18.9.17

O verbo

Christine Ellger


O verbo: clareira em cama de fenos
ou ilha oculta de ocultos silêncios.
Como se o nervo do vento
fustigasse a voz dos poetas
esmagando a rigidez dos sons.
Apta a declinar as regras do jogo
retenho, nas arestas da página,
o som do lápis, como um pião
rodopiando traços inseguros.
A película de imagens no interior do texto,
levemente aberto ao segredo das mãos
deixa que me habite um desvario
que faça regressar um verso invisível.

Graça Pires
De  Uma claridade que cega, 2015 

11.9.17

Mar

Hengki koentjoro

Não fales das conchas esmagadas 
quando os teus olhos 
são como um barco 
à entrada dos meus olhos. 
No fundo das águas, os corais 
rodeiam os meus sonhos. 
Porque eu sou a mulher que ama 
ferozmente o mar e canta 
com os navegantes 
a ladainha das vagas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

5.9.17

Antonia

Amedeo Modigliani

Em minha infância aflita
usava um inconfessado modo de rezar
as orações que me ensinaram.
Rogava para crescer depressa.

A crença em deus parecia-me converter
o desalento na delicada esperança de uma dádiva.

Agora, quem me dera não ter crescido tanto!
É tudo tão cruel neste tempo loucamente obscuro.
Preciso de palavras inteiras: ecos
na voz dos que não ignoram o sangue,
os gritos, os muros do ódio, a dor.
Preciso de palavras únicas a susterem
os sons da vida, com pétalas adejando na boca.

Quero ir com os viajantes ou com as aves
sem direcção prevista.

Quero decifrar horizontes e habitar
o desmedido quebranto do alvorecer.

Quero esgueirar-me pelo relento das grutas,
pelo lado mais escurecido das estradas e das casas.

E deixar que cada anoitecer me denuncie.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

29.8.17

Em seara alheia


NO PRINCÍPIO DOS PÁSSAROS

Nunca foi importante 
salvar o mundo
construir poemas
com palavras ininteligíveis

saber se és vento
barco relâmpago
mulher incerta
metáfora
escarpa
ou flor de estação

importante é quando passas
corpo de seara
sem magoar os cravos

e dulcíssima te desfolhas

Sempre me apaixonei
por esta desordem de cores
quando passas

não pelos teus passos
mas pela sua leveza
como no princípio dos pássaros

Eufrázio Filipe
In: Chão de Marés: colectânea de poesia 2013-2016. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2017, p. 105

23.8.17

Distante, o olhar

Katia Chausheva 

Distante, o olhar procura
as linhas entrelaçadas
no tempo dos tempos,
no esquecimento dos dias,
na raiz de um som primordial,
no rasto de vidas que se cruzaram.
Com a boca cheia de silêncios
clamo o vazio absoluto em minha voz
tão inacabada, tão sequiosa,
tão presa à garganta.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

16.8.17

Qual o significado de um nome

Moises Saman 

Qual o significado de um nome
se o nome se faz navio
que regressa sem leme,
desnorteando as mãos dos marinheiros
transfiguradas em remos;
ou o nome se faz terra que nos abre no colo
uma caverna onde vêm dormir
os bichos assustados;
ou o nome se faz grito que perturba as searas
e desfolha as flores silvestres
que recolhem o ruído dos passos;
ou o nome se faz forquilha
que fende a voz cativa de emoções?

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

8.8.17

Em seara alheia


os meninos colocam barcos de papel

os meninos colocam barcos de papel 
a navegar na valeta
e sonham com embarcações a percorrer países
e destinos improváveis de que são os comandantes
as meninas fazem grinaldas com folhas de arbusto
pintam as unhas com pétalas compridas de flores
e fingem que são rainhas
desfolham zangas fugazes e risos
intermitentemente com cores de eternidade
um futuro pouco distante
lhes dará um reino e um trono
em que o tempo será um bicho medonho
a devorar o futuro
e brincar será apenas uma coincidência
a aldeia agora é um fantasma de escombros
com casas que sorriem velhas de amargor e tristeza
porque as telhas estão gastas
e os fornos não dão pão
e os canteiros não têm flores
os risos dos meninos soam distantes
girassóis em busca de luz
a fabricar sonhos em outro lugar
a luta é um incessante caminhar
por uma selva sinuosa e densa
e há correntes onde os homens se agarram
para atingir os píncaros da montanha e tocar o céu
a brincadeira acaba num grito de mãe a dizer
vem jantar
o dia cheira ao suor dos homens
e ao riso distante dos meninos.

Graça Alves
In: Da Timidez dos Homens. Coimbra: Palimage, 2017, p. 38

2.8.17

Jovem morena com franja

Amedeo Modigliani

Não digam a ninguém,
mas hoje, lá na loja,
foi um vai e vem de rapazes
para me verem de franja.

As senhoras que foram comprar
meias de seda, ou um tecido,
ou uma bugiganga qualquer
olhavam-me com suspeição.

Percebi que é falso, quase tudo
o que aprendi sobre os segredos
das mulheres que encobrem
a ansiedade no recamo do decote.

A sedução é um brilho cegante
e, quem sabe, um lençol de mágoas.

Intenso foi o tumulto de aromas
estranhos que a todas nos perturbou.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

26.7.17

Por um instante, as formigas


Laura Makabresku

Era uma floresta fantasiada.
Era um carnaval de gestos
na metamorfose dos corpos,
delineando o próprio rosto.
Eram animais míticos e reais.
Por um instante, as formigas
saíram-me do olhar, em ondas vagarosas.
A cegueira arredondou-lhes o espaço
com fios impalpáveis.
Agonizaram à procura do sulco dos meus olhos.

Graça Pires
In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 46

Poema feito na sequência de ter assistido ao bailado “Carnaval [dos Animais]”, coreografado por Victor Hugo Pontes, a convite da direcção da CNB, através de João Costa, Jun. 2016

19.7.17

No estio da terra

Ricardo Nascimento

De súbito, um submerso silêncio a ocidente das manhãs
entretece o cúmplice coração das searas no estio da terra.
Adivinha-se a quentura das águas através da brisa
que desliza pelos cabelos das crianças, num aconchego
quase tão delicado como o chamamento das mães.
Apetece resgatar alegrias e dar às coisas
nomes de flores, de anjos, de amigos.
Para lá do espaço há uma linha inclinada que não perturba
a curva do sol no recanto mais sensível do horizonte.
Os dias resguardam longamente a luz, e o crepúsculo
até dói no olhar desprevenido dos que esperam da noite
a transparência das sombras.

Graça Pires
In: Solstícios e Equinócios: antologia. Coord. de Emanuel Lomelino. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2016, p. 62

10.7.17

Em seara alheia


Rasga o Poeta as Vestes

Rasga o poeta as vestes. E clama seus passos
Ousando, de queda em queda, o fogo do milagre
E os caminhos de Damasco
E a Iluminação perene
Que o redima.

Não a prece, nem a tempestade. Nem o anjo.
Nem a espada - são de pedra seus passos
E inóspitos seus caminhos.

E é de areia o rosto das miragens.
E é de fel o colapso de seus dias.
E de amargura a água dos rochedos.

Ousa porém o poeta o milagre inscrito
Nas humaníssimas dores da Humanidade
E nelas lava o seu corpo místico
Como se rio fossem.

Manuel Veiga
In: Caligrafia Íntima. Braga: Poética Edições, 2017, p. 15

1.7.17

Nu sentado no divã

Amedeo Modigliani

Agora, que tomei banho
e me perfumei com infusão de rosas,
podes vir pintar o meu retrato.
Sento-me de lado.
Não quero que mostres
as curvas todas do meu corpo,
nem que desvendes a mais íntima
nudez de minhas sedes.

Tenho sob a pele a máscara da inibição
onde escondo o anseio mundano
de colorir o desacerto dos meus passos.

Por isso, retoca devagar o recorte dos lábios,
o desenho dos olhos e este quase pudor
que o gume do tempo teceu em meu sorriso.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que vou estar no Forum da Feira do Livro de Braga no dia 7 de Julho, a partir das 17 horas. É um gosto enorme que apareça quem estiver por perto.

24.6.17

Em tempos de oração

Ana Pires

Um dia nos pátios das casas
hão-de acender-se fogueiras
para atrair a chuva
como uma crendice de tempos remotos.
Seremos, passo a passo,
errantes de longínquas viagens
ou peregrinos perseguidos 
em tempos de oração.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

18.6.17

Mulher com camisola preta

Amedeo Modigliani

Já não possuo a voz de outrora,
quando repartir o pão
era um gesto maternal
e os filhos me pediam os olhos
para poderem adormecer.

Com os pulsos abertos
a qualquer aflição
manejo, como sei,
o sulco invisível da luz.

E sei-me rodeada por um rio
gemido até à secura.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

12.6.17

Em seara alheia



Poema tonto

Tu falaste e falaste do tamanho das coisas
sem adjectivos nem medidas, e eu, desastrada,
acabei por te contar que sou pequena. Depois
veio a chuva sobre ti, e eu corri à janela.
Não te vi e estranhei, até, a secura do céu
e da terra. Senti-me tonta de tanto ruído
no peito.

O barulho que pode fazer a chuva
Mesmo quando chove longe.

Virgínia do Carmo
In: Poemas simples para corações inteiros. Desenhos de Bernardo C. - Braga: Poética, 2017, p. 37

5.6.17

Lunia


Amedeo Modigliani


Sonhei toda a noite com barcos.

Apetece-me deixar as roupas
tombadas na cadeira
e ir procurar os verões da infância,
com navegações alvoroçadas.

Apetece-me circum-navegar
a mais remota distância
na infinidade do universo.

Apetece-me ser gémea de aves
matinais a desvendar alvoradas,

para que as minhas mãos
não comecem a gretar
quando um barco se afasta dos meus olhos.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

28.5.17

Anna com vestido preto


Obrigada a todas as Amigas e Amigos pelo caloroso acolhimento no Porto. 
Foi linda a Festa!

Amedeo Modigliani

Pouso devagar as minhas mãos
habituadas à luxúria dos gestos
e sento-me, imperturbável,
no meu sofá preferido.

Possuo nas costas de cada mão
um risco de contágio de sinais nocturnos
oxidados no reflexo de vultos antigos
que me açoitam o olhar.
Acolho o silêncio até à nesga de luz
que ilumina a esquiva linha de uma sombra
suspensa na pureza da noite.

Se me perguntarem o que faço aqui,
nesta serenidade mordaz, eu direi:
é um ritual diário, este, de me vestir
de negro para ver findar o dia.

Até agora nenhum crepúsculo
me deixou indiferente.
Mas a noite, essa, já começa
a pesar-me sobre o peito.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

Espero que as minhas amigas e os meus amigos que moram mais a norte, estejam comigo no Porto, no dia 2 de Junho, na Livraria Unicepe, às 18.30h. Obrigada.

15.5.17

Fui quase todas as mulheres de Modigliani - convites

Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo. Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam. Agora conto com os meus amigos do Norte para o dia 2 de Junho



Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram em Lisboa ou por perto. 
A 2 de Junho estarei no Porto.
Em data a confirmar estarei na Feira do Livro de Braga.
Fico à espera de toda a gente para fazer a festa com mais este meu livro. 
A vossa presença justifica o meu lugar na Poesia...

6.5.17

Digo Mãe. Digo Filha

Menez

Para a minha Filha Ana no dia da Mãe
Floresceram as cerejeiras no lento tempo do pólen.
E vieram as abelhas, e as primeiras cerejas,
e o puríssimo mel.
Veio também o mês de maio
e, com ele, a trémula ondulação das palavras.
Digo mãe. Digo filha.
Palavras ajustadas à inquieta harmonia do sangue.
Palavras que se tocam como rios
da mesma nascente inundados,
pela mesma sede procurados.
Palavras que se dizem, que se calam,
que se questionam, que se entrelaçam.
Onde estás, mãe?
Tem cuidado contigo, filha!

Graça Pires, 2017

1.5.17

Em lugares desabrigados

Dorothea Lange

Cravo as unhas na carne da indiferença.
Escrevo sangue
com o lápis gasto pela culpa acorrentada
à cegueira que desfoca os olhares
na bastardia dos abraços.
Digo fome
com os dentes colados à secura dos trigais
e às sobras rapadas nas latas do lixo.
Leio dor. Dolorosamente.
Em lugares desabrigados,
em portas franqueadas aos rasgões
da vida rondada pela morte.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

24.4.17

Continuar ABRIL

Gonçalo Viana


Os barcos têm sede: falta mar.
Os lenços não respiram: falta vento.
Que outro (a) mar das marés do teu olhar
me tragam ao país a que pertenço.

Os vidros têm fome: faltam cravos
assomados à janela do futuro.
Da teia dos meus dedos farei barcos.

Serão velas as palavras que procuro.

Hugo Santos
In: Armas de (a) mar. Lisboa: Ulmeiro, 1988

17.4.17

Indiferente ao desígnio das sombras

Katia Chausheva 

São longos os dedos
que sulcam o rosto difuso das noites
em que o luar queima os crisântemos
sem deixar vestígios
e os felinos transformam o chão
num local imprevisível.
Indiferente ao desígnio das sombras,
a luz insinua-se no lado misterioso
onde me encovo.
A luz e o silêncio.
Com artifícios insondáveis
e uma leve vigília
de dádiva ou de bênção.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

10.4.17

Em seara alheia


Hoje acordei com a dor das árvores;
estou de pé e o meu corpo sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
do rumor das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou...

Lília Tavares
In: Parto com os ventos. Ilustrações de Simone  Grecco. - Kreamus Edições, 2013, p. 15 

2.4.17

O lilás claro das hortênsias


O lilás claro das hortênsias,
galgando a periferia dos jardins,
espalha todos os aromas pela terra
enquanto as horas passam
e deixam nos cabelos outra tonalidade
e os passos perdem a pressa de outrora.
Adorno com aves sagradas
o altar onde se mitigam as crenças.
A cinza suspensa na vertigem das sombras!

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

20.3.17

Percorro devagar a minha sombra

Olga Astratova

Percorro devagar a minha sombra
para não assustar o bando de aves
adormecidas sob os dedos.
Vou traçar o perfil das árvores e do vento,
respirar o sentido da luz para contornar
os muros, até encontrar um campo de trigo
cúmplice dos primeiros aguaceiros de março.
Percorro devagar a minha sombra,
eu que precisei de cegar para sentir
o murmúrio desvairado dos pássaros,
subitamente despertos para um voo livre
envolto na memória antiga de um fuga.
E sobre a minha sombra, que percorro devagar,
sobreponho a fragilidade do poema.

Graça Pires
In: As vozes de Isaque. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 20

13.3.17

Em seara alheia


Encontro

Nem sempre sei
Onde deixar esta urgência de ti...
Se nas palavras,
Se nos olhos,
Sem que se perca no ar
Ou nas intransigências da vontade...
Esta urgência, é só o amor
A querer perpetuar-se
Em nós... a sós...
Onde o tempo é liberdade,
Onde as mãos são a pena
Escrevendo o poema urgente
Que não sei onde terminar:
Se em ti ou em mim,
Ou se na voz
Onde calas a tua
Num encontro de silêncios
Onde a urgência se torna maior.

Luana Lua
In: Voo entre faces. Porto: Versbrava Editora, 2016, p. 80