21.5.18

Anna com vestido branco

Amedeo Modigliani


Gosto de me levantar de madrugada,
quando ainda são anilados
os vultos de quem passa.

Gosto de reter, no fundo do olhar,
o instante primeiro do dia, para recuar
ao tempo em que coleccionava barcos
de papel e deles me tornava marinheiro.

As vagas, lembro, começavam
nos meus dedos quando sobrepunha
o mastro sobre a quilha, com búzios
cristalinos a enfeitar os pulsos.

E visto-me de branco
como se fosse a menina
que descobre a primeira sede,
ou a primeira nascente,
ou a primeira paixão.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 38

14.5.18

Em seara alheia


Açúcar-água

No meu rosto agora temperado a sal, um rio desce por entre o acastanhado dos
olhos. E tu, de braços estendidos junto à figueira. O cheiro doce das margaças
secas e dos figos caídos perto do tronco. O lado salpicado de pequenas bolhas
indicando o lar dos girinos, e o sino que ao longe se ouve como se uma boca
fosse e me chamasse. O muro de silvas. As abelhas zumbindo rente à água do
lago. E é assim neste açúcar-agua onde as pernas tremem que me faço amante.
Em mim nasces, vives, e por detrás da porta, moras.

Francisco Valverde Arsénio
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, desenhos de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 20

7.5.18

Foi em Maio

                                     
                                          Para a minha filha Ana     

Bebo, em taça redonda, um sumo de romã.
Quero a maciez de uma voz emocionada
que me rase sobre as pálpebras
o apelo das águas para celebrar o dia.
O coração não cabe nas palavras
quando a dádiva e o fascínio se confundem.
Distancio-me de mim.
Um breve lume acende na lembrança
o prodígio da luz de maio.
E deixo que a emoção encontre a ânfora
onde guardei o mel com que aclarei
os gritos abafados no recato da noite.
Sinto, ainda, o cheiro do leite quente
guardado em meus seios para delírio
precoce da boca que sugou a minha sede.
Um silêncio indiscreto a proclamar a vida!

Graça
Pires, 2018

30.4.18

Até ao arco-íris mais belo



À memória da Filipa Barata (1981-2014)


Há outra linguagem
presa às arestas do destino.
Linguagem impressa
nas pedras que se pisam
e onde se inscrevem
para sempre todas as quedas,
todos os recomeços,
todas as memórias.
É uma linguagem sem margens
que abrasa a existência,
contamina a fragilidade das mãos
e atrai as aves fatigadas,
no infinito de seu voo,
até ao arco-íris mais belo.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

23.4.18

LEMBRAR ABRIL



ATÉ SER OUTRO DIA

Mesmo que nos queiram
roubar a luz
não conseguirão
amordaçar a voz
que rebenta no chão
em flor 
às mãos cheias

Abril respira a céu aberto
contra nevoeiros
mares desgrenhados
e outros destinos

Ainda há crianças a plantar cravos
no coração das aves

a levar o pão
à boca das sementes

até ser outro dia

Eufrázio Filipe
In: Chão de marés: colectânea de poesia 2013-2016. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2017, p. 11

16.4.18

Dedie

Amedeo Modigliani


Abri a janela para a manhã
que despontava e descobri
uma andorinha sobre o parapeito.
Uma leve suspeita de ausência
percorreu o meu olhar. 

Talvez, entre as minhas mãos,
sobrepostas, apenas uma intuição
imprecisa se demore.
Talvez a névoa que flutua sobre as papoilas
esconda as estrelas
que ficaram presas no pulso da noite.

Dentro de meus olhos um mar sem limite.

Um cais é apenas a pedra que projecta
a intermitência dos barcos no coração.

Tão breve a luz na idade do rosto!

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 33

9.4.18

Em uníssono


Moises Saman

Indagamos, em uníssono, o avesso dos dias
retalhados por mãos adversas,
para não nos equivocarmos
com o rosto deste mundo
em constante calafrio, em arriscada deriva.
Porque estes são tempos exasperantes
de perder as pátrias e as casas
e os pais e os irmãos e os amigos
e os nomes e a memória.
E nas imensas planícies enegrecidas
é desabrido o som dos que bradam
quando as crianças ensurdecem no silêncio.
A meia-haste, arvoramos a rugosidade
das cinzas e o rasgão do medo,
para não permanecermos alheios
à saturação dos que sangram,
dos que tombam, dos que resistem.
Graça Pires
In: CONTINUUM: Antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 123

31.3.18

Convite - ANTOLOGIA POÉTICA

A Festa foi linda. Obrigada a todas e a todos que participaram nesta Antologia. É um orgulho fazer parte dela.


Minhas Amigas e meus Amigos: tenho a certeza que vão gostar dos poemas destes autores. Apareçam!!!

Podem também adquirir a Antologia em pré-venda (com desconto) até à data de lançamento (ver canto superior direito deste blogue)

26.3.18

Mulher sentada

Amedeo Modigliani


Quero morar no silêncio perfeito
aguardado pelas aves migradoras 
para voarem até um lugar sem sombras.

Há muitos mundos fui mulher ungida
com o sangue e o leite de minha mãe,
raiz onde se prendeu o meu nome.

Preparo, agora, com gestos minuciosos
uma evasão fortuita,
enquanto me enceno nos espelhos.

Quero que me circulem no sangue os rios todos
inundando a boca seca: quase vento, quase sal.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 41

21.3.18

A Poesia é um fogo sagrado


Steve Thoms

Naquela noite eu só procurava um lugar para morrer.
Havia o cume da montanha tão perto das estrelas
e da liturgia dos sons. Havia um xaile de lã.
Uma casa caiada de gemidos. Uma mulher.
Para quê improvisar o pretexto da morte
se guardava já, delineado no olhar,
um puríssimo lago a antecipar o dia,
o primeiro, quase, em que as palavras
tinham a inteira claridade das manhãs?
Mergulho no dia como em mar ou seda,
repetia, a mim mesmo, sem parar.
A Poesia é um fogo sagrado a iluminar a vida!

Graça Pires
In: As vozes de Isaque: derivações poéticas a partir da obra “O último poeta”, de Paulo M. Morais. Braga: Poética, 2016, p. 17

12.3.18

Em seara alheia



Amáveis comodidades

Vem viver comigo,
estou cansado do na tua ou na minha casa,
com hora de ponta e portagens pelo meio.
Para mais deixei morrer as plantas, 
dá-me pena a solidão do gato,
o teu colchão é péssimo para as minhas costas,
a água do teu chuveiro sai sem pressão,
não tens espaço suficiente para os meus livros,
só pagávamos uma factura de luz,
podíamos ter um cão
e fazer um filho.
Eu gostava de ver crescer um filho contigo.

Raquel Serejo Martins
In: Subúrbios de Veneza. Desenhos de Ana Cristina Dias.  Braga: Poética, 2017, p.24

5.3.18

Georges van Muyden

Amedeo Modigliani


Dizem que as mulheres
não devem ter opinião.
Ergo a cabeça ao insulto,
com os lábios atravessados de ironia. 

Nada expressam os meus olhos,
porque os povoei de enigmas
para subverter afirmações sem nexo.
Golpeio preconceitos: o golpe e a chaga
no mesmo esmagamento debelados. 


Uma agitação no contorno do decote
rasgou-me, nas entranhas,
até ao sangramento, um exílio
onde acoitei inconfidências e prazeres. 


É precavido o vagar da minha voz
a silenciar a posse das palavras.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p.15

26.2.18

Luz

John Martin

Persigo a noite na margem proibida das trevas.
Um júbilo nocturno incendeia todos os espelhos
e sob o coração das sombras vislumbro,
em meu olhar, o mais intenso brilho.
Não sei mais o que dizer.
É tão frágil tudo o que nos pode purificar!

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 18

19.2.18

Em seara alheia




Infância

Lembras-te
Do chão frio da estrada?
Da roupa de lã grosseira
Remendada, rasgada
E vestida de qualquer maneira?
Das jogas quentes na mão
Que o Inverno
Teimava em arrefecer?
Lembras-te da roupa molhada
Pregada ao corpo franzino
Arrepiado e dorido?

Lembras-te
Da masseira vazia e nua
Da sopa crua,
Do candeeiro,
Do halo, luz mortiça
E do vento a entrar
Pelas vidraças?

Lembras-te? 
Quando a tempestade caía
E tudo parecia desabar!?
Que medo!
Mas, e falar?
A voz perdia-se na noite fria da tempestade
Lá fora
E cá dentro.
E o medo adormecia a medo
E a manhã acontecia devagar.

Fátima Almeida
In: A sombra dos dias.- Fafe: Labirinto; 2016, p. 24-25

12.2.18

Jeanne

Amedeo Modigliani


Havia uvas maduras na curva
mais acentuada da sebe do quintal
e pão quente sobre a mesa do alpendre,
quando se me enroscou no olhar
a serpente entontecida do fascínio.

O verão concentrara em meus cabelos
todo o aroma dos ventos do sul.
Por minha boca se media, em rubor,
o caudal, alheio ainda, do rio
que nascia em tua boca.

E aprendi a amar-te no silêncio
do teu perfil sem mágoas.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

5.2.18

As palavras em pausa

Norvz Austria


As palavras em pausa são como farpas
destruindo o sentido do silêncio.
Que perverso vento arrastou todos os versos,
todas as frases, todas as sílabas?
Que horas fatigadas gelaram os lábios
ancorados num esquecimento sem voz?
Por algum atalho se encontrará
o rasto do veneno, porque a mudez
pode ser um ritual onde se formam
as sombras dobadas no medo.
Graça Pires
In: As vozes de Isaque: derivações poéticas a partir da obra “O último poeta”, de Paulo M. Morais. Braga: Poética, 2016, p. 17

28.1.18

Sede


katharina Jung

Aproximo os olhos do deserto
e reconheço que só uma sede antiga
fica suspensa do regresso da chuva
ou da proximidade de um rio.
Enterro a língua no chão.
Mas os pássaros cortam os ventos
com  seus voos apressando o inverno
e as sombras que me refrescam a boca.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

22.1.18

O que é um nome?

Monserrat Gudiol 



Grito contra grito.
O combate a estremecer o chão
na vertigem do ódio.
O gesto e o suor a oxidarem o gume
dos dentes, das unhas, dos martelos.
Em delírio, em êxtase quase,
não cediam ao amor, cediam à morte
por terem no sangue um veneno tribal
e a danação dos despojos.
Entre eles, ela e ele, assombrados de paixão.

Chama-me só amor, ele lhe pediu,
vergastando o próprio nome.

Graça Pires
In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 36

Maio de 2016, depois de ter assistido ao bailado "Romeu e Julieta", coreografado por Rui Horta, a convite da Direcção da CNB, através de João Costa

15.1.18

Em seara alheia


Somos sozinhos com tudo o que amamos
Novalis

Voltarei a cada página para colher
os indícios das tuas mãos
porque a palavra tempo se repete
e o silêncio continua nas minhas mãos

Gisela Gracias Ramos Rosa
In: O livro das mãos. Lisboa: Coisas de Ler, 2017, p. 63

8.1.18

A ruiva

Amedeo Modigliani

Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.

Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.

Regressaram, depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam meus silêncios.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017


2.1.18

A respiração com que celebro cada instante

Albino Moura


Em silenciosa queda, o rasgo que vaza
secura e sangue abre-se à rendição
do gesto elevando as mãos.
No recinto dos cânticos mais discretos,
talvez haja um eco de salmos entoados
por nítidos anjos a devolver-me,
como herança inscrita em tábuas sagradas,
a respiração com que celebro cada instante.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

18.12.17

BOAS FESTAS!



Agradeço à  minha filha, Ana Pires Livramento, a elaboração deste postal. Um beijo grande, filha.



Que este Natal nos torne cúmplices uns dos outros no desejo da Paz.
Que 2018 nos desafie, a todos, a dar mais valor à Vida, à Saúde, ao Amor e à Família.
Que se concretizem os sonhos mais desejados.

Até para o ano. Beijos.

11.12.17

Em seara alheia



Família

sentado no chão da cozinha
a rabiscar um papel
o menino brinca

o cão dorme
debaixo da laranjeira

a mãe passa a ferro
aquela blusa
pela centésima vez

faz dois anos
que partiu o pai

o vento
curioso
espreita  na janela

Filomena Fonseca
In: Os degraus da casa, 2015, p. 62

3.12.17

Contratempo

Arno Rafael Minkkinen

Ser cega e ver nos olhos dele 
a sombra oblíqua do barco 
que usará para fugir.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

27.11.17

Sigo o rasto dos sonhos em que me procuro

Francesca Woodman

Por um impulso quase hereditário
sigo o rasto dos sonhos em que me procuro.
Sou da estirpe dos aventureiros,
dos caminhantes, dos fugitivos.
Pertencem-me os passos,
vagarosos e apressados,
com que sulcam os trilhos
do deslumbramento com o perigo
a espreitar-lhes a sombra.
De pulsos abertos mordo o freio
da memória com os dentes aguçados
a pungirem  a raiz das quimeras
na pedra onde o incenso ardido
antediz a imolação do passado.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

20.11.17

Mulher com gravata preta

Amedeo Modigliani

Se eu escrevesse um poema
havia de fazê-lo sobre a areia,
para que viesse o mar, ou a chuva
exaurir o sentido das palavras.

Houve, na minha infância,
um mar antiquíssimo com barcas
acendidas no meio da noite.
Um vínculo sagrado ou de sangue
me liga à memória das ondas.

Da harpa da lembrança tangem as cordas
mais sensíveis na demanda de veleiros
brancos para incendiar novembro.

Nem sei por que comecei a usar,
quase em sobressalto, uma gravata preta.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

13.11.17

Em seara alheia



Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Os corredores apagam-se
e nos retratos
Agosto está pálido.
O quarto está cheio de vento,
o perfume magoa-se contra a memória.
Há inverno nos móveis, 
mas as mãos teimam em visitar
as árvores nas gavetas.

Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Não tarda os ciprestes abrem as janelas
e os muros reclamarão o meu nome

Se não chegares a tempo,
não te preocupes,
deixei a morada aos pássaros.

Alberto Pereira
In: Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p. 53