Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
23.3.20
Em seara alheia
À DERIVA
O mundo é essa nau em desgoverno
que insisto em prender
em minhas mãos inábeis
como aqueles barcos de papel
que eu lançava na enxurrada
e interceptava na esquina
antes de adernar no córrego sujo
Não, eu não pude com seu
pesado trajeto
sendo arrastado na correnteza febril
da realidade e dos exílios
É esse objeto sem tamanho e sem rumo
que não cabe nos meus olhos
nem conhece o rosto da minha amada,
de onde emergem as perguntas
que nunca saberei responder
Endereço onde moram
todos os abismos
Ronaldo Cagiano
In: O mundo sem explicação, Lisboa: coisas de Ler, 2019, p.52
16.3.20
Memórias de Dulcineia
Tomaz Hipólito
Do teu lugar, da tua casa
te ausentaste.
A fantasia moldando teu perfil.
O sonho ludibriando o tempo.
Foste a noite e a claridade.
Circunscreveste o eixo das trevas
e da mais inesperada luz te rodeaste.
Estranhas se tornavam tuas mãos
quando esgrimias impossibilidades
no ruído dos dias.
Ferido ou ileso foste herói,
foste visionário, foste poeta.
Um rumor de festa te seguia.
Um jogo encantatória te cercava.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, p. 23
9.3.20
Terra firme
Jean Dieuzaide
À noite conheces de cor os portos
onde confundes os presságios com o destino.
No molhe acostam os navios
que trazem marinheiros sedentos de terra firme
e de outras sedes rompendo suas águas.
E tu, que conheces de cor todos os portos,
deixas que o corpo se ajuste
ao erótico desejo dos olhares.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 40
2.3.20
De muito longe
Conta-se que há laranjais que rebentam
ao pé dos poços deixando um aroma de pétalas
branquíssimas no bordo dos cântaros.
Todos os dias chegam ali mulheres
vindas de muito longe com punhais de luz
por dentro do olhar e um ramo de oliveira
entrelaçado nos dedos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 26
24.2.20
Cigana com criança
Amedeo Modigliani
Sou
uma mulher
que
ninguém chama pelo nome.
Hão-de
nomear-me filha
do
vento e dos caminhos.
Hão-de
ver asas em meus dedos
quando
danço.
Mas
a nenhum lugar pertenço
e
intrusa me sinto do futuro
adivinhado
em minhas mãos.
Quando
embalo o meu filho
antevejo
um estranhamento
gravado
em sua sina
e
um brasido de fogueira em suas veias.
Acoitarei
na água da retina
a
linha inacabada dos seus passos.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 25
17.2.20
A vertigem dos temporais
Pelo ângulo interior dos séculos
uma lâmina de sangue golpeou
as pedras onde explodiam as águas.
Agora a vertigem dos temporais
habita todos os lugares do mundo.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 49
10.2.20
Em seara alheia
era uma rapariga de verão
era uma rapariga de verão.
como beijá-la neste poema
de chuva?
João de Mancelos
In: Luzes distantes, vozes perdidas. Lisboa: Edições Colibri, 2019, p. 23
3.2.20
Cercada de mar
Manuel Fazenda Lourenço
Cercada de mar roço a boca
em sombras que reconheço.
Ressoa no meu corpo a rebentação
violenta das águas estremecendo
nas entranhas como um incêndio secreto.
E procuro recordar o meu primeiro amor.
Contudo só um rosto me perturba:
o único onde a intempérie me salva.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 26
27.1.20
Como um cerco de presságios
Van Gogh
Vem do rio um vento interminável, como um cerco
de presságios que nos gela nos ombros.
As cobras enroscam-se nas pedras,
sobressaltadas com a agitação da terra.
As abelhas escondem-se no regato das chuvas
esperando que as colmeias as procurem.
O chão arde em nossos passos, vítimas
e culpados do desvario dos caminhos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 57
20.1.20
A ondulação intensa nos meus olhos
Andrey Vahrushew
À minha mãe com amor, in memoriam
Tenho um caule de sangue
espetado na garganta
e os dedos tremem-me demasiado.
Vestida de negro, repouso
sob a árvore mais frondosa
com as nervuras das folhas
a sulcar-me a carne.
A voz declinante do tempo
envolve, imprecisa,
a ondulação intensa nos meus olhos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 44
13.1.20
Em seara alheia
99.
Às vezes a vida é uma mulher
a chegar a casa
depois de um dia de trabalho,
lábios sem cor, despenteada,
sacos de supermercado,
a roupa em desalinho,
os sapatos na mão,
não, os sapatos nos pés,
não se atreve a tanto,
a sonhar com descalçar os sapatos.
Uma mulher que
sem acender as luzes da casa,
olhos de gato no escuro,
pode-se viver nos olhos de um gato,
abre armários, gavetas, arruma o mundo,
o mundo pode ser um apartamento
com duas assoalhadas e as plantas por regar,
amanhã, amanhã sem falta rega as plantas.
Uma mulher que sem jantar,
lavou os dentes, não lavou a cara,
se enfia numa cama malfeita
puxou as orelhas à cama,
se a mãe visse isto puxava-lhe
as orelhas como se fosse uma cama.
Uma mulher sem ninguém,
a vida é só a vida,
a quem dizer boa noite meu amor.
Raquel Serejo Martins
In: Plantas de interior. Braga: Poética, 2019, p. 149
8.1.20
Nas arestas do instante
Solange Firmino
A correnteza da água
nas margens mais agrestes
mancha de lodo os meus dedos aflitos
com o estremecimento dos búzios.
Contudo, amo o equilíbrio dos cactos
presos às areias. Antevejo neles
a quietude da maresia na véspera
dos vendavais quando, nas arestas
do instante, me fere a ausência de uma ilha.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 44
2.1.20
Zombaria
Cristin Atria
Podem zombar de nós aqueles que não gritam nem
choram
nem imploram à vida a fé que já perderam.
Podem inventar teorias sobre a
sorte
e rezar a um deus qualquer
como autómatos da fria engrenagem deste tempo.
Podem ostentar nos dedos os anéis da indiferença
e usar em pleno peito os
adereços inúteis da bondade.
Podem zombar de nós.
Trazemos a transgressão perto
do sangue
e um vendaval na voz
a bradar o sonho desmedido dos poetas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 32
17.12.19
Interacção Fraterna de Natal
A convite da Rosélia Bezerra aqui deixo a minha participação nesta fraterna interacção de Natal.
A minha Noite de Natal é um encontro da Família.
O conforto e a alegria que isso nos proporciona enche de amor os nossos corações.
A quantos gostam de ler poesia neste meu espaço, desejo tudo de bom. E digo:
A minha Noite de Natal é um encontro da Família.
O conforto e a alegria que isso nos proporciona enche de amor os nossos corações.
A quantos gostam de ler poesia neste meu espaço, desejo tudo de bom. E digo:
Posso escolher um salmo, ou um poema,
ou um coro de anjos para dizer Natal.
Com uma estrela a oriente do olhar em sobressalto.
Com um presépio escondido por dentro da infância.
Com a memória do silêncio agitando no coração noites antigas.
Graça Pires, Natal de 2019
9.12.19
A respiração do poema
Federica Erra
As palavras trancadas no labirinto da boca.
A respiração do poema impondo o glossário
nas veias, como uma queixa.
Os meus versos rompendo os pensamentos
que nascem na alma solitária dos homens
porque um útero de argila
moldou os sonhos, como letras,
em frente do meu nome.
Graça Pires
De Labirintos, p. 29
2.12.19
Em seara alheia
Quero dizer-vos que estou aqui
e me pergunto de onde venho,
como cheguei,
quem me pegou na mão e disse:
Vem e fala, vem e escreve.
E eu falei e eu escrevi.
Depois foi só esperar
que a voz soubesse
o recado das ondas
e as palavras fossem o trilho
onde toda a aventura é uma campina aberta
à espera da semente que a fecunde.
Não sei se sou a terra ou sou o grão,
se sou a mão ou o arado.
Sei que vou continuar na voz do vento,
no vaivém das marés,
sem perguntar se vasta é a planície,
quem me espera na outra face da Lua.
Ninguém me deu o livro das verdades,
mas eu vou.
Licínia Quitério
In: Travessia. Braga: Poética, 2019, p. 62
25.11.19
Escrevemos mar
Escrevemos
mar
como se fosse a palavra
única
que nos circunda a fala.
Quando
éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E
havia traineiras em que os pescadores manchados
de
sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado
adeus ao apelo dos corais.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2019, p. 45
18.11.19
Mulher com lenço
Amedeo Modigliani
Guardo,
ao lado das jóias,
uma
colecção de lenços de seda.
Diariamente,
em frente do espelho,
ponho
um, e outro, e outro,
até
que uma subtil variação de luz
se
detenha nos meus dedos,
antecipando
o adorno do colo.
Mas,
no tumulto inconfidente
das
mãos, há outro gesto,
mais
delicado, que assume
sinais
de sedução,
a
prever a nudeza do corpo.
E
deixo que se espalhem
pela
casa os segredos imperfeitos.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 17
11.11.19
O navio não voltou
Jean Dieuzaide
O navio não voltou – gritaram as mulheres.
O arpão dos gemidos sangrando suas bocas.
Foi o vento – disseram os homens
e desenharam na areia o madeiro e a vela.
Foi o escuro – falaram os meninos.
Tinham sonhado toda a noite com piratas.
E o velho sábio, antigo como as tempestades,
que sabia de cor a braveza dos marinheiros,
há muito que avisara: ninguém
se salva
de um naufrágio com a
bagagem às costas.(1)
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 24
(1) Séneca - Cartas a Lúcio
(1) Séneca - Cartas a Lúcio
4.11.19
Em seara alheia
Há mulheres que falam silêncio. Enchem a vida como um
batel de sonhos. Se lhes perguntam se querem falar do que
arrastam, respondem que é das gaivotas que preferem falar.
Trocam a terra firme pelo baloiçar das águas. Não têm
âncoras nos barcos, pois é com as mãos e a alma
que querem agarrar as amarras do cais.
Largam abrigos sem consultar as bússolas e os astrolábios
dos navegadores. Não mareiam, deslizam, Não cismam
no que não têm, antes observam as mãos abertas
e encontram-nas vestidas de sonhos.
Aconselham-se com as marés e escutam os peixes
que vêm à tona. Vestem-se para uma festa todas as noites,
mesmo que as noites não se abram ao vento,
Adormecem em almofadas de penas.
Os seus corações não precisam de leme.
Lília Tavares
In: Bailarinas de corda. Braga: Poética, 2019, p. 12
28.10.19
Marie
Amedeo Modigliani
Oculto no olhar um débil tumulto.
As veredas da infância golpeiam-me
nas pálpebras a tua morte, pai.
Como aves em queda no ensaio do voo.
Como passos sublevados correndo pela noite.
Como os dias em que enrolo
no pescoço o meu cachecol mais negro,
a exprimir a dor vertida sobre o rosto.
O laço branco que uso no cabelo é um aceno
em minhas mãos tão desamparadas das tuas.
Graça Pires
De Fui quase todas as Mulheres de Modigliani, 2017, p. 39
21.10.19
Há um ritual de espera nos teus braços
Oleg Oprisco
Quando os barcos singram lentamente
e as gaivotas descansam nas dunas
vigiando o vento, há um ritual de espera
nos teus braços, ausentes de abraços.
Como se a vida te destinasse,
em cada praia, uma solidão maior.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 41
14.10.19
A sedução da fuga
Seguimos pela noite indiferentes
a todos os ruídos que rebentam
o rigor do silêncio.
Temos nos punhos a navalha afiada
do tempo rasgando diante de nós
o túnel da eternidade.
Vamos até onde nos leve a sedução da fuga.
Queremos avistar o destino das aves
que trazem a luz das auroras riscada em suas penas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p 54
7.10.19
Em seara alheia
Sou Valquíria
Sou valquíria de cavalo à solta
Sem rédeas
Sem esporas
Pégaso, meu cavalo, sobrevoou comigo todos os rincões
da floresta, seguindo teu rasto.
A atmosfera, grávida de ti, chamava-me.
De lança, sedenta de amor, incitava Pégaso a voar como um louco.
E à medida que nos aproximávamos dos teus sinais,
mais me distanciava de ti.
Por onde te escondes, doce guerreiro,
que foges das lanças do amor?
Um dia Pégaso descobrir-te-á e, nesse dia, vencerei a batalha.
Carmo Baião
In: Dançam corpos em almas inquietas. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2019, p. 9
30.9.19
A amazona
Amedeo Modigliani
Gosto
de vermelho.
É
a cor do fogo e do sangue.
É
uma cor vistosa e coquete.
Como
eu.
Como
as rosas que mandei
plantar
no meu jardim.
Como
a minha jaqueta de montar.
Não
acham singular
este
equívoco de eu estar
retratada
de amarelo?
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 29
23.9.19
As primeiras chuvas de setembro
Katia Chausheva
Antes da queda, o
pássaro ferido deteve-se
na árvore mais frondosa
para cingir a haste
quebrada em suas
pupilas ausentes do brilho.
Tinha voado para além
das nuvens
quando os braços do
vento tornaram interdita
a distância azul que
perseguia.
Ao cair da noite
demandou o abismo
para ajustar o voo à
viagem já vencida.
E com asas de orvalho
urdiu
as primeiras chuvas de
setembro.
Graça Pires
In: Soltícios e Equinócios: antologia. Coordenação de Emanuel Lomelino. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2016, p. 63
16.9.19
Em seara alheia
Questão
Será o verbo amar uma conjugação calibrada, ou um
mero exercício de hipnose?
Questionava o sonhador, ao apócrifo desenhador de
calçadas propagandistas e ébrias de incertezas.
A resposta esgrimiu vários cenários. Tantos, que o
verbo amar escondeu-se numa falésia,
e apenas exercitou a contagem das ondas num
esboço de marés infalíveis.
José Luís Outono
In: Mares encrespados. Poética, 2019, p. 14
9.9.19
Gargalhada
Georges Dussaud
Plenos de astúcia promulgamos,
com a
sonoridade do vento norte,
a normalidade de rir ruidosamente
e com o excesso de
quem é capaz
de troçar da própria cara.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 15
2.9.19
Sempre soubemos
Igor Levashov
Quase acreditámos na luz rodopiando as sombras
para tornar transparente a maciez do húmus
preso à torrente das chuvas.
Pressentíamos que qualquer coisa de comovente
se alojava no brilho da folhagem atravessada
pelo perfil das aves migratórias.
Sempre soubemos que há rosas
que se desfolham antes de alguém as ver
derramando um leve aroma sobre o delírio da cor
para deslumbramento das borboletas.
Nunca se repete, sempre o soubemos,
a curva do tempo na concha ansiosa do olhar.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 48
26.8.19
Em seara alheia
Nos mastros
Nos mastros do sol, evadi-me das marés
e dancei em labirintos de luz.
Tu eras o brilho faminto, cobrindo de
assombro meus sonhos vadios.
Atravessei tuas mãos no sobressalto dos dedos
e desenhei sombras na melopeia da noite.
Perdi-me no tempo insone
e deixei-te no espaço, versos dos nosso laços.
Pernoita agora nas flores das asas das andorinhas
carrega o meu sorriso nos teus braços.
Eu
farei de tuas mãos o meu abrigo
no sangue que arde em júbilo contigo.
Manuela Barroso
In: Luminescências. Seda Publicações, 2019, p.80
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