20.11.17

Mulher com gravata preta

Amedeo Modigliani

Se eu escrevesse um poema
havia de fazê-lo sobre a areia,
para que viesse o mar, ou a chuva
exaurir o sentido das palavras.

Houve, na minha infância,
um mar antiquíssimo com barcas
acendidas no meio da noite.
Um vínculo sagrado ou de sangue
me liga à memória das ondas.

Da harpa da lembrança tangem as cordas
mais sensíveis na demanda de veleiros
brancos para incendiar novembro.

Nem sei por que comecei a usar,
quase em sobressalto, uma gravata preta.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017

57 comentários:

Cidália Ferreira disse...

Soberbo poema!

Beijinhos e uma excelente semana

Kodak Khrome disse...

e a morte ali tão perto...
lindíssimo poema
com o desgosto lá por trás
em gravata preta

Marta Vinhais disse...

Porque, às vezes, o preto ofusca até o olhar...
Lindo como sempre...
Beijos e abraços
Marta

baili disse...

so profound and delicately touching poetry dear Grace!

Larissa Santos disse...

Boa tarde. Que lindo.

Bjos
Boa Segunda-Feira
.
Hoje:"Nunca será cansaço quando a espera é desejo"

Laura Ferreira disse...

casam muito bem as palavras com a imagem.
boa semana, Graça.

Teresa Durães disse...

Talvez o preto seja a despedida do passado. Mas os barcos estão sempre lá. Bj

Ricardo- águialivre disse...

Soberbo, divino, são as palavras certas para classificar tão bonito poema
...
Deixo amizade
...

✿ chica disse...

Linda poesia e tela bem escolhida! beijo, linda semana,chica

Pedro Luso disse...

Olá, Graça!
Abres esta postagem com a essa obra magistral de Amedeo Modigliani, que te inspirou o título deste teu belíssimo poema, "Mulher com gravata preta", sensível poema, que íntegra o teu livro "Fui quase todas as mulheres de Modigliani", 2017. Desse belíssimo poema, transcrevo estes versos:

"Da harpa da lembrança tangem as cordas
mais sensíveis na demanda de veleiros
brancos para incendiar novembro."

Desejo a ti, minha amiga, uma ótima semana.
Um beijo.
Pedro

Mar Arável disse...

A despropósito lembrei-me de uma prosa que escrevi
A senhora das meias pretas
Sempre um prazer visitar o teu espaço

Ailime disse...

Boa noite Graça,
Um poema belíssimo que muito apreciei.
As lembranças da infância e o mar tantas vezes calmo, tantas vezes revolto a atear o coração no sobressalto da noite “na demanda de veleiros
brancos para incendiar novembro”.
Um grande beijinho e uma excelente semana,
minha Amiga e enorme Poeta.
Ailime

Anete disse...


Um poema profundíssimo, li e reli!
A imagem também traz bastante reflexão...
Uma boa semana, Graça! Bjs

manuela barroso disse...

Imagine-se quanta recordação estes veleiros brancos guardaram na viagem que ainda perdura.
Gravata preta
de saudade!
Sempre Belo, "mulher de Modigliani"!
Abraço grande!

Célia Rangel disse...

Poema e ilustração que mostra a busca da identidade feminina...
Abraço.

Diana Fonseca disse...

Um poema ímpar. Gostei.

Isa Sá disse...

A passar por cá para conhecer mais um bonito poema!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Marco Luijken disse...

Hello Graça,
Wonderful poetic words. So nice to read.
A nice image with it.

Big hug, Marco

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo poema muito bem ilustrado por uma tela do mestre Modigliani.
Uma boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Agostinho disse...

Olá, amiga Graça, mais um belíssimo poema a evocar a fatalidade de quem tem o mar como destino de vida. Dá e tira.
"Nem sei"...
Sei que no areal as gaivotas não se vestem de preto, mas mostram estar em solenidade permanente - de luto? - não ser a discreta agitação que as percorre no movimento, a intervalos, de ondas e marés.
Será da ausência de luz que o preto tem, quando polvilha a areia de ais?
Obrigado pela sapiência da palavra.
Bj

silvioafonso disse...

E que os ventos que ameaçam adernar
o meu barco, por piedade me soprem
as velas para junto do cais, onde estás,
ou me afogo nas salgadas águas que choro,
pois as profundezas dessas que banham
teus pés, com certeza, será a minha
nova morada.

Um beijão e obrigado pelo carinho de
sempre.



.

Lucinalva disse...

Olá Graça
Lindo poema, abraços.

Teresa Almeida disse...


Incendiou-se Novembro e harpas tocaram um poema escrito na areia. Um poema que o tempo não vai diluir. Tão belo!

Beijinho, Graça.

Franziska disse...

Me ha encantado el poema lo encuentro delicioso y muy atrayente entre todos los buenos poemas que he leído, enhorabuena. Esta serie de Modigliani es muy buena. Un abrazo.

CÉU disse...

Olá, querida Graça!

Estava eu aqui a pensar em ti, como diz a canção, e é verdade, mas estava também tentando encontrar um adjetivo, assim, grande, único, que pudesse "classificar" o seu poema, mas a morfologia, hoje, não quer nada comigo e além do mais, ela sabe, que eu gosto de me alongar, de me espraiar, não na praia, mas no meu terreno" e no dos outros.

A pintura tem a ver com o seu poema, sem dúvida, sobretudo com a última parte, mas, sinceramente, acho a senhora muito pouco atraente, contudo, atendendo ao momento que se está a viver no nosso país, ela está perfeito, e além disso, o conceito de beleza é relativo, como sabemos.

Ainda bem que a Graça não escreve poemas na areia (depois, ao ouvido, diga-me, por favor, onde os escreve), embora nas suas bandas, ela prolifere, não muito limpa, é certo, mas há bastante, caso contrário ficaríamos sem os conseguir ler, porque o mar e a chuva, ah, a tão almejada chuva (!), levá-los-iam, talvez para o artista plástico e escultor, Amadeo Modigliani se inspirar e fazer retratos de mulheres, da mais diversa índole e aspeto.

Na minha infância não houve, porque nasci no Alentejo raso e profundo, onde nunca vi barcas, e muito menos barcos, daí talvez a minha aversão ao mar e aos seus "acessórios". As minhas memórias foram e são searas ondulantes sob o calor dos tórridos verões, mas sem incêndios. Temos pouca vegetação e as nossas mãos nunca foram assassinas. Ardia-nos, pelo contrário, no peito, um sadio contentamento, sob o arfar da calma (calor), magicamente enlevados pela brancura do povoado.
Usávamos muito a cor preta, como luto, sim, e quando se tratava de familiares afastados, punha-se uma gravata ou um lenço, écharpe para indicar aos outros, que estávamos tristes e que alguém nosso tinha morrido.

Que venham muitos veleiros, navios, daqueles de grande porte, brancos, pombas de paz, para inundarem, velozmente e intensamente, novembro e meses seguintes, embora a chuva não me agrade muito, mas agora, sinto-me num deserto negro de cinzas.

Como a Graça foi quase todas as mulheres de Modigliani", é muito natural, que agora, e mais do que nunca, queira colocar uma gravata preta no seu tailleur ou fato de calça e casaco cinza. Olhando-a, posso afirmar, que lhe fica muito bem e condiz, desgraçadamente, com a realidade vigente, mas vai chover, brevemente, pouco, pouco, deuses meus!

Grata pela sua visita e comentário. Dá trabalho e leva tempo a fazer um poema com a temática dos meus, é verdade, mas lá se vai fazendo.

Venho ao seu blogue, poucas vezes, mas quando venho, analiso tudo, mas tudo mesmo, pormenorizadamente, porque eu não sou e não vou "en passant".

Beijos, um abraço sincero e uma copiosa semana, meteorologicamente falando.

Maria Rodrigues disse...

Um poema maravilhoso.
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco

LuísM Castanheira disse...

Minha Amiga, Graça:

É magnífico este seu poema.
Em cinco tempos dá-nos um entrelaçar de palavras, todas elas suficientes e necessárias, para construir o que o mar e a chuva jamais poderão apagar.

E eu, que só me atrevi na areia mulhada da praia a escrever uma só... poderia chamar-lhe poema, mas nem o mar dele me poderia falar.

Sobressalto, sim, sinto na beleza arquitectada. (e aqui até poderia usar gravata, coisa que não gosto, em especial)

Hoje, releio-o e sinto todas as cordas
a vibrar.

Um beijo e boa semana.

© Piedade Araújo Sol disse...

Um poema com muitas interpretaçoes.
O mar eterna inspiração do Poeta também pode ser traiçoeiro.
Também ceifa vidas.
Talvez a gravata preta lembre o luto de alguém.
Poema bem ilustrado como sempre.
Beijinhos
:)

lis disse...

Ah como gostaria de ser uma das mulheres de Modigliani,
E todas as manhãs fazer versos na areia do mar.rs
Amei esse poema, Graça
Você é não só uma, mas todas as mulheres poeticamente vestidas ao modo dos pintores.
Meu abraço

Tais Luso disse...

O mar e a lua foram talhados para poetas, esses, mar e lua ficam poderosos, misteriosos, parecem espreitar o mundo através de sua luminosidade e o mar através do vai e vem de suas ondas. E os dois guardam seus mistérios. Com o mar não me meto, e a lua, sim, sempre bela e calma.
"Se eu escrevesse um poema
havia de fazê-lo sobre a areia,
para que viesse o mar, ou a chuva
exaurir o sentido das palavras."

Lindo, querida Graça! E Modigliani, sempre altivo!
Beijo.

Alfredo Rangel disse...

Maravilhosa poesia de uma grande poeta. Excelente postagem.

ManuelFL disse...

Graça, novembro incendiou-se num dia 22, para iluminar a nossa vida com os teus poemas.
Parabéns.
Beijo.

FILOSOFANDO NA VIDA Profª Lourdes Duarte disse...

Querida Graça, um poema triste mas lindo, muito bem escrito.Parabéns amiga.Tenha um belo dia

A Casa Madeira disse...

A Semana passada estava folhando algo de
Gustave Coubet e Modigliane;
e rapidamente me veio a mente o seu nome e seu blogue k.
Acho que tu és uma mulher de Modi... como gosto de chama-lo k.
Boa continuação de semana.
PAZ E BEM.

Manuel Veiga disse...

Graça, minha Amiga

a (des)propósito lembrei-me de uma citação de Pascal:
"ajoelha e serás crente"!...

assim a gravata preta! e o luto.

gostei muito.

beijo

teresa p. disse...

O mar como um destino inevitável... "um vínculo sagrado ou de sangue me liga à memória das ondas". Belas as imagens poéticas com que incendeias Novembro. Parabéns!
Beijo.

Humberto Maranduva disse...

As reminiscências da infância são um mar imenso de saudade; um laço indelével de emoções a incendiar o Novembro dunar das intempéries da vida. A gravata preta é a grilheta inconsequente da noite que se repete em cada encruzulhada de indecisão.
Um Beijo, Graça.

Alfredo Rangel disse...

Se eu escrevesse um poema como este, só me restaria, na vida, fazer do amor que me invade e domina, a rota que meu barco deveria seguir. Não perder esta rota nem meu amor seria toda a minha missão. E não haveria nada que impediria a minha completa felicidade.

Suzete Brainer disse...

As suas palavras tem a força do signo simbólico do mar, na sua infinitude
de beleza e na passagem da sua memória, as ondas deste seu vínculo
que se expressa Poesia...
A Poesia é um imenso estado de sentir, e os símbolos se encontram
na dança das palavras com muitas vidas e mortes nesta viagem-vida!...

Adoro a sua Poética, Graça.
Beijos.

Fá menor disse...

Lindíssimo! Gostei tanto!
A Graça tem mesmo o dom de poetisa.

Beijinho

ANNA disse...

Que me ha gustado mucho.
Gracias por pasar por el blog.

Besos

Emília Pinto disse...

O mar sempre vem " beijar a areia ", umas vezes suavemente outras parecendo ter raiva de quem ousa enfrentá-lo e, cá para nós, tem muita razão o mar, pois o homem não o respeita como deveria. Mas há os outros, aqueles que vivem do mar, o respeitam e a ele devem o pão para a boca. Enfrentam-no corajosos quando ele se mostra raivoso e, nāo sabendo distinguir, o nosso belo mar os arrasta deixando as areias repletas de mulheres, não " de gravata preta" , mas de xailes negros como negros estão os seus corações enquanto esperam ver além os veleiros que transportaram os seus homens Esperam em vão essas mulheres...nem veleiros, nem os homens que partiram e em vez deles chega a dor, o sofrimento e muitas vezes a fome; estas mulheres aqui tu lembraste e cantaste num belo poema homenageando assim todas as que sofrem e que, de uma forma de outra se vêem, de repente, sem se aperceberem, a colocar " uma gravata preta " que tão cedo nāo terão vontade de fechar numa gaveta. Este grande pintor pintou mulheres e tu, Graça, cantaste -as de outra forma não menos bela; Não sei pintar, não sei fazer um poema, mas, ao ler-te, não pude deixar de pensar nas mulheres aqui de Vila do Conde, ( Caxinas ) uma região de muitos pescadores e de mulheres envoltas em xailes pretos que choram maridos e filhos que o mar levou. E assim, Graça, deixei-me levar pelos teus versos, agradecendo-te a homenagem feita a estas mulheres tão sofridas. Um beijinho e boa noite
Emilia

Ana Freire disse...

Um poema profundo e tocante... que aborda a dura realidade de quem está ligado ao mar... que tanto dá... mas que também reclama tantas vidas... e o luto frequentes vezes, assola as famílias, que têm no mar o seu ganha pão...
Gostei imenso, Graça! Beijinho! Bom fim de semana!
Ana

Marta Moura disse...

Conjugação perfeita, o texto e a imagem.

Jaime Portela disse...

No fundo, todos escrevemos na areia, já que o tempo acabará por fazer o mesmo que faz uma maré.. E os últimos a ser apagados serão os mais altos... nomeadamente os de Camões, de Pessoa e, porque não, os da minha amiga Graça...
Bom fim de semana.
Beijo.

Aleatoriamente disse...

Pleno e intenso.
Gosto!
Beijinho querida Graça

angeloblu disse...

Si potrebbe stare ore a contemplare il mare, apprezzarne le sue estensioni infinite che scatenano un'infinità di emozioni. Ci permette di vivere, ricordare momenti e allo stesso tempo sentire quella sensazione di rinnovamento, di sicuro un luogo dove rifugiarsi.
Carissima un abbraccio grande e buon fine settimana di cuore

Marli Terezinha Andrucho Boldori disse...

Boa tarde, Graça,
que linda composição de palavras, escrever na areia, os poetas podem, pois são imortais
vem a onda e leva, mas a maré os traz de volta para nós.
Belíssima ilustração do quadro.
Parabéns! Grande abraço!

Evanir disse...

Que o calor de um carinho,
o afeto de um abraço e o sorriso de uma
grande amizade sejam presença constante em sua vida.
Estou aqui para desejar um Domingo abençoado.
Fique na paz >< Fique com Deus!
Beijos e carinhos meu.
Evanir..
Amiga poema lindo minha querida.

São disse...

Estupendo poema este, amiga !!

Beijinho, bom domingo

Olinda Melo disse...


Boa tarde, Graça

Sei como é. Realmente, de nada vale deixar palavras escritas na areia,
pois têm uma vida efémera. Ou então, o mar, cioso do seu espaço, leva-as e quem sabe se não as reescreve numa outra história. Mas, temos o pormenor da gravata preta. Onde é que ela entra? A Emília aí em cima, dá-lhe um sentido tão profundo que lhe assenta perfeitamente. Transfere a gravata preta para o significado dos xailes negros da mulheres viúvas, das mulheres orfãs de amor e ganha-pão.

Bj

Olinda

Sinval Santos da Silveira disse...

Querida Mestra/ Poetisa, Graça Pires !
Quantas lembranças, Amiga, que, certamente,
jamais se apagarão...lindo texto ! Parabéns !
Um afetuoso abraço, aqui do Brasil.
Sinval.

mz disse...

Quando os poemas nos fazem brotar tristezas,
então que a todas as dores da alma se escrevam na areia,
e depois,
se a chuva vier,
ou se uma onda de mar nos abordar o coração,
que nos lave esse sentimento de véus e gravatas pretas enredados nas memórias.

Que sobre a harpa em melodias em suaves.

Toninho disse...

O final é maravilhoso Graça.
Lembrou-me Drummond numa poesia que falava de uma quadrilha numa trama de amores,
que no final uma personagem casou-se com uma pessoa, que não havia entrado no jogo.
Gosto desta maneira de nos levar ao inesperado, ao não óbvio.
Show de criatividade e inspiração amiga.
Bjs.

Odete Ferreira disse...

Talvez porque na mulher cabem todas as figurações da humanidade...
O teu quilate, sempre presente.
Bjos

solfirmino disse...

Se eu pudesse nomear essa mulher, eu a nomearia "Graça Pires", que tudo o que escreve é ligado ao mar, às barcas e à memória das ondas. E, por acaso, nasceu em novembro.
Também não sei ainda o sentido da gravata preta...
Beijo, querida.

manuela baptista disse...

uma gravata preta,
mastro de um veleiro branco, talvez...

um abraço, Graça