Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
7.12.20
Em seara alheia
29.11.20
Novo Livro de Poesia
Notícia da Editora Labirinto:
Poesia
Título: JOGO SENSUAL NO CHÃO DO PEITO
Autor: Graça Pires
Prefácio: Eugénia Vasques
Capa: Daniel Gonçalves, sob foto de Maycon Marmo
N.° de páginas: 62
ISBN:978-989-54902-7-1
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https://www.editoralabirinto.net/product-page/jogo-sensual-no-ch%C3%A3o-do-peito
Sobre o livro:
Quem conhece o que escrevo sabe como gosto de encenar vozes de personagens, imaginando o que elas teriam dito se eu as pudesse ouvir. Por isso tento habitar o enredo que elaboro, para dele me tornar a protagonista.
Porque as pessoas não são apenas o que foram, mas também o que podemos supor que seriam.
É como se as fizéssemos nascer de novo para cumprirem uma viagem através das palavras.
É o poder da inscrição da voz sobre o silêncio.
É a fala da ficção dentro do poema.
É ser, ao mesmo tempo, pensamento e imagem.
Escolhi, Isadora, a bailarina que encantou e chocou o mundo, porque reconheço nela a artista que soube recuperar a inocência através da dança que lhe saía do corpo com uma perturbante plenitude.
Como escreveu Maria Zambrano, para a poesia nada vence a morte, a não ser por momentos, o amor. E foi com amor que incorporei a intimidade de uma mulher que desafiou um a um todos os instantes da sua vida, atravessada por tantos sonhos, tantos êxitos, tantas decepções, sempre de forma fascinante e sedutora.
Graça Pires, Novembro 2020
Se alguém quiser, pode ouvir um poema do novo livro:
23.11.20
Apetecia-lhe chorar
16.11.20
A redenção de um abraço
9.11.20
Amava a montanha desde que nasceu
2.11.20
Deambulou ao acaso
26.10.20
Em seara alheia
19.10.20
Não é ficção nem simbologia
Adriano Miranda
Não é ficção nem simbologia.
12.10.20
Habitava aquele sítio por engano
5.10.20
Não frequentou a escola
Adriano Miranda
28.9.20
Com as unhas fincadas no vaso de barro
Federica Erra
21.9.20
Não quis falar do vinho
14.9.20
Em seara alheia
7.9.20
O estranho retorno de um espanto
31.8.20
Apareceu como uma assombração
Dorothea Lange
24.8.20
Caminham por dentro do próprio desalento
17.8.20
Em seara alheia
10.8.20
Foi numa tarde de maio
Albino Moura
27.7.20
Conta-se por aí
Maria Clarinda Galante
Conta-se por aí
que ele amava tanto as árvores
todas as tonalidades de verde.
O círculo das águas submersas
debandava o longe das nascentes
para adubar sementes e raízes.
Um inesperado cio,
bafo da terra em júbilo,
alojou-se-lhe no sangue.
Cinge, agora, nas mãos a luz de março
aguardando que o sobressalto
verde das folhas o sacie.
20.7.20
Nunca contou a ninguém
13.7.20
Em seara alheia
6.7.20
Naquela aldeia havia uma ribeira
Ossi Saarinen
Naquela
aldeia havia uma ribeira
onde vinham beber os homens e os lobos.
O menino ficava por perto
à espera que eles
–
os homens e os lobos –
viessem beber nas suas mãos.
Em seu olhar cristalino
há ainda um brilho feroz
que desperta no seu peito
as aves da montanha.
Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 43
29.6.20
Lugar de junho
António Cruz
É melhor não dormirmos
sob o árido labirinto da tristeza.
À nossa frente existe um pórtico
purificado por uma névoa de sons.
Vamos transgredir o limiar do absurdo,
porque encontrámos um abrigo musical,
onde ninguém pode separar das nossas bocas
o percurso das águas outonais.
É verde o germe do sol nos nossos olhos
e, sem querer, a sombra de um pretexto
emerge do assombro de nós próprios
como um regresso plural da inocência.
Estamos num lugar de Junho
e qualquer sinal de ausência
pode ser apenas um veleiro
que partiu dos nossos dedos.
22.6.20
Jovem ruiva com vestido de noite
15.6.20
8.6.20
Doía-lhe na voz
Se alguém quiser ouvir o poema pode fazê-lo aqui
https://www.youtube.com/watch?v=4umDyqwFCYw
1.6.20
Menina de azul
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 13
25.5.20
Em seara alheia
30.
Não tens outro destino que não o mar
da lusitana terra portuguesa
teu berço de sangue e tua onda
azul de espuma à tua mesa.
Não tens outro remo outro navio
outro porto outra casa outra corrente
que a raiz de avós e o sangue antigo
a correr-te na veia efervescente.
Não tens outra manhã aberta sobre o peito
quando a semente é veramente mater
quando o céu cobre o ardor do corpo
e as mãos afagam o pulsar do coração.
Não tens outro destino, não,
que o mar é uma canção de moinhos sobre as dunas
afagando a água onde regressas.
Isabel Fidalgo
In: Sou viagem. Braga: Poética Edições, 2020, p.40
16.5.20
Um homem morreu sem ver o mar
7.5.20
2.5.20
De cabeça baixa
25.4.20
As minhas mãos se dão
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
20.4.20
Em seara alheia
Já isolei o coração. Lavei os olhos
com sal até sangrar toda a doçura.
Coloquei as mãos numa gaveta de silêncio.
As lágrimas estão em confinamento desde
o primeiro dia. Adiei o medo para quando
necessário. Adiei tudo o resto, na verdade.
Vestidos novos, beijos, viagens e poemas.
Adiei até os filhos. O amor pelo amor.
Entretanto, nas legendas de um filme
leio que a esperança é uma coisa
perigosa. E no entanto, digo,
no entanto há concertos nas varandas
e gestos novos nascidos como planetas
antes desconhecidos. E no entanto
há rosas desenhadas nos nossos rostos.
Feridos, os nossos rostos, ardendo de dor.
E no entanto, é o abraço das cicatrizes
Que nos salva.
































