15.7.19

Em seara alheia


Encosta a escada à palavra homem
e entra nela pela noite dos fundos
entra nela pela mão muda de deus
pelo lugar indizível que sustém todos os dedos
pelo dedo indicador que sustém toda a palavra
e a inicia
e a inicia como tua mulher.

Encosta a escada à palavra homem
e espera-me ainda antes do primeiro degrau.
Ali te revelarei as tuas maravilhas.

Catarina Nunes de Almeida
In: Livro redondo. Editora Língua Morta, 2019, p. 41

8.7.19

Com o silêncio emboscado na voz

Ana Pires Livramento


Com o silêncio emboscado na voz 
uma mulher atravessou um impossível retorno 
rente a horários sem sentido. 
Na linha das marés o magoado vértice das sombras 
desenhava a solidão dos barcos destruídos. 
Como se um frio de aço mutilasse todas as esperas.

Graça Pires

De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 28

1.7.19

Amor

Katharina Jung

Quando te procurei 
em rotas de seda e ouro,
eu não sabia que o amor 
é uma espera de mágoa e mel.
Nem suspeitava 
que há nos corpos nus
a enchente das marés
que altera a tempestade.
E desconhecia que é preciso
empunhar o leme
para que as mágoas inundem
desesperadamente as margens.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 8

24.6.19

Em seara alheia




Ainda não sei


Ainda não sei como contar-te que cresci
sem mar. Que andei a verter sangue a vida
toda, de coração golpeado pelas cercas vivas
dos meus lugares. Não sei como contar-te 
da minha ânsia de fugir, de correr até à praia
e cegar a memória, de como me atirei
em desespero contra os espinhos, e de como
sangrei, exausta, na sombra dos fracassos.

Agora cheguei ao mar e o sal arde-me
nas feridas. Tenho um chão de areia quente
que me queima os pés, tão gastos de correr.
Cheguei ao mar. Ao espanto comovente 
do mar, e permaneço imóvel. Tão quieta
como as rochas ao longe.
Sou livre e não me movo.
Não sei como se faz isto de viver.

Virgínia do Carmo
In: Ecos de Green Rose. Poética, 2019, p. 35

17.6.19

Futuro

©Shutterstock

Nas próximas horas nenhum astrolábio
medirá a latitude e a longitude deste sítio.
Não queremos saber a altura dos astros.
Os fusos horários corrompem-nos a pele.
Inventaremos uma órbita que nos prenda
ao futuro em rotação vertiginosa.
O passado será a nesga de luz
onde as luas se mostrarão fase a fase.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 14

10.6.19

Como um aviso

Pedro Pires

Quando as espigas surgiram de repente
nos sulcos das searas, sem que o braço e a foice
afagassem o trigo, houve homens
que se amarraram à terra aguardando que o corpo
se transformasse em campo lavrado.
Houve mulheres que cegaram, em plena
madrugada, perto dos pomares.
Houve meninos que se fecharam por dentro
dos segredos que as mães guardam no sangue.
Houve pássaros que suspenderam o voo
sobre as casas desertas. Como um aviso.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 18

3.6.19

Em seara alheia


21.

Dizia-te
da minha inaptidão
para nomear os lugares 
mais inóspitos da alma,
lembras-te?
Dizia-te que haveria de saber
todos os nomes de todas as coisas
e só a ti, um dia, os revelaria
como súbita 
revoada de aves azuis.
Dizia-te…
mas nunca cheguei a aprender
o verdadeiro nome
dessas aves azuis
e por isso nunca fui capaz
de as chamar
a cruzar o nosso céu.
Que pensarias hoje,
se eu te dissesse
que o meu dicionário,
[exíguo que era]
Abrevia-se cada dia
um pouco mais?
E a fala cada dia um pouco menos.
Não sei já o que chamar
a esta longa aprendizagem
do esquecimento.

Lídia Borges
In: Garças. Braga: Poética, 2019, p. 32

27.5.19

Alice

Amedeo Modigliani


Na hora em que o calor entranha
no ar o cheiro da urze seca,
um breve estremecimento
contagia cada gesto meu.

Sabem: os agrados das meninas
são suculentos como os medronhos bravos
e tão secretos que só as mães os adivinham.

É por isso que me escondo
no meu sorriso comedido,
e enfeito os cabelos
com a fita que mais me agrada,
e me revelo com argúcia às pessoas
que olham, coniventes, o meu rosto.

Não me perguntem de quantos aromas
se inundou já o azul do meu vestido.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p.19

20.5.19

Das mais antigas dores

Josef koudelka

Do lado distante das noites, a lua acesa
sobre os muros ilumina o rosto daqueles
que sempre entenderam o trajecto
escolhido pelos pássaros e pelos rios
e pelos amigos que nunca voltaram.
Os dias foram cerzindo em seu olhar
o caminho esquecido das mais antigas dores,
onde guardam agora o destino de suas mãos
declinadas sobre as estacas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 30

13.5.19

Uma mulher

Amedeo Modigliani


Gosto de guardar segredos.
Tenho, mesmo, um jeito discreto
de alinhar os meus dias: como um arquivo
de fotografias de viagens;
como um regato silencioso
correndo de meus cílios;
como o percurso da estrela-d’alva
no desvio das horas.

Gosto de ler Rimbaud
não falarei, não pensarei em nada:
Mas um amor imenso
invadirá a minha alma

Toco com os lábios
os múltiplos espelhos
que me deformam a boca,
extraviada de afectos,
e aguardo esse amor.

L’amour est a réinventer, on le sait.
Eu também sei.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 26

5.5.19

Em seara lheia


XIII

As mães,
nítida seda
semeando harpas no cansaço.

Alberto Pereira
In: Como num naufrágio interior morremos. Prefácio de Gonçalo M.Tavares. Pontevedra: Editora Urutau, 2019, p. 34

29.4.19

A escassez do amor e do pão de cada dia

Dorothea Lange

Desconhecemos as cicatrizes das mãos
que manejaram a mó dos moinhos
e a fadiga das que mondaram a terra,
num ritual repetido infindavelmente.
Nada sabemos das mãos gretadas
pela acidez das resinas e do pó,
pela dureza da enxada e do arado.
Abandonadas há muito tempo,
as alfaias antigas ainda rangem
nas mãos dos que pisam os trilhos
das cabras em lugares desamparados.
São mãos onde se lê a escassez
do amor e do pão de cada dia.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 35

22.4.19

Escrever Abril

Licínia Quitério


Era uma vez uma cidade
com homens a navegar na liquidez das ruas,
espingardas com mulheres a tiracolo,
sorrisos a explodir à boca dos canhões,
gritos e cantares da cor dos cravos.
Foi o dia do livro inicial
e toda a escrita foi possível.

Licínia Quitério, 2019

15.4.19

Dos templos antigos



São de granito cinzento 
as cúpulas dos templos antigos:
a música profana e sagrada
no rebordo das pedras.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011, p. 7

Desejo a todas as Amigas e a todos os Amigos que me visitam, uma Páscoa cheia de bênçãos e de paz.

8.4.19

Lentamente



Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 29 

1.4.19

Tão frágil a construção do silêncio


No verão todas as manhãs são belas,
dissemos um dia, antes de sabermos
como nos pode asfixiar o áspero sangue
das correntes esfarrapando a espessura do lodo.
Tão frágil a construção do silêncio!

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018 p. 55

25.3.19

Em seara alheia


Volto sempre aqui. Ao meu lugar de mim.
A serenidade pousa na rocha mais alta. No meu lugar.
O vento cresce na tarde e evoca a noite. No meu lugar.
O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia. No meu lugar.
O amanhã trará no colo uma braçada de flores.
O ar de alfazema deitar-se-à na minha cama.
Nos meus lugares espalhados.
Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.

Lília Tavares
In: Nomes da noite. Modocromia, 2019, p. 15

18.3.19

À espera do poema





Nenhum grito, nenhum indício, nenhum anjo
anunciou que chegarias, assim, poesia,
imprevisível e sedutora, a transfigurar
as palavras que me rebentam na voz.

No pulsar do silêncio te encontrei,
ao escavar os sonhos no meu peito,
na rigorosa idade do assombro.
Como se tivesse uma alegria
quase infantil calada no sorriso,
que se fez bênção, impulso,
canção de louvor ou de protesto,
abraço sem distâncias nem fonteiras.

Agora, quando a rebelde possibilidade das sílabas
convoca o sobressalto das sombras,
e o olhar se embacia de secura,
e as mãos, nómadas de nostalgia,
arrefecem entre as páginas,
diante da emoção da linguagem me debruço
à espera do poema que me salve e me liberte.

Graça Pires
In: A minha palavra: antologia de escritos avulsos. Edição comemorativa do 5º aniversário da Poética Edições. Braga: Poética, 2018, p.17

11.3.19

Um lugar para morrer



Naquele mês espalhara-se a insólita notícia
da vinda de andorinhas brancas
trazidas pelos ventos do deserto.
Todas as mulheres subiram às colinas
mais íngremes abandonando as casas,
dias a fio, com o corpo envolto em panos negros.
Tinham pressentido,
no lentíssimo movimento do voo, que cada ave
procurava apenas um lugar para morrer.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 62

4.3.19

Em seara alheia


Caminham as mulheres com as suas extensas lezírias
e luas em trânsito.
Vêm de cidades submersas anteriores às cidades
dos musgos e fetos de flores primitivas.
Surgem dos lugares iniciais
e trazem o lume da distância para perto.

Vestem brancos linhos azuis que o vento volteia
desde o livro de moisés.
No aceso silêncio dos olhos derramam intensos perfumes
e com o longo lavrado dos cabelos encobrem
o lustro da nuca e inclinam a varanda dos ombros
para uma paisagem de penumbras iluminadas.

Quando sobre o restolho distendem as pernas
definem num sopro o relevo das planícies.
Erguem casas nas margens dos lagos, erguem todas as casas
nas margens do pensamento.
E um palmo depois da soleira da porta a noite reincide
o mundo cai a pique depois da última parede.

Rui Miguel Fragas
In: Sobre o prumo das falésias. Fafe: Labirinto, 2018, p. 41


25.2.19

Elvira

Amedeo Modigliani


Nesta manhã em que as premonições
pulsam a bússola dos sentidos
vou usando aquele modo inútil
de morder as palavras até ao amargor.

Não amassei o pão. Não lavei a roupa.
Tenho os pés inchados e a cor do asfalto
trespassada no olhar.
O corpo agitado acima da desordem
tornou-me fugitiva, clandestina,
a versão disfarçada do meu nome.

Exercito argumentos na ferrugem
da descrença e deixo que o desvario
de pretéritas dores refaça os sonhos
que em nenhuma fala se pronunciam.

Finco o cotovelo sobre a mesa
e resvala-me o pensamento
para um tempo anterior à solidão.

Já não me inquietam os pequenos
detalhes com que se pode enlouquecer.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 11

18.2.19

Queria prender no cabelo

Robert Coombs

Queria prender no cabelo
uma haste de sol ou um pássaro,
mas ninguém retirou as trepadeiras secas
para que a hora de verão retocasse a cal
dos muros sulcados pela chuva.
Ninguém indagou o brilho deslumbrado do olhar
quando o golpe da noite desafiava o vulto dos corpos.
Apenas o azul silencioso dos cumes
se abrigou no regaço onde as meninas
escondem o abraço das mães
para que o mel regresse às colmeias silvestres.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 24

11.2.19

De seda



São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 25

4.2.19

Em seara alheia



Comment interroger ce qui nous échappe aussitôt?
Bernard Noel

A António Ramos Rosa

Toda a presença vence os limites do corpo

tudo está por dentro, por detrás de quem olha.
Minucioso trabalho o da construção do poema foi o
que me transmitiste, lâmpada que se acende ao ritmo
do corpo das mãos como asas num vislumbre
que queima. Lá onde estás, não me perguntes se
escrevo ou se me invento.
Resido para alguns no fim dos teus dedos como
se quisesse arrancar penas aos textos que
teceste. Embora, me pergunte se choram em mim
os teus apelos ou se são réplicas de um feitiço
o que me deixaste, concebi um ninho de poemas
dentro de mim - Ítaca talvez seja o nome onde
teço o que sei para regressar e desteço lentamente
tudo o que aprendi para chegar enfim ao corpo inicial.

Gisela Gracias Ramos Rosa
In: A Pedra e o corpo. Braga: Poética, 2018, p. 73

28.1.19

Mulher com gola branca


Amedeo Modogiliani

Há quem prefira desenhar flores,
ou jogar às damas,
ou tomar chá de laranja doce.
Eu gasto o meu tempo entre aqueles
para quem os dias são apenas
uma irremediável espera.

Não ignoro o impulso das lágrimas
no choro dos meninos cercados de orfandade.
Conheço o desespero agitado do suicida.
Sei de cor o trejeito de mágoa que o pesar,
sem aviso, deixa em lábios
 sufocados de desânimo.

É difícil, sim, este ofício de partilhar
os sobressaltos da vida.
Ou da morte. Ou da solidão.

Mas reparto, em dádiva,
uma alegria quase clandestina.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 23

21.1.19

Antes do homem havia a terra


Antes do homem havia a terra:
geografia mágica, sagrada
que, na luz e na treva, explodiu
de espanto e guardou, milenarmente,
os mistérios da vida e da morte.
Depois da terra veio o homem.
E o homem tornou-se um morador incauto
e perdeu o paraíso onde agora os deuses,
quando passam, desviam o olhar.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 46

14.1.19

Da infância

Albino Moura

Por trás de cada sombra
que resvala por novembro
descubro o espanto no meu rosto de criança.
O irmão no berço entre o choro e o sono.
O riso das irmãs.
Os tropeços na correria ao redor das árvores,
como se déssemos a volta ao mundo.
A mãe, o pai, para sempre.
O universo colado ao destino.
Os bichos-de-conta a rolarem no cimento
impelidos por nossos dedos.
As noites acolhendo os brinquedos de corda
na véspera das tardes mais longas.
O antecipado prazer de ouvir a voz materna
a chamar cada filha como se fosse a única.

Graça Pires 
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 122

7.1.19

Em seara alheia



Por vezes é assim

Por vezes é assim. Uma pequena fissura no pensamento,
e o mundo divide-se.

José Luís Outono
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 96

2.1.19

Aguardamos uma luz

Brancusi

Aguardamos uma luz de seiva
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 60

17.12.18

A ilusão cresce nas montras

Pedro Pires Livramento

A ilusão cresce nas montras
presa nas bolas coloridas das árvores
abundam e brilham corações e estrelas
misturam-se figuras cristãs e pagãs
e há um fio que nos prende
e nos deixa suspensos entre o céu e a terra
e nos leva os nervos
para a terra passageira dos sonhos
natal dos ímpios e dos impuros
que lavam a cara no mar do lucro
Jesus morreu
mas os sinos repicam
os anjos embebedam-se 
de verde vermelho e dourado
de fitas e laços
e cantam
glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens de boa vontade
as mãos estendidas dos pedintes
sorriem de esperança
ao dia da sopa quente a chegar

Graça Alves
In: Da timidez dos homens. Coimbra: Palimage, 2017, p. 41






Que venham os anjos que nos guardam refazer em nossas mãos um presépio de amor.
Que celebrem em nosso olhar o desejo da luz, a promessa da paz, a certeza do bem-estar.



Um Bom Natal e um Novo Ano Melhor !

Até para o ano…