13.11.17

Em seara alheia



Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Os corredores apagam-se
e nos retratos
Agosto está pálido.
O quarto está cheio de vento,
o perfume magoa-se contra a memória.
Há inverno nos móveis, 
mas as mãos teimam em visitar
as árvores nas gavetas.

Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Não tarda os ciprestes abrem as janelas
e os muros reclamarão o meu nome

Se não chegares a tempo,
não te preocupes,
deixei a morada aos pássaros.

Alberto Pereira
In: Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p. 53

38 comentários:

Graça Pires disse...

Ricardo Gil Soeiro escreveu: Nas páginas do novo livro de A. Pereira, o pássaro funcionará como a figuração do anseio pela liberdade, pela audácia ou pela autonomia, núcleo plural de sentido bem presente no magnífico poema XX que fecha o volume: "O homem,/viagem à demência dos pássaros" ...
Parabéns Alberto por mais este maravilhosos e inovador livro!

Gil António disse...

Bom dia

Assim, vagueando por entre sílabas e ventos, se escreve poemas de elevado valor poético. Não li esse livro onde se fala deste poema, porventura um "grave" erro perante aquilo que se calhar deveria ler ou ter lido.
Gostei imenso

Votos de uma boa semana
Abraço

Cidália Ferreira disse...

Excelente poema. Parabéns pela escolha.

Beijinhos e um excelente semana

baili disse...

How spiritual and touching!
thank you for sharing the master piece of another good poet dear Grace!

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Muito bom este trabalho poético do Alberto Pereira e a Graça já disse tudo no seu precioso comentário.
Uma boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Célia Rangel disse...

Um poema de altíssima qualidade! Metáforas que nos fazem meditar na vida, no viver e em sua importância... Momento único! Obrigada!
Abraço.

A Nossa Travessa disse...

uerida Gracinhamiga

Continua a desaparecer a "tal letra" ue não posso escrever????)

Uma transcrição mito apropriada e um poema lindíssimo. Não conhecia mas vou já comprar o seu livro.

Como sempre adoro-te

js do Henrique, o Leãozão

Marta Vinhais disse...

A memória que ainda resta.... Às vezes, desaparece por completo...
Que beleza!
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Teresa Almeida disse...

Um poema que qualquer um de nós gostaria de ter escrito. Tão claro e com sabor a vida. Só aos pássaros se deixa a morada.

Grata, amiga Graça.
Beijinho.

Poções de Arte disse...

Muito bonito!
Eu não sei se acontece só comigo, mas quando leio belos poemas assim, fica difícil comentar pq mexe com sentimentos... e não é tão fácil escrever o que sentimos... Felizes os poetas, que têm este dom!!!

Obrigada pelo carinho com os Anjos!

Abraços esmagadores e feliz semana!!!

Teresa Durães disse...

Um poema muito interessante. Também tinha saidades de andar por aqui.

Kasioles disse...

No dudo de que el libro de Alberto Pereira, teniendo entre sus páginas ese bonito poema, haya logrado una gran aceptación y sea digno de ser recomendado y leído.
Agradezco tus letras en mi espacio y aprovecho para dejarte cariños para compartir con ese autor.
Kasioles

© Piedade Araújo Sol disse...

A poesia de Alberto Pereira é sempre reflexiva e intensa e aqui mesmo podemos apreciar essa escrita, tão rica e tão bela que, nos faz ler e entender quanto é preciso e urgente reavivar a memória antes que ela se apague do corpo e da mente.
Gostei muito!
Boa semana.
Boa escolha!
beijinhos
:)

José Carlos Sant Anna disse...

Essa pequena mostra nos dá a dimensão do poeta. É quase certo que a leitura de cada poema, tal como ocorreu com este, há de sustar a respiração para que possamos deixar o pássaro que habita em nós também possa bater as asas! Certamente cada poema do livro inaugura um novo instante.
Um beijo, minha amiga!

Maria Rodrigues disse...

Excelente escolha, belo poema.
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco

Franziska disse...

Gracias por compartir los versos de un gran poeta y de uno de sus hermosos poemas. Ha sido para mí todo un descubrimiento y un placer la lectura de los pensamientos que van desgranando los versos. Feliz semana. Un abrazo.

Pedro Luso disse...

Olá, Graça!
Nesta postagem prestas homenagem ao poeta Alberto Pereira e a nós leitores, que não podemos esconder a falta dos poemas de tua lavra. Mas não tiremos o valor desse belo poema!
Um beijo. Pedro

Isa Sá disse...

A passar por cá para conhecer mais um bonito poema!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Larissa Santos disse...

Bom dia. Que bom que é deliciar-me com as suas poesias. :)

Bjos
Boa terça-feira

LuísM Castanheira disse...

"Somos apenas uma ilha/ cercada pelo espanto,/ um lugar onde se enlouquece sempre” -Alberto Pereira, in Amanhecem nas rugas precipícios

um autor de linguagem demolidora, onde cada poema é derrube de muros e biombos.

fez-me lembrar Daniel Faria, mas muito mais acutilante.

gostei muito, Amiga, desta sua divulgação.

um beijo, Graça e uma óptima semana.

Marco Luijken disse...

Wonderful words.
Nice to read.

Hugs, Marco

São disse...

És sempre de uma enorme generosidade.

Grato abraço, boa semana, linda

Vanessa disse...

Que belo poema, nos traz beleza e reflexão.
Tenha uma boa terça feira.

Agostinho disse...

Boa tarde, Graça
Um autor que desconheço mas que percebo, entendo, no tom que põe na sua poesia. Obrigado pela divulgação, nesta rubrica "Em seara alheia", de novos valores da arte poética.

"Vem depressa enquanto a casa / ainda me conhece".
Parece o Poeta, Gil Soeiro, mostrar a urgência que há no arrimo da vida. É que o tempo escapa-se e ilude a perceção das delícias dos dias, deslaça e deslassa nós, afectos, o que nos mantêm.
E amanhã será tarde. Pergunto se valerá a pena deixar a morada aos pássaros que se acolhem nos ciprestes da noite.
Porquê, para quê? Para a desmaterialização prometida pela mercantilização que não passa duma ilusão? É que a matéria só se sustenta nas emoções, nos sentimentos. Só assim há poesia.

Bj

Bell disse...

Temos pressa para tantas coisas....

bjokas =)

Cadinho RoCo disse...

Poema limpinho limpinho, que maravilha!
Cadinho RoCo

Ricardo- águialivre disse...

Inspiração divina. Inigualável. Poema lindo demais
.
Deixo saudações amigas

lis disse...

Oi Graça
Depois de um tempo afastada,retorno ao convivio bom com o que gosto muito_os poemas dos amigos.
E sempre aquele prazer em ler os que você publica da sua seara ou de algum amigo.
Deixo meu abraço, agradecida

angeloblu disse...

istanti che tornano nella memoria, la necessità di assaporare quei profumi prima che tutto svanisca. Una scoperta per me, molto bella come del resto tutte le poesie che pubblichi...
grazie mia cara per essere passata un abbraccio grande ed il piacere di leggerti sempre

Tais Luso disse...

Aqui no Brasil dizemos, quando precisamos comprar roupas boas e diferentes, que vamos tomar um banho de loja; e vindo no teu blog eu digo que venho tomar um banho de poesia!
Gostei muito desse poema de Alberto Pereira.
Um beijo, querida Graça, ótima escolha.

Ailime disse...

Boa noite Graça,
Que poema tão belo e tão ao meu gosto que o senti na alma como se estivesse a seguir os passos do Poeta!
Obrigada, minha Amiga, por me ter dado a conhecer a poesia de Alberto Pereira.
Beijinhos e continuação de boa semana.
Ailime

Olinda Melo disse...


Boa noite, Graça

Este poema abalou-me, senti um aperto magoado no coração.
Veio ao encontro de algumas emoções que me preenchem.

Sinto sempre uma certa nostalgia, uma pena imensa,
quando vejo uma casa com ar abandonado, janelas penduradas,
portas carcomidas, paredes com a pintura a descascar.

Penso nas vidas ali vividas, por onde andarão as pessoas e as suas
histórias, se o aspecto da casa é o retrato do que ali deixou
de existir. Memórias perdidas, palavras e emoções fugidas das
das gavetas das recordações.

Talvez o vento, os pássaros, na sua deslocação possam levar a
semente para outras paragens e ali voltar a germinar vida vivida.

Parabéns ao autor pela sensibilidade e pela analogia tão bem
conseguida.

Bj

Olinda

Blog Donna Gatta disse...

Graça querida,
Sempre com boas escolhas!
Beijos.

Smareis disse...

Tão lindo esse poema Graça. Fiquei aqui pensando como deve ser maravilhoso os escritos desse poeta.
Um beijo!
Continuação de boa semana!

Marta Moura disse...

Adoro o título do livro.

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Oh Graça, se em seara alheia
A casa conhece o dono
E está em certo abandono,
Por certo a ausência semeia

Nos corredores, a feia
Visão que ali falta o trono
Do senhor, como se um sono
Deixasse essa casa cheia

De fantasmas para o medo
Fazer de tudo um segredo
De morte, de tédio e sono,

Cujo pesadelo é enredo
De abominável degredo
Ao mais cruel abandono.

Grande abraço. Laerte.

Jaime Portela disse...

Um poema brilhante.
Obrigado pela partilha, penso que nunca tinha lido nada do autor.
Bom fim de semana, amiga Graça.
Beijo.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Minha amiga...

Tenho dito isso muitas vezes:
vem depressa enquanto estou aqui...
se demoras muito, talvez nos perdamos
de nós mesmos,
e nossos caminhos nunca mais se encontrem
nessa vida...

Abraço imenso...
Aluísio Cavalcante Jr.