Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
24.6.24
Intacto azul
17.6.24
Em seara alheia
3.
Ninguém sai ilesode uma claridade prematura.
Este quarto,
insurrecta metáfora
que espreita
a grelha costal do ébano.
O corpo, alambique de harpas taciturnas.
A pele alumiada
pelas habilitações literárias do gume.
Caducou
a biografia de antídotos
que expatriava o limbo.
Ser agora um homem
na potência crucial da bruma.
Arquivo de mitologias nefastas.
Mapa sem alvéolos.
Hora de ponta
no espaço tumoral.
Alberto Pereira
In: Tarkovsky: o sacrifício. Costa da Caparica: The Poets and Dragons Society, 2024, p.68
10.6.24
Noite
Em plena noite delineava-se no chão
a luz derramada pela lua.
3.6.24
O lugar definitivo do silêncio
24.5.24
Adeus, meu irmão, meu amigo
Voltarei quando puder
20.5.24
Em seara alheia
III - 2
Trazes cravado no ventre o amor como um búfalo
uma memória-casa que cresce rente ao rumor dos
moinhos
Trazes o mar / uma pétala / um saguão de Julho
e vazados os olhos em afluentes de espuma
Trazes aberta como um pão
a construção da infância
e no coração / uma casca de tília / uma flor sepulcro
Trazes / no fim do Verão
uma meda de lume
um molusco / uma falésia-gávea
e
campainha-templo de pedra em calma
habitado de estorninhos e de diurnos cálices de vento
distante da cal e da ferrugem
o escafandro-tempo do poema
13.5.24
Sedução azul
Quando
tudo parece sitiar o coração
há
barcos que passam sobre o vigor
da voz
a resgatar aqueles
que
soçobraram nos sonhos.
E os
barcos fazem-se pássaros de fuga
abrindo
o espaço à sedução azul.
É de
pura maresia o ar que se respira
como
se houvesse um sopro cristalino
a
roçar a amarração de âncoras libertadas.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023. p. 43
5.5.24
Um mistério maternal
29.4.24
Uma luz intensa
mistério da luz por entre as casas,
como se em cada casa batesse
um coração a par de outros corações,
ansiosos de caminhos livres.
Agora pertencem ao silêncio
mais nítido as canções, os gritos,
as lágrimas, os detalhes de uma festa
De Era madrugada em Lisboa: louvor a um dia com tantos dias dentro, 2024
22.4.24
Era madrugada em Lisboa
Sem prazo, sem aviso, sem detença,
aconteceu em abril
o mais esperado tempo
e, com ele, o cheiro
da terra que nos pertence.
No contorno deste chão
um grito abraçou o povo comovido
com o assombro e com os cravos.
Reinventaram-se os sonhos
e as palavras fraternas.
Era madrugada em lisboa.
E o dia captou a dádiva da luz matinal
para que cintilasse no olhar de toda a gente.
No clamor de cada rua,
a palavra liberdade
passou de boca em boca,
até ao enrouquecimento da alegria.
15.4.24
Convite para o lançamento do meu novo livro no Barreiro
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Para quem mora por perto do Barreiro, convido para partilharem comigo a celebração dos 50 anos do dia 25 de Abril de 1974, no espaço cultural Terceira Margem, com o lançamento deste livro. Vai ser uma festa linda.
Fica aqui um poema do livro:
Era cada vez maior o número
de pessoas em toda a parte.
Em frente do rio, hordas de jovens,
em absoluto desatino,
dançavam como se o corpo possuísse
a extensão de todas as ruas.
Tinham nos pés sem disfarce
o ritmo dos cantares do povo.
Sabiam de cor as quadras, os refrãos
que tinham escutado aos pais e aos avós.
Entoavam-nos em contentamento,
em deslumbre, como se voltassem
à infância e a cidade fosse o colo imenso
onde cabia a vida toda.
Graça Pires
8.4.24
Nunca se tinha visto uma festa assim
O amanhecer foi tão inesperado
que lisboa vibrou em todos os lugares
antecipando o regozijo.
Nunca se tinha visto uma festa assim,
com carros de combate, chaimites,
com os militares e o povo em euforia
a encher cada rua, cada jardim, cada árvore.
E a cidade era de toda a gente.
Havia palmas, vivas à liberdade
1.4.24
Convite para o lançamento do meu novo livro em Lisboa
Foi uma festa de Poesia muito bonita. Muito obrigada a todas e a todos os que estiveram lá. Obrigada aos que quiseram ir mas não puderam. Foi um final de tarde feliz. Bem-hajam.
O livro está em pré-venda através do link:Eram militares.
Eram jovens.
Carregavam no peito
o peso da arma e do receio.
Quantos rezaram?
Quantos choraram?
Quantos vacilaram?
O retrato dos filhos perto do coração.
A imagem da mulher a cercar-lhes o corpo.
As mãos das mães cheias de bênçãos.
E todos tão cheios de coragem!
25.3.24
Perplexidade
Nenhuma simbologia pode explicar
o halo da chama antes da cinza.
A luz queimada na estranheza
de tudo o que perece.
O infinito perene do instante
que se dissolve no colapso do tempo
e no mais evidente alvoroço da vida.
18.3.24
O imenso silêncio dentro de mim
na ansiedade das palavras distantes,
quando, sem aviso, ele se afunda
no meu peito insensatamente,
como se fora um vício antigo
transfigurando as sílabas.
Como se uma inesperada sedução
cristalizasse os poemas que escrevo
de dentes cerrados, cativando a voz.
Como se a linguagem se evadisse
na incompletude dos sonhos.
11.3.24
Em seara alheia
Oração em pleno voo
Sem sequer pensarEu ascendo os degraus
E lanço-me aos céus
E no meu voo nem seguro os cabelos
Que se soltam ligeiros
Como flâmulas
Entre a amenidade das flores
E o aroma dos frutos outonais
Ao subir
A paz e a esperança invadem-me
E deparo com campos de trigais
E cores multicores
No devaneio impensado
Solta-se da boca um beijo
Rasgando os céus
Sei que na minha oração
Uma luz celestial
Tão cândida e serena como
O meu rosto
Se projectará
Nos confins do universo
Amanhã não sei dos voos
Porque só o hoje prevalece
©Piedade Araújo Sol
In: Olhares em tons de maresia, 2013-11-05
4.3.24
Rumo ao sul
26.2.24
A sugestão de uma reza
19.2.24
Até ao tumulto de um grito
12.2.24
Em seara alheia
12
Sobre o corpouma azáfama de abelhas
Falta ainda um pouco mais
para a epopeia das mãos
Urge esperar
que se ateiem de lume as últimas sombras
que invada a tarde
despidamente
e que venham as línguas do fogo
percorrer os veios da mais antiga pedra
que caia a prumo o desejo sobre um mar de vidro
que more o coração no azulado dorso de um pássaro
que apenas possamos chamar-nos
por qualquer uma daquelas palavras
ardentes
5.2.24
Para além das penas
https://youtu.be/CQNM_J1xg_I?list=UULFp1MkC4fuxOs5HDyHVNGN-A
29.1.24
Retomo o monólogo
22.1.24
Canto baixinho
15.1.24
Como se voasse entre luas
8.1.24
Em seara alheia
O deserto diz
com simplicidade
a luz
o ângulo
de cada grão
de arreia
Abre a mão límpida
sobre a página branca
O deserto grita
ao nomear-se
pelo próprio vazio
Alexandre Bonafim
In: O anjo entre o deserto e o não. São Paulo: Terra Redonda. 2022, p. 21
3.1.24
A luz da madrugada
11.12.23
Interação Fraterna de Natal 2023
A convite da Amiga Rosélia aqui deixo a minha participação nesta fraterna interacão de Natal
Escutamos a palavra Natal
e com o coração ausente de sombras
4.12.23
Tudo é breve
27.11.23
Em seara alheia
20.11.23
Um dia de novembro
a manhã de nevoeiro de um dia de novembro
e desperta na lembrança os caminhos da inocência.
Em passo lento, em via-sacra,
assisto calada à passagem de mim.
O princípio e o fim dos caminhos
desvendam, no código dos ventos,
em rigoroso segredo, o meu perfil,
a moldar as vertentes que me são voragem
e ofício no interior dos dias.
Pretendo um idioma insensato
para me definir ou pronunciar o meu nome.
13.11.23
Bebo a própria sede
6.11.23
Nenhuma palavra
30.10.23
Nítidas lágrimas
reconheço o meu vulto na ortografia
de nítidas lágrimas onde encontro
de permeio a vida inteira
e me busco cheia de abismo,
cheia de noite, cheia de labirintos,
cheia de palavras imperfeitas.
Talvez ninguém conheça a violência
da luz ao longo do rosto,
quando as lágrimas deslizam
em pequenas gotas sobre a pele.
A forma oculta do choro faz entornar
o hálito num estranho vazio.
A ferir a indecisão do brilho molhado.
A naufragar os olhos tão inundados de vento.





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