18.3.19

À espera do poema





Nenhum grito, nenhum indício, nenhum anjo
anunciou que chegarias, assim, poesia,
imprevisível e sedutora, a transfigurar
as palavras que me rebentam na voz.

No pulsar do silêncio te encontrei,
ao escavar os sonhos no meu peito,
na rigorosa idade do assombro.
Como se tivesse uma alegria
quase infantil calada no sorriso,
que se fez bênção, impulso,
canção de louvor ou de protesto,
abraço sem distâncias nem fonteiras.

Agora, quando a rebelde possibilidade das sílabas
convoca o sobressalto das sombras,
e o olhar se embacia de secura,
e as mãos, nómadas de nostalgia,
arrefecem entre as páginas,
diante da emoção da linguagem me debruço
à espera do poema que me salve e me liberte.

Graça Pires
In: A minha palavra: antologia de escritos avulsos. Edição comemorativa do 5º aniversário da Poética Edições. Braga: Poética, 2018, p.17

11.3.19

Um lugar para morrer



Naquele mês espalhara-se a insólita notícia
da vinda de andorinhas brancas
trazidas pelos ventos do deserto.
Todas as mulheres subiram às colinas
mais íngremes abandonando as casas,
dias a fio, com o corpo envolto em panos negros.
Tinham pressentido,
no lentíssimo movimento do voo, que cada ave
procurava apenas um lugar para morrer.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 62

4.3.19

Em seara alheia


Caminham as mulheres com as suas extensas lezírias
e luas em trânsito.
Vêm de cidades submersas anteriores às cidades
dos musgos e fetos de flores primitivas.
Surgem dos lugares iniciais
e trazem o lume da distância para perto.

Vestem brancos linhos azuis que o vento volteia
desde o livro de moisés.
No aceso silêncio dos olhos derramam intensos perfumes
e com o longo lavrado dos cabelos encobrem
o lustro da nuca e inclinam a varanda dos ombros
para uma paisagem de penumbras iluminadas.

Quando sobre o restolho distendem as pernas
definem num sopro o relevo das planícies.
Erguem casas nas margens dos lagos, erguem todas as casas
nas margens do pensamento.
E um palmo depois da soleira da porta a noite reincide
o mundo cai a pique depois da última parede.

Rui Miguel Fragas
In: Sobre o prumo das falésias. Fafe: Labirinto, 2018, p. 41


25.2.19

Elvira

Amedeo Modigliani


Nesta manhã em que as premonições
pulsam a bússola dos sentidos
vou usando aquele modo inútil
de morder as palavras até ao amargor.

Não amassei o pão. Não lavei a roupa.
Tenho os pés inchados e a cor do asfalto
trespassada no olhar.
O corpo agitado acima da desordem
tornou-me fugitiva, clandestina,
a versão disfarçada do meu nome.

Exercito argumentos na ferrugem
da descrença e deixo que o desvario
de pretéritas dores refaça os sonhos
que em nenhuma fala se pronunciam.

Finco o cotovelo sobre a mesa
e resvala-me o pensamento
para um tempo anterior à solidão.

Já não me inquietam os pequenos
detalhes com que se pode enlouquecer.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 11

18.2.19

Queria prender no cabelo

Robert Coombs

Queria prender no cabelo
uma haste de sol ou um pássaro,
mas ninguém retirou as trepadeiras secas
para que a hora de verão retocasse a cal
dos muros sulcados pela chuva.
Ninguém indagou o brilho deslumbrado do olhar
quando o golpe da noite desafiava o vulto dos corpos.
Apenas o azul silencioso dos cumes
se abrigou no regaço onde as meninas
escondem o abraço das mães
para que o mel regresse às colmeias silvestres.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 24

11.2.19

De seda



São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 25

4.2.19

Em seara alheia



Comment interroger ce qui nous échappe aussitôt?
Bernard Noel

A António Ramos Rosa

Toda a presença vence os limites do corpo

tudo está por dentro, por detrás de quem olha.
Minucioso trabalho o da construção do poema foi o
que me transmitiste, lâmpada que se acende ao ritmo
do corpo das mãos como asas num vislumbre
que queima. Lá onde estás, não me perguntes se
escrevo ou se me invento.
Resido para alguns no fim dos teus dedos como
se quisesse arrancar penas aos textos que
teceste. Embora, me pergunte se choram em mim
os teus apelos ou se são réplicas de um feitiço
o que me deixaste, concebi um ninho de poemas
dentro de mim - Ítaca talvez seja o nome onde
teço o que sei para regressar e desteço lentamente
tudo o que aprendi para chegar enfim ao corpo inicial.

Gisela Gracias Ramos Rosa
In: A Pedra e o corpo. Braga: Poética, 2018, p. 73

28.1.19

Mulher com gola branca


Amedeo Modogiliani

Há quem prefira desenhar flores,
ou jogar às damas,
ou tomar chá de laranja doce.
Eu gasto o meu tempo entre aqueles
para quem os dias são apenas
uma irremediável espera.

Não ignoro o impulso das lágrimas
no choro dos meninos cercados de orfandade.
Conheço o desespero agitado do suicida.
Sei de cor o trejeito de mágoa que o pesar,
sem aviso, deixa em lábios
 sufocados de desânimo.

É difícil, sim, este ofício de partilhar
os sobressaltos da vida.
Ou da morte. Ou da solidão.

Mas reparto, em dádiva,
uma alegria quase clandestina.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 23

21.1.19

Antes do homem havia a terra


Antes do homem havia a terra:
geografia mágica, sagrada
que, na luz e na treva, explodiu
de espanto e guardou, milenarmente,
os mistérios da vida e da morte.
Depois da terra veio o homem.
E o homem tornou-se um morador incauto
e perdeu o paraíso onde agora os deuses,
quando passam, desviam o olhar.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 46

14.1.19

Da infância

Albino Moura

Por trás de cada sombra
que resvala por novembro
descubro o espanto no meu rosto de criança.
O irmão no berço entre o choro e o sono.
O riso das irmãs.
Os tropeços na correria ao redor das árvores,
como se déssemos a volta ao mundo.
A mãe, o pai, para sempre.
O universo colado ao destino.
Os bichos-de-conta a rolarem no cimento
impelidos por nossos dedos.
As noites acolhendo os brinquedos de corda
na véspera das tardes mais longas.
O antecipado prazer de ouvir a voz materna
a chamar cada filha como se fosse a única.

Graça Pires 
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 122

7.1.19

Em seara alheia



Por vezes é assim

Por vezes é assim. Uma pequena fissura no pensamento,
e o mundo divide-se.

José Luís Outono
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 96

2.1.19

Aguardamos uma luz

Brancusi

Aguardamos uma luz de seiva
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 60

17.12.18

A ilusão cresce nas montras

Pedro Pires Livramento

A ilusão cresce nas montras
presa nas bolas coloridas das árvores
abundam e brilham corações e estrelas
misturam-se figuras cristãs e pagãs
e há um fio que nos prende
e nos deixa suspensos entre o céu e a terra
e nos leva os nervos
para a terra passageira dos sonhos
natal dos ímpios e dos impuros
que lavam a cara no mar do lucro
Jesus morreu
mas os sinos repicam
os anjos embebedam-se 
de verde vermelho e dourado
de fitas e laços
e cantam
glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens de boa vontade
as mãos estendidas dos pedintes
sorriem de esperança
ao dia da sopa quente a chegar

Graça Alves
In: Da timidez dos homens. Coimbra: Palimage, 2017, p. 41






Que venham os anjos que nos guardam refazer em nossas mãos um presépio de amor.
Que celebrem em nosso olhar o desejo da luz, a promessa da paz, a certeza do bem-estar.



Um Bom Natal e um Novo Ano Melhor !

Até para o ano…



10.12.18

Mulher com olhos azuis



Amedeo Modigliani


Vou pela noite com borboletas
azuis afogadas no olhar.
Não entrevejo a lua,
nem há vultos indiscretos
assombrando o espaço à minha volta.

Parece de sombra, eu sei, este meu gesto
de segurar, com a mão direita
as bordas do vestido.

Ignoro se relembro as noites da infância,
em que evocava, no escuro, os barcos,
os piratas, as princesas, emergindo
todos do contorno das trevas
que se amontoavam nos meus olhos
até adormecer.

Não sei se procuro os avanços e recuos
de um passado em que o azul das garças
fazia nos meus olhos a secreta anunciação
do arco-íris à boca da manhã.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p.36

3.12.18

Quase lágrimas

Walker Evans

O viajante ajoelhou-se sobre a terra
e cantou e cantando rezou.
Carregava nos ombros o afluente de um rio
para o largar no longo chão das lavouras.
O pão ázimo lhe sufocava a fome.
A chuva lhe esquecia a sede.
Seu coração emudecia quando um denso
nevoeiro (quase lágrimas) lhe gravava na boca
o clamor dos glaciares desmoronados.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 40

26.11.18

Em seara alheia



Afagas a mesa com tuas mãos de terra, mãos
nodosas habituadas à delicada tarefa das raízes.
Abres uma toalha branca. Uma toalha de linho
que deixa no terraço um odor a lavanda e estudas
o silêncio pelo intervalo das gárgulas, enquanto as
mulheres, exaustas, dispõem os copos, as fatias de
broa, os jarros com sangria. Afagas a mesa para o
rito primordial, pedaço de um sagrado que se abre
pelo terraço, pelos animais, pelos corpos sempre
divididos entre a violência do trabalho e a ascendente
pureza do desejo. Afagas a mesa para essa cerimónia
sem castigo nem pecado, sentas-te depois expetante
com uma terrível ausência a teu lado.

Victor Oliveira Mateus
In: Aquilo que não tem nome.  Posfácio de Ana Paula Dias. Lisboa: Coisas de Ler, 2018, p. 12

19.11.18

Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo

Ana Pires Livramento

Os rituais da infância não nos deixam esquecer:
Era verde a sombra das árvores no pátio da escola.
Eram verdes os trigais pejados de papoilas.
Eram verdes os pássaros que traziam um prado
colado ao voo rasante, nas tardes de verão.
E os rios tão verdes. Tão verdes as águas.
Tão verdes os peixes. Tão verdes os barcos invisíveis.
Tão verdes as mãos com que agarrávamos o tempo.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 27


Esta semana, o livro já pode ser encomendado por quem o desejar, em qualquer livraria, ou na Editora Coisas de Ler. Serão substituídos os livros das pessoas que o adquiriram no lançamento. Peço desculpa pelo que aconteceu e espero que gostem dele.

12.11.18

Cantaremos um salmo pela terra


Temos um quebranto no friso do olhar
e demoramo-nos no canteiro dos amores-perfeitos
para que as mãos cobertas de melindre
sintam a pulsação das árvores em prece.
Em redor da cintura enrolaremos
os sonhos do mundo
e cantaremos um salmo pela terra, tão inquieta
pela aflição dos ventos da montanha.
Uma harpa de chuva evocará as pétalas perfeitas
na ponta dos dedos.

Graça Pires

De Uma vara de medir o sol, 2018, p.33

29.10.18

Convite - UMA VARA DE MEDIR O SOL

Atenção! Devido a erros de impressão que afectam o conteúdo dos poemas, peço que não façam pedidos até o problema estar corrigido...





Anteriormente publicado no Brasil, este meu livro "Uma vara de medir o sol" chega agora aos meus leitores portugueses que, tenho a certeza, o vão apreciar.

Esta sessão de lançamento, juntamente com o belíssimo livro do Victor Oliveira Mateus "Aquilo que não tem nome", fica à espera que nos deem o prazer da vossa presença. Obrigada.
De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.

De Uma vara de medir o sol, p.35

22.10.18

Em seara alheia


des.construção


*
perturbante o caminho de mensagens
que um dia tiveram destinatários

*
delas nada resta
a não ser o Ser-ainda-mar
quando a paisagem se impõe remissiva e
o bom senso exige
adeus aos heroísmos

*
somos tão só
mensageiros do devir

Gabriela Rocha Martins
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 73

15.10.18

Em cima dos rochedos

             
Heinrich Vogeler


Em cima dos rochedos aprendi a observar
as migrações dos pássaros, a descobrir
pelas estrelas a direcção dos navios
e a entender os gritos das mulheres
caminhando loucas pela praia
quando pressentem a traição do mar.
As nuvens concentram-se no horizonte
como lágrimas em relevo
engrossadas pelo relento.
Dói-me nas mãos uma crueza 
semelhante a uma emboscada.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 17

8.10.18

Convite - Antologia CONTINUUM no Porto


Os autores desta antologia: Francisco Valverde Arsénio, Lídia Borges, Isabel Cabral, João Carlos Esteves, Gabriela Rocha Martins, João Morgado, José Luís Outono, Rita Pais, Graça Pires agradecem a vossa presença. Tenho a certeza que vão gostar participar, se puderem, neste encontro de cores e palavras com o céu do Porto.

1.10.18

Jeanne com blusa branca

Amedeo Modigliani


Abri de par em par as portadas das janelas
para deixar passar a luz deste alvorar ao sul.

Trago no sangue o suco da fruta
a provocar a língua, de outras águas
recordada e o sabor acetinado das romãs.

Trago na pele o veludo dos pêssegos
arredondados na mão antes da boca
e a previsão rigorosa das manhãs claras.

Em volta dos meus ombros sobrevoam
abelhas invisíveis atraídas pela brancura
da blusa, ou pelo lago azul do meu olhar,
onde flutua o pólen da tristeza.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, p. 40

24.9.18

Nos dias tranquilos

Vicki Mcmurry

Sem motivo aparente, a quietude
desliza no interior da casa.
A luz que a inunda nos dias tranquilos
tem uma inclinação tão perfeita
que até os mais inacessíveis ângulos
se sobressaltam com o próprio brilho.
É raro amanhecerem dias assim:
debruçados sobre o sol, com a inesperada
imparcialidade das sombras.
No horizonte desenha-se a demora
nocturna, na intensidade do poente
preso à maré mais recuada.
À mercê da brisa procuramos uma prece,
uma canção, um tumulto de asas
e a vertigem incontida das estrelas.


Graça Pires

In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 118


ATENÇÃO: A apresentação desta Antologia Continuum vai realizar-se no Porto, no dia 13 de Outubro, pelas 17 h., no Bar Era Uma vez, na Rua das Carmelitas, 162. Desejo que, quem estiver por perto, esteja interessado em participar. Os autores agradecem.

17.9.18

Em seara alheia


Ensaios

A sede instalou-se.

na aridez da ausência
o pó dos dias velou a memória do toque
e da pele em fogo

as tuas mãos
perderam o rumo do meu corpo

e eu
já só renasço quando me sonhas

João Carlos Esteves
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 56

10.9.18

A medida certa de um abraço

Amanda Cass


                                      Para a Cleri Aparecida Biotto Bucioli


Vieram do oceano ou do fundo do olhar
as aves com asas aniladas.
Sobrevoaram a praia deserta
e pousaram na escarpa mais alta
para avistarem a distância
que o vento apetece em suas penas.
Na linha das areias, a medida certa
de um abraço.

Graça Pires 
De Uma claridade que cega, 2015, p. 42