7.11.09

Dois Convites

Para os que moram na Figueira da Foz, ou por perto:

Dia 12 de Novembro de 2009, às 18 horas, na Biblioteca Pública Municipal




Para os que moram em Lisboa, ou por perto:


Dia 21 de Novembro de 2009 pelas 17.30 na Livraria Trama
Rua São Filipe Nery, 25 B, Lisboa




Teria imenso gosto em que estivessem presentes no lançamento do meu novo livro de poesia:
O silêncio: lugar habitado.

1.11.09

Em sinal de luto

Ansel Adams


Conto, pelos dedos, o tempo de entardecer
cansaços. Um negativo de lembranças,
compulsivamente recortadas no coração,
transforma a brisa em rostos familiares.
Crava-se-me, na pele, um sangue-frio
de mortes solitárias e estremece-me
o corpo em sinal de luto. A noite cheira
a despojos de velhos monólogos.

De Uma certa forma de errância, 2003

24.10.09

Todos os sinais do rosto

Dorothea Lange

Pelo vértice dos abismos
posso espreitar o fulgor inventado
da sombra que me precede.
Todos os sinais do rosto
se tornam tão palpáveis
como a paisagem dos dias,
em que a luz, trémula,
junto à fronte me deixou,
no fundo do olhar, para sempre,
uma ilha cercada por sombras,
tão cheias de orfandade,
que só um milagre me salvou
de uma solidão definitiva.

De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

17.10.09

Outono: lugar frágil

Edouard Boubat


Acendo as mãos para aquecer o olhar
de quem atravessa apressadamente o outono.
Um morno ruído desdobra o voo quebrado
dos plátanos obstruindo um caminho
desenhado a carvão por onde passeio
à beira dos acontecimentos e das sílabas,
alheia a tudo, como se pudesse passar
o resto da vida à sombra do pólen das palavras
e adormecer no confluir da transparência
e da luz, neste outono: lugar frágil.

De Outono: lugar frágil, 1993

7.10.09

Em seara alheia



Fábula da Fábula

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga
In: Diário VIII, 1956

1.10.09

Por meio do fascínio



Os deuses reuniam-se de noite.
Debruçavam-se sobre os bosques
para sacralizar as árvores,
debaixo das quais os tocadores de lira
encantavam as serpentes
e os amantes justapunham os corpos.
Zeus exibia, então, a sua força mágica
aniquilando os homens por meio do fascínio.

De Labirintos, 1997

24.9.09

Onde o outono aquece

Ana Pires


Aqui, na fenda da rotina onde o outono aquece
vou desenhar a sede, lentamente.
Já não falo de nós, peregrinos

das rotas que inventámos.
Por dentro das metáforas violo,

apenas, os limites do sossego e desfaço
todos os nós do medo no fulgor livre do verbo.
É morno o gesto com que percorro

os momentos inquietantes do quotidiano.
Imagens e sons são, quase sempre,

o fundo falso onde, de forma ambígua,
me escondo para representar todos os rituais,
sagrados e profanos, do dia a dia.
Aquém de mim acendem-se todos os mares

e, na voz dos marinheiros, pergunto ao sol
se pode ser eterna a sombra de um barco.

De Outono: lugar frágil, 1994

18.9.09

Um silêncio obsessivo

Marthe


Há um deserto adiado no interior
das papoilas desdobradas
sobre o movimento dos dedos.
Aqui é a passagem
para um silêncio obsessivo.

De Poemas, 1990

10.9.09

Memórias de Dulcineia XVI

António Quadros

Como calar a incoerente voz
do pensamento
para encontrar as palavras
com que me invento?
Demasiado cedo
me soube irmã da noite
porque a luz, indecisa,
perto do rosto me parecia
um pressentimento sombrio.
Com o tempo as emoções têm nome?

De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

3.9.09

Em seara alheia



A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.

Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.

Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.

Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos - tal como as tuas - já perdidas.

Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite - ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.


Rui Almeida aqui
In: Lábio Cortado. Torres Vedras: Livrododia, 2009
Prémio Manuel Alegre 2008

27.8.09

Agosto

D'Ângelo

Recorta-se um agosto lento
na mutação da página em branco
onde conjugo o verbo amar.
A inquietude enrosca-se no texto
e contamina as frases sem nexo.
Redijo os contornos de um abraço.
Soletro um nome.
Um vento morno rasga, na minha boca,
um alfabeto alegórico com que revelo o futuro.


De Conjugar afectos, 1997

20.8.09

Itinerário do silêncio

Ana Pires


À espera de um momento de luz
retorno, sem hesitar, ao itinerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão

multiplicando as sombras.
Peregrina de outra luas,
resgato a música
que me restou da infância,
como um sobressalto,
ou uma canção de embalar,
ou água fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.


De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

13.8.09

Fuga

Harry Callahan


Pinto na janela a tormenta
de um mar imaginado.
De costas para a lua
preparo a minha fuga.
Enrolo à volta do corpo
a primeira onda:
a derradeira âncora
para roçar na boca
o lamento verde das marés.


De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

5.8.09

Reconheço-me

Dorothea Lange


Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.


De Conjugar afectos, 1997

28.7.09

Em seara alheia


a primeira vez que tive vinte anos
esperavas por mim naquele café com nome
de porto grego que faz a Grécia
no meio do bairro alto dizias muitas vezes
mexendo o café que sempre bebias sem açúcar

depois descemos até ao rio e prometeste
um barco por cada dia em que
os meus vinte anos voltassem
às tuas mãos naquele lugar

nessa altura envelheci muito depressa
ao ritmo das cartas em que prometia odiar quem
junto de mim dissesse
-como era moda-
que os vinte anos tinham sido o melhor tempo
das nossas vidas

e o meu coração era então tão grande
que todos os que passavam
se serviam dele

Alice Vieira
In: O que dói às aves. Lisboa: Caminho, 2009