12.4.07

Apenas os barcos nos perturbam

André Kertész
Entre o rio e o mar
apenas os barcos nos perturbam.
A tua figura nada tem de ambíguo.
Mas, como se um pássaro
te atravessasse a boca,
avisas ainda o teu chegar.
Impulso de voar
ou um solitário bater de asas ?


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

11.4.07

Uma canção de roda na lembrança

No círculo das nascentes,
está o enigma materno
da disponibilidade das mãos.
Toca-se um rosto
e há campos ondeando a sede e o trigo,
na pulsação das manhãs.
Embala-se um corpo
e a infância recomeça com múltiplas formas.
Uma canção de roda na lembrança.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

10.4.07

A cidade

J.A.Hampton

Improvisamos a palavra adequada
para dizer a cidade, alheia e imprevisível.
Todas as histórias do dia a dia se precipitam,
gradualmente, na estrangulada identidade
dos habitantes urbanos.
É por comodidade que saltamos por cima
dos odores, do lixo, da multidão, da indiferença
e contornamos a evasão de um tempo arruinado,
onde nos dizemos ecológicos e solidários,
e nos indignamos, e coleccionamos protestos
com que nos agredimos nas horas de ponta.
Somos, na cidade, os viciados
de um pseudo-conforto que nos inibe de sonhar.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

9.4.07

Em seara alheia


A VARANDA DE JULIETA

Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvenece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

Nuno Júdice
In Pedro, Lembrando Inês, Lisboa, Dom Quixote 2001

8.4.07

O rumo das aves litorais

Jeff Greenberg

Nos meus lábios, tão subitamente
comprometidos com a noite,
existe um mar alto, onde sulco
remotas lembranças, como se navegasse
todos os oceanos do mundo.
Amanhã serei eu a manejar as velas,
sem que me doam as mãos.
Seguirei o rumo das aves litorais,
como quem troca abraços
para subverter emoções.

Esta noite vi o teu nome estampado
nas velas de um barco em fuga.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

7.4.07

Náufrago de um poema adiado



Náufrago de um poema adiado,
dei à costa na curva de uma concha
onde me exilei.
A sombra de Teseu foi a cama
sobre a qual perdi a inocência das palavras,
com a boca possessa de barcos transparentes.
Há itinerários marítimos nos meus dedos,
insinuando viagens da memória,
à altura de todos os fascinios.
Labirinto abissal e sinuoso do pensamento.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

6.4.07

Há um pressentimento feliz



Não há bom senso entre as paredes
de uma emoção dilatada até à própria sedução.
Ao comprido da vida, encena-se um bailado lento
e decalca-se, sobre a fantasia,
um aceno que redime culpas
e traz, pela tardinha,
um vento favorável à adolescência do corpo.
Há um pressentimento feliz
na concha das mãos perturbadas de afecto.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

5.4.07

Vamos falar de poesia



Arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema
lê-se silêncio, lugar que não se diz e que significa,
silêncio do teu olhar de doce menina, silêncio
ao domingo entre as conversas, silêncio
depois de um beijo ou de uma flor desmedida,
silêncio de ti, pai, que morreste em tudo para só
existires nesse poema calado, quem o pode negar?,
que escreves sempre e sempre, em segredo,
dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é
esta voz, a letra p não é a primeira letra da palavra
poema, o poema é quando eu podia dormir até
tarde nas férias do verão e o sol entrava pela janela,
o poema é onde eu fui feliz e onde eu morri tanto,
o poema é quando eu não conhecia a palavra poema,
quando eu não conhecia a letra p e comia torradas
feitas no lume da cozinha do quintal, o poema é aqui,
quando levanto o olhar do papel e deixo as minhas mãos
tocarem-te, quando sei, sem rimas e sem metáforas,
que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo
sempre e tudo. o poema sabe, o poema conhece-se
e, a si próprio, nunca se chama poema, a si próprio,
nunca se escreve com p, o poema dentro de si é
perfume e é fumo, é um menino que corre num
pomar para abraçar o seu pai, é a exaustão e a
liberdade sentida, é tudo o que quero aprender
se o que quero aprender é tudo, é o teu olhar
e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque
isso são bibliotecas a arder de versos contados e não é
o poema, não é a raiz de uma palavra que julgamos
conhecer porque só podemos conhecer o que possuímos
e não possuímos nada, não é um torrão de terra
a cantar hinos e a estender muralhas entre os versos
e o mundo, o poema não é a palavra poema porque
a palavra poema é uma palavra, o poema é a carne
salgada por dentro, é um olhar perdido na noite
sobre os telhados na hora em que todos dormem,
é a última lembrança de um afogado,
é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema
não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve
com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos,
pétalas e momentos, gritos e incertezas, a letra p
não é a primeira letra da palavra poema, a palavra
poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido,
nem sequer por mim próprio, ainda que o meu
sentido esteja em todos os lugares onde sou,
o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe
porque me olhas, o poema é o teu rosto, eu,
eu não sei escrever a palavra poema, eu, eu só sei
escrever o seu sentido.

José Luís Peixoto
In A criança em ruínas. V.N.Famalicão: Quasi,2002

4.4.07

Parto esta noite

Pascal Renoux


Parto esta noite com uma chama
entornada na boca.
Atravesso as ruas em direcção ao rio.
Passeio sobre os escombros
de uma ficção com âncoras,
e bordo o teu nome, letra por letra,
no pano de um veleiro pronto a largar à bolina
na liquidez enchente do meu olhar.
Mas não posso descrever-te.
Um perpétuo segmento constrói a teia
num lugar oposto à intimidade.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

3.4.07

À mercê da lua

Amedeo Modigliani


A noite enrosca-se-me na cintura,
a mover-me um cerco,
a colocar-me à mercê da lua.
Um trilho de água-doce
humedece a orla de uma nudez
convergente com o desejo.

Perante a indiferença de toda a gente,
uma mulher desceu a montanha,
prenhe de solidão. Fascinada pela noite,
deixou que lhe mutilassem as mãos,
para parir sem algemas.
E doeu-lhe no peito o grito de nascer
de todos os filhos, o soluço sufocado
de todas as mães. Depois, pairou no ar,
um estranho aroma de sardinheiras brancas.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

2.4.07

Em seara alheia


Kyrie

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

José Carlos Ary dos SantosIn: Vinte Anos de Poesia, 1963-1983.Lisboa: Distri, 1983

1.4.07

Primavera

Shirley Novak

Entre abril e a liturgia das papoilas,
o perpétuo equívoco das cerejas brancas:
diurnos frutos que o sol protege
dos sobressaltos de maio.
Apenas os pássaros migrantes
conhecem os locais onde se enlouquece
por adiar o destino do coração,
ou o caminho por onde se foge
de impossíveis voos, sem deixar,
nas asas, vestígios de cansaço.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

31.3.07

Direi o fascínio

Ticiano


Direi o fascínio que sobrou
do gosto das cerejas
e lembrarei, devagar,
o culto da sedução e dos abraços.
Conta-me, meu amor,
o sabor do pão na tua boca.
Conta-mo com adjectivos
sôfregos
e claros,para que a minha sede
invente o vinho novo, no cântaro
onde a terra ausculta todos os regatos.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.3.07

Promessa a insinuar-se na boca

Jean Dieuzaide

É quase verão nos lábios da mulher
que, desordenadamente, respira
no peito da noite.
O cheiro da hortelã
ondula nos seus olhos
e decompõe a erva fresca
nos muros caiados.
A seiva lenta dos frutos, é um esboço
de promessa a insinuar-se na boca.
Por perto, as vozes dos homens,
impedem a proximidade da lua.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

29.3.07

Um dia avistaremos ilhas

Wiliam Hannun

Um dia, avistaremos ilhas de búzios
coloridos que os mapas não referem.
Um arquipélago situado a estibordo do espanto.
De viagem, os crepúsculos incendeiam
todas as crenças : preste joão das índias
que tatuamos por dentro da limpidez
dos sonhos, para coar os desalentos.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

28.3.07

Com sinais de fêmea

Eugene Garin


Com sinais de fêmea no contorno das coxas,
cuidei dos filhos como se fosse mãe solteira
ou me doesse, na alma, aquele desamparo de pai,
que lhes pressentia no sangue e me inibia de chorar.

Esta noite as gaivotas dançaram no meu rosto
uma cantiga de roda. E o silêncio, que envelhecera
nos meus dedos, formulou tempestades sobre as ondas.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

27.3.07

Posso imaginar o teu regresso


Dentro das minhas mãos é, agora, madrugada.
Corto o pulso ao poema. Invento a rima.
Dou à paixão uma forma feminina.
A morna intriga do tempo paira
sobre os meus passos. E contorno,
nos lábios, palavras tão lentas
como veleiros presos ao silêncio.
É pela noite, quando as madressilvas
adejam, perfumadas, sobre emboscados
silêncios, que posso imaginar o teu regresso.
Trarás contigo o ritual do prazer,
exilado nos teus passos.
Já te aceno deste longe, ou deste sonho,
com o mesmo lenço branco do passado.
Não tragas sombras, te direi, enquanto procuro,
nos teus olhos, a lembrança de dias festivos.
Talvez uma súplica.
Talvez um aviso.
Talvez, tão só, um desejo
de luz ancorado em meu olhar.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

26.3.07

Em seara alheia



ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca
In Poemas completos. Forja, 1975

25.3.07

O brilho das estevas

Manuel Fazenda Lourenço


Em ocasionais manhãs de vento sul,
prendo as mãos às giestas,
para que o meu olhar não corrompa
o brilho das estevas.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

22.3.07

De mãos erguidas




De mãos erguidas
junto das nascentes,
convoco o inacessível
e construo os cenários
da infância que não tive.
Agora vou ser livre
de percorrer o vento
em linha recta,
de receber os afagos
às mãos cheias,
de pintar em todas as paredes
as bonecas de trapos que não fiz.
Agora posso marcar
um percurso feliz
no caminho que leva
à outra margem,
ou fabricar um enredo
onde a minha imagem,
petrificada e bela,
seja sempre o reflexo
do crepúsculo que se extingue.
Depois, a vida há-de mover-se
como um vendaval inesperado,
mas nada toldará a limpidez
das lágrimas e da noite,
no ritual quotidiano de estar só.


Graça Pires
De Poemas, 1990

21.3.07

Um alibi de fonemas

Van Gogh

Aqui, onde o silêncio se confunde com a noite,
não me interroguem sobre questões vocabulares.
Possuo um alibi de fonemas, preso à língua,
desde criança. A minha linguagem reivindica
a passagem de papagaios de papel, no olhar
encantado dos meninos e reclama a primavera
em todos os rostos cativos da tristeza.
Há uma gíria de nómadas, entrelaçada no mastro
de um veleiro que, eternamente, singra no meu peito.
Nenhuma insónia me paira sobre os olhos.
Um verão, inclinado sobre o corpo, incendeia
de luas, as sombras que me rondam as mãos.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

20.3.07

Poetas nos chamamos


Repartimos as palavras boca a boca,
como se fossem cerejas cor de vinho.
As letras têm asas, têm ritos,
têm lençóis de linho, têm mágoas.
Urdem idiomas e caminhos.
Organizam protestos.
Tecem raivas.
Traduzem tanta esperança,
mas tão pouca.
Repartimos as palavras boca a boca,
com metáforas de fogo e de lonjura.
Extravasamos o verso e o reverso da ternura,
com expressões que a gramática não diz.
Ser feliz é a nossa porta aberta da procura,
nos lugares interditos,
na boca rebelde dos vadios.
Bordamos os enredos com os fios
que o luar nos prendeu em cada mão
de forma louca.
Somos a luta e a canção.
Repartimos as palavras boca a boca.


Graça Pires

19.3.07

Em seara alheia


Contacto

Eu chamo-te e tu não me ouves.
Estarás atrás daquela estrela, disfarçado,
ou oculto numa nebulosa
à espera da palavra que te resgate?
Eu chamo-te e tu talvez me oiças
mas não possas responder-me
porque o vazio da noite não permite
a partilha de sons e de afectos
a uma tão grande distância.
Às vezes bastava-me olhar para o céu
para ter a certeza de que observavas
todos os meus gestos, todos os meus passos.
Era como se as nuvens guardassem
um sorriso teu no seu bojo de ventos e de chuvas.
Adormecia tranquilo no agasalho dessa crença.
Guardo numa gaveta da escrivaninha
a tua carteira, os óculos, o lenço
que usavas no dia em que partiste.
E já lá vão tantos, tantos anos.
De repente dei pela falta dos teus telefonemas,
das perguntas inquietas que me controlavam
as horas e as errâncias. Tinhas medo,
um medo terrível de me perder,
e afinal fui eu que te perdi. Dizem que foi
a vontade de Deus. E agora eu chamo-te
e tu já não me ouves. Ou será que ouves
e que a pequena estrela pálida, trémula, esquiva
que me ilumina a manhã é apenas
uma forma de o céu escrever a palavra Pai?

José Jorge Letria
In O Livro Branco da Melancolia. Lisboa: Quetzal, 2001

18.3.07

Saíram barcos do meu peito

Salvador Dali


De um instante para o outro,
saíram barcos do meu peito,
à procura do mar da minha infância:
o sangue paterno agitando o coração.
Acumulo imagens sobre imagens.
Entrecruzo palavras antigas.
Um imenso arco-íris humedece-me
o rosto de cores garridas.
Aves costeiras, nascem-me na boca,
como se uma tempestade ardesse,
imensa, em minha língua.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

17.3.07

Antes que chegasses

John Gutmann

Antes que chegasses, encostei ao coração
a memória imaginada do teu rosto.
E comecei a amar-te quando disseste,
em segredo, quanta neve caiu sobre o teu peito.

Agora tudo será indelével nas palavras que me dizes.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

16.3.07

De hoje em diante



De hoje em diante,
porei na mesa um ramo de violetas,
como presságio de amor
e usarei, à volta do pescoço,
um coalhado lume,
até sentir em carne viva
o nervo das mais afectuosas palavras.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

15.3.07

Com estigmas da infância

Gary Faye


Com estigmas da infância no interior das mãos,
teço, na voz, uma fuga permanente.
Posso improvisar cantigas de embalar
os medos e fabricar um idioma ilícito,
para denunciar a violenta cor da solidão.
Não. Não ficarei presa a litorais sem qualquer aceno.
Há pátrias onde as mãos se tornam perfil de pássaros,
definindo o fraterno voo do silêncio.
É esse o meu rumo, rente a um lugar
conivente com as manhãs que redimem
as noites sem afecto.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

14.3.07

O enigma dos lírios anilados

Vincent van Gogh
Às vezes é preciso morrer,
entrar no vácuo do tempo
em declive paralelo com a avidez da vida.
É preciso desarticular o medo,
transgredir os sonhos,
desdobrar a alegria sobre a mesa.
E, seja qual for o enigma dos lírios anilados,
haverá sempre a génese de um jardim,
no lençol onde as raparigas se escondem
para chorar o primeiro amor agonizado,
desenhando, nos cabelos, as madeixas
de uma respiração em sangue.
A meia luz, que permite um duelo
de anjos sonolentos esperará, lentamente,
um brilho incorruptível.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

13.3.07

Mudo as regras do jogo

Clarence J. Laughlin

Mudo as regras do jogo sem prevenir ninguém.
Mordo o freio de rotinas antigas :
armadilha de hábitos
a retardar o acesso a um universo mágico,
onde a alegria comove
como um instante da meninice.
Sem medos. Sem presságios.
O negativo do meu rosto outonal,
com a cor das uvas maduras
no contexto da memória.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

12.3.07

Em seara alheia


Voamos a lua,
menstruadas

Os homens gritam:
- são as bruxas

As mulheres pensam:
- são os anjos

As crianças dizem:
- são as fadas

Maria Teresa Horta
In Os Anjos. Litexa Portugal, 1983

11.3.07

Sem destino visível



As ruas estão apinhadas de gente,
em cujos passos se adiam amores extraviados.
O cair da noite não elimina
o som inquietante da cidade:
com vozes de trevas e de luz,
com pessoas em sensual desalinho,
sem destino visível.
Estranhamente, ninguém repara
no seu andar indefeso e na inegável melancolia
que ostentam no olhar.
No horizonte, um íntimo clamor de pássaros de luz,
traz-me à ideia lembranças imperfeitas.
Um cansaço antigo e desapiedado
recupera, nos meus olhos, a mesma sombra
onde escondi todos os medos.

Graça Pires
De Reino da lua,2002

8.3.07

Apesar de tudo. Apesar de nada

Duncan Clark

No primeiro luar de outono,
alterei o penteado e risquei,
em todos os mapas do mundo,
caminhos interiores.
O mais comum dos peregrinos
cruzou comigo o olhar vadio,
como quem partilha a água e a sede,
o pão e a raiva, a fome e o sangue.

Num lugar de mágoas e cansaços
te encontrei, companheira de sonhos.
Gastaste as mãos nos ardis da entrega
e percorreste os trilhos da coragem,
resgatando a noite.
Às vezes, murmurámos, entre nós,
coisas do silêncio, denunciadas pelo olhar
e dissemos: não há mais nada a fazer senão amar.
Apesar de tudo. Apesar de nada.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

7.3.07

Mulher

Scotia Luhrs

De coragem vesti a solidão,
de ternura moldei o meu cansaço
e fui mulher-canção, mulher-abraço
de quem me viu morrer por cada sonho,
de quem me viu nascer em cada esperança.
Na lembrança guardei toda a beleza
e a tristeza cobri de fantasia.
Enfeitei-me de poesia como quem reza
e fui vadia, no gosto aventureiro de quem vive.
E sou mulher-certeza, mulher-livre,
mulher do dia a dia a tempo inteiro.


Graça Pires

6.3.07

Um amigo

Jacques-Henry Lartigue


O teu rosto é uma cidade
onde os ventos se cruzam
com as notícias sem itinerário.
Decorei o teu nome,
mesmo sabendo que vagueias,
sem rumo, como um nómada,
à míngua de um perfeito amor.
Na cor dos meus olhos te pressinto,
como se, na tua boca, nascesse um rio
sem contornos e, nesse espaço
transparente, me apetecesse ser barco.
Eram feitas de pássaros, as bandeiras
que erguemos no cimo da nossa ansiedade.
Lembras-te?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

5.3.07

Em seara alheia



UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o
mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neill

In: Poesias Completas, 1951/1986
Lisboa, IN-CM

4.3.07

Sulco sonhos antigos

Picasso

Um bando de aves solares,
estilhaça os espelhos
que me devolvem uma nudez perversa.
E sulco sonhos antigos, como quem recupera
brincadeiras clandestinas, ou revela segredos
só perceptíveis na noite.
Em que tear ensaio os acenos

que se atrevem no vértice da distância ?
Há um instinto de errância na cor
entardecida de meus olhos,

tão cheios de barcos de ausência.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

2.3.07

Atravesso a noite na curva das dunas

LensEnvy
Não é fácil esquecer as praias
em que se desdobram cenas de algas e navios.
Em qualquer parte da suspeita
há uma ilha encantada com castelos de areia,
um litoral de silêncios para além das metáforas,
uma insónia entreaberta a todos os mares.
Atravesso a noite na curva das dunas.
Amanhã, o cais será o coração dos homens,
e as pedras perguntarão por que motivo
é mais soluçado o bater das ondas.
Então, celebrarei a brevidade
do êxtase que não cabe no poema.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

1.3.07

Vamos falar de poesia


ARTE POÉTICA – II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida real mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen
In: Geografia, Lisboa: Salamandra, 1990

28.2.07

Cúmplice do tempo

Amedeo Modigliani

Cúmplice do tempo, fixo no calendário
o instante de ser jovem e as minhas mãos
enchem-se de barcos, disponíveis
para viagens à terra prometida.
Se não fosse o excessivo luto
nas linhas do meu rosto,
viriam marinheiros de todos os portos,
oferecer-me o sextante e a bússola,
para que, em rotas a oriente da noite,
testemunhasse a dupla mendicidade

dos que sonham.
Sei, hoje, onde o mar adormece
descuidado: tão próximo da sombra
dos navios, que torna irremediável
o júbilo das ondas.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

27.2.07

Novamente um mar

Pascal Renoux

Novamente um mar. O entardecer
é a praia onde morremos juntos,
quando as nossas mãos se transformam
em veleiros que partem com o vento
e nós somos, apenas, o fruir
deslumbrado do silêncio.
Moramos entre pinheiros altos

e, do chão, apenas a relva vermelha
nos pode resgatar.
Aquilo que dizemos coincide

com a terra renovada.
Por isso, as searas hão-de vir
rodear-nos a cintura
e escreverão no pão a nossa fome.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

26.2.07

Todas as noites me despeço de ti

Salvador Dali

Todas as noites me despeço de ti,
como se existisses nos meus gestos.
Construíste, pedra a pedra,
o circuito fechado de um pretexto ausente.
Agora, já não és senão o falso alarme do meu corpo.
Ocorrem-me, até, palavras de um sossego
de pétalas e penso no amor
como se de uma fraude se tratasse.
Sou o pão e o vinho num festim de contradições.
Tenho, no sangue, um ciúme liquefeito
que transtorna os caminhos de exígua claridade
onde as palavras perdem o sentido.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

25.2.07

A noite

Ansel Adams

À altura de todas as estrelas
coloco as mãos para tocar o vento.
A lua é um fascínio que deixa atónito
o meu corpo, e lhe dá um cheiro
de fêmea fecundada ; um fogo posto
a deixar um luar, pleno, detido nos meus olhos.
Passeio-me, longamente,
pelo lado mais insensato das palavras
e digo o nome do último pássaro nocturno,
como se nele repetisse um primeiro adeus,
tão súplice, tão magoado.
Um tango exausto sobe-me pelas pernas.
Há, na minha boca, uma rua silenciosa,
por onde se chega à fragilidade dos lábios.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

21.2.07

Em seara alheia




ZECA AFONSO: TROVADOR
DA VOZ D'OURO INSUBMISSO



É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.

É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.
Natália CorreiaIn: O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, 1º vol.
Lisboa : Círculo de Leitores, 1993

20.2.07

A marginalidade da luz

Manuel Fazenda Lourenço

Tão inesperado como um assombro,
um coro de tragédia urde, em meu peito,
a travessia da noite. Um barco sem cais,
prevê a morte de peixes transparentes.
De tanto olhar o mar, um marinheiro
enlouquecido, dançou em meus olhos,
ensaiando-me nos pés uma valsa perversa.
Por isso, de tempos a tempos, parto e regresso,
clandestinamente, sulcando no rosto
a marginalidade da luz.
As histórias do assombro com que vestia a lua,
terminaram há muito.
O meu sorriso guarda, inteira,
a desavença de meus dedos.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

19.2.07

Um homem desertou



Um homem desertou da hipótese de amar.
Escolheu a curva perigosa de um remorso,
onde escondeu o brilho dos seus olhos.
As suas mãos desaprenderam os afagos
e perderam o dom de receber.
Então, nunca mais ninguém o viu chorar,
porque, da sua boca, apenas sai, agora, um longo
deserto, por onde rasteja a sua sede.
Mas, este rosto que se esconde,
não é de um homem.
É um amor perfeito coagulado no sangue,
ou qualquer máscara a disfarçar
distâncias do futuro e a rejeitar
a linguagem de um incêndio de vozes.
Com que penas se descreve
um pássaro transparente?
Com que asas se soletram
os voos de lonjura e solidão?
Há quanto tempo a terra se inundou
nas margens do olhar.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997