17.9.18

Em seara alheia


Ensaios

A sede instalou-se.

na aridez da ausência
o pó dos dias velou a memória do toque
e da pele em fogo

as tuas mãos
perderam o rumo do meu corpo

e eu
já só renasço quando me sonhas

João Carlos Esteves
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 56

10.9.18

A medida certa de um abraço

Amanda Cass


                                      Para a Cleri Aparecida Biotto Bucioli


Vieram do oceano ou do fundo do olhar
as aves com asas aniladas.
Sobrevoaram a praia deserta
e pousaram na escarpa mais alta
para avistarem a distância
que o vento apetece em suas penas.
Na linha das areias, a medida certa
de um abraço.

Graça Pires 
De Uma claridade que cega, 2015, p. 42

3.9.18

Inesperadamente jovens

Andre kohn

Já os pássaros marinhos voavam sobre os barcos
e a rebentação das ondas atingia a areia das margens,
quando as nossas mãos, tão próximas,
rondavam tempestades na concha do olhar.
Só nós adivinhávamos a inclinação das âncoras
pelo estremecimento dos mastros
e pela fulguração dos corpos inesperadamente
jovens, incendiando as águas.
Em nossos pulsos abertos às quilhas
conhecíamos os mares incertos onde os naufrágios
faziam dos teus e dos meus braços
o remo e o rumo da viagem.
Havia limos a amaciar-nos a pele.
No relevo dos ombros,
uma lâmina de sal alucinava-nos o sangue.
E a cúmplice respiração de nossas bocas
denunciava o frémito da maré-cheia.

Graça Pires 
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 120


27.8.18

Mulher com chapéu

Amedeo Modigliani


Não sei há quanto tempo me ardem
os olhos, quando um bando
de pássaros invade o sossego
da paisagem, como se me ofuscasse
a espessura agitada do seu voo.

Comecei a usar um chapéu de abas
largas para iludir o brilho desmedido
que desliza sobre as coisas.

Os meus olhos, é certo, já não têm
a mesma cor que tinham na infância.
Perderam a transparência e o dom
de fitar o sol sem enceguecerem.

Por isso, apenas posso olhar a lua cheia
como fazem os poetas e as bruxas.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 30


20.8.18

Em seara alheia



as rodas da saia I

minha mãe deu-me uma saia
a saia de sua mãe
a saia roda no corpo
de minha filha também
minha neta pequenina
anda também a rodar
na roda da saia dela
em todas que há de gerar.
a saia roda no tempo
das rodas que o tempo tem
e por mais que rode a saia
não lhe escapará ninguém.

Maria Isabel Fidalgo
In: À roda da saia. Braga: Poética, 2018, p. 12

13.8.18

No cerco da noite

Katia Chausheva

No cerco da noite deixo à solta
a minha expressão narrativa.
Sei que não cabem nestas folhas,
neste texto, nestas margens
as sensações que ao coração pertencem.
Mas é inútil. É inútil deambular pela escrita
evadida das noites insones, com vozes
sem sentido e enredos improváveis.
Convoco os anjos com suplicantes hinos
até à visitação do silêncio,
até que o sopro do sono apague
os sons despedaçados de quem escolhe
o caminho mais longo para regressar a casa
e tropeça nos próprios passos.
Perto da manhã, aceito a sedução
do orvalho em torno dos sonhos.

Graça Pires

In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 116

6.8.18

A sombra do pássaro azul

Albino Moura




À memória do escritor Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)



Continua a sobrevoar o meu peito
a sombra do pássaro azul
adormecido no delicado coração da luz.
Insubmissa, a sede presa à nascente do olhar
guarda em cada lágrima 
a clara liberdade de seu voo.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 37


30.7.18

Em seara alheia


Cheiro de mar

Trazem o cheiro do mar
em redes na pele,
o crepúsculo cativo nas conchas
a areia açoitada por ventos teimosos, despida no olhar.
Têm nos dedos o cântico do desejo
como pergaminho desenhado no odor.
Trazem cheiro de mar,
sal colado aos cabelos
e fome de suor.

Isabel Cabral
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 46

23.7.18

De pedra em pedra

Ana Pires Livramento


A manhã reacende o sol
na aba do chapéu que uso, 
expressamente,
quando passeio à beira da água.
De pedra em pedra
regresso à outra margem do rio
onde te procuro para respirar 
a brisa de alfazema 
que transportas no sorriso.


Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 53

16.7.18

Entre silêncios

Katia Chausheva

Diz o que viste quando desviaste
o olhar da claridade matinal.
Ficaste com mãos indecisas
na orfandade da luz.
E, ao redor dos lábios,
um espaço deserto desdizia
o esboço das palavras
que sempre afirmaste serem tuas.
Como se precisasses de outra boca,
de outra voz, de outros sons.
Como se o centro esvaziado de um grito
traçasse um vínculo contínuo entre silêncios.

Graça Pires
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 121 

9.7.18

Menina de tranças

Amedeo Modigliani

Não sei se os espelhos
me querem enganar,
ou se tenho agarrado à pele
o clarão das searas.

Hesitantes, os pássaros, gostam
de balouçar nas tranças
que me caem sobre os ombros,
enquanto corro, assombrada
e sem fadiga, em direcção
à última luz do dia.

Escondi, atrás dos cântaros, algas
escorregadias para deslizar até ao mar.

Vou conhecer a exultação das marés
no excesso da torrente.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 32 

2.7.18

Quase sede

Francesca Woodman



Um calor, quase sede,
amadurou as cerejas
nas bocas festivas,
envoltas em aromas de gula.
Apetece a sede assim adivinhada.
Apetece o hálito espesso
que a língua em seu ceder retém.
Apetece morder. Até ao caroço.
Com os dentes devassos de disfarçar o riso
ou roer as unhas junto aos muros
que amam os vendavais
e a flagrante solidão das borboletas.

Graça Pires 
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 117


25.6.18

Em seara alheia


distância

andava distante
sem encontrar sorriso que se visse
ou verbo que lhe acudisse
remendava a voz aqui e ali
com descontinuados brados
povoados de insetos quietos
de pernas para o ar
esquecidos do ato de voar.

e dobrava os rios que tinha inventado
com os peixes dentro
e as algas, as cachoeiras, os seixos
e depois de tudo desconsertado
descerrava um molho de nuvens
e desenhava no peito
uma porta para o deserto.

farto de abastecer a solidão,
labuta agora arduamente
na construção de um oásis
que virá secar a sua sede.

Lídia Borges
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 38

16.6.18

Foi em Junho


                     Para o meu filho Pedro

Desenho no ar um desvio para o passado 
e teço, em meu peito, um regozijo solar.
Cerro os olhos para que uma luz, quase oculta, 
tome meu espanto, me devolva 
o sentido único da claridade, 
o rumor de uma inefável madrugada 
e o límpido tumulto que ousou minhas águas.
Foi em junho.
Antes do solstício.
Antes de nascer o sol.
Eu tinha uma túnica de linfa cosida 
no lugar mais sagrado do ventre.
Um aceno de aves circundou meu sangue 
e recolheu meus signos 
como cálamo acendido na boca dos sonhos.
A eternidade a pulsar no comovido prodígio de viver!

Graça Pires, 2018

11.6.18

Quando o espelho me devolvia a frieza

Duane Michals

A página vazia era um golpe
oculto a ferir-me o peito.
Todos os dias eu amanhecia
sem palavras com a opressão
do susto sobre os ombros.
O princípio e o fim dos tempos
confundiam-se, numa escrita ausente,
em tropeço com a vontade.
Com mãos indecisas eu tacteava
a nostalgia de meus olhos
quando o espelho me devolvia
uma frieza dispersa pelo rosto,
a devorar-me a boca,
a transformar-se num abismo
que engolia as lágrimas, o riso, os sonhos.
Graça Pires
In: As vozes de Isaque: derivações poéticas a partir da obra “O último poeta”, de Paulo M. Morais. Braga: Poética, 2016, p. 17

4.6.18

Mulher com xaile vermelho

Amedeo Modigliani



Uma brisa fria vem roçar-me a cara
nesta primavera desabrigada,
onde os pássaros rodopiam
uma valsa estremecida,
como se temessem o vento. 

Falo pouco nestes dias,
em que me cobre
uma luz lívida e muda. 

Cubro os pulsos com os folhos da blusa
para jurar silêncio, quando a mancha
do luar atingir o peitoril da janela. 

Na borda da cadeira em que me sento
poiso, ao de leve, as minhas mãos
frias, quase de pedra. 

Tenho a cingir-me o peito
um xaile de merino para abafar
as batidas desoladas do coração.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 43

28.5.18

Desse tempo




Robert Doisneau
Do tempo. Desse tempo em que as cidades
tinham casas com degraus exteriores
onde a luz e a treva adormeciam sem medos.
Desse tempo em que no campo eram benzidas
as oliveiras para que os relâmpagos
não atingissem o lagar,
nem o pão acabado de cozer,
nem o vinho novo, nem o regaço das mães.
Desse tempo em que as portas e as cancelas
dos pátios estavam permanentemente abertas
aos passos de quem vinha.
Desse tempo em que as cores dos berlindes
brilhavam nos olhos das crianças
que, de rua em rua, escolhiam os amigos
para a troca, para a briga, para a bola.
Desse tempo em que as mulheres
levavam na cabeça os cântaros, ou a fruta,
ou os desejos inconfessados do prazer.
Desse tempo tão diferente, até no modo neutro
como olhamos a vida, espalhamos pela casa
os rostos e os nomes.
Desse tempo.

Graça Pires
In: CONTINUUM: Antologia poética. Pinturas de Luís Liberato e  fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 119

21.5.18

Anna com vestido branco

Amedeo Modigliani


Gosto de me levantar de madrugada,
quando ainda são anilados
os vultos de quem passa.

Gosto de reter, no fundo do olhar,
o instante primeiro do dia, para recuar
ao tempo em que coleccionava barcos
de papel e deles me tornava marinheiro.

As vagas, lembro, começavam
nos meus dedos quando sobrepunha
o mastro sobre a quilha, com búzios
cristalinos a enfeitar os pulsos.

E visto-me de branco
como se fosse a menina
que descobre a primeira sede,
ou a primeira nascente,
ou a primeira paixão.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 38

14.5.18

Em seara alheia


Açúcar-água

No meu rosto agora temperado a sal, um rio desce por entre o acastanhado dos
olhos. E tu, de braços estendidos junto à figueira. O cheiro doce das margaças
secas e dos figos caídos perto do tronco. O lado salpicado de pequenas bolhas
indicando o lar dos girinos, e o sino que ao longe se ouve como se uma boca
fosse e me chamasse. O muro de silvas. As abelhas zumbindo rente à água do
lago. E é assim neste açúcar-agua onde as pernas tremem que me faço amante.
Em mim nasces, vives, e por detrás da porta, moras.

Francisco Valverde Arsénio
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, desenhos de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 20

7.5.18

Foi em Maio

                                     
                                          Para a minha filha Ana     

Bebo, em taça redonda, um sumo de romã.
Quero a maciez de uma voz emocionada
que me rase sobre as pálpebras
o apelo das águas para celebrar o dia.
O coração não cabe nas palavras
quando a dádiva e o fascínio se confundem.
Distancio-me de mim.
Um breve lume acende na lembrança
o prodígio da luz de maio.
E deixo que a emoção encontre a ânfora
onde guardei o mel com que aclarei
os gritos abafados no recato da noite.
Sinto, ainda, o cheiro do leite quente
guardado em meus seios para delírio
precoce da boca que sugou a minha sede.
Um silêncio indiscreto a proclamar a vida!

Graça
Pires, 2018

30.4.18

Até ao arco-íris mais belo



À memória da Filipa Barata (1981-2014)


Há outra linguagem
presa às arestas do destino.
Linguagem impressa
nas pedras que se pisam
e onde se inscrevem
para sempre todas as quedas,
todos os recomeços,
todas as memórias.
É uma linguagem sem margens
que abrasa a existência,
contamina a fragilidade das mãos
e atrai as aves fatigadas,
no infinito de seu voo,
até ao arco-íris mais belo.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

23.4.18

LEMBRAR ABRIL



ATÉ SER OUTRO DIA

Mesmo que nos queiram
roubar a luz
não conseguirão
amordaçar a voz
que rebenta no chão
em flor 
às mãos cheias

Abril respira a céu aberto
contra nevoeiros
mares desgrenhados
e outros destinos

Ainda há crianças a plantar cravos
no coração das aves

a levar o pão
à boca das sementes

até ser outro dia

Eufrázio Filipe
In: Chão de marés: colectânea de poesia 2013-2016. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2017, p. 11

16.4.18

Dedie

Amedeo Modigliani


Abri a janela para a manhã
que despontava e descobri
uma andorinha sobre o parapeito.
Uma leve suspeita de ausência
percorreu o meu olhar. 

Talvez, entre as minhas mãos,
sobrepostas, apenas uma intuição
imprecisa se demore.
Talvez a névoa que flutua sobre as papoilas
esconda as estrelas
que ficaram presas no pulso da noite.

Dentro de meus olhos um mar sem limite.

Um cais é apenas a pedra que projecta
a intermitência dos barcos no coração.

Tão breve a luz na idade do rosto!

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 33