5.10.12

O cheiro das vindimas




Um tumulto de uvas prematuras ecoa pelas vinhas
profanadas por sebes de adubo na fenda dos ventos.
No início do outono o cheiro das vindimas
perturbará o sono das crianças.
E o vinho quebrará todos os copos
para que o não bebam os homens
que habitam os espelhos da culpa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

28.9.12

Por meu olhar de sede e mel

Cristin Atria



Hoje improviso a atmosfera dourada
de um pátio andaluz onde o brilho das lajes
esconde os cristais do choro e me lembram
as cartas de amor amarelecidas,
cujas palavras ainda adivinho pelo cheiro.
Por meu olhar de sede e mel resvalam os astros
que me tecem as feições em golpes inquietos.
Sujo com areia os cantos da boca
para aguardar o retorno das aves
com asas de ventania que hão-de chegar
no fim das grandes tempestades,
trazendo promessas de areais cativos das dunas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

21.9.12

Já há amoras




Vem, meu amor.
Não tarda aí o fim do dia
e ainda não plantámos as avencas
junto do ribeiro para que o rosto
da terra resplandeça nos prados.
Repara: já há amoras no muro de pedra
onde prendemos as raízes da sede.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

14.9.12

Aguardamos uma luz

Brancusi


Aguardamos uma luz de seiva
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

6.9.12

O instante em que as sombras dançam


Maria Clarinda


Monótonos se tornam os gestos com que refaço,
grão a grão, o celeiro dos dias, mil vezes ardilosos,
na arca onde se guarda o pão
sem a pressa da fome em ávidas bocas.
Pela janela iluminada vê-se a jarra das mimosas
e o lenço colorido preso à haste do candeeiro.
É o instante em que as sombras dançam
em redor da noite perseguindo as mínimas variações
da luz no amarelo excessivo dos malmequeres
e nas asas das borboletas presas nas traves do tecto.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

30.8.12

Por dentro da memória


Katia Chausheva
 
 
                                    
                                       Para a minha Amiga Luísa Henriques
Incendiaste tudo por dentro da memória
e na esteira do navio achaste o teu chão.
Corpo água. Corpo algas. Corpo sal.
Por dentro da memória o fogo
ainda arde na margem das marés.
Afundas o rumor dos sonhos
no gozo quente da praia.
Corpo fogo. Corpo areia. Corpo concha.
 
Graça Pires, 2012

26.8.12

A incidência da luz



Sei que junto a um cais as pedras são cúmplices
de remotas solidões no coração das âncoras.
Os mapas mais primitivos
e as recentes cartas de navegar não assinalam
a incidência da luz sobre as areias.
Talvez o vento tão íntimo das dunas
saiba onde se escondem os vultos
dos marinheiros quando os barcos
começam a afundar-se nos seus olhos.
Talvez os gemidos do remo estilhaçado
nos punhos sejam a adaga sangrenta
 hasteada em cemitérios
onde se escutam os sinos a rebate.
Talvez os aromas das violetas e dos círios
se misturem com a terra quando as anémonas
começam a despontar nos jardins
perfumando as mãos de pétalas e de fenos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

19.8.12

Como um aviso


Pedro Pires

Quando as espigas surgiram de repente
nos sulcos das searas, sem que o braço e a foice
afagassem o trigo, houve homens
que se amarraram à terra aguardando que o corpo
se transformasse em campo lavrado.
Houve mulheres que cegaram, em plena
madrugada, perto dos pomares.
Houve meninos que se fecharam por dentro
dos segredos que as mães guardam no sangue.
Houve pássaros que suspenderam o voo
sobre as casas desertas. Como um aviso.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

12.8.12

Talvez o aroma dos lilases



Talvez este país deixe ver mais do que a sujidade
pegada aos prédios ou a agitação das pessoas
que regressam apressadas dos lugares
onde a intimidade as perturba
atravessando todas  as ruas
com o passo vacilante de quem foge.
Talvez a profusão aromática dos lilases
coloque em nosso olhar a sugestão de lugares
onde o vento procura as conchas
ou os barcos enterrados nas dunas,
alagando o recato da noite a quem conhece
o implacável desvio do sossego nas casas
expostas à solidão urbana.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

6.8.12

Em busca do bojador



 Para a Graça Neto, minha amiga de sempre

Os remos adormecem-te nas mãos, cansada
que estás de tanto remares sem destino certo.
Como se fora a única viagem,
contornas todas as falésias,
viajas de dia e de noite
em busca do bojador dos múltiplos desafios.
A tua errância tem perigos excessivos.
Mas não recuas. Pintas, todos os dias,
o casco do teu barco de outra cor.
E pensas: se eu morrer hão-de dizer de mim
que fui o marinheiro que perdeu as graças do mar.

Graça Pires

29.7.12

De seda



São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

22.7.12

Sílabas de som tenso

Ton Koene


Um exílio começa no ferrete dos lábios
queimando o ébano dos pianos
que fazem gemer o prelúdio das mãos.
A boca, com sílabas de som tenso,
inventa os murmúrios colados ao archote
das preces que esconjuram a morte.
É invisível, como o uivo dos lobos em noites imensas,
a tormenta que nos intimida
quando, sobre o chão, nenhuma luz cicatriza
a exactidão do tempo e, como náufragos,
nos deslumbramos com a proximidade do abismo.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

15.7.12

De muito longe



Conta-se que há laranjais que rebentam
ao pé dos poços deixando um aroma de pétalas
branquíssimas no bordo dos cântaros.
Todos os dias chegam ali mulheres
vindas de muito longe com punhais de luz
por dentro do olhar e um ramo de oliveira
entrelaçado nos dedos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

8.7.12

Somos a sombra de uma vara


De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

1.7.12

Como se esperasse ser salva

Katia Chausheva

É sobretudo ao anoitecer que ouço
exaustivamente o fado em vozes solitárias.
Deixo que um xaile negro me cubra os ombros
porque tenho a mente propícia aos perigos nocturnos
que me dobram os joelhos como se esperasse ser salva.
No estuque das paredes enviesadas do quarto
procuro uma tira de luz e não sei se nomeio o deserto
ou a ilha de basalto onde as aves ensurdecem
com a absoluta quietude das pedras.
Trago serpentes marinhas enroscadas no corpo
e o açoite do medo a ferir a tremura das mãos
que escondem anéis de ágata na perícia dos dedos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

24.6.12

Antes do homem havia a terra


Antes do homem havia a terra:
geografia mágica, sagrada
que,  na luz e na treva, explodiu
de espanto e guardou, milenarmente,
os mistérios da vida e da morte.
Depois da terra veio o homem.
E o homem tornou-se um morador incauto
e perdeu o paraíso onde agora os deuses,
quando passam, desviam o olhar.

Graça Pires
De: Uma vara de medir o sol, 2012

17.6.12

A cor convicta do poente



Quando a aurora começa a dissipar
as trevas  na palidez da terra
avançamos com a argúcia da palavra
sobre a imperfeição de cada instante.
Seguramos a lança das memórias.
Seus véus de renda deciframos.
Por sua farpa ateada as aceitamos.
A luxúria de seus gritos consentimos.
Para que nos seja assombro
a cor convicta do poente.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

10.6.12

Quase lágrimas

 Walker Evans

O viajante ajoelhou-se sobre a terra
e cantou e cantando rezou.
Carregava nos ombros o afluente de um rio
para o largar no longo chão das lavouras.
O pão ázimo lhe sufocava a fome.
A chuva lhe esquecia a sede.
Seu coração emudecia quando um denso 
nevoeiro (quase lágrimas) lhe gravava na boca
o clamor dos glaciares desmoronados.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

3.6.12

Enquanto abrigas nas mãos

István kerekes



Toco-te. Percorro-te.
Os dedos subitamente peregrinos
tangendo a matriz sensual da tua pele.
A pérgula das buganvílias de carmim
encobrindo a sombra mínima dos meus olhos
quando, a meia voz,
me falas do chamamento do corpo.
A navalha das palavras brilhando-te nos dentes
enquanto abrigas nas mãos a limpidez acesa
de teu rio nascente para ecoar
em minha fonte, em minha boca.

Graça Pires
De A Incidência da luz, 2011

27.5.12

Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo

Ana Pires

Os rituais da infância não nos deixam esquecer:
Era verde a sombra das árvores no pátio da escola.
Eram verdes os trigais pejados de papoilas.
Eram verdes os pássaros que traziam um prado
colado ao voo rasante, nas tardes de verão.
E os rios tão verdes. Tão verdes as águas.
Tão verdes os peixes. Tão verdes os barcos invisíveis.
Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

16.5.12

CONVITE

11.5.12

Do meu país vos digo



Do meu país vos digo:
Dos aromas de urze e alfazema.
Dos caminhos de rosmaninho e alecrim.
Dos matizes, no verão,
rasando a terra sem sombra
e demandando os rituais
das uvas pisadas no lagar,
ou em bocas abertas à dádiva da colheita.
Do intenso tom de júbilo
que retorna em cada primavera
com a insondável melodia
dos jacarandás rondando as ruas
pela cercadura sombria dos arbustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

5.5.12

Onde estás, Mãe?

Vieira da Silva

Defino geometrias na memória,
para reconstruir a casa onde nasci
e, apenas, a lenta urgência dos teus passos
ecoa dentro de mim, mãe.
O teu sorriso podia ser, agora, o prelúdio
de todas as sinfonias.
Adormeço no teu colo,
enquanto  as nuvens
se penduram nos meus punhos
e o anúncio de um grande amor
se insinua sobre a minha cabeça,
como um vórtice que me arrasta
para o centro de um maternal labirinto.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.4.12

A escassez do amor e do pão de cada dia

Dorothea Lange

                       Desconhecemos as cicatrizes das mãos
que manejaram a mó dos moinhos
e a fadiga das que mondaram a terra,
num ritual repetido infindavelmente.
Nada sabemos das mãos gretadas
pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
Abandonadas há muito tempo,
as alfaias antigas ainda rangem
nas mãos dos que pisam os trilhos
das cabras em lugares desamparados.
São mãos onde se lê a escassez
do amor e do pão de cada dia.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

19.4.12

As palavras andam por aí

Sarah Afonso

As palavras penetram o espaço e o tempo.
Amadurecem em papel de seda,
manipulando a cor, ateando o silêncio,
incendiando as cinzas, anunciando a luz.
As palavras andam por aí
como se fosse a vez primeira:
solitariamente manejando a noite.
E desnudam-me. Dançam no meu corpo.
Cobrem-no de malícia.
Tatuam em minha testa o tom das tangerinas
para que o seu sumo me escorra pela cara até à boca.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

12.4.12

A túnica lilás

Sandro Botticelli


A túnica lilás desesperava-se de ser anjo
no meu corpo de criança.
Rasguei-a há muito tempo.
Os anjos não perdoam que lhes cobicem as asas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

5.4.12

Um requiem pelos sonhos

Manuel Fazenda Lourenço

Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.

Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.

Graça Pires
De A incidência da Luz, 2011

29.3.12

A vigília do olhar


Uma explosão sobrevoa a vigília do olhar
preso às pontas do vento.
Vejo da minha janela as labaredas da suspeita
galgando as árvores.
Redemoinham pelo chão as fagulhas
que arderam na cor dos gladíolos alaranjados
estremecendo as asas dos pássaros
no interior dos jardins quando, cúmplices,
teceram com seu voo a hesitação do poente.
É a hora em que os morcegos
andam às voltas procurando os ninhos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

21.3.12

A poesia não morreu

Pedro Pires

A minha impaciência não cabe no poema
ou na pedra afiada pelo silêncio
que me fere os pulsos.
Gravei a sangue o furor dos dias
e deixei rasgar em minha boca
os frutos da sede e do assombro.
Não me venham dizer
que precisamos de profetas
ou de heróis ou de sábios
para o mundo ser salvo.
Nós acreditamos que o brilho das manhãs
se arredonda nas arcadas do tempo
assediando o sonho fraterno dos poetas.
A poesia não morreu.
De memória em memória
ela atravessa as palavras
com a farpa da revolta.
É preciso gritar que a poesia não morreu?

Graça Pires