Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam.
Gostava muito da vossa presença, minhas amigas e meus amigos.
Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
19.3.13
13.3.13
Procuro as tuas mãos. Procuro a tua voz
À memória da minha mãe
Viajo com a
respiração do mar
agarrada ao
tecido do peito.
Foi o vento
que rasgou os ombros da noite
e a boca dos
marinheiros alagada de azul.
Procuro as
tuas mãos.
A recolha das
redes prendeu os meus dedos às fragas.
Em contraluz o
voo das gaivotas
encheu-me de
sal os lábios e a língua.
Procuro a tua
voz.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
7.3.13
Desafiando o medo
Vladimir Clavijo
Desafiando o medo, elas aguçaram as unhas
na própria sombra até fenderem a nudez
dos gestos arriscados.
A
rigidez das escarpas agravada na fuga.
A
flecha e o arco à entrada da boca.
Os
dedos torcidos no bolor do pão.
A
volúpia tangível à desordem do olhar.
Com
as mãos inchadas percorrem
o
corpo todo para que o fogo e as cinzas
se confundam com a solidão.
Conhecem
a inutilidade das facas no veio do pranto.
E
cismam diante dos espelhos onde, no rigor
das noites, vêem definhar os seios e as pernas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
24.2.13
Lentamente
Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
17.2.13
O excesso de luar
A lua abriu um
sulco no telhado
e uma estranha
névoa cobriu todas as casas.
As aves
marinhas alteraram seu rumo.
Algumas
mulheres atiraram-se ao mar
e seguiram as
embarcações
até se
transformarem em gaivotas.
Houve homens
que enlouqueceram
com o excesso
de luar e acorrentaram os filhos
com medo de os
perderem.
Os vasos da
varanda alagaram-se de vento
e os gerânios vermelhos secaram.
As crianças
esconderam-se
por trás dos
espelhos para não verem
o rosto
fascinante da morte.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
10.2.13
O grito dos cumes
Quero guardar no interior das mãos
a esquiva
cintilância das manhãs inadiadas.
Quero palavras
com punhais de raiva
a ferir o
grito dos cumes,
a riscar o
ventre da neve com minuciosas unhas.
E viro do
avesso o manto do olhar
para chegar à Montanha
Mágica
quando Hans Castorp fazia um esforço
para
ver e deparava com o nada,
o remoinho branco do nada.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
1.2.13
Escrevemos mar
Ana Pires
Escrevemos
mar
como se fosse a palavra
única
que nos circunda a fala.
Quando
éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E
havia traineiras em que os pescadores manchados
de
sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado
adeus ao apelo dos corais.
Graça Pires
De: Uma vara de medir o sol, 2012
24.1.13
Das mais antigas dores
Josef Koudelka
Do lado distante das noites, a lua acesa
sobre os muros ilumina o rosto daqueles
que sempre entenderam o trajecto
escolhido pelos pássaros e pelos rios
e pelos amigos que nunca voltaram.
Os dias foram cerzindo em seu olhar
o caminho esquecido das mais antigas dores,
onde guardam agora o destino de suas mãos
declinadas sobre as estacas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
14.1.13
Um barco que agarre a alvorada
Seguro um marcador lilás para desenhar um barco
que agarre a alvorada em seu instante breve.
Como ajustar aos dedos o rumo da proa
quando as mãos precárias
se entregam ao fascínio das vagas?
Há muito que partiram os caminhantes
em busca de locais desconhecidos
deixando para trás a memória da cal sobre as casas.
Há muito que regressaram os barcos incertos
e os homens: aqueles que abrigavam no olhar
o lugar onde nasceram.
Agora todas as noites podemos ouvir
a respiração dos navios
que costeiam as casas recém-pintadas
como se um regozijo lhes roçasse os mastros.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
7.1.13
A sedução da fuga
Seguimos pela noite indiferentes
a todos os ruídos que rebentam
o rigor do silêncio.
Temos nos punhos a navalha afiada
do tempo rasgando diante de nós
o túnel da eternidade.
Vamos até onde nos leve a sedução da fuga.
Queremos avistar o destino das aves
que trazem a luz das auroras riscada em suas penas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
31.12.12
Cantaremos um salmo pela terra
Temos um quebranto no friso do olhar
e demoramo-nos no canteiro dos amores-perfeitos
para que as mãos cobertas de melindre
sintam a pulsação das árvores em prece.
Em redor da cintura enrolaremos
os sonhos do mundo
e cantaremos um salmo pela terra, tão inquieta
pela aflição dos ventos da montanha.
Uma harpa de chuva evocará as pétalas perfeitas
na ponta dos dedos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
Um ano de 2013 cheio de Esperança!
26.12.12
Havia algo de sedução
Temos incrustado na língua o sabor das filhós
de abóbora que nos tornavam aguados
quando todo o conforto do natal
começava e terminava em mãos maternas.
Nenhum aceno lateja agora
nos pomares da infância onde os pêssegos
e os damascos nos saciavam a gula
e as laranjas nos enchiam o regaço.
O colorido dos diospireiros gotejava
o orvalho sobre a folhagem.
Havia algo de sedução no desnível do canteiro
das gerbérias mais próximas da claridade.
Ao longe as frésias envaidecidas
derramavam aromas sobre as tardes
estranhamente longas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
17.12.12
Nenhum sonho se repete
Nenhum sonho se repete.
Nenhum deus nasce outra vez
na nossa crença,
nem nenhum céu nos promete
a estrela da manhã
para marcar, à nascença,
um amor profundo.
Já nenhum Deus se compromete a vir ao mundo.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
Um Natal de Amor e um ano de 2013 o melhor possível
9.12.12
Espero cada solstício de inverno
Embarco com o nevoeiro das manhãs
preso nos cabelos.
Invento o mar.
Assisto à tempestade.
Cubro-me com um colete salva-vidas
para proteger os barcos
quando a ondulação desespera as quilhas
cobertas de sal e o vento se enrola
na mastreação desafiando as gaivotas.
Espero cada solstício de inverno
para ouvir a melodia do sol poente
e seguir os druidas em Stonehenge
nos rituais de adoração solar
e vislumbrar, através das pedras em círculo,
uma pequena laranja incendiada
convocando a pureza das sombras.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
1.12.12
Em momentos propícios ao silêncio das águas
Torna-se nítida a textura das conchas
esboçadas em areias onde a lua se despenha
quando o momento é propício ao silêncio das águas.
Um denso azul cresce em espuma
sobre os lábios inacessíveis à passagem
dos mastros assombrados.
Procuro o teu corpo.
Um percurso de répteis contaminou-me o ventre.
Para resistir à morte rastejo pela noite
em busca das sombras que se transfiguram em aves.
Procuro o teu abraço.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
22.11.12
Na memória dos anos
Emmet Gowin
Em bicos de pés, olho uma data escrita no muro.
Coincide com o
dia em que nasci.
Pelos meus olhos passam multidões,
atraídas pela
transfiguração da criança que nunca fui.
Talvez na memória dos anos se renove
o tempo de nascer e a vida
se transforme
num culto mais perfeito.
Graça Pires
De Outono:lugar frágil, 1994
17.11.12
É de terra o molde do meu corpo
Francis Bacon
Escavo no peito um declive de seara
para ceifar o pão e roçar o ventre
no aroma dos fenos, até que o fermento
levede o trigo por entre os dedos do estio.
As farpas de um arado podem sulcar-me a pele
porque é de terra o molde do meu corpo.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
9.11.12
Em tons de verde
Será transparente a paisagem,
obsessivamente vegetal,
que encaminha as aves regressadas do norte?
Nenhuma ânfora guarda o desencanto
consentido pelas algas que se abandonam
à corrente e, de muito longe, vêm morrer
nas praias à míngua de mar.
É-nos familiar o reverdecer dos campos
e o sussurro dos canaviais seduzindo as águas.
Temos a boca invadida pela verticalidade das heras.
Pelo som do vento adivinhamos o dano dos insectos
ou a fértil colheita da azeitona em novembro,
quando todas as árvores celebram nas entranhas
da terra a lenta penetração das chuvas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
2.11.12
Onde se envelhece com estranheza
Pedro Pires
Na descontinuidade de lugares de lodo e pão
esbarramos com os móveis espalhados pela casa
onde se envelhece com estranheza.
Possuímos às vezes um modo exagerado
de coleccionar fantasmas
por sabermos que a morte
nunca se deixa ver por inteiro.
E sentamo-nos no chão
construindo no interior da boca
o sabor do chocolate quente
ou rodando sob as pálpebras
as aparas da luz coada pelo vão da escada
onde poisámos o açafate de vime
carregado de castanhas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
Este poema faz parte do livro "Poemas escolhidos: 1990-2011, do qual o amigo Luís Gaspar disse alguns deles.
Para quem desejar ouvir pode ir ao site do Estúdio Raposo:
http://www.estudioraposa.com/index.php/category/poetas/graca-pires/
29.10.12
Lugares que são faca e cinza
Rui Ochôa
Há lugares que têm a feição
das coisas instáveis e perecíveis.
Lugares sobrepovoados
onde os gatos vagueiam em silêncio
como se ouvissem os passos dos mortos.
Lugares com ruas sem saída e casas precárias.
Lugares que são faca e cinza,
lume e vento, lixo e medo.
Lugares onde empalidecem os dias
e as pessoas e os deuses, cada vez mais falíveis.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
18.10.12
Convite
Agradeço a todas as pessoas que estiveram, no Porto, na apresentação do meu livro "Poemas escolhidos: 1990-2011". Bem hajam pela forma calorosa como me acolheram a mim e à minha poesia.
Beijos a todos.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos
e de todos os que desejarem ler-me.
12.10.12
Indago a forma definitiva do outono
Ana Pires
Indago a forma definitiva do outono.
Um diálogo pode mudar a paisagem.
Fazer nascer um poema.
Criar obsessões.
Destruir emboscadas.
Cada instante é a metamorfose
de uma asfixia interior.
Confundo os caracteres e um imaginário
se revela numa iconografia
fantástica.
Nas entrelinhas, um espectáculo de ironias
reitera entregas e
recusas
como um dever por cumprir.
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994
5.10.12
O cheiro das vindimas
Um tumulto de uvas prematuras ecoa pelas vinhas
profanadas por sebes de adubo na fenda dos ventos.
No início do outono o cheiro das vindimas
perturbará o sono das crianças.
E o vinho quebrará todos os copos
para que o não bebam os homens
que habitam os espelhos da culpa.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
28.9.12
Por meu olhar de sede e mel
Cristin Atria
Hoje improviso a atmosfera dourada
de um pátio andaluz onde o brilho das lajes
esconde os cristais do choro e me lembram
as cartas de amor amarelecidas,
cujas palavras ainda adivinho pelo cheiro.
Por meu olhar de sede e mel resvalam os astros
que me tecem as feições em golpes inquietos.
Sujo com areia os cantos da boca
para aguardar o retorno das aves
com asas de ventania que hão-de chegar
no fim das grandes tempestades,
trazendo promessas de areais cativos das dunas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
21.9.12
Já há amoras
Vem, meu amor.
Não tarda aí o fim do dia
e ainda não plantámos as avencas
junto do ribeiro para que o rosto
da terra resplandeça nos prados.
Repara: já há amoras no muro de pedra
onde prendemos as raízes da sede.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
14.9.12
Aguardamos uma luz
Brancusi
Aguardamos uma luz de seiva
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
6.9.12
O instante em que as sombras dançam
Maria Clarinda
Monótonos se tornam os gestos com que refaço,
grão a grão, o celeiro dos dias, mil vezes ardilosos,
na arca onde se guarda o pão
sem a pressa da fome em ávidas bocas.
Pela janela iluminada vê-se a jarra das mimosas
e o lenço colorido preso à haste do candeeiro.
É o instante em que as sombras dançam
em redor da noite perseguindo as mínimas variações
da luz no amarelo excessivo dos malmequeres
e nas asas das borboletas presas nas traves do tecto.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
30.8.12
Por dentro da memória
Katia Chausheva
Para a minha Amiga Luísa Henriques
Incendiaste tudo por dentro da memória
e na esteira do navio achaste o teu chão.
Corpo água. Corpo algas. Corpo sal.
Por dentro da memória o fogo
ainda arde na margem das marés.
Afundas o rumor dos sonhos
no gozo quente da
praia.
Corpo fogo. Corpo areia. Corpo concha.
Graça Pires, 2012
26.8.12
A incidência da luz
Sei que junto a um cais as pedras são cúmplices
de remotas solidões no coração das âncoras.
Os mapas mais primitivos
e as recentes cartas de navegar não assinalam
a incidência da luz sobre as areias.
Talvez o vento tão íntimo das dunas
saiba onde se escondem os vultos
dos marinheiros quando os barcos
começam a afundar-se nos seus olhos.
Talvez os gemidos do remo estilhaçado
nos punhos sejam a adaga sangrenta
hasteada em cemitérios
onde se escutam os sinos a rebate.
Talvez os aromas das violetas e dos círios
se misturem com a terra quando as anémonas
começam a despontar nos jardins
perfumando as mãos de pétalas e de fenos.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
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