19.2.18

Em seara alheia




Infância

Lembras-te
Do chão frio da estrada?
Da roupa de lã grosseira
Remendada, rasgada
E vestida de qualquer maneira?
Das jogas quentes na mão
Que o Inverno
Teimava em arrefecer?
Lembras-te da roupa molhada
Pregada ao corpo franzino
Arrepiado e dorido?

Lembras-te
Da masseira vazia e nua
Da sopa crua,
Do candeeiro,
Do halo, luz mortiça
E do vento a entrar
Pelas vidraças?

Lembras-te? 
Quando a tempestade caía
E tudo parecia desabar!?
Que medo!
Mas, e falar?
A voz perdia-se na noite fria da tempestade
Lá fora
E cá dentro.
E o medo adormecia a medo
E a manhã acontecia devagar.

Fátima Almeida
In: A sombra dos dias.- Fafe: Labirinto; 2016, p. 24-25

12.2.18

Jeanne

Amedeo Modigliani


Havia uvas maduras na curva
mais acentuada da sebe do quintal
e pão quente sobre a mesa do alpendre,
quando se me enroscou no olhar
a serpente entontecida do fascínio.

O verão concentrara em meus cabelos
todo o aroma dos ventos do sul.
Por minha boca se media, em rubor,
o caudal, alheio ainda, do rio
que nascia em tua boca.

E aprendi a amar-te no silêncio
do teu perfil sem mágoas.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

5.2.18

As palavras em pausa

Norvz Austria


As palavras em pausa são como farpas
destruindo o sentido do silêncio.
Que perverso vento arrastou todos os versos,
todas as frases, todas as sílabas?
Que horas fatigadas gelaram os lábios
ancorados num esquecimento sem voz?
Por algum atalho se encontrará
o rasto do veneno, porque a mudez
pode ser um ritual onde se formam
as sombras dobadas no medo.
Graça Pires
In: As vozes de Isaque: derivações poéticas a partir da obra “O último poeta”, de Paulo M. Morais. Braga: Poética, 2016, p. 17

28.1.18

Sede


katharina Jung

Aproximo os olhos do deserto
e reconheço que só uma sede antiga
fica suspensa do regresso da chuva
ou da proximidade de um rio.
Enterro a língua no chão.
Mas os pássaros cortam os ventos
com  seus voos apressando o inverno
e as sombras que me refrescam a boca.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

22.1.18

O que é um nome?

Monserrat Gudiol 



Grito contra grito.
O combate a estremecer o chão
na vertigem do ódio.
O gesto e o suor a oxidarem o gume
dos dentes, das unhas, dos martelos.
Em delírio, em êxtase quase,
não cediam ao amor, cediam à morte
por terem no sangue um veneno tribal
e a danação dos despojos.
Entre eles, ela e ele, assombrados de paixão.

Chama-me só amor, ele lhe pediu,
vergastando o próprio nome.

Graça Pires
In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 36

Maio de 2016, depois de ter assistido ao bailado "Romeu e Julieta", coreografado por Rui Horta, a convite da Direcção da CNB, através de João Costa

15.1.18

Em seara alheia


Somos sozinhos com tudo o que amamos
Novalis

Voltarei a cada página para colher
os indícios das tuas mãos
porque a palavra tempo se repete
e o silêncio continua nas minhas mãos

Gisela Gracias Ramos Rosa
In: O livro das mãos. Lisboa: Coisas de Ler, 2017, p. 63

8.1.18

A ruiva

Amedeo Modigliani

Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.

Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.

Regressaram, depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam meus silêncios.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017


2.1.18

A respiração com que celebro cada instante

Albino Moura


Em silenciosa queda, o rasgo que vaza
secura e sangue abre-se à rendição
do gesto elevando as mãos.
No recinto dos cânticos mais discretos,
talvez haja um eco de salmos entoados
por nítidos anjos a devolver-me,
como herança inscrita em tábuas sagradas,
a respiração com que celebro cada instante.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

18.12.17

BOAS FESTAS!



Agradeço à  minha filha, Ana Pires Livramento, a elaboração deste postal. Um beijo grande, filha.



Que este Natal nos torne cúmplices uns dos outros no desejo da Paz.
Que 2018 nos desafie, a todos, a dar mais valor à Vida, à Saúde, ao Amor e à Família.
Que se concretizem os sonhos mais desejados.

Até para o ano. Beijos.

11.12.17

Em seara alheia



Família

sentado no chão da cozinha
a rabiscar um papel
o menino brinca

o cão dorme
debaixo da laranjeira

a mãe passa a ferro
aquela blusa
pela centésima vez

faz dois anos
que partiu o pai

o vento
curioso
espreita  na janela

Filomena Fonseca
In: Os degraus da casa, 2015, p. 62

3.12.17

Contratempo

Arno Rafael Minkkinen

Ser cega e ver nos olhos dele 
a sombra oblíqua do barco 
que usará para fugir.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

27.11.17

Sigo o rasto dos sonhos em que me procuro

Francesca Woodman

Por um impulso quase hereditário
sigo o rasto dos sonhos em que me procuro.
Sou da estirpe dos aventureiros,
dos caminhantes, dos fugitivos.
Pertencem-me os passos,
vagarosos e apressados,
com que sulcam os trilhos
do deslumbramento com o perigo
a espreitar-lhes a sombra.
De pulsos abertos mordo o freio
da memória com os dentes aguçados
a pungirem  a raiz das quimeras
na pedra onde o incenso ardido
antediz a imolação do passado.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

20.11.17

Mulher com gravata preta

Amedeo Modigliani

Se eu escrevesse um poema
havia de fazê-lo sobre a areia,
para que viesse o mar, ou a chuva
exaurir o sentido das palavras.

Houve, na minha infância,
um mar antiquíssimo com barcas
acendidas no meio da noite.
Um vínculo sagrado ou de sangue
me liga à memória das ondas.

Da harpa da lembrança tangem as cordas
mais sensíveis na demanda de veleiros
brancos para incendiar novembro.

Nem sei por que comecei a usar,
quase em sobressalto, uma gravata preta.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

13.11.17

Em seara alheia



Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Os corredores apagam-se
e nos retratos
Agosto está pálido.
O quarto está cheio de vento,
o perfume magoa-se contra a memória.
Há inverno nos móveis, 
mas as mãos teimam em visitar
as árvores nas gavetas.

Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Não tarda os ciprestes abrem as janelas
e os muros reclamarão o meu nome

Se não chegares a tempo,
não te preocupes,
deixei a morada aos pássaros.

Alberto Pereira
In: Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p. 53

6.11.17

Grito

Christine Ellger

Há a palavra em duelo no poema. 
Há um grito rasgando o surdo rumor 
da chuva de novembro. 
Um grito a cortar a respiração 
das árvores sem folhas. 
Um grito que estremece nas mãos 
das mulheres estéreis 
e no silêncio das aves que não voam.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

30.10.17

Mais perto da inocência

Katia Chausheva 

Escuto até à exaustão 
os rumores de um tempo mais remoto 
e evoco os primeiros acenos 
onde deixei a espera e o desespero 
das noites ao sabor da lua. 
Usei nos punhos as pulseiras 
interditas à luxúria. 
Só de madrugada as trepadeiras 
ficavam mais perto da inocência.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

23.10.17

Em seara alheia




AS DOBRAS DO TEMPO

Escuto os sons da casa,
murmúrios
retidos nas dobras do tempo.
Já a voz não ilumina
as sombras que se deitam nas paredes.
Paira um vestígio ténue
dos aromas vibrantes de outrora,
talvez esteja em mim
guardado.
Sou eu mais que um sacrário
de lembranças
que se consome passo a passo
na senda de duvidosa redenção?

Alice Duarte
In: Um pássaro antigo nos olhos. Modocromia Edições, 2016, p. 40

16.10.17

O tumulto das areias


José Pancetti

Com barcos torneando os ombros
decifro o rumo das viagens
em minhas mãos atentas ao desalinho
das cordas destecidas pelas vagas.
Sei que os mapas não assinalam
o tumulto das areias com que o vento
vai refazendo as dunas.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

9.10.17

Menina com bibe

Amedeo Modigliani

Quem foi que roubou os meus sonhos
brancos de menina e me pôs no olhar
a imensa clareira da tristeza?

Como esquecer aquele tempo
em que eu brincava com o vento
e rebolava na erva e cantava
com as cigarras e me espantava
com o desenho das nuvens?
Como não lembrar os dias
em que nada quebrava a porcelana
dos lírios de intacta leveza?

À margem de trilhos ao acaso
vagueio para além de mim
sem que os pés se amarrem ao chão. 
As minhas mãos, sobre o regaço,
estão trémulas e vazias.

Retenho as lágrimas
como se dispersasse as chuvas.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017 

2.10.17

O tempo sobre o tempo

CNB

De repente era eu no prolongamento de mim.
Tracei o próprio corpo em transparência de tule.
Na ponta das sapatilhas pousaram aves inquietas.
Esboçaram a leveza azulada das sombras,
cindidas em singular aceno.
Rodopiaram a claridade dos sonhos
até que rosto algum pudesse resistir-lhe.

De repente eras tu no prolongamento de ti.
A roçar o meu chão.
Em impulsos cativos do espaço.
Em tumultos circulares até ao infinito.
Em vertigem aflita por cima do abismo.
A fazer da queda um tão breve equilíbrio,
que o tempo sobre o tempo renascia.

Depois fomos nós.
Primeiro a sedução, indecisa ainda,
no improviso do desejo.
Um movimento subtil a enredar-se
na demora de pressentir o gozo.
E desse tardar, vencidos nos repartimos na dança,

no tango: o prazer do jugo presumido no olhar.
O corpo todo, que cede e se recusa no júbilo do sangue.
Ai, devagar, que os ardis deste cerco nos tomaram.

Graça Pires
In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 27

Poema feito depois de ter assistido ao reportório de bailados “Serenade”, “Grosse Fuge”, Herman Schmerman” e “5 tangos”, a convite da direcção da CNB, através de João Costa, Fev. 2016.

25.9.17

Em seara alheia


Águas vivas

Estão vivas as águas do meu rio,
esta fala e este sentir intenso,
estas escarpas e estas aves
e estas farpas que abrem
asas ao tempo.
Estão vivas estas ervas
que na secura do chão
atiram poemas ao ar
e vestem a fraga nua e dura
de cor, alegria e beijos
de longo e intenso verão.
Estão vivas as palavras
que se roçam aos lábios,
plenas de sentidos, perdidas
na sede da descoberta.
Palavras que atiçam os veios
das águas a fluir no interior da terra.
Palavras que atiçam o gosto
de amoras maduras.

Teresa Almeida Subtil
In: Rio de infinitos. Produção Independente, 2017, p. 52

18.9.17

O verbo

Christine Ellger


O verbo: clareira em cama de fenos
ou ilha oculta de ocultos silêncios.
Como se o nervo do vento
fustigasse a voz dos poetas
esmagando a rigidez dos sons.
Apta a declinar as regras do jogo
retenho, nas arestas da página,
o som do lápis, como um pião
rodopiando traços inseguros.
A película de imagens no interior do texto,
levemente aberto ao segredo das mãos
deixa que me habite um desvario
que faça regressar um verso invisível.

Graça Pires
De  Uma claridade que cega, 2015 

11.9.17

Mar

Hengki koentjoro

Não fales das conchas esmagadas 
quando os teus olhos 
são como um barco 
à entrada dos meus olhos. 
No fundo das águas, os corais 
rodeiam os meus sonhos. 
Porque eu sou a mulher que ama 
ferozmente o mar e canta 
com os navegantes 
a ladainha das vagas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

5.9.17

Antonia

Amedeo Modigliani

Em minha infância aflita
usava um inconfessado modo de rezar
as orações que me ensinaram.
Rogava para crescer depressa.

A crença em deus parecia-me converter
o desalento na delicada esperança de uma dádiva.

Agora, quem me dera não ter crescido tanto!
É tudo tão cruel neste tempo loucamente obscuro.
Preciso de palavras inteiras: ecos
na voz dos que não ignoram o sangue,
os gritos, os muros do ódio, a dor.
Preciso de palavras únicas a susterem
os sons da vida, com pétalas adejando na boca.

Quero ir com os viajantes ou com as aves
sem direcção prevista.

Quero decifrar horizontes e habitar
o desmedido quebranto do alvorecer.

Quero esgueirar-me pelo relento das grutas,
pelo lado mais escurecido das estradas e das casas.

E deixar que cada anoitecer me denuncie.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

29.8.17

Em seara alheia


NO PRINCÍPIO DOS PÁSSAROS

Nunca foi importante 
salvar o mundo
construir poemas
com palavras ininteligíveis

saber se és vento
barco relâmpago
mulher incerta
metáfora
escarpa
ou flor de estação

importante é quando passas
corpo de seara
sem magoar os cravos

e dulcíssima te desfolhas

Sempre me apaixonei
por esta desordem de cores
quando passas

não pelos teus passos
mas pela sua leveza
como no princípio dos pássaros

Eufrázio Filipe
In: Chão de Marés: colectânea de poesia 2013-2016. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2017, p. 105

23.8.17

Distante, o olhar

Katia Chausheva 

Distante, o olhar procura
as linhas entrelaçadas
no tempo dos tempos,
no esquecimento dos dias,
na raiz de um som primordial,
no rasto de vidas que se cruzaram.
Com a boca cheia de silêncios
clamo o vazio absoluto em minha voz
tão inacabada, tão sequiosa,
tão presa à garganta.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

16.8.17

Qual o significado de um nome

Moises Saman 

Qual o significado de um nome
se o nome se faz navio
que regressa sem leme,
desnorteando as mãos dos marinheiros
transfiguradas em remos;
ou o nome se faz terra que nos abre no colo
uma caverna onde vêm dormir
os bichos assustados;
ou o nome se faz grito que perturba as searas
e desfolha as flores silvestres
que recolhem o ruído dos passos;
ou o nome se faz forquilha
que fende a voz cativa de emoções?

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

8.8.17

Em seara alheia


os meninos colocam barcos de papel

os meninos colocam barcos de papel 
a navegar na valeta
e sonham com embarcações a percorrer países
e destinos improváveis de que são os comandantes
as meninas fazem grinaldas com folhas de arbusto
pintam as unhas com pétalas compridas de flores
e fingem que são rainhas
desfolham zangas fugazes e risos
intermitentemente com cores de eternidade
um futuro pouco distante
lhes dará um reino e um trono
em que o tempo será um bicho medonho
a devorar o futuro
e brincar será apenas uma coincidência
a aldeia agora é um fantasma de escombros
com casas que sorriem velhas de amargor e tristeza
porque as telhas estão gastas
e os fornos não dão pão
e os canteiros não têm flores
os risos dos meninos soam distantes
girassóis em busca de luz
a fabricar sonhos em outro lugar
a luta é um incessante caminhar
por uma selva sinuosa e densa
e há correntes onde os homens se agarram
para atingir os píncaros da montanha e tocar o céu
a brincadeira acaba num grito de mãe a dizer
vem jantar
o dia cheira ao suor dos homens
e ao riso distante dos meninos.

Graça Alves
In: Da Timidez dos Homens. Coimbra: Palimage, 2017, p. 38