Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
8.8.17
Em seara alheia
os meninos colocam barcos de papel
os meninos colocam barcos de papel
a navegar na valeta
e sonham com embarcações a percorrer países
e destinos improváveis de que são os comandantes
as meninas fazem grinaldas com folhas de arbusto
pintam as unhas com pétalas compridas de flores
e fingem que são rainhas
desfolham zangas fugazes e risos
intermitentemente com cores de eternidade
um futuro pouco distante
lhes dará um reino e um trono
em que o tempo será um bicho medonho
a devorar o futuro
e brincar será apenas uma coincidência
a aldeia agora é um fantasma de escombros
com casas que sorriem velhas de amargor e tristeza
porque as telhas estão gastas
e os fornos não dão pão
e os canteiros não têm flores
os risos dos meninos soam distantes
girassóis em busca de luz
a fabricar sonhos em outro lugar
a luta é um incessante caminhar
por uma selva sinuosa e densa
e há correntes onde os homens se agarram
para atingir os píncaros da montanha e tocar o céu
a brincadeira acaba num grito de mãe a dizer
vem jantar
o dia cheira ao suor dos homens
e ao riso distante dos meninos.
Graça Alves
In: Da Timidez dos Homens. Coimbra: Palimage, 2017, p. 38
2.8.17
Jovem morena com franja
Amedeo Modigliani
Não
digam a ninguém,
mas
hoje, lá na loja,
foi
um vai e vem de rapazes
para
me verem de franja.
As
senhoras que foram comprar
meias
de seda, ou um tecido,
ou
uma bugiganga qualquer
olhavam-me
com suspeição.
Percebi
que é falso, quase tudo
o
que aprendi sobre os segredos
das
mulheres que encobrem
a
ansiedade no recamo do decote.
A
sedução é um brilho cegante
e,
quem sabe, um lençol de mágoas.
Intenso
foi o tumulto de aromas
estranhos que a todas nos perturbou.Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
26.7.17
Por um instante, as formigas
Laura Makabresku
Era uma floresta
fantasiada.
Era um carnaval de
gestos
na metamorfose dos
corpos,
delineando o próprio
rosto.
Eram animais míticos
e reais.
Por um instante, as
formigas
saíram-me do olhar,
em ondas vagarosas.
A cegueira
arredondou-lhes o espaço
com fios impalpáveis.
Agonizaram à procura
do sulco dos meus olhos.
Graça Pires
In: A
CNB e os Poetas, 2016, p. 46
19.7.17
No estio da terra
Ricardo Nascimento
De súbito, um
submerso silêncio a ocidente das manhãs
entretece o cúmplice
coração das searas no estio da terra.
Adivinha-se a
quentura das águas através da brisa
que desliza pelos
cabelos das crianças, num aconchego
quase tão delicado
como o chamamento das mães.
Apetece resgatar
alegrias e dar às coisas
nomes de flores, de
anjos, de amigos.
Para lá do espaço há
uma linha inclinada que não perturba
a curva do sol no
recanto mais sensível do horizonte.
Os dias resguardam
longamente a luz, e o crepúsculo
até dói no olhar
desprevenido dos que esperam da noite
a transparência das
sombras.
Graça Pires
In: Solstícios e Equinócios: antologia. Coord. de Emanuel Lomelino. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2016, p. 62
Graça Pires
In: Solstícios e Equinócios: antologia. Coord. de Emanuel Lomelino. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2016, p. 62
10.7.17
Em seara alheia
Rasga o Poeta as Vestes
Rasga o poeta as vestes. E clama seus passos
Ousando, de queda em queda, o fogo do milagre
E os caminhos de Damasco
E a Iluminação perene
Que o redima.
Não a prece, nem a tempestade. Nem o anjo.
Nem a espada - são de pedra seus passos
E inóspitos seus caminhos.
E é de areia o rosto das miragens.
E é de fel o colapso de seus dias.
E de amargura a água dos rochedos.
Ousa porém o poeta o milagre inscrito
Nas humaníssimas dores da Humanidade
E nelas lava o seu corpo místico
Como se rio fossem.
Manuel Veiga
In: Caligrafia Íntima. Braga: Poética Edições, 2017, p. 15
1.7.17
Nu sentado no divã
Amedeo Modigliani
Agora,
que tomei banho
e
me perfumei com infusão de rosas,
podes
vir pintar o meu retrato.
Sento-me
de lado.
Não
quero que mostres
as
curvas todas do meu corpo,
nem
que desvendes a mais íntima
nudez
de minhas sedes.
Tenho
sob a pele a máscara da inibição
onde
escondo o anseio mundano
de
colorir o desacerto dos meus passos.
Por
isso, retoca devagar o recorte dos lábios,
o
desenho dos olhos e este quase pudor
que
o gume do tempo teceu em meu sorriso.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que vou estar no Forum da Feira do Livro de Braga no dia 7 de Julho, a partir das 17 horas. É um gosto enorme que apareça quem estiver por perto.
Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que vou estar no Forum da Feira do Livro de Braga no dia 7 de Julho, a partir das 17 horas. É um gosto enorme que apareça quem estiver por perto.
24.6.17
Em tempos de oração
hão-de acender-se fogueiras
para atrair a chuva
como uma crendice de tempos remotos.
Seremos, passo a passo,
errantes de longínquas viagens
ou peregrinos perseguidos
em tempos de oração.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
18.6.17
Mulher com camisola preta
Amedeo Modigliani
Já não possuo a voz de outrora,
quando
repartir o pão
era
um gesto maternal
e
os filhos me pediam os olhos
para
poderem adormecer.
Com
os pulsos abertos
a
qualquer aflição
manejo,
como sei,
o
sulco invisível da luz.
E
sei-me rodeada por um rio
gemido
até à secura.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
12.6.17
Em seara alheia
Poema tonto
Tu falaste e falaste do tamanho das coisas
sem adjectivos nem medidas, e eu, desastrada,
acabei por te contar que sou pequena. Depois
veio a chuva sobre ti, e eu corri à janela.
Não te vi e estranhei, até, a secura do céu
e da terra. Senti-me tonta de tanto ruído
no peito.
O barulho que pode fazer a chuva
Mesmo quando chove longe.
Virgínia do Carmo
In: Poemas simples para corações inteiros. Desenhos de Bernardo C. - Braga: Poética, 2017, p. 37
5.6.17
Lunia
Amedeo Modigliani
Sonhei
toda a noite com barcos.
Apetece-me
deixar as roupas
tombadas
na cadeira
e
ir procurar os verões da infância,
com
navegações alvoroçadas.
Apetece-me
circum-navegar
a
mais remota distância
na
infinidade do universo.
Apetece-me
ser gémea de aves
matinais
a desvendar alvoradas,
para
que as minhas mãos
não
comecem a gretar
quando
um barco se afasta dos meus olhos.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
28.5.17
Anna com vestido preto
Obrigada a todas as Amigas e Amigos pelo caloroso acolhimento no Porto.
Foi linda a Festa!
Amedeo Modigliani
Pouso
devagar as minhas mãos
habituadas
à luxúria dos gestos
e
sento-me, imperturbável,
no
meu sofá preferido.
Possuo
nas costas de cada mão
um
risco de contágio de sinais nocturnos
oxidados
no reflexo de vultos antigos
que
me açoitam o olhar.
Acolho
o silêncio até à nesga de luz
que
ilumina a esquiva linha de uma sombra
suspensa
na pureza da noite.
Se
me perguntarem o que faço aqui,
nesta
serenidade mordaz, eu direi:
é
um ritual diário, este, de me vestir
de
negro para ver findar o dia.
Até
agora nenhum crepúsculo
me
deixou indiferente.
Mas
a noite, essa, já começa
a
pesar-me sobre o peito.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
Espero que as minhas amigas e os meus amigos que moram mais a norte, estejam comigo no Porto, no dia 2 de Junho, na Livraria Unicepe, às 18.30h. Obrigada.
Espero que as minhas amigas e os meus amigos que moram mais a norte, estejam comigo no Porto, no dia 2 de Junho, na Livraria Unicepe, às 18.30h. Obrigada.
15.5.17
Fui quase todas as mulheres de Modigliani - convites
Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo. Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam. Agora conto com os meus amigos do Norte para o dia 2 de Junho
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram em Lisboa ou por perto.
A 2 de Junho estarei no Porto.
Em data a confirmar estarei na Feira do Livro de Braga.
Fico à espera de toda a gente para fazer a festa com mais este meu livro.
A vossa presença justifica o meu lugar na Poesia...
6.5.17
Digo Mãe. Digo Filha
Menez
Para a minha Filha Ana no dia da Mãe
Floresceram as cerejeiras
no lento tempo do pólen.
E vieram as abelhas, e as
primeiras cerejas,
e o puríssimo mel.
Veio também o mês de maio
e, com ele, a trémula
ondulação das palavras.
Digo mãe. Digo filha.
Palavras ajustadas à
inquieta harmonia do sangue.
Palavras que se tocam como
rios
da mesma nascente
inundados,
pela mesma sede
procurados.
Palavras que se dizem, que
se calam,
que se questionam, que se
entrelaçam.
Onde estás, mãe?
Tem cuidado contigo,
filha!
Graça Pires, 2017
1.5.17
Em lugares desabrigados
Dorothea Lange
Cravo as unhas na carne da
indiferença.
Escrevo sangue
com o lápis gasto pela culpa
acorrentada
à cegueira que desfoca os olhares
na bastardia dos abraços.
Digo fome
com os dentes colados à secura dos
trigais
e às sobras rapadas nas latas do lixo.
Leio dor. Dolorosamente.
Em lugares desabrigados,
em portas franqueadas aos rasgões
da vida rondada pela morte.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
24.4.17
Continuar ABRIL
Gonçalo Viana
Os barcos têm sede: falta mar.
Os lenços não respiram: falta vento.
Que outro (a) mar das marés do teu olhar
me tragam ao país a que pertenço.
Os vidros têm fome: faltam cravos
assomados à janela do futuro.
Da teia dos meus dedos farei barcos.
Serão velas as palavras que procuro.
Hugo Santos
In: Armas de (a) mar. Lisboa: Ulmeiro, 1988
17.4.17
Indiferente ao desígnio das sombras
Katia Chausheva
São longos os dedos
que
sulcam o rosto difuso das noites
em
que o luar queima os crisântemos
sem
deixar vestígios
e
os felinos transformam o chão
num
local imprevisível.
Indiferente
ao desígnio das sombras,
a
luz insinua-se no lado misterioso
onde
me encovo.
A
luz e o silêncio.
Com
artifícios insondáveis
e
uma leve vigília
de
dádiva ou de bênção.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
10.4.17
Em seara alheia
Hoje acordei com a dor das árvores;
estou de pé e o meu corpo sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
do rumor das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou...
Lília Tavares
In: Parto com os ventos. Ilustrações de Simone Grecco. - Kreamus Edições, 2013, p. 15
2.4.17
O lilás claro das hortênsias
O
lilás claro das hortênsias,
galgando
a periferia dos jardins,
espalha
todos os aromas pela terra
enquanto
as horas passam
e
deixam nos cabelos outra tonalidade
e
os passos perdem a pressa de outrora.
Adorno
com aves sagradas
o altar
onde se mitigam as crenças.
A
cinza suspensa na vertigem das sombras!
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
25.3.17
20.3.17
Percorro devagar a minha sombra
Olga Astratova
Percorro devagar a minha sombra
para não assustar o
bando de aves
adormecidas sob os
dedos.
Vou traçar o perfil
das árvores e do vento,
respirar o sentido da
luz para contornar
os muros, até
encontrar um campo de trigo
cúmplice dos
primeiros aguaceiros de março.
Percorro devagar a
minha sombra,
eu que precisei de
cegar para sentir
o murmúrio desvairado
dos pássaros,
subitamente despertos
para um voo livre
envolto na memória
antiga de um fuga.
E sobre a minha
sombra, que percorro devagar,
sobreponho a
fragilidade do poema.
Graça Pires
In: As vozes de Isaque. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 20
13.3.17
Em seara alheia
Encontro
Nem sempre sei
Onde deixar esta urgência de ti...
Se nas palavras,
Se nos olhos,
Sem que se perca no ar
Ou nas intransigências da vontade...
Esta urgência, é só o amor
A querer perpetuar-se
Em nós... a sós...
Onde o tempo é liberdade,
Onde as mãos são a pena
Escrevendo o poema urgente
Que não sei onde terminar:
Se em ti ou em mim,
Ou se na voz
Onde calas a tua
Num encontro de silêncios
Onde a urgência se torna maior.
Luana Lua
In: Voo entre faces. Porto: Versbrava Editora, 2016, p. 80
6.3.17
Espera
Katia Chausheva
Em
plena noite cheguei a casa
com os pés envoltos em conchas.
Com eles risquei no
chão o barco e as velas
e aguardei que o vento e o mar ficassem de feição.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
27.2.17
Só folheio os jornais de vez em quando
Magritte
Só
folheio os jornais de vez em quando.
Quase
tudo o que se escreve
são
golpes confusos
que
abrem nas entranhas a impressão
de
um mundo por entender.
A
verdade chega-nos apenas
através
do silêncio dos que sonharam
um
tempo sem estas ruínas
que
descarnam e sepultam
a
mais valiosa esperança.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
20.2.17
No transtorno das mãos
Lentos
os dias. Lento o vazio das ruas.
Lentos
os caminhos sulcados pelas veias.
Tão
lentos que um lento gesto
me
bastava para conter um verso
por
mais silente que fosse.
Agora,
as palavras dançam à minha volta.
São
serpentinas de todas as cores
enroladas
ao corpo.
Difíceis
de domar fragmentam-se, voam.
Como
vultos imprecisos
no
transtorno das mãos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
13.2.17
Inês, o meu nome
CNB
Para sempre o teu
olhar interdito. O teu rosto sombrio.
O teu corpo
clandestino de mim. Para sempre.
Com que sopro, diz,
incendiaste, em meus cabelos,
a luz, tão frágil, do
primeiro orvalho da manhã?
Que contenda feriu a
clareira de teus braços
onde morri quantas
vezes eu pude renascer?
Como silenciar o
prazer se ajustaste nele
a prematura paixão de
tuas mãos?
Talvez este alvoroço
de passos em dança,
em grito, em
desespero nos mostre
como errámos todos os
voos que rasgaram
o excessivo azul das
noites mais perfeitas.
Pelas fendas da morte
te escuto agora.
Procuro, no intenso
fulgor de teus olhos,
a nitidez da água,
antecipando as lágrimas
e só encontro a sede
de bicho selvagem que te suplicia.
É de rosas, eu sei, o
aroma que acoitas no meu nome.
Graça Pires
In: A CNB e os Poetas,
2016, p. 7
Poema feito em out. 2015 depois de
ter assistido ao bailado Pedro e Inês, coreografado por Olga Roriz, a convite da direcção da
CNB, através de João Costa.
6.2.17
Em seara alheia
BEIJO MAR
Gosto de rasgar-te a pele
rochedo provocador
nos diálogos sem fim.
Grato por guardares a agenda
dos meus desabafos,
nos acasos das fugas insensatas.
José Luís Outono
In: Três mares. Porto: Insubmisso Rumor, 2016, p. 48
30.1.17
As laranjas
As
laranjas,
vergando
as árvores de tanto sumo,
fizeram-me
sede.
Colho-as
com os dentes propícios
à
abundância de um soro cristalino
que
alague a minha língua,
ávida
da mais esperada seiva.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
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