Ortografia do olhar

Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.

28.2.07

Cúmplice do tempo

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Amedeo Modigliani Cúmplice do tempo, fixo no calendário o instante de ser jovem e as minhas mãos enchem-se de barcos, disponíveis ...
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27.2.07

Novamente um mar

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Pascal Renoux Novamente um mar. O entardecer é a praia onde morremos juntos, quando as nossas mãos se transformam em veleiros que p...
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26.2.07

Todas as noites me despeço de ti

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Salvador Dali Todas as noites me despeço de ti, como se existisses nos meus gestos. Construíste, pedra a pedra, o circuito fechado de u...
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25.2.07

A noite

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Ansel Adams À altura de todas as estrelas coloco as mãos para tocar o vento. A lua é um fascínio que deixa atónito o meu corpo, e lhe d...
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21.2.07

Em seara alheia

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ZECA AFONSO: TROVADOR DA VOZ D'OURO INSUBMISSO É de murta e de mar a tua voz Com algas de canção estrangulada. Aberta a concha ...
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20.2.07

A marginalidade da luz

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Manuel Fazenda Lourenço Tão inesperado como um assombro, um coro de tragédia urde, em meu peito, a travessia da noite. Um barco sem c...
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19.2.07

Um homem desertou

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Um homem desertou da hipótese de amar. Escolheu a curva perigosa de um remorso, onde escondeu o brilho dos seus o...
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17.2.07

Agora que amanhece

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Edward Hopper Agora, que amanhece, decidi regressar à infância, para sobreviver ao luto dos pássaros de luz. Sob a protecção de um úte...
16.2.07

Chegaram as primeiras chuvas

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Olivier Meriel Chegaram as primeiras chuvas e deixaram de ser verdes os laços com que se urdem os desejos. As violetas, que ladei...
15.2.07

Reino da Lua

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Pascal Renoux Como se nada mais existisse além da noite, debruço-me sobre o meu próprio instinto e rasgo, nos lábios, um inquieto c...
14.2.07

Repara

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Li, no jornal, que as acácias incendiaram as ruas e a manhã rebentou-me no peito. Deliberadamente. Repara como se encheu...
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13.2.07

As tuas mãos

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Caravaggio Para que saibas. As tuas mãos vogando como barcos: incessante navegação pela liquidez dos lábios. As tuas mãos. Digo. Para ...
12.2.07

Em seara alheia

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GEOGRAFIA Chegavas ao anoitecer, dizia alguém, ao fim de um porto, à hora das valsas e dos crimes, a meio da vida, quando as hélice...
11.2.07

Instantâneo

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Com os dedos pintados de branco, ela ajoelhou-se na terra, para chorar a solidão dos homens. Que anjo se movimenta no dis...
9.2.07

Percorro os fonemas

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Rene Magritte Percorro os fonemas como se dançasse, envolta numa túnica de água, guarnecida de espelhos. Sou Ariadne vestida de espanto...
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8.2.07

Sem nenhuma razão

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Sem nenhuma razão, a denúncia de um farol, devolve-me o vulto improvisado de um navio, e adormeço embrulhada em canções sentimentais, confun...
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7.2.07

Nas horas mais nocturnas

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Alvarez Bravo Nas horas mais nocturnas, desenho um círculo e rastejo, através dele, até à sede. Bichos sonâmbulos ferem-me a garganta. ...
6.2.07

O perfil da minha infância

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FoqStock Meço o tempo na sequência de feições, quase sem forma e avisto o perfil da minha infância inventada. Vejo-me no pátio de r...
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5.2.07

Em seara alheia

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Sobre esta terra me deito e digo sol Digo-o na teimosia branda do casario, onde à noite as mulheres, todas de esperança vestidas...
3.2.07

A memória da ternura

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Marc Chagall A memória da ternura sobre o teu peito, como um mel exótico. Havemos de voltar à polifonia dos pássaros com olhos de musgo...
2.2.07

Ignoro quantos navios partiram

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Claude Monet Ignoro quantos navios partiram, ao primeiro sinal da estrela d’alba, presos ao derradeiro sonho. Venho de lugares onde me...
1.2.07

Vamos falar de poesia

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POESÍA Y POEMA La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la activi...
31.1.07

Um novelo de rimas imperfeitas

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Bea Danckaert De rosto em rosto, a caligrafia do amor implorou a memória das palavras encantadas e, como se houvesse uma linguagem de a...
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30.1.07

Em silêncio

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Manuel Alvarez Bravo Em silêncio, sempre em silêncio, as mulheres refazem o penteado, que as mãos forasteiras da noite desmancharam. É ...
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29.1.07

Em seara alheia

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Estendo o braço até tocar a sombra da tarde - não quero outro exercício enquanto fragmento de poema – e é provável que as flores azuis, ...
28.1.07

Entre um rosto e um nome

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Stephen Alvarez Entre um rosto e um nome há bandos de pássaros em ascensão. Exagero, quase sempre, a morfologia da noite, no olhar mai...
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27.1.07

A matriz sazonal da minha sombra

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Steve Hanks Intimidam-me os vestígios de inscrições, citando o futuro, no muro da fatalidade. Nos meus ombros há um campanário de ironi...
26.1.07

Detenho-me à porta de um parágrafo

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Paul Strand Detenho-me, à porta de um parágrafo, como aprendiz de enredos. Sou a personagem que teme a sua morte ancorada na última pá...
25.1.07

Inverno

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Robert Adams A persistência da chuva catalogada por quem nada sabe de paixões. O vento e o silêncio emboscados no mesmo rumor nocturno...
24.1.07

De tanto chamamento

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Alfredo Cunha Caminho de encontro ao entardecer, com a língua salgada de incendiar a paisagem de quantos verões me couberam na boca. A...
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23.1.07

Não desvies os olhos

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Manuel Fazenda Lourenço Não desvies os olhos: vejo neles a nossa casa, virada a nascente, recolhendo a imprecisa luz do amanhecer. Deix...
22.1.07

O chamamento da lua

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Rolfe Horn A norte da tristeza, deixo a memória a meia haste, fazendo o luto de futuros desencantos. E entro pela noite: ilha de so...
21.1.07

Em seara alheia

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Fito-os porque se transformam. Eu estou no atalho entre ondas. Apenas paro. Não serei volúvel, de modo a despedir-me de símbo...
18.1.07

A alegria

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Edward Hopper A alegria : gastei-a à procura de argumentos para ser feliz. Graça Pires De Conjugar afectos, 1997
17.1.07

Hoje basta-me um muro de barro

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Claude Simon Hoje, basta-me um muro de barro, para derrubar nele o som da minha voz. Não sei se é de musgo ou de lodo, o rumor matinal...
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16.1.07

Entardecer

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Stephen Alvarez O ocaso retém o mar por onde os olhos emigram, sem bagagem, para lugares onde a curva da luz dissimula a treva, clande...
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15.1.07

Em seara alheia

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NOÉ Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão mas faço. Corto madeira, arranjo pregos, gasto o martelo. E o pior também: correr o mundo...
14.1.07

A pão nos sabem as palavras

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Duarte Belo A pão nos sabem as palavras, quando a brisa do sul nos roça a cara. Seguro, nas duas mãos, as tuas mãos e sob o peito (o t...
13.1.07

A minha rua desce para o Tejo

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Carlos Botelho A minha rua desce para o Tejo. Não é simbologia. Há o rosto nítido dos barcos na continuidade das pedras. Em qualquer ...
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12.1.07

Dantes, pelos caminhos

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Manuel Alvarez Bravo Quando a noite renova a planura das sombras sobre a terra, os cães ladram à palidez da lua, fustigados pelo range...
11.1.07

Teseu não quis morrer

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Teseu não quis morrer. O seu olhar respirou sangue sobre a garganta do touro. O seu corpo era tão jovem que confundiu a face...
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10.1.07

À boca das areias

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Robert J. Ford À boca das areias, ardem quilhas insuspeitas. Uma tempestade amotina-me o brilho do olhar. A cidade inunda-se de barcos ...
9.1.07

Para preparar o inverno

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Alfredo Cunha Distingo, desde menina, as palavras consumidas na voz das mulheres, cúmplices de silenciosas madrugadas. Conheço-lhe...
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8.1.07

Em seara alheia

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A presença mais pura Nada do mundo mais próximo mas aqueles a quem negamos a palavra o amor, certas enfermidades, a presença ma...
7.1.07

Indecifráveis sinais

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Manchado de sal, o silêncio escorre-me na cara. Os meus olhos tropeçam em raízes antigas e movem-se-me, na memória, indecifráveis sinais:...
6.1.07

Onde está o cavalo pintado no teu peito?

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Pergunto por ti, com raízes de erva-doce presas nos dentes. Colecciono espelhos, à procura da tua imagem, ou da minha identidade. On...
5.1.07

O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó

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Claude Simon O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó. Nada me pertence, salvo a memória de trilhos luminosos nas encostas da...
4.1.07

Vamos falar de poesia

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POÉTICA O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poe...
3.1.07

Tu, distraído de mim

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Peter Ardito Disponho, na mesa, o bolo de canela, o chá de camomila, os frutos secos, as flores acabadas de colher. Tu, sentas-te ao me...
2.1.07

Sei os caminhos da água

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Manuel Fazenda Lourenço Nos meus olhos, povoados de aves nocturnas, recapitulo a nomenclatura dos ventos. Sou nómada. Sei os caminh...
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