeiro...
23.2.12

À memória do Zeca

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Passou por aqui um poeta: inquieto, polémico, subversivo. Com a noite entrincheirada nos dedos, engatilhou as letras contra os lábios, até ...
17.2.12

Ausências sem rosto

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Magritte  Entre o culto da lua e um estranho ódio, cresce uma noite de lendas e feitiços e deflagra um luar íntimo em busca da conivência ...
10.2.12

Os olhos verdes

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Para a  minha irmã Teresa Pires Os olhos verdes   de meu pai herdou-os a minha irmã. Agora os panos dos veleiros encharcam-se com as ág...
3.2.12

Olhas para além dos barcos

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Para o meu irmão Zé Pires Instáveis como as sombras, as nuvens perpassam o teu olhar carregado de melancolia. Olhas para além dos barc...
26.1.12

Procuro o teu rosto

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António Quadros Presa às marés, outras margens me circundam. Procuro os teus braços. Esgota-se em cada dia, lentamente, a viagem do temp...
19.1.12

MÃE!

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Tanto tempo que eu passei sem aqui vir disseste, mãe, quando notaste como era imenso o azul do mar. Teus olhos carregados de ausência. ...
12.1.12

Tudo se passou naquele inverno

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Tudo se passou naquele inverno em que caiu a figueira junto ao muro. As oliveiras escondiam entre as folhas alguns aromas da tarde que o a...
5.1.12

Como um lamento

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Ana Pires Tento esboçar o tamanho da lua cheia no vértice das empenas viradas a nascente. Tento calcular a geometria do mar que bate...
29.12.11

Regressamos aos lugares da infância

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Dorothea Lange Mais do que uma voz, a vibração de um trompete exila o pranto inesperado do olhar preso à curva do sol nascente. Regressa...
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