Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
11.12.17
Em seara alheia
Família
sentado no chão da cozinha
a rabiscar um papel
o menino brinca
o cão dorme
debaixo da laranjeira
a mãe passa a ferro
aquela blusa
pela centésima vez
faz dois anos
que partiu o pai
o vento
curioso
espreita na janela
Filomena Fonseca
In: Os degraus da casa, 2015, p. 62
3.12.17
Contratempo
Arno Rafael Minkkinen
Ser cega e ver nos olhos dele
a sombra oblíqua do barco
que
usará para fugir.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
27.11.17
Sigo o rasto dos sonhos em que me procuro
Francesca Woodman
Por um impulso quase hereditário
sigo
o rasto dos sonhos em que me procuro.
Sou
da estirpe dos aventureiros,
dos
caminhantes, dos fugitivos.
Pertencem-me
os passos,
vagarosos
e apressados,
com
que sulcam os trilhos
do
deslumbramento com o perigo
a
espreitar-lhes a sombra.
De
pulsos abertos mordo o freio
da
memória com os dentes aguçados
a
pungirem a raiz das quimeras
na
pedra onde o incenso ardido
antediz
a imolação do passado.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
20.11.17
Mulher com gravata preta
Se eu escrevesse um poema
havia
de fazê-lo sobre a areia,
para
que viesse o mar, ou a chuva
exaurir
o sentido das palavras.
Houve,
na minha infância,
um
mar antiquíssimo com barcas
acendidas
no meio da noite.
Um
vínculo sagrado ou de sangue
me
liga à memória das ondas.
Da
harpa da lembrança tangem as cordas
mais
sensíveis na demanda de veleiros
brancos
para incendiar novembro.
Nem
sei por que comecei a usar,
quase
em sobressalto, uma gravata preta.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
13.11.17
Em seara alheia
Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Os corredores apagam-se
e nos retratos
Agosto está pálido.
O quarto está cheio de vento,
o perfume magoa-se contra a memória.
Há inverno nos móveis,
mas as mãos teimam em visitar
as árvores nas gavetas.
Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Não tarda os ciprestes abrem as janelas
e os muros reclamarão o meu nome
Se não chegares a tempo,
não te preocupes,
deixei a morada aos pássaros.
Alberto Pereira
In: Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p. 53
6.11.17
Grito
Christine Ellger
Há a palavra em duelo no poema.
Há um grito rasgando
o surdo rumor
da chuva de novembro.
Um grito a cortar a respiração
das árvores
sem folhas.
Um grito que estremece nas mãos
das mulheres estéreis
e no silêncio
das aves que não voam.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
30.10.17
Mais perto da inocência
Katia Chausheva
Escuto até à exaustão
os rumores de um tempo mais remoto
e evoco os primeiros acenos
onde deixei a espera e o desespero
das noites ao sabor da lua.
Usei nos punhos as pulseiras
interditas à luxúria.
Só de madrugada as trepadeiras
ficavam mais perto da inocência.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
23.10.17
Em seara alheia
AS DOBRAS DO TEMPO
Escuto os sons da casa,
murmúrios
retidos nas dobras do tempo.
Já a voz não ilumina
as sombras que se deitam nas paredes.
Paira um vestígio ténue
dos aromas vibrantes de outrora,
talvez esteja em mim
guardado.
Sou eu mais que um sacrário
de lembranças
que se consome passo a passo
na senda de duvidosa redenção?
Alice Duarte
In: Um pássaro antigo nos olhos. Modocromia Edições, 2016, p. 40
16.10.17
O tumulto das areias
José Pancetti
Com
barcos torneando os ombros
decifro
o rumo das viagens
em
minhas mãos atentas ao desalinho
das
cordas destecidas pelas vagas.
Sei
que os mapas não assinalam
o
tumulto das areias com que o vento
vai
refazendo as dunas.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
9.10.17
Menina com bibe
Amedeo Modigliani
Quem
foi que roubou os meus sonhos
brancos
de menina e me pôs no olhar
a
imensa clareira da tristeza?
Como
esquecer aquele tempo
em
que eu brincava com o vento
e
rebolava na erva e cantava
com
as cigarras e me espantava
com
o desenho das nuvens?
Como
não lembrar os dias
em
que nada quebrava a porcelana
dos
lírios de intacta leveza?
À
margem de trilhos ao acaso
vagueio
para além de mim
sem
que os pés se amarrem ao chão.
As
minhas mãos, sobre o regaço,
estão
trémulas e vazias.
Retenho
as lágrimas
como
se dispersasse as chuvas.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
2.10.17
O tempo sobre o tempo
De repente era eu no
prolongamento de mim.
Tracei o próprio
corpo em transparência de tule.
Na ponta das
sapatilhas pousaram aves inquietas.
Esboçaram a leveza azulada
das sombras,
cindidas em singular
aceno.
Rodopiaram a
claridade dos sonhos
até que rosto algum
pudesse resistir-lhe.
De repente eras tu no
prolongamento de ti.
A roçar o meu chão.
Em impulsos cativos
do espaço.
Em tumultos
circulares até ao infinito.
Em vertigem aflita
por cima do abismo.
A fazer da queda um
tão breve equilíbrio,
que o tempo sobre o
tempo renascia.
Depois fomos nós.
Primeiro a sedução,
indecisa ainda,
no improviso do
desejo.
Um movimento subtil a
enredar-se
na demora de pressentir
o gozo.
E desse tardar,
vencidos nos repartimos na dança,
no tango: o prazer do
jugo presumido no olhar.
O corpo todo, que
cede e se recusa no júbilo do sangue.
Ai, devagar, que os
ardis deste cerco nos tomaram.
Graça Pires
In: A CNB e os Poetas,
2016, p. 27
Poema feito depois de ter assistido ao reportório de bailados “Serenade”, “Grosse Fuge”, Herman Schmerman” e “5 tangos”, a convite da direcção da CNB, através de João Costa, Fev. 2016.
25.9.17
Em seara alheia
Águas vivas
Estão vivas as águas do meu rio,
esta fala e este sentir intenso,
estas escarpas e estas aves
e estas farpas que abrem
asas ao tempo.
Estão vivas estas ervas
que na secura do chão
atiram poemas ao ar
e vestem a fraga nua e dura
de cor, alegria e beijos
de longo e intenso verão.
Estão vivas as palavras
que se roçam aos lábios,
plenas de sentidos, perdidas
na sede da descoberta.
Palavras que atiçam os veios
das águas a fluir no interior da terra.
Palavras que atiçam o gosto
de amoras maduras.
Teresa Almeida Subtil
In: Rio de infinitos. Produção Independente, 2017, p. 52
18.9.17
O verbo
Christine Ellger
O
verbo: clareira em cama de fenos
ou
ilha oculta de ocultos silêncios.
Como
se o nervo do vento
fustigasse
a voz dos poetas
esmagando
a rigidez dos sons.
Apta a declinar as regras do jogo
retenho, nas arestas da página,
o som do lápis, como um pião
rodopiando traços inseguros.
A película de imagens no interior do texto,
levemente aberto ao segredo das mãos
deixa
que me habite um desvario
que
faça regressar um verso invisível.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
11.9.17
Mar
Hengki koentjoro
Não
fales das conchas esmagadas
quando os teus olhos
são como um barco
à entrada
dos meus olhos.
No fundo das águas, os corais
rodeiam os meus sonhos.
Porque eu
sou a mulher que ama
ferozmente o mar e canta
com os navegantes
a ladainha das
vagas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
5.9.17
Antonia
Amedeo Modigliani
Em
minha infância aflita
usava
um inconfessado modo de rezar
as
orações que me ensinaram.
Rogava
para crescer depressa.
A
crença em deus parecia-me converter
o
desalento na delicada esperança de uma dádiva.
Agora,
quem me dera não ter crescido tanto!
É
tudo tão cruel neste tempo loucamente obscuro.
Preciso
de palavras inteiras: ecos
na
voz dos que não ignoram o sangue,
os
gritos, os muros do ódio, a dor.
Preciso
de palavras únicas a susterem
os
sons da vida, com pétalas adejando na boca.
Quero
ir com os viajantes ou com as aves
sem
direcção prevista.
Quero
decifrar horizontes e habitar
o
desmedido quebranto do alvorecer.
Quero
esgueirar-me pelo relento das grutas,
pelo
lado mais escurecido das estradas e das casas.
E
deixar que cada anoitecer me denuncie.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
29.8.17
Em seara alheia
NO PRINCÍPIO DOS PÁSSAROS
Nunca foi importante
salvar o mundo
construir poemas
com palavras ininteligíveis
saber se és vento
barco relâmpago
mulher incerta
metáfora
escarpa
ou flor de estação
importante é quando passas
corpo de seara
sem magoar os cravos
e dulcíssima te desfolhas
Sempre me apaixonei
por esta desordem de cores
quando passas
não pelos teus passos
mas pela sua leveza
como no princípio dos pássaros
Eufrázio Filipe
In: Chão de Marés: colectânea de poesia 2013-2016. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2017, p. 105
23.8.17
Distante, o olhar
Katia Chausheva
Distante,
o olhar procura
as
linhas entrelaçadas
no
tempo dos tempos,
no
esquecimento dos dias,
na
raiz de um som primordial,
no
rasto de vidas que se cruzaram.
Com
a boca cheia de silêncios
clamo
o vazio absoluto em minha voz
tão
inacabada, tão sequiosa,
tão
presa à garganta.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
16.8.17
Qual o significado de um nome
Moises Saman
Qual o significado de um nome
se o nome se faz navio
que regressa sem leme,
desnorteando as mãos dos marinheiros
transfiguradas em remos;
ou o nome se faz terra que nos abre no
colo
uma caverna onde vêm dormir
os bichos assustados;
ou o nome se faz grito que perturba as
searas
e desfolha as flores silvestres
que recolhem o ruído dos passos;
ou o nome se faz forquilha
que fende a voz cativa de emoções?
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
8.8.17
Em seara alheia
os meninos colocam barcos de papel
os meninos colocam barcos de papel
a navegar na valeta
e sonham com embarcações a percorrer países
e destinos improváveis de que são os comandantes
as meninas fazem grinaldas com folhas de arbusto
pintam as unhas com pétalas compridas de flores
e fingem que são rainhas
desfolham zangas fugazes e risos
intermitentemente com cores de eternidade
um futuro pouco distante
lhes dará um reino e um trono
em que o tempo será um bicho medonho
a devorar o futuro
e brincar será apenas uma coincidência
a aldeia agora é um fantasma de escombros
com casas que sorriem velhas de amargor e tristeza
porque as telhas estão gastas
e os fornos não dão pão
e os canteiros não têm flores
os risos dos meninos soam distantes
girassóis em busca de luz
a fabricar sonhos em outro lugar
a luta é um incessante caminhar
por uma selva sinuosa e densa
e há correntes onde os homens se agarram
para atingir os píncaros da montanha e tocar o céu
a brincadeira acaba num grito de mãe a dizer
vem jantar
o dia cheira ao suor dos homens
e ao riso distante dos meninos.
Graça Alves
In: Da Timidez dos Homens. Coimbra: Palimage, 2017, p. 38
2.8.17
Jovem morena com franja
Amedeo Modigliani
Não
digam a ninguém,
mas
hoje, lá na loja,
foi
um vai e vem de rapazes
para
me verem de franja.
As
senhoras que foram comprar
meias
de seda, ou um tecido,
ou
uma bugiganga qualquer
olhavam-me
com suspeição.
Percebi
que é falso, quase tudo
o
que aprendi sobre os segredos
das
mulheres que encobrem
a
ansiedade no recamo do decote.
A
sedução é um brilho cegante
e,
quem sabe, um lençol de mágoas.
Intenso
foi o tumulto de aromas
estranhos que a todas nos perturbou.Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
26.7.17
Por um instante, as formigas
Laura Makabresku
Era uma floresta
fantasiada.
Era um carnaval de
gestos
na metamorfose dos
corpos,
delineando o próprio
rosto.
Eram animais míticos
e reais.
Por um instante, as
formigas
saíram-me do olhar,
em ondas vagarosas.
A cegueira
arredondou-lhes o espaço
com fios impalpáveis.
Agonizaram à procura
do sulco dos meus olhos.
Graça Pires
In: A
CNB e os Poetas, 2016, p. 46
19.7.17
No estio da terra
Ricardo Nascimento
De súbito, um
submerso silêncio a ocidente das manhãs
entretece o cúmplice
coração das searas no estio da terra.
Adivinha-se a
quentura das águas através da brisa
que desliza pelos
cabelos das crianças, num aconchego
quase tão delicado
como o chamamento das mães.
Apetece resgatar
alegrias e dar às coisas
nomes de flores, de
anjos, de amigos.
Para lá do espaço há
uma linha inclinada que não perturba
a curva do sol no
recanto mais sensível do horizonte.
Os dias resguardam
longamente a luz, e o crepúsculo
até dói no olhar
desprevenido dos que esperam da noite
a transparência das
sombras.
Graça Pires
In: Solstícios e Equinócios: antologia. Coord. de Emanuel Lomelino. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2016, p. 62
Graça Pires
In: Solstícios e Equinócios: antologia. Coord. de Emanuel Lomelino. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2016, p. 62
10.7.17
Em seara alheia
Rasga o Poeta as Vestes
Rasga o poeta as vestes. E clama seus passos
Ousando, de queda em queda, o fogo do milagre
E os caminhos de Damasco
E a Iluminação perene
Que o redima.
Não a prece, nem a tempestade. Nem o anjo.
Nem a espada - são de pedra seus passos
E inóspitos seus caminhos.
E é de areia o rosto das miragens.
E é de fel o colapso de seus dias.
E de amargura a água dos rochedos.
Ousa porém o poeta o milagre inscrito
Nas humaníssimas dores da Humanidade
E nelas lava o seu corpo místico
Como se rio fossem.
Manuel Veiga
In: Caligrafia Íntima. Braga: Poética Edições, 2017, p. 15
1.7.17
Nu sentado no divã
Amedeo Modigliani
Agora,
que tomei banho
e
me perfumei com infusão de rosas,
podes
vir pintar o meu retrato.
Sento-me
de lado.
Não
quero que mostres
as
curvas todas do meu corpo,
nem
que desvendes a mais íntima
nudez
de minhas sedes.
Tenho
sob a pele a máscara da inibição
onde
escondo o anseio mundano
de
colorir o desacerto dos meus passos.
Por
isso, retoca devagar o recorte dos lábios,
o
desenho dos olhos e este quase pudor
que
o gume do tempo teceu em meu sorriso.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017
Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que vou estar no Forum da Feira do Livro de Braga no dia 7 de Julho, a partir das 17 horas. É um gosto enorme que apareça quem estiver por perto.
Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que vou estar no Forum da Feira do Livro de Braga no dia 7 de Julho, a partir das 17 horas. É um gosto enorme que apareça quem estiver por perto.
24.6.17
Em tempos de oração
hão-de acender-se fogueiras
para atrair a chuva
como uma crendice de tempos remotos.
Seremos, passo a passo,
errantes de longínquas viagens
ou peregrinos perseguidos
em tempos de oração.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)























