1.3.12

O nevoeiro da espera colado nos sonhos


Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

23.2.12

À memória do Zeca


Passou por aqui um poeta: inquieto,
polémico, subversivo.
Com a noite entrincheirada nos dedos,
engatilhou as letras contra os lábios,
até acender, preso ao coração,
o lume das palavras.
Peregrino de memórias solidárias
saltou os muros do tempo em que viveu,
com pressa de estar entre os homens
no tempo da revolta.
Hoje as palavras pertencem-lhe,
intactas, por direito próprio,
humanamente adquirido.
O silêncio também.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

17.2.12

Ausências sem rosto

Magritte

Entre o culto da lua e um estranho ódio,
cresce uma noite de lendas e feitiços
e deflagra um luar íntimo
em busca da conivência do corpo
para embalar a nudez e o mênstruo das fadas
rompendo o céu da boca com o brilho dos olhos.
O deleite de muitas águas
atravessa ausências sem rosto,
enquanto uma nítida cumplicidade
converge sobre as mãos interditas
de quem envelhece longe do rio.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997 

10.2.12

Os olhos verdes


Para a  minha irmã Teresa Pires

Os olhos verdes  de meu pai
herdou-os a minha irmã.
Agora os panos dos veleiros
encharcam-se com as águas de sal
que lhe são travessia no olhar.

Graça Pires
A incidência da luz, 2011

3.2.12

Olhas para além dos barcos



Para o meu irmão Zé Pires

Instáveis como as sombras, as nuvens
perpassam o teu olhar carregado de melancolia.
Olhas para além dos barcos
e lembras o velho Santiago de Hemingway.
A dor não abate um homem, ele o dizia,
com as mãos escorrendo sangue
de tanto ser puxado pelo peixe
que o prendia ao mar.
Na continuidade dos remos,
todos os tons de azul envolviam
o mesmo horizonte de água, a mesma sede,
o mesmo silêncio, o mesmo sonho.

Graça Pires
2012

26.1.12

Procuro o teu rosto

António Quadros

Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

19.1.12

MÃE!


Tanto tempo que eu passei sem aqui vir
disseste, mãe, quando notaste
como era imenso o azul do mar.
Teus olhos carregados de ausência.
Tuas mãos tremendo de tanto vagar.
Teu corpo aquietado de tanta canseira.

Graça Pires

De A incidência da luz, 2011

12.1.12

Tudo se passou naquele inverno



Tudo se passou naquele inverno
em que caiu a figueira junto ao muro.
As oliveiras escondiam entre as folhas
alguns aromas da tarde que o alecrim
teimava em espalhar.
Um estranho silêncio ensurdeceu
as mulheres que se fecharam nos quartos
para sufocarem os gritos.
Deslizava-nos pela cara uma forma
de tristeza que nos inundou a boca.
Uma luz ensombrecida
alongou a treva em nossos olhos.
Entrámos em casa com cuidado
para que a noite não se esgueirasse
pela assimetria das janelas.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

5.1.12

Como um lamento

Ana Pires

Tento esboçar o tamanho da lua cheia
no vértice das empenas viradas a nascente.
Tento calcular a geometria do mar
que bate nos limites do molhe
como um lamento adivinhado.
Tento seguir as pombas que invadem as cidades
com rumores de solidão colados nas asas.
Trago a enfeitar-me o decote pérolas de areia e sal.
A surpreendente claridade das águas
lava meus olhos da sugestão de tormenta
que guardo por hábito sobre o rosto.


Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

29.12.11

Regressamos aos lugares da infância

Dorothea Lange

Mais do que uma voz, a vibração de um trompete
exila o pranto inesperado do olhar preso
à curva do sol nascente.
Regressamos em sobressalto aos lugares da infância.
Colhemos azedas roçando nos lábios o suco
que a língua suga com um prazer inexplicável,
iludindo em nossas bocas outros sabores.
Temos ao alcance das mãos o arco matinal do riso
e vivemos em litorais que nos douram o corpo,
poroso a todas as paixões.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

19.12.11

A estrela de Natal


Foi um sonho que tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga
In: Diário I

Um Natal com Amor e Luz e um Ano de 2012 com Saúde e Paz.

9.12.11

Amo as açucenas


Amo as açucenas na branquíssima
vertigem do princípio do mundo.
Ninguém pode amá-las assim
nas madrugadas de linho e de nácar.
Ninguém subiu as vertentes da colina
mais íngreme com um vestido de noiva
amarrado ao corpo.
O abandono recortado no ar.
Os desejos entorpecidos na alvura dos seios.
Os guizos das cabras reclamando o cio.
A cera das colmeias na greta dos lábios.
O fascínio da luz a incidir nas hastes mais altas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.12.11

Aloés



De dezembro a fevereiro os aloés
florescem à beira das estradas.
Têm hastes longas presas aos cactos.
Cleópatra, dizem, utilizava-os para dar à pele
a beleza macia que entontecia os homens.
É por isso que nos fascina a sua cor
fortemente igual às laranjas antigas.
É por isso que há mulheres rendidas
aos poderes dos bálsamos obtidos das flores.
É por isso que se acredita na minuciosa
utilidade de lhes extrair o sumo,
o tónico, o gel e tantas outras coisas
que prometem a juventude eterna.
Como se não fossem perversos
os desígnios da morte.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

22.11.11

A que país pertenço?

Robert Coombs

Acordo nos degraus de novembro
e volto a ser menina.
É o dia dos meus anos.
Ponho um vestido cor de rosa
e um laço de cetim a prender as tranças.
Tenho uma boneca de papelão
com covinhas no nariz.
Há arroz doce para o lanche,
com o meu nome desenhado a canela.
Mas já não sei o caminho
para o sótão da memória.
Ando devagar pelo pátio
das recordações. A que país pertenço?
Já não choro uma pátria de bandeiras,
nem rastejo os vocábulos
pelo subterrâneo das traições.
Tenho uma lança de pedra
no contorno da cintura
para chegar ao âmago do medo
e saber como é inevitável
um jogo de luzes nos olhos da noite.
Sobre o meu peito aberto, as aves
bebem nuvens num contorno de fábulas.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

14.11.11

Memórias de Dulcineia XXII

Trémula, ajusto à mão
a posse das palavras
e conto:
Numa aldeia da Mancha
um homem recuperou a razão
e começou a morrer.
Banido de seus sonhos,
as sombras da tristeza
devolveram-lhe o nome
e o rosto que eram dele.
Aos poucos, o seu corpo
tornou-se circular
e fundiu-se com as velas brancas
de um moinho de vento,
que continua a girar
numa aldeia da Mancha,
de cujo nome não me lembro.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008