na costa azul de frança.
Recordo o uivo dos cães, o cantar dos melros,
o quebranto que me tolhia os dedos,
as folhas do outono terrivelmente belas.
Meus olhos procuravam e achavam
uma fatalidade qualquer.
Como uma premonição,
um acto sacrificial,
um chão movediço.
Pelas sombras possuída
procurava o inacabado gesto
de aprisionar a luz em meu olhar,
quando cobri meus ombros
com o xaile vermelho
para enfeitar a vida,
agora em mim tão extenuada.
Os sons que se ouviam
eram de um tempo
nunca mais lembrado,
nunca mais esquecido.
Os cavalos, gritando,
vieram no seu trote.
De meu brilho se tomaram.
Cavalgaram as ruínas do meu peito
e meu silêncio sustiveram na garganta.
O coração, tão breve,
ficou suspenso
por uma névoa
que, num instante, se dissipou.
Devagar bailando.
Devagar morrendo.
Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 53-54







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