16.7.18

Entre silêncios

Katia Chausheva

Diz o que viste quando desviaste
o olhar da claridade matinal.
Ficaste com mãos indecisas
na orfandade da luz.
E, ao redor dos lábios,
um espaço deserto desdizia
o esboço das palavras
que sempre afirmaste serem tuas.
Como se precisasses de outra boca,
de outra voz, de outros sons.
Como se o centro esvaziado de um grito
traçasse um vínculo contínuo entre silêncios.

Graça Pires
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 121 

9.7.18

Menina de tranças

Amedeo Modigliani

Não sei se os espelhos
me querem enganar,
ou se tenho agarrado à pele
o clarão das searas.

Hesitantes, os pássaros, gostam
de balouçar nas tranças
que me caem sobre os ombros,
enquanto corro, assombrada
e sem fadiga, em direcção
à última luz do dia.

Escondi, atrás dos cântaros, algas
escorregadias para deslizar até ao mar.

Vou conhecer a exultação das marés
no excesso da torrente.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 32 

2.7.18

Quase sede

Francesca Woodman



Um calor, quase sede,
amadurou as cerejas
nas bocas festivas,
envoltas em aromas de gula.
Apetece a sede assim adivinhada.
Apetece o hálito espesso
que a língua em seu ceder retém.
Apetece morder. Até ao caroço.
Com os dentes devassos de disfarçar o riso
ou roer as unhas junto aos muros
que amam os vendavais
e a flagrante solidão das borboletas.

Graça Pires 
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 117


25.6.18

Em seara alheia


distância

andava distante
sem encontrar sorriso que se visse
ou verbo que lhe acudisse
remendava a voz aqui e ali
com descontinuados brados
povoados de insetos quietos
de pernas para o ar
esquecidos do ato de voar.

e dobrava os rios que tinha inventado
com os peixes dentro
e as algas, as cachoeiras, os seixos
e depois de tudo desconsertado
descerrava um molho de nuvens
e desenhava no peito
uma porta para o deserto.

farto de abastecer a solidão,
labuta agora arduamente
na construção de um oásis
que virá secar a sua sede.

Lídia Borges
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 38

16.6.18

Foi em Junho


                     Para o meu filho Pedro

Desenho no ar um desvio para o passado 
e teço, em meu peito, um regozijo solar.
Cerro os olhos para que uma luz, quase oculta, 
tome meu espanto, me devolva 
o sentido único da claridade, 
o rumor de uma inefável madrugada 
e o límpido tumulto que ousou minhas águas.
Foi em junho.
Antes do solstício.
Antes de nascer o sol.
Eu tinha uma túnica de linfa cosida 
no lugar mais sagrado do ventre.
Um aceno de aves circundou meu sangue 
e recolheu meus signos 
como cálamo acendido na boca dos sonhos.
A eternidade a pulsar no comovido prodígio de viver!

Graça Pires, 2018

11.6.18

Quando o espelho me devolvia a frieza

Duane Michals

A página vazia era um golpe
oculto a ferir-me o peito.
Todos os dias eu amanhecia
sem palavras com a opressão
do susto sobre os ombros.
O princípio e o fim dos tempos
confundiam-se, numa escrita ausente,
em tropeço com a vontade.
Com mãos indecisas eu tacteava
a nostalgia de meus olhos
quando o espelho me devolvia
uma frieza dispersa pelo rosto,
a devorar-me a boca,
a transformar-se num abismo
que engolia as lágrimas, o riso, os sonhos.
Graça Pires
In: As vozes de Isaque: derivações poéticas a partir da obra “O último poeta”, de Paulo M. Morais. Braga: Poética, 2016, p. 17

4.6.18

Mulher com xaile vermelho

Amedeo Modigliani



Uma brisa fria vem roçar-me a cara
nesta primavera desabrigada,
onde os pássaros rodopiam
uma valsa estremecida,
como se temessem o vento. 

Falo pouco nestes dias,
em que me cobre
uma luz lívida e muda. 

Cubro os pulsos com os folhos da blusa
para jurar silêncio, quando a mancha
do luar atingir o peitoril da janela. 

Na borda da cadeira em que me sento
poiso, ao de leve, as minhas mãos
frias, quase de pedra. 

Tenho a cingir-me o peito
um xaile de merino para abafar
as batidas desoladas do coração.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 43

28.5.18

Desse tempo




Robert Doisneau
Do tempo. Desse tempo em que as cidades
tinham casas com degraus exteriores
onde a luz e a treva adormeciam sem medos.
Desse tempo em que no campo eram benzidas
as oliveiras para que os relâmpagos
não atingissem o lagar,
nem o pão acabado de cozer,
nem o vinho novo, nem o regaço das mães.
Desse tempo em que as portas e as cancelas
dos pátios estavam permanentemente abertas
aos passos de quem vinha.
Desse tempo em que as cores dos berlindes
brilhavam nos olhos das crianças
que, de rua em rua, escolhiam os amigos
para a troca, para a briga, para a bola.
Desse tempo em que as mulheres
levavam na cabeça os cântaros, ou a fruta,
ou os desejos inconfessados do prazer.
Desse tempo tão diferente, até no modo neutro
como olhamos a vida, espalhamos pela casa
os rostos e os nomes.
Desse tempo.

Graça Pires
In: CONTINUUM: Antologia poética. Pinturas de Luís Liberato e  fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 119

21.5.18

Anna com vestido branco

Amedeo Modigliani


Gosto de me levantar de madrugada,
quando ainda são anilados
os vultos de quem passa.

Gosto de reter, no fundo do olhar,
o instante primeiro do dia, para recuar
ao tempo em que coleccionava barcos
de papel e deles me tornava marinheiro.

As vagas, lembro, começavam
nos meus dedos quando sobrepunha
o mastro sobre a quilha, com búzios
cristalinos a enfeitar os pulsos.

E visto-me de branco
como se fosse a menina
que descobre a primeira sede,
ou a primeira nascente,
ou a primeira paixão.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 38

14.5.18

Em seara alheia


Açúcar-água

No meu rosto agora temperado a sal, um rio desce por entre o acastanhado dos
olhos. E tu, de braços estendidos junto à figueira. O cheiro doce das margaças
secas e dos figos caídos perto do tronco. O lado salpicado de pequenas bolhas
indicando o lar dos girinos, e o sino que ao longe se ouve como se uma boca
fosse e me chamasse. O muro de silvas. As abelhas zumbindo rente à água do
lago. E é assim neste açúcar-agua onde as pernas tremem que me faço amante.
Em mim nasces, vives, e por detrás da porta, moras.

Francisco Valverde Arsénio
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, desenhos de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 20

7.5.18

Foi em Maio

                                     
                                          Para a minha filha Ana     

Bebo, em taça redonda, um sumo de romã.
Quero a maciez de uma voz emocionada
que me rase sobre as pálpebras
o apelo das águas para celebrar o dia.
O coração não cabe nas palavras
quando a dádiva e o fascínio se confundem.
Distancio-me de mim.
Um breve lume acende na lembrança
o prodígio da luz de maio.
E deixo que a emoção encontre a ânfora
onde guardei o mel com que aclarei
os gritos abafados no recato da noite.
Sinto, ainda, o cheiro do leite quente
guardado em meus seios para delírio
precoce da boca que sugou a minha sede.
Um silêncio indiscreto a proclamar a vida!

Graça
Pires, 2018

30.4.18

Até ao arco-íris mais belo



À memória da Filipa Barata (1981-2014)


Há outra linguagem
presa às arestas do destino.
Linguagem impressa
nas pedras que se pisam
e onde se inscrevem
para sempre todas as quedas,
todos os recomeços,
todas as memórias.
É uma linguagem sem margens
que abrasa a existência,
contamina a fragilidade das mãos
e atrai as aves fatigadas,
no infinito de seu voo,
até ao arco-íris mais belo.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

23.4.18

LEMBRAR ABRIL



ATÉ SER OUTRO DIA

Mesmo que nos queiram
roubar a luz
não conseguirão
amordaçar a voz
que rebenta no chão
em flor 
às mãos cheias

Abril respira a céu aberto
contra nevoeiros
mares desgrenhados
e outros destinos

Ainda há crianças a plantar cravos
no coração das aves

a levar o pão
à boca das sementes

até ser outro dia

Eufrázio Filipe
In: Chão de marés: colectânea de poesia 2013-2016. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2017, p. 11

16.4.18

Dedie

Amedeo Modigliani


Abri a janela para a manhã
que despontava e descobri
uma andorinha sobre o parapeito.
Uma leve suspeita de ausência
percorreu o meu olhar. 

Talvez, entre as minhas mãos,
sobrepostas, apenas uma intuição
imprecisa se demore.
Talvez a névoa que flutua sobre as papoilas
esconda as estrelas
que ficaram presas no pulso da noite.

Dentro de meus olhos um mar sem limite.

Um cais é apenas a pedra que projecta
a intermitência dos barcos no coração.

Tão breve a luz na idade do rosto!

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 33

9.4.18

Em uníssono


Moises Saman

Indagamos, em uníssono, o avesso dos dias
retalhados por mãos adversas,
para não nos equivocarmos
com o rosto deste mundo
em constante calafrio, em arriscada deriva.
Porque estes são tempos exasperantes
de perder as pátrias e as casas
e os pais e os irmãos e os amigos
e os nomes e a memória.
E nas imensas planícies enegrecidas
é desabrido o som dos que bradam
quando as crianças ensurdecem no silêncio.
A meia-haste, arvoramos a rugosidade
das cinzas e o rasgão do medo,
para não permanecermos alheios
à saturação dos que sangram,
dos que tombam, dos que resistem.
Graça Pires
In: CONTINUUM: Antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 123

31.3.18

Convite - ANTOLOGIA POÉTICA

A Festa foi linda. Obrigada a todas e a todos que participaram nesta Antologia. É um orgulho fazer parte dela.


Minhas Amigas e meus Amigos: tenho a certeza que vão gostar dos poemas destes autores. Apareçam!!!

Podem também adquirir a Antologia em pré-venda (com desconto) até à data de lançamento (ver canto superior direito deste blogue)

26.3.18

Mulher sentada

Amedeo Modigliani


Quero morar no silêncio perfeito
aguardado pelas aves migradoras 
para voarem até um lugar sem sombras.

Há muitos mundos fui mulher ungida
com o sangue e o leite de minha mãe,
raiz onde se prendeu o meu nome.

Preparo, agora, com gestos minuciosos
uma evasão fortuita,
enquanto me enceno nos espelhos.

Quero que me circulem no sangue os rios todos
inundando a boca seca: quase vento, quase sal.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 41

21.3.18

A Poesia é um fogo sagrado


Steve Thoms

Naquela noite eu só procurava um lugar para morrer.
Havia o cume da montanha tão perto das estrelas
e da liturgia dos sons. Havia um xaile de lã.
Uma casa caiada de gemidos. Uma mulher.
Para quê improvisar o pretexto da morte
se guardava já, delineado no olhar,
um puríssimo lago a antecipar o dia,
o primeiro, quase, em que as palavras
tinham a inteira claridade das manhãs?
Mergulho no dia como em mar ou seda,
repetia, a mim mesmo, sem parar.
A Poesia é um fogo sagrado a iluminar a vida!

Graça Pires
In: As vozes de Isaque: derivações poéticas a partir da obra “O último poeta”, de Paulo M. Morais. Braga: Poética, 2016, p. 17

12.3.18

Em seara alheia



Amáveis comodidades

Vem viver comigo,
estou cansado do na tua ou na minha casa,
com hora de ponta e portagens pelo meio.
Para mais deixei morrer as plantas, 
dá-me pena a solidão do gato,
o teu colchão é péssimo para as minhas costas,
a água do teu chuveiro sai sem pressão,
não tens espaço suficiente para os meus livros,
só pagávamos uma factura de luz,
podíamos ter um cão
e fazer um filho.
Eu gostava de ver crescer um filho contigo.

Raquel Serejo Martins
In: Subúrbios de Veneza. Desenhos de Ana Cristina Dias.  Braga: Poética, 2017, p.24

5.3.18

Georges van Muyden

Amedeo Modigliani


Dizem que as mulheres
não devem ter opinião.
Ergo a cabeça ao insulto,
com os lábios atravessados de ironia. 

Nada expressam os meus olhos,
porque os povoei de enigmas
para subverter afirmações sem nexo.
Golpeio preconceitos: o golpe e a chaga
no mesmo esmagamento debelados. 


Uma agitação no contorno do decote
rasgou-me, nas entranhas,
até ao sangramento, um exílio
onde acoitei inconfidências e prazeres. 


É precavido o vagar da minha voz
a silenciar a posse das palavras.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p.15

26.2.18

Luz

John Martin

Persigo a noite na margem proibida das trevas.
Um júbilo nocturno incendeia todos os espelhos
e sob o coração das sombras vislumbro,
em meu olhar, o mais intenso brilho.
Não sei mais o que dizer.
É tão frágil tudo o que nos pode purificar!

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 18

19.2.18

Em seara alheia




Infância

Lembras-te
Do chão frio da estrada?
Da roupa de lã grosseira
Remendada, rasgada
E vestida de qualquer maneira?
Das jogas quentes na mão
Que o Inverno
Teimava em arrefecer?
Lembras-te da roupa molhada
Pregada ao corpo franzino
Arrepiado e dorido?

Lembras-te
Da masseira vazia e nua
Da sopa crua,
Do candeeiro,
Do halo, luz mortiça
E do vento a entrar
Pelas vidraças?

Lembras-te? 
Quando a tempestade caía
E tudo parecia desabar!?
Que medo!
Mas, e falar?
A voz perdia-se na noite fria da tempestade
Lá fora
E cá dentro.
E o medo adormecia a medo
E a manhã acontecia devagar.

Fátima Almeida
In: A sombra dos dias.- Fafe: Labirinto; 2016, p. 24-25

12.2.18

Jeanne

Amedeo Modigliani


Havia uvas maduras na curva
mais acentuada da sebe do quintal
e pão quente sobre a mesa do alpendre,
quando se me enroscou no olhar
a serpente entontecida do fascínio.

O verão concentrara em meus cabelos
todo o aroma dos ventos do sul.
Por minha boca se media, em rubor,
o caudal, alheio ainda, do rio
que nascia em tua boca.

E aprendi a amar-te no silêncio
do teu perfil sem mágoas.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017