8.3.07

Apesar de tudo. Apesar de nada

Duncan Clark

No primeiro luar de outono,
alterei o penteado e risquei,
em todos os mapas do mundo,
caminhos interiores.
O mais comum dos peregrinos
cruzou comigo o olhar vadio,
como quem partilha a água e a sede,
o pão e a raiva, a fome e o sangue.

Num lugar de mágoas e cansaços
te encontrei, companheira de sonhos.
Gastaste as mãos nos ardis da entrega
e percorreste os trilhos da coragem,
resgatando a noite.
Às vezes, murmurámos, entre nós,
coisas do silêncio, denunciadas pelo olhar
e dissemos: não há mais nada a fazer senão amar.
Apesar de tudo. Apesar de nada.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

7.3.07

Mulher

Scotia Luhrs

De coragem vesti a solidão,
de ternura moldei o meu cansaço
e fui mulher-canção, mulher-abraço
de quem me viu morrer por cada sonho,
de quem me viu nascer em cada esperança.
Na lembrança guardei toda a beleza
e a tristeza cobri de fantasia.
Enfeitei-me de poesia como quem reza
e fui vadia, no gosto aventureiro de quem vive.
E sou mulher-certeza, mulher-livre,
mulher do dia a dia a tempo inteiro.


Graça Pires

6.3.07

Um amigo

Jacques-Henry Lartigue


O teu rosto é uma cidade
onde os ventos se cruzam
com as notícias sem itinerário.
Decorei o teu nome,
mesmo sabendo que vagueias,
sem rumo, como um nómada,
à míngua de um perfeito amor.
Na cor dos meus olhos te pressinto,
como se, na tua boca, nascesse um rio
sem contornos e, nesse espaço
transparente, me apetecesse ser barco.
Eram feitas de pássaros, as bandeiras
que erguemos no cimo da nossa ansiedade.
Lembras-te?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

5.3.07

Em seara alheia



UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o
mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neill

In: Poesias Completas, 1951/1986
Lisboa, IN-CM

4.3.07

Sulco sonhos antigos

Picasso

Um bando de aves solares,
estilhaça os espelhos
que me devolvem uma nudez perversa.
E sulco sonhos antigos, como quem recupera
brincadeiras clandestinas, ou revela segredos
só perceptíveis na noite.
Em que tear ensaio os acenos

que se atrevem no vértice da distância ?
Há um instinto de errância na cor
entardecida de meus olhos,

tão cheios de barcos de ausência.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

2.3.07

Atravesso a noite na curva das dunas

LensEnvy
Não é fácil esquecer as praias
em que se desdobram cenas de algas e navios.
Em qualquer parte da suspeita
há uma ilha encantada com castelos de areia,
um litoral de silêncios para além das metáforas,
uma insónia entreaberta a todos os mares.
Atravesso a noite na curva das dunas.
Amanhã, o cais será o coração dos homens,
e as pedras perguntarão por que motivo
é mais soluçado o bater das ondas.
Então, celebrarei a brevidade
do êxtase que não cabe no poema.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

1.3.07

Vamos falar de poesia


ARTE POÉTICA – II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida real mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen
In: Geografia, Lisboa: Salamandra, 1990

28.2.07

Cúmplice do tempo

Amedeo Modigliani

Cúmplice do tempo, fixo no calendário
o instante de ser jovem e as minhas mãos
enchem-se de barcos, disponíveis
para viagens à terra prometida.
Se não fosse o excessivo luto
nas linhas do meu rosto,
viriam marinheiros de todos os portos,
oferecer-me o sextante e a bússola,
para que, em rotas a oriente da noite,
testemunhasse a dupla mendicidade

dos que sonham.
Sei, hoje, onde o mar adormece
descuidado: tão próximo da sombra
dos navios, que torna irremediável
o júbilo das ondas.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

27.2.07

Novamente um mar

Pascal Renoux

Novamente um mar. O entardecer
é a praia onde morremos juntos,
quando as nossas mãos se transformam
em veleiros que partem com o vento
e nós somos, apenas, o fruir
deslumbrado do silêncio.
Moramos entre pinheiros altos

e, do chão, apenas a relva vermelha
nos pode resgatar.
Aquilo que dizemos coincide

com a terra renovada.
Por isso, as searas hão-de vir
rodear-nos a cintura
e escreverão no pão a nossa fome.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

26.2.07

Todas as noites me despeço de ti

Salvador Dali

Todas as noites me despeço de ti,
como se existisses nos meus gestos.
Construíste, pedra a pedra,
o circuito fechado de um pretexto ausente.
Agora, já não és senão o falso alarme do meu corpo.
Ocorrem-me, até, palavras de um sossego
de pétalas e penso no amor
como se de uma fraude se tratasse.
Sou o pão e o vinho num festim de contradições.
Tenho, no sangue, um ciúme liquefeito
que transtorna os caminhos de exígua claridade
onde as palavras perdem o sentido.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

25.2.07

A noite

Ansel Adams

À altura de todas as estrelas
coloco as mãos para tocar o vento.
A lua é um fascínio que deixa atónito
o meu corpo, e lhe dá um cheiro
de fêmea fecundada ; um fogo posto
a deixar um luar, pleno, detido nos meus olhos.
Passeio-me, longamente,
pelo lado mais insensato das palavras
e digo o nome do último pássaro nocturno,
como se nele repetisse um primeiro adeus,
tão súplice, tão magoado.
Um tango exausto sobe-me pelas pernas.
Há, na minha boca, uma rua silenciosa,
por onde se chega à fragilidade dos lábios.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

21.2.07

Em seara alheia




ZECA AFONSO: TROVADOR
DA VOZ D'OURO INSUBMISSO



É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.

É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.
Natália CorreiaIn: O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, 1º vol.
Lisboa : Círculo de Leitores, 1993

20.2.07

A marginalidade da luz

Manuel Fazenda Lourenço

Tão inesperado como um assombro,
um coro de tragédia urde, em meu peito,
a travessia da noite. Um barco sem cais,
prevê a morte de peixes transparentes.
De tanto olhar o mar, um marinheiro
enlouquecido, dançou em meus olhos,
ensaiando-me nos pés uma valsa perversa.
Por isso, de tempos a tempos, parto e regresso,
clandestinamente, sulcando no rosto
a marginalidade da luz.
As histórias do assombro com que vestia a lua,
terminaram há muito.
O meu sorriso guarda, inteira,
a desavença de meus dedos.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

19.2.07

Um homem desertou



Um homem desertou da hipótese de amar.
Escolheu a curva perigosa de um remorso,
onde escondeu o brilho dos seus olhos.
As suas mãos desaprenderam os afagos
e perderam o dom de receber.
Então, nunca mais ninguém o viu chorar,
porque, da sua boca, apenas sai, agora, um longo
deserto, por onde rasteja a sua sede.
Mas, este rosto que se esconde,
não é de um homem.
É um amor perfeito coagulado no sangue,
ou qualquer máscara a disfarçar
distâncias do futuro e a rejeitar
a linguagem de um incêndio de vozes.
Com que penas se descreve
um pássaro transparente?
Com que asas se soletram
os voos de lonjura e solidão?
Há quanto tempo a terra se inundou
nas margens do olhar.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.2.07

Agora que amanhece

Edward Hopper

Agora, que amanhece, decidi regressar à infância,
para sobreviver ao luto dos pássaros de luz.
Sob a protecção de um útero de fantasia,
transmudo-me em ave perdida na noite.
Por favor, não falem de sombras e de ausências.
Não perguntem a razão de cansaços e remorsos.
Não refiram nomes, nem datas, nem lugares.
Deixem, apenas, que a meninice volte de novo
e se reparta em íntimos silêncios.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

16.2.07

Chegaram as primeiras chuvas

Olivier Meriel

Chegaram as primeiras chuvas
e deixaram de ser verdes
os laços com que se urdem os desejos.
As violetas, que ladeiam os meus pulsos,
irão resistir a outro inverno ?
Que sombras me perseguem, na nocturna
memória de um litoral de búzios ?
Serão aves rasteiras a pernoitar
em meu sangue, ou morri de solidão,
com um navio, em chamas, entre os olhos ?


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

15.2.07

Reino da Lua

Pascal Renoux

Como se nada mais existisse além da noite,
debruço-me sobre o meu próprio instinto
e rasgo, nos lábios, um inquieto chamamento.
Tudo o que sei a sede mo disse,
quando a colheita dos frutos anunciou
uma seiva excessiva à boca das fontes.
Pelo lado mais denso das trevas,
aguardo a eclosão da luz em meu olhar:
subitamente urgente de ser dia.
Perdida diante das palavras,
uma profunda inquietude domina
os meus dedos, enquanto um pássaro errante
me traça, no rosto, a matriz de um rio intranquilo.


Graça Pires
De Reino da lua,2002

14.2.07

Repara




Li, no jornal, que as acácias incendiaram as ruas
e a manhã rebentou-me no peito. Deliberadamente.

Repara como se encheu de pássaros a árvore
que desenhaste no meu peito. Repara como,
lentamente, anulámos a distância das mãos
e equacionámos a linguagem do afecto na curva
dos braços. Repara como nos emocionamos com a vida
e, em segredo, nos olhamos sem qualquer pudor.
Repara.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

13.2.07

As tuas mãos

Caravaggio


Para que saibas. As tuas mãos vogando
como barcos: incessante navegação
pela liquidez dos lábios.
As tuas mãos. Digo. Para que saibas.
Pássaros incendiados a sobrevoar-me
o sangue. Um tropel de luz a demandar meu corpo.
As tuas mãos : o arado, a terra, a fome, o celeiro.
Digo as tuas mãos. Para que saibas.
As tuas mãos tão próximas de tocar a lua.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

12.2.07

Em seara alheia



GEOGRAFIA

Chegavas ao anoitecer, dizia alguém,
ao fim de um porto,
à hora das valsas e dos crimes, a meio da
vida,
quando as hélices paravam e no convés se
ateava o lume das paixões que perduravam
no tempo dos navios,
quando, ao longo dos mapas,
os dedos procuravam as palmeiras e os
países,
neste ou noutro mundo,
onde os terraços pareciam navegar sobre o
próprio mar.

Partias ao anoitecer, dizia alguém,
e na cadeira vazia,
na cal sem mácula que decora as ilhas,
resplandecia a face das luas, com o farol
de outrora,
sobre os recifes por onde vagueiam os
fantasmas da nossa solidão.

José Agostinho Baptista

In: Agora e na Hora da Nossa Morte.Lisboa : Assírio & Alvim, 1998

11.2.07

Instantâneo



Com os dedos pintados de branco,
ela ajoelhou-se na terra,
para chorar a solidão dos homens.
Que anjo se movimenta
no discreto brilho que paira nos seus ombros?
De noite, as janelas de todas as casas
hão-de incendiar-se.
Um clarão perpassará os olhos
dos que avistam o sul
através da evocação das pombas
evadidas do inverno.
Ela continuará de joelhos,
longamente chorando a solidão dos homens.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

9.2.07

Percorro os fonemas

Rene Magritte

Percorro os fonemas como se dançasse,
envolta numa túnica de água,
guarnecida de espelhos.
Sou Ariadne vestida de espanto.
Nos meus dedos cintilam longuíssimos fios
de um novelo de versos e de sonhos
com que me quero salvar.
Já não me lembro de que mitologia saí.
O meu labirinto tem a forma de um pássaro
conivente com a noite.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

8.2.07

Sem nenhuma razão



Sem nenhuma razão,
a denúncia de um farol,
devolve-me o vulto improvisado de um navio,
e adormeço embrulhada em canções sentimentais,
confundindo a infância com o amor,
como quem se encosta ao vento,
se afaga no escuro,
e se queima nos pormenores da vida.

De Conjugar afectos, 1997

7.2.07

Nas horas mais nocturnas

Alvarez Bravo

Nas horas mais nocturnas, desenho um círculo
e rastejo, através dele, até à sede.
Bichos sonâmbulos ferem-me a garganta.
Um barco alado irrompe da noite
e mutila a lucidez das mãos.
Um grito único ressoa no meu peito.
Mas, a planície enrosca-se-me na voz
e não me devolve o eco, que só o coração ouve.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

6.2.07

O perfil da minha infância

FoqStock

Meço o tempo na sequência de feições,
quase sem forma e avisto o perfil
da minha infância inventada.
Vejo-me no pátio de recreio
de uma cidade inocente.
Perco o pé na porta das surpresas
e corro, a toda a brida,
pelos segredos dissimulados
nos dedos que manejam
os papagaios de papel.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

5.2.07

Em seara alheia


Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario,
onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas,
enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer, um frágil aceno,
como quem convoca, no rendilhado
das areias, a beleza de uma miragem;
espécie de visão fulgurante
onde uma porta auspiciosa se firma

Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o com o feliz desalento que sempre trago,
com o desapego de duas mãos
na fértil aridez do DesertoVictor Oliveira Mateus
In: Pelo Deserto as Minhas Mãos. Sassoeiros : Coisas de Ler, 2004

3.2.07

A memória da ternura

Marc Chagall

A memória da ternura sobre o teu peito,
como um mel exótico.
Havemos de voltar à polifonia dos pássaros
com olhos de musgo e nenhum rumor
trairá em nós o silêncio das palavras
maduras, porque temos, rente ao rosto,
a límpida inclinação de um lago.
Morreremos apenas quando o amor
nos assustar mais do que a morte.
Agora, abrirei as mãos, para que possas ver
a passagem que vai dar ao rio da tua infância.
Mas, tem cuidado, amor,
porque não há nenhum deus dentro da lua cheia.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

2.2.07

Ignoro quantos navios partiram

Claude Monet


Ignoro quantos navios partiram,
ao primeiro sinal da estrela d’alba,
presos ao derradeiro sonho.
Venho de lugares onde me corrompi,
para tornar de pedra qualquer culpa.
Quero captar o brilho da sombra,
ou entender, apenas, a indecisão da luz,
com os olhos alagados de paixão.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

1.2.07

Vamos falar de poesia



POESÍA Y POEMA


La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionaria por naturaleza; ejercicio espiritual, es un método de liberación interior. La poesía revela este mundo; crea outro. Pan de los elegidos; alimento maldito. Aísla; une. Invitación al viage; regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración, ejercício muscular. Plegaria al vacío, diálogo con la ausencia: el tedio, la angustia y la desesperación la alimentan. Oración, letanía, epifanía, presencia. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condensación del inconsciente. Expresión histórica de razas, naciones, clases. Niega a la historia: en su seno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre adquiere al fin consciencia de ser algo más que tránsito. Experiencia, sentimiento, emoción, intuición, pensamiento no-dirigido. Hija del azar; fruto del cálculo, Arte de hablar en una forma superior; lenguage primitivo. Obediencia a las reglas; creación de otras. Imitación de los antiguos, copia de lo real, copia de una copia de la Idea..Locura, éxtasis, logos. Regreso a la infancia, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo. Juego, trabajo, actividad ascética. Confésion. Experiencia innata. Visión, música, símbolo. Analogía: el poema es un caracol en donde resuena la música del mundo y metros y rimas no son sino correspondencias, ecos de la armonía universal. Enseñanza, moral, ejemplo, revelación, danza, diálogo, monólogo. Voz del pueblo, lengua de los escogidos, palabra del solitario. Pura e impura, sagrada y maldita, popular y minoritaria, colectiva y personal, desnuda y vestida, hablada, pintada, escrita, ostenta todos los rostos pero hay quien afirma que no posee ninguno: el poema es una careta que oculta el vacío, prueba hermosa de la superflua grandeza de toda obra humana!
[...]

Octavio PazIn: El arco y la lira, México: Fondo de Cultura Economica, 1992

31.1.07

Um novelo de rimas imperfeitas

Bea Danckaert

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários,
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua
em todas as fases, leva-me a glosar os medos
num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas
que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.1.07

Em silêncio

Manuel Alvarez Bravo

Em silêncio, sempre em silêncio,
as mulheres refazem o penteado,
que as mãos forasteiras
da noite desmancharam.
É a hora do romper do dia.
A cor da madrugada
quase que dói por dentro da pele.
E não fora a urdidura de mágoas
antigas, elas dariam, à paisagem,
o nome de um deus solar.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

29.1.07

Em seara alheia



Estendo o braço até tocar
a sombra da tarde
- não quero outro exercício
enquanto fragmento de poema –
e é provável que as flores azuis,
que não sei identificar na berma
da estrada, amanhã já lá não
estejam, tão frágil é o meu
entendimento do mundo.
Sandra CostaIn: A Vocação dos Homens Silenciosos. Maia : Cosmorama, 2006

28.1.07

Entre um rosto e um nome

Stephen Alvarez


Entre um rosto e um nome
há bandos de pássaros em ascensão.
Exagero, quase sempre, a morfologia da noite,
no olhar mais que perfeito dos que têm no sangue
o país secreto das paixões.
Coexisto com a vertigem
de tocar a metamorfose da realidade visível.
Dou-lhe a forma de um tempo
que virá configurar o espaço iluminado do silêncio
e exorcizar a intimidade das palavras.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

27.1.07

A matriz sazonal da minha sombra

Steve Hanks

Intimidam-me os vestígios de inscrições,
citando o futuro, no muro da fatalidade.
Nos meus ombros há um campanário
de ironias invocando, desde que nasci,
os símbolos da imaginação.
A lápis de cor, desenho uma ilha,
onde me aprisiono até que amanheça.
Nas sobrancelhas do prazer,
construo um umbral à altura das emoções
e deixo que me coagulem na cintura
todas as formas de paixão.
Recapitulo, assim, a matriz sazonal
da minha sombra.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

26.1.07

Detenho-me à porta de um parágrafo

Paul Strand


Detenho-me, à porta de um parágrafo,
como aprendiz de enredos.
Sou a personagem que teme a sua morte
ancorada na última página.
As letras, afiadas como lanças impiedosas,
são a única referência nómada
de uma cadeia de vocábulos no labirinto do texto,
onde soletro a intimidade de tudo o que amei.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

25.1.07

Inverno

Robert Adams


A persistência da chuva catalogada
por quem nada sabe de paixões.

O vento e o silêncio emboscados
no mesmo rumor nocturno.

A diáspora de aves migratórias
a encher os dias de presságios.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

24.1.07

De tanto chamamento

Alfredo Cunha


Caminho de encontro ao entardecer,
com a língua salgada de incendiar
a paisagem de quantos verões
me couberam na boca.
A curva do meu riso indicia o sul da mágoa.
Tenho um barco tatuado nos ossos
e os braços, quase enfermos,
de tanto chamamento.
No próximo verão, hei-de vestir-me de branco,
para que os veleiros avistem a solidão do meu olhar.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

23.1.07

Não desvies os olhos

Manuel Fazenda Lourenço

Não desvies os olhos: vejo neles a nossa casa,
virada a nascente, recolhendo a imprecisa luz
do amanhecer.
Deixa-me pintar, nas paredes, o canto
das andorinhas, que nos atravessam os dias
em pleno verão, ou, diz-me tu, o silêncio
das cigarras ao final da tarde.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

22.1.07

O chamamento da lua

Rolfe Horn

A norte da tristeza, deixo a memória
a meia haste, fazendo o luto
de futuros desencantos.
E entro pela noite: ilha de sonhos exilados,
onde me torno o único sobrevivente
de um enredo imaginário.
Tenho estrelas marinhas
fossilizadas nos pés,
promissores de aventuras.
Quando o mar se enfurece,
o meu cabelo ondula, devagar,
como quem maneja mal os equívocos,
ou tem uma pressentida alegria
a latejar no corpo.
Perturbante, é o silêncio
que se ergue a sul dos navios,
quando os peixes adivinham
o chamamento da lua.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

21.1.07

Em seara alheia



Fito-os porque se transformam. Eu estou
no atalho entre ondas. Apenas paro.
Não serei volúvel, de modo a despedir-me de símbolos de mar

e de terra. Estarei adormecida, atenta a ambos.
Tudo o que me corte ou se movimente como esse
alumínio de seres marinhos me faz arder do seu ardor.

Antecessores que modelaram as gáveas abandonaram-nas.
Fragas que desconheço. A minha contemplação estática
perante o mar. Desde o nascimento, sempre com a nau fixa
e o céu ocre, ondas que sobre mim se entrecruzavam.
A minha persistência no litoral. Ignoro, mas contemplo.
Fiama Hasse Pais Brandão
In: Novas visões do passado, Lisboa: Assírio e Alvim 1975

18.1.07

A alegria

Edward Hopper

A alegria :
gastei-a à procura
de argumentos para ser feliz.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.1.07

Hoje basta-me um muro de barro

Claude Simon


Hoje, basta-me um muro de barro,
para derrubar nele o som da minha voz.
Não sei se é de musgo ou de lodo,
o rumor matinal do meu rosto,
a reflectir a noite, longa de sossego,
por onde passou a luz sem me pressentir.
Neste instante pouco importa a vertigem do corpo.
O lado azul da vertente é a minha obsessão
e sinto os lábios porosos, como um chão térreo,
à doçura espessa dos morangos.
Eu sou o lugar onde, inadvertidamente, me refugio.
No fundo das ruas que percorro existe, agora,
a linha transversal do meu poema branco,
e posso ver a limpidez total do perfume
que as madressilvas entornam no ar,
quando roçam os cabelos das crianças.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

16.1.07

Entardecer

Stephen Alvarez


O ocaso retém o mar
por onde os olhos emigram,
sem bagagem, para lugares
onde a curva da luz dissimula
a treva, clandestinamente.
É perigoso pintar nas pedras
o direito e o avesso dos desejos.
Há seduções escondidas no vértice
da tarde, ardendo em fogo lento.
Caminhemos pela cintura do assombro,
até ao marginal pretexto de um grito
de alerta quase absoluto, que acordará,
nas costas da noite, bandos e bandos
de aves luminosas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

15.1.07

Em seara alheia



NOÉ

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. Eu sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por essse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Não é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
Pedro Tamen
In: Analogia e Dedos. Lisboa: Oceanos, 2006

14.1.07

A pão nos sabem as palavras

Duarte Belo


A pão nos sabem as palavras,
quando a brisa do sul nos roça a cara.
Seguro, nas duas mãos, as tuas mãos
e sob o peito (o teu, o meu), alastram ramos
transparentes, que sustêm, na casa,
a trave-mestra, como se a raiz
de cada árvore nos amarrasse,
as veias, ao destino comum do coração.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

13.1.07

A minha rua desce para o Tejo

Carlos Botelho



A minha rua desce para o Tejo.
Não é simbologia.
Há o rosto nítido dos barcos
na continuidade das pedras.
Em qualquer ponto se define
uma constelação entre proas.
Da janela avalio a inutilidade das âncoras.
Por isso, incluo no poema a escada irreversível
onde alieno os meus passos.
Confirmo a legibilidade da chuva,
ou da água oculta na concavidade dos olhos,
e nomeio o estremecimento das mãos
como um paradigma de amor.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

12.1.07

Dantes, pelos caminhos

Manuel Alvarez Bravo


Quando a noite renova a planura
das sombras sobre a terra, os cães
ladram à palidez da lua, fustigados
pelo ranger das portas.
Dantes, pelos caminhos,
havia pessoas apressadas,
de regresso às casas, agora desertas
e as mulheres chamavam os filhos
com a mesma voz com que rogavam
pragas à miséria.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

11.1.07

Teseu não quis morrer



Teseu não quis morrer.
O seu olhar respirou sangue
sobre a garganta do touro.
O seu corpo era tão jovem
que confundiu a face da deusa da beleza.
E ela esvoaçou nua dentro do seu peito.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

10.1.07

À boca das areias

Robert J. Ford

À boca das areias, ardem quilhas insuspeitas.
Uma tempestade amotina-me o brilho do olhar.
A cidade inunda-se de barcos e, dentro de mim,
pernoita um marinheiro comprometido
com marés desmedidas.
Podia esquecer-te para sempre,
não fora a vertigem da tua sombra
a cercar os meus olhos.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

9.1.07

Para preparar o inverno

Alfredo Cunha


Distingo, desde menina, as palavras
consumidas na voz das mulheres,
cúmplices de silenciosas madrugadas.
Conheço-lhes o circular gesto de disfarçar
desejos com astúcia, quando o destino
lhes antecipa um enredo desabrido:
a morder na boca, a arranhar nas unhas,
a queimar na pele.
Esquecem, então, deliberadamente,
os sonhos intranquilos e passam
a levantar-se antes do sol nascer:
para preparar o inverno, pensa toda a gente.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002