Ortografia do olhar

Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.

29.8.13

Tão frágil a construção do silêncio!

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Ana Pires No verão todas as manhãs são belas, dissemos um dia, antes de sabermos como nos pode asfixiar o áspero sangue das co...
22.8.13

Sensualidade

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Julien Dupré Quando o estremecimento da brisa  trazia o cheiro dos arbustos molhados e o chiar das carroças carregadas de feno,  ...
15.8.13

Silêncio

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andrey vahrushew Talvez um golpe mudo  construa a cegueira dos açudes  talhados pelo vento  no rastilho das noites,  ou n...
8.8.13

Um brilho quase fatigado

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Anda uma claridade esquiva  a rondar-nos a casa.  De encontro às vidraças, um brilho quase fatigado  vai abrindo a noite  à transpa...
31.7.13

Na estiagem

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Tão íntimo das nascentes, o verde das veredas desfaz-se em cinza quando as serranias ondulam o lume sobre o chão. Na estiagem h...
23.7.13

Com o silêncio emboscado na voz

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Ana Pires Com o silêncio emboscado na voz uma mulher atravessou um impossível retorno rente a horários sem sentido. Na linh...
14.7.13

Pressinto a hora dos naufrágios

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Joakim Eskildsen Sobre a linha do horizonte sulco  a tristeza que se apodera da noite  pela extrema possibilidade da mudez.  Pressi...
7.7.13

Segredo

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Manuel Fazenda Lourenço Sem horas. Sem coordenadas.  Sem pontos de referência.  Sem pressa nem vagar.  Diz só onde me esperas...
29.6.13

Um lugar para morrer

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Naquele mês espalhara-se a insólita notícia da vinda de andorinhas brancas trazidas pelos ventos do deserto. Todas as mul...
14.6.13

Não falo da importância do brilho

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Duane Michals Nem sempre as janelas oferecem às casas todas as possibilidades da luz. Não falo da importância do brilho coado ...
8.6.13

A eternidade dos abismos

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Menez Possuímos uma nudez que sangra no barro da encosta mais íngreme por onde rastejamos a catástrofe da secura, tão propícia à pe...
1.6.13

Abandono

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Johnny Herman Para a Elisa Cristina Marcados por todas as violências  eles afiam as pontas dos dedos  nos subúrbios da noi...
26.5.13

Como se fosse masculino o criador

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As bonecas de trapos  feitas por mãos de meninas tinham tranças de lã amarela   para parecerem loiras. Como se fosse masculino...
19.5.13

Dádiva

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Pedro Pires Diante do mar dissemos:  a nossa casa será um lugar sem desvios  onde os amigos hão-de vir nos dias  de sol intenso  em...
12.5.13

De tanto chamarem pelos filhos

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Di Cavalcanti A todas as mães a quem desapareceram os filhos Sentaram-se à roda da mesa,  de cabeça erguida,  como se rezassem.  ...
5.5.13

Canções guardadas na lembrança

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Ana Pires À memória da minha mãe e para a minha filha Ana Há sons que estimulam todos os enigmas, mesmo os mais antigos, ...
30.4.13

Em manhãs saturadas de sombras

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Josef koudelka Em manhãs saturadas de sombras ninguém se reconhece no país onde os castanheiros velhos não suportaram a secura ...
24.4.13

Liberdade

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Dir-te-ei: há cavalos verdes nas margens do vento arrostando a claridade do dia quando a luz se inclina levemente para um sul inac...
15.4.13

Queria prender no cabelo

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Robert Coombs Queria prender no cabelo uma haste de sol ou um pássaro, mas ninguém retirou as trepadeiras secas para que a hora...
9.4.13

A rasar-nos o olhar

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É indecifrável a mancha de pinheiros o âmago da sombra quando a efemeridade do crepúsculo rasga devagar o coração dos prados. Aos ...
1.4.13

Hesitação

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Vladimir Clavijo Não falarei do voo dos insectos em volta das sécias coloridas. Não falarei d as marés que desalojam os barcos do...
19.3.13

Convite

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Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo. Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam. Gostava muito ...
13.3.13

Procuro as tuas mãos. Procuro a tua voz

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À memória da minha mãe Viajo com a respiração do mar agarrada ao tecido do peito. Foi o vento que rasgou os ombros da noite ...
7.3.13

Desafiando o medo

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Vladimir Clavijo Desafiando o medo, elas aguçaram as unhas na própria sombra até fenderem a nudez dos gestos arriscados. A r...
24.2.13

Lentamente

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Lentamente. Como se fossem intermináveis os dias e as luas. Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse. Como se cavássemos ...
17.2.13

O excesso de luar

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A lua abriu um sulco no telhado e uma estranha névoa cobriu todas as casas. As aves marinhas alteraram seu rumo. Algumas mulher...
10.2.13

O grito dos cumes

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Quero guardar no interior das mãos a esquiva cintilância das manhãs inadiadas. Quero palavras com punhais de raiva a ferir o grit...
1.2.13

Escrevemos mar

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Ana Pires Escrevemos mar como se fosse a palavra única que nos circunda a fala. Quando éramos crianças tínhamos os barcos de ...
24.1.13

Das mais antigas dores

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Josef Koudelka Do lado distante das noites, a lua acesa sobre os muros ilumina o rosto daqueles que sempre entenderam o trajecto es...
14.1.13

Um barco que agarre a alvorada

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Seguro um marcador lilás para desenhar um barco que agarre a alvorada em seu instante breve. Como ajustar aos dedos o rumo da proa qu...
7.1.13

A sedução da fuga

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Seguimos pela noite indiferentes a todos os ruídos que rebentam o rigor do silêncio. Temos nos punhos a navalha afiada do tempo rasg...
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