NASCIMENTO DA MÚSICA
Uma das mais recuadas imagens dos meus dias é uma mulher a cantar. Com a sua voz antiquíssima e branca, aquela mulher, à distância de mais de cinquenta anos, continua a embalar-me o coração. As palavras eram de um romance popular, sumarentas, cheias de sol; falavam de amor e de morte, de paz e de guerra, de coisas que não sabia exactamente o que fossem, mas que permaneciam em mim como pequenos nós de sombra ou breves manchas luminosas. O tecido da vida deveria ter a transparência daquelas palavras, já que o pulsar do universo não podia deixar de ser idêntico àquele ritmo amplo e seguro, em perpétua expansão.
A esta imagem, transbordante de ser, não tardaria a juntar-se outra mais secreta: a música do harmónio. Numa aldeia da Beira Baixa, provavelmente em julho ou agosto,quando a força da canícula entra até pelas frestas mais estreitas da noite e nos impede de dormir, uma melodia sobe no clarão da lua, e inesperadamente acaricia o corpo pequeno, intranquilo e solitário que era então o meu.
Acabo de falar do nascimento da poesia e da música, como se ambas jorrassem da mesma fonte; acabo de falar da arte do desejo, embora só alguns anos mais tarde viesse a pedir àquelas águas o que outros pedem ao amor: que me matasse a sede de alegria.
Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa. Lisboa, Círculo de Leitores, 1987
Uma das mais recuadas imagens dos meus dias é uma mulher a cantar. Com a sua voz antiquíssima e branca, aquela mulher, à distância de mais de cinquenta anos, continua a embalar-me o coração. As palavras eram de um romance popular, sumarentas, cheias de sol; falavam de amor e de morte, de paz e de guerra, de coisas que não sabia exactamente o que fossem, mas que permaneciam em mim como pequenos nós de sombra ou breves manchas luminosas. O tecido da vida deveria ter a transparência daquelas palavras, já que o pulsar do universo não podia deixar de ser idêntico àquele ritmo amplo e seguro, em perpétua expansão.
A esta imagem, transbordante de ser, não tardaria a juntar-se outra mais secreta: a música do harmónio. Numa aldeia da Beira Baixa, provavelmente em julho ou agosto,quando a força da canícula entra até pelas frestas mais estreitas da noite e nos impede de dormir, uma melodia sobe no clarão da lua, e inesperadamente acaricia o corpo pequeno, intranquilo e solitário que era então o meu.
Acabo de falar do nascimento da poesia e da música, como se ambas jorrassem da mesma fonte; acabo de falar da arte do desejo, embora só alguns anos mais tarde viesse a pedir àquelas águas o que outros pedem ao amor: que me matasse a sede de alegria.
Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa. Lisboa, Círculo de Leitores, 1987
Como se alguma nascente pudesse matar a sede do poeta.
ResponderEliminarem seara alheia a música.
ResponderEliminartua.
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beijo.
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Elas (poesia e música) jorram da mesma fonte. E a fonte vem do início, da infância.
ResponderEliminar"...uma melodia sobe no clarão da lua, e inesperadamente acaricia o corpo pequeno, intranquilo e solitário que era então o meu."
Que bom ler aqui este texto lindíssimo do Eugénio!
Um beijo, uma boa noite
Como só a seara do poeta.
ResponderEliminarLindo!
Excelente Eugénio de Andrade!
ResponderEliminarUm abraço
belo texto de Eugénio de Andrade!
ResponderEliminarcomo diz o poeta e lembra a Soledade, poesia e música nascem da mesma vontade, da mesma nascente, desde a infância, mas também desde os primórdios dos nossos primeiros poemas (cantigas), e desde os primórdios do Homem comunicante (as palavras e o som, uma mesma magia).
A música é poesia e a poesia contém uma musicalidade mui própria.
Sem palavras. Não conhecia este trecho. Belo. Ando sem tempo para ler, aqui e em folhas, revisitar poetas é urgente, sem música não respiro.
ResponderEliminarEugénio de Andrade
ResponderEliminarsempre
na mesa de cabeceira.
Apareça mais vezes
um texto comovente. exagero meu - conheço essa mulher e essa cançao!
ResponderEliminara tua "seara" é fértil.
Como o Eugénio sabe dizer do nascimento das coisas. Com uma simplicidade tão difícil...
ResponderEliminarUm beijo.
Minhas amigas e meus amigos bem hajam pelas vossas palavras. Eugénio de Andrade nunca nos deixa indiferentes porque todos nos encontramos um pouco no que ele escreveu...
ResponderEliminarUm abraço para todos.