Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
10.7.23
Em seara alheia
Um homem escreve uma carta a uma mulher
como se fosse um acto antigo
O homem escolheu o mais terno papel rosa
e sobrescrito a condizer _ com cantos violeta
nele escreveu o nome da mulher
e o lugar de destino
O homem carregou de tinta azul a sua estimada
e bela caneta que estava muda desde
quando disse a última carta
Escreveu a data na primeira linha
o dia registado _ seminal
com letras maiores escreveu no meio da página
Amo-te, tenho saudades
na última linha, o homem assinou apenas
com o seu primeiro nome
O homem guardou a carta no sobrescrito
que não colou _ beijou-o duas vezes
e encostou-o à jarra onde tinha as flores
que amanhã levaria para depositar
no lugar inscrito a seguir ao nome da mulher
Depois deitou-se para dormir e sonhar
como fazia todos os anos.
Luís Raimundo Rodrigues
In: No espaço da minha boca. Edições Gato Cinzento, 2023, p. 92
3.7.23
O retrato da mãe
Para o Manel
te iluda o olhar habituado
aos pormenores da memória.
As curvas da luz no rosto esvaecem
a expressão que julgas ser triste
no inacabado instante da imagem.
Mas se observares a juventude
estampada na pele a desafiar o tempo
talvez seja alegria o que vislumbras.
O choro e o riso na mesma moldura
na mesma feição na mesma vida
na mesma ausência.
E a tua infância escondida no retrato.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 40
Para quem gostar de ouvir o poema e ver o vídeo feito pela minha filha Ana pode fazê-lo aqui:
https://youtu.be/Ub2ud1BK_5o
26.6.23
Uma só visão
Michael Bilotta
O medo nas narinas
e o frio entre os dentes.
Uma só visão
a rebentar no rosto:
a morte atónita dos homens
que invocaram para si próprios
o fascínio da vida.
Graça Pires
De Poemas, 1990, p. 29
Este poema faz parte do meu primeiro livro "Poemas" que, no dia 29 de junho, faz 33 anos que foi editado.
19.6.23
Torno-me cúmplice da paisagem
Vicki Mcmurry
Reivindico a identidade daqueles
que proclamam a natureza
em toda a sua resplandecência,
inicial e intacta.
Torno-me cúmplice da paisagem.
As cores e as sombras que o nascer do dia
me revela como se fossem a epifania
de deuses telúricos, celebram o pulsar da terra.
O equívoco do vento de junho à beira do verão
percorre as árvores e alucina as borboletas
escondidas nas trepadeiras,
a quebrarem a monotonia da realidade aparente.
Retardo o passo no ranger da areia
que se oferece e se nega aos pés descalços
e porosos a qualquer afago.
Do fundo da idade, o sal da boca
deixa-me pressentir a alternação das marés.
Cada horizonte é uma revelação
onde, náufrago, o olhar penetra a beleza
sempre excessiva do silêncio.
Tudo o que sei a sede mo disse,
repito para mim própria sem ambiguidades,
sem artifícios, para justificar a invocação
das águas, num argumento convicto.
que proclamam a natureza
em toda a sua resplandecência,
inicial e intacta.
Torno-me cúmplice da paisagem.
As cores e as sombras que o nascer do dia
me revela como se fossem a epifania
de deuses telúricos, celebram o pulsar da terra.
O equívoco do vento de junho à beira do verão
percorre as árvores e alucina as borboletas
escondidas nas trepadeiras,
a quebrarem a monotonia da realidade aparente.
Retardo o passo no ranger da areia
que se oferece e se nega aos pés descalços
e porosos a qualquer afago.
Do fundo da idade, o sal da boca
deixa-me pressentir a alternação das marés.
Cada horizonte é uma revelação
onde, náufrago, o olhar penetra a beleza
sempre excessiva do silêncio.
Tudo o que sei a sede mo disse,
repito para mim própria sem ambiguidades,
sem artifícios, para justificar a invocação
das águas, num argumento convicto.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p.61
12.6.23
Seduzido pela escuridão
©Shutterstock
Para o meu filho Pedro
de estrelas cadentes a ferir a noite
adensa teu olhar inquieto
já impregnado de sinais secretos.
Seduzido pela escuridão delineias asas
na fronte enquanto a estrela do norte alinha
os pássaros nocturnos em sucessivos voos.
Na hora do crepúsculo voarás devagar
até anoitecer em ti e distinguires na via láctea
a cor de teus olhos bruscamente em chamas.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p.12
5.6.23
Em seara alheia
Só um poema basta.
Só uma palavra.
Só um pingo de sombra
desinquietando a luz do meio-dia.
Só uma folha
manuscrita com os olhos.
Só o tic tac do despertador
a marchar pela casa vazia.
Só uma gota basta.
Só uma
se escorrer sem pressa pela fresta da sede.
Luis Palma Gomes
In: Fronteira. Edição de autor, 2022, p.30
29.5.23
Por onde andamos
Brooke Shaden
quando os dias são como pedras de tropeço
a ferir-nos os pés.
- Vê por onde andas filha
para não te magoares -
dizia minha mãe era eu menina
e estouvadamente feliz.
Ver por onde andamos.
No sopro asfixiante das manhãs
ferem-nos os nomes de tudo
o que o olhar recusa.
Como ignorar as marcas de sofrimento
nas entranhas daqueles que carregam
a fome no molde dos lábios?
Como silenciar a áspera evasão
presa a caminhos sem retorno
no fervilhar dos dias
em convulsivo fôlego?
Como não tropeçar e cair
se há meninos descalços
agarrados aos passos que damos?
Ver por onde andamos mãe?
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 52
22.5.23
Chuva
Silena Lambertini
Apetece a chuva a cair vagarosa e leve
sobre o solo em lamentação secreta.
Só assim germinará a paisagem
no raríssimo rumor da relva
no trigo desenhado com a foice
sobre o ventre da terra
nas uvas à boca do outono
reavendo ébrios devaneios.
E o poema será água
a correr mansamente sobre o silêncio
que grito algum pode quebrar.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 32
15.5.23
Em seara alheia
Deita-te comigo.
O linho sobra.
A noite também.
IX
Não me deixes entre as folhas.
Sou árvore e tenho nos ramos
o cio das aves em tardes azuis.
XIV
De todas as palavras possíveis
escolhi beijo. O teu. Fica.
Não leves contigo as nossas bocas.
Lília Tavares
In: Parto com os ventos. Edição revista e aumentada. Modocromia, 2023, p.91, 92, 93
6.5.23
Reencontro
Ana Pires Livramento
Para a minha filha Ana
plantada no caminho do vento
no lado mais próximo do rio.
O aroma espalhado é um sopro
intenso no ar que respiras.
Passeias com prazer.
Cada passo é um convite
a urgentes demandas.
Em qualquer percurso existem
paragens ao acaso onde te reencontras
tão breve que foi a adolescência.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 11
Vídeo: https://youtu.be/Hyco98p09hc
30.4.23
Em faces sombrias
William Klein
Estão cheias de gente
as ruas por onde caminho e me demoro.
Procuro uma senda de lágrimas
em faces sombrias, para desviar
até ao lado mais esquivo do peito
o curso do rio onde flutua
a sombra do navio nocturno
que transporta a antiquíssima
inocência dos meus olhos.
Nas margens da noite, suspendo
as mais profundas razões da memória
para esquecer os momentos
em que me doeu a desmedida
desordem do passado.
Por isso, conheço o fio invisível
que percorre o interior da treva
onde se protegem os girassóis
privados do alvoroço da luz
e os pássaros esmorecidos
por não tocarem as nuvens.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p.17
24.4.23
Liberdade, liberdade!
Luísa Henriques
Depois do adeus
- que é palavra que dói como uma espada-
alforriada a noite abriu-se sem pudor ao rio à seiva.
E foi um universo inteiro a abrir-se ao lume e à palavra.
Vieram aos milhares os filhos da madrugada
anunciando ao mundo outra canção.
E de repente, tanto azul, tanto mar aqui e além-mar.
Os barcos desenharam novas rotas
e até os pássaros enlouquecidos pressentiram a mudança
nesse infinito ainda por navegar.
As mães abraçaram os filhos
uma pedra floriu, um cravo sangrou na espingarda
era a vida como um beijo a ser cumprida
sem roleta, sem o medo acantonado a cada esquina.
Não há em verdade nada que apague este rigor no sangue
este clamor de claridade
esta vontade de gritar além do sol: liberdade, liberdade.!
Luísa Henriques, Abril 2023
17.4.23
Múltiplas mortes
que me naufragam no peito
enrouquecida que fico
se um rumor azul
deixa de alagar a minha voz.
Mas demando o sinistro equívoco
que inventa todas as fugas
para se morrer de múltiplas mortes
a fugir da morte
em margens que o mundo renega.
Qual o som do mar me questiono
qual o som do mar tão saturado de mortos?
Que sinos soarão por eles?
Quem fará a oração o sinal da cruz o requiem?
Guardo dentro de mim ondas alteradas
como gritos silabando a luz aflita
cravada na retina de olhos extenuados.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 57
10.4.23
Sensações de um dia claro
Silena Lambertini
Amanheceu.
A janela do quarto inclina-se
sobre o milagre da paisagem.
Acordei festiva
sem recear
a singularidade
efémera da existência.
Detenho no alcance das mãos
a precisão abstracta de cada recomeço.
Semelhante à força de águas imensas
na confluência de rios
hoje serei a corrente e a foz.
Qualquer barco me devolverá a infância.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 9
Se desejarem ouvir o poema e ver o vídeo da Ana podem fazê-lo aqui:
https://youtu.be/bHEp5bPHaOA
3.4.23
Em seara alheia
Sabes lá o que custa guardar a memória.
Decompor o riso e esquecer. Empacotar
toda a alegria numa caixa frágil de cartão,
levá-la nas mãos trémulas até à cave mais
escura. Descer as escadas velhas, falhar
um degrau e cair. Ver a coragem a saltar
do corpo, na queda. Ouvir o som que faz
o riso, ao partir-se. Procurar os pedaços,
perder os olhos abertos no chão,
perder o chão, perder o andar.
Sabes lá o que custa.
Virgínia do Carmo
In: A menina que aprendeu a matar centopeias e outros poemas. Lisboa: Poética, 2023,
p. 17
26.3.23
Mãe
Laura Makabresku
Porque hoje seria o aniversário da minha Mãe
daquela flor que dentro das tuas mãos
se fez terra e seiva ferimento e luz.
Agora mãe os pássaros vêm beber
nos meus olhos as lágrimas tão raras
que consentiste nos teus olhos
habituados a um rio interior preso no peito
onde banhaste os filhos para que soubessem
a origem redentora das águas.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 35
19.3.23
Um poema para o Dia Mundial da Poesia
A convite da Amiga Rosélia aqui deixo a minha participação
uma insubmissa escrita teima
na promessa de um poema
com sílabas luminosas.
Escrevo silenciosos vocábulos,
agora que a poesia se detém
no fingimento de entrelinhas,
soletrando a febre nos lábios.
Podem dizer de mim
que nunca me cansei das palavras
porque foi com elas que me aprendi inteira.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 56
12.3.23
CONVITE - O IMPROVISO DE VIVER
Foi uma festa de Poesia muito bonita. Muito obrigada a todas e a todos os que estiveram lá. Obrigada aos que quiseram ir mas não puderam. Foi um final de tarde feliz. Bem-hajam.
Às minha Amigas e aos meus Amigos, a todos os que gostam da minha poesia convido para a partilha desta minha festa.
Deixo um poema do livro:
Houve
quem dissesse que voava
sobre
a casa onde nasceu para ver o mar.
Causava
estranheza o intenso brilho
a
demorar-se-lhe no olhar
no
instante poente dos fins de tarde.
Todos
falavam disso.
Nem
uma palavra foi dita sobre o bando de aves
que
sobrevoava a casa em voo brando
com
cristais-de-rocha no esquisso das penas.
Graça Pires
6.3.23
Pandora
Walter Crane
Divina e humana.
Estratagema de zeus para ser perverso,
no tempo em que os homens
e os deuses se divertiam juntos.
Era irrelevante acorrentar-lhe os pulsos.
Suas mãos eram aves
ansiosas de voos ousados.
Os ventos, deslumbrados,
soltaram a luz e a sombra
em seus dedos
que, sem pudor,
destaparam o vaso da inocência.
A palavra culpada enroscou-se-lhe
no corpo como um estigma sem fim.
E apenas bem no fundo dos seus olhos
permaneceu, para sempre, a esperança
de ser salva ou de salvar.
Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 30
Apesar de se tratar de um mito esta é a minha homenagem a todas as mulheres.
27.2.23
Procuro o lugar onde começa o silêncio
William Turner
O silêncio das montanhas azuis,
da neve, das planícies eternas,
das glicínias, do vinho maduro,
da música de schubert,
do coração dos pássaros,
da fulguração da alba,
dos crepúsculos de william turner,
das sombras, dos retratos,
das abelhas entontecidas de pólen.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 60
20.2.23
Em seara alheia
em que a palavra amor,
imensa de promessas,
morava na boca dos poetas.
Houve um tempo
em que o pranto habitava
o olhar das mulheres com a ruína na voz.
Houve um tempo
em que as pedras
tinham o rebordo da morte.
Carmo Baião
In: Sabemos que as pedras têm alma. Carnaxide: Cordel d'Prata, 2022, p. 15
13.2.23
Na véspera dos segredos
Laura Makabresku
entranhados na carne e no sangue
na véspera dos segredos.
Não esqueço as noites
em que o desejo doía tanto
quanto a incontida alegria
de um abraço.
Intermitente, o coração
procura no amor o batimento certo.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021
6.2.23
Perto da criação do mundo
Ana Pires Livramento
Para a minha irmã Teresa e para o meu irmão Zé Pires
Era a quinta dos avós.
Nós eramos crianças
e subíamos às figueiras.
As pernas aprendiam o equilíbrio.
A vertigem da queda a oscilar no corpo.
Chegávamos aos frutos pelo cheiro.
A boca antes das mãos a lamber o mel.
A respiração tão apressada
como um tumulto de pássaros.
Num jogo para lá do tempo.
Perto da criação do mundo.
Graça Pires
Do livro O improviso de viver, a ser publicado em março deste ano.
30.1.23
Para que a verdade se mostre inteira
Katia Chausheva
por dentro dos sentidos
e desenha um espaço sagrado
anterior a um horizonte esvaído no olhar.
Cerro os olhos
para que a verdade se mostre inteira.
Quero o código secreto do encantamento
que a memória guarda.
Quero o pórtico litúrgico
atravessado por antígona
com a precisão e o decoro
de quem se reivindica
herdeira da luz e das sombras ancestrais,
de quem atenua a distância entre o grito
e o silêncio de uma desarmonia interior.
Fantasmas exigem, em uníssono,
o sangue inocente.
Ai, a fragilidade da vida na ara dos sacrifícios!
Ai, o puro instante de um nome fraterno
abrasando a alma!
Ai, a coragem aflita desta punição indefesa!
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 32
23.1.23
Estão a caminho do mar
Henri Cartier-Bresson
as mulheres vestidas de luto.
Souberam da tormenta
pela imensa salinidade dos lábios.
Têm uma quilha enterrada no peito.
E querem ser aves de sal e vento.
E vão, dizem, acender as estrelas
que guiam os marinheiros
na aflição
das noites intermináveis.
O destemor tão perto da loucura!
Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p.39
Se alguém quiser ouvir o poema dito pela minha filha Ana pode fazê-lo aqui:
https://youtu.be/Z3CngT426fk
16.1.23
Ajoelho-me na terra
Katia Chausheva
Perto do chão há gritos aferrados à vida e à morte.
Há partos e perdas dolorosas.
Há o urgente fôlego de cada nascente junto às pedras
com nervuras de erosão e luz
a depurar o reflexo da água.
Há flores e bichos.
Há raízes de árvores e de plantas e musgo
e alfazema e cardos e fenos.
Há campos repousando do cansaço da terra.
Perto do chão onde me ajoelho,
há o reino subterrâneo da noite
em conflito tenso com o dia,
numa dialéctica posta à prova por olhares videntes.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 27
9.1.23
Em seara alheia
Litorânea II
As ondas revolvem os barcos dispersados pelo vento
para possíveis futuros
(todos breves momentos).
Ela ouve as sereias que não cantam, apenas cochicham.
O mar será eternamente uma grandeza que a desarma.
Na maré, um pássaro morre,
no momento em que outro voa
em direção ao horizonte frágil.
Involuntariamente, na sua distância, este recebe o verão.
O encontro desses dois infinitos que se esbarram
na troca de estações, cruzam entre si espectros
que nunca se tocarão no tempo.
O mesmo tempo que captura as rugas
sob o sol cada vez mais voraz,
enquanto a juventude se esvai
diante dos olhos.
Solange Firmino
Nov. 2022
2.1.23
Apetece entoar o Magnificat
Silena Lambertini
que apetece entoar o magnificat com a mais cristalina voz,
em devoção, em perplexidade, em agradecimento.
A quem o louvor? A que prenúncio de alvorada?
A que rumor festivo? A que invisível mão?
Eu sei que um fogo divino contém todos os mistérios,
todos os sacrifícios, todos os milagres,
todos os castigos, todos os bálsamos.
Eu creio na redenção dos que amam a vida
e sonham, e sonhando se salvam.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 68
19.12.22
Natal e não dezembro
Ana Pires Livramento
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira
In: Cancioneiro de Natal, 1971
Quem desejar ouvir o poema com a voz e a música do Pedro e ver o vídeo da Ana pode fazê-lo aqui:
https://youtu.be/0uskE-5TLeo
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