5.6.16

Simplicidade


As nossas vozes cruzam-se pela casa 
sem qualquer pressa. 
Mais uma vez repito para não esquecer 
o nome das flores que plantámos no canteiro 
dos quartos: azáleas, alecrim, gardénias, 
alegrias-do-lar, rosas brancas e vermelhas. 
As violetas no parapeito da cozinha dialogam 
entre si um silêncio vegetal e quase familiar. 
Dão-se bem aqui as violetas, referiste 
ajeitando os vasos com delicadeza 
como se a posse antecipada do prazer 
te inundasse as mãos.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

29.5.16

Em seara alheia




Quando os rios secarem

Quando os rios secarem e as tempestades
Forem sopro e bálsamo sobre a gretada pele
E a mácula se erguer em flor de inocência
E os olhos magoados forem poema e bailado
E um sorriso límpido enfeitar as linhas do rosto
Como cinzel de límpidas palavras.

E o silêncio se abrir e a música for
Som de cristal. Dedos em movimento subtil
Na vibração da noite. E todos os enganos forem
Festivo encontro...

Inventarei então todos os nomes e
Deporei a pura essência dos dias peregrinos
Em que enlaço e colho o deslumbramento
Como dádiva, transgressão e fonte
Em que ardendo me digo...

Manuel Veiga
In: Do esplendor das coisas possíveis. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 27

22.5.16

A escrita não se fatiga das palavras



                                                               Para o Poeta João Rui de Sousa

Quando o dia oferece à paisagem
todas as gradações da luz,
a escrita não se fatiga das palavras.
O poeta é então um artífice discreto
pressentindo no olhar, sem explicação,
o manejo das mãos enfeitiçadas
pelo gesto acabado, a marginar um sonho.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

16.5.16

Ato aos tornozelos o voo das aves

Katia Chausheva


Pela respiração do mundo
sei que a vida me cerca
com mãos inesgotáveis.
Possuo um deserto na garganta
e a essência dos cardos
em antigas sedes.
E corro o perigo de ser
a combustão das fontes,
ou a vertigem de um brado,
ou o som indeciso da mudez,
quando ato aos tornozelos
o voo das aves para que as pernas
sejam colunas de santuário
onde os pés descalços não têm ruído,
nem rasto, nem forma.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

9.5.16

Em seara alheia



Renasço-te em cada aurora,
nas manhãs voláteis carregadas de abrunhos maduros
das árvores perdidas em searas sem dono.
Preciso de ti,
do silêncio dos teus olhos nas manhãs solidárias
cheias de flores por ti amadurecidas.

Teresa Durães
In: Passos sem rasto. Lisboa; Chiado Editora, 2016, p. 33

30.4.16

Soletro as palavras maternas


Espreito pelos dedos a memória
mais longínqua da infância.
Procuro-a intensamente.
Nas árvores, nas latadas,
nos vãos de escadas,
nos telhados, nos rochedos.
E retalho a pele dos seios.
Rapo o cabelo.
Envolvo-me de fumo.
Soletro as palavras maternas.
Mas um sopro invisível
dispersou o berço e os brinquedos
como um eco sem volta.
Coloco na ara sacrificial
a candura recortada
de um cenário imaginado,
para que me seja paisagem na lembrança.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

24.4.16

Para sempre ABRIL

Maria Helena Vieira da Silva

No contorno deste chão
um grito abraçou o povo.
E o frágil coração da liberdade
reinventou o sonho.
Para sempre.

18.4.16

Em seara alheia


não foi este o tempo que pedi  

bastava-me uma réstia de sol 
na ombreira de uma porta habitada 
um pouco de mar calmo e 
compassivo 
e um sopro respirável à luz 
de um instante de sossego  

não era mais deste sal a escorrer 
da nascente onde a água se quer doce 
e a corroer as pedras angulares 
com que havia de reconstruir as margens 
do sonho antes da ruína 
do sonho antes da partida  

se era para ficar 
que houvesse um outro caminho 
alto amplo e luminoso  
por onde pudesse planar na contemplação 
da vida a acontecer  

mas se é para ser assim raso o caminho tão raso 
que se engrandeça o coração

Rosário Ferreira Alves
In: Lunaris. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 27 

11.4.16

Sorriso

Ferran Quevedo

A melancolia vem açoitar-me as margens 
do sorriso que resta nos meus lábios 
quando busco um sulco de água doce 
para chegar ao restolho das palavras 
em misteriosas bocas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

4.4.16

O delito azul

Helena Almeida

Amo a inquietante beleza
que legitima  o delito azul
colado ao desabrigo dos náufragos.
Atravesso o cabo das tormentas
até encontrar uma índia
a prometer-me a seda,
as especiarias, o espanto.
E só quando os meus lábios
sangram sal e sede
me deixo cegar pelo brilho das vagas
que volteiam a geometria do abismo.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

28.3.16

Em seara alheia


Evita sonhar, procura não saber
Dos sorrisos que se acendem
Ao longo da rua. Remete-te

À desordem moderada do teu
Coração silencioso, à ausência
De expressão, mesmo nos momentos

De sobressalto. Fecha, devagar
Muito devagar, as mãos e chora
De modo a que ninguém veja.

Há alegria a mais no mundo, há
Demasiado tempo perdido a roubar
A propriedade dos tristes.

Rui Almeida
In: A solidão como um sentido seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, p. 22

21.3.16

É Primavera

Amanda Cass

Começou o ritmo da folhagem
ao sabor da seiva.
As árvores escolhem o tom de verde
que o sol prefere dispersar nos troncos.
É primavera.
As aves regressam em bandos
e os amantes ajustam a paixão
nas grutas do corpo.
As crianças trazem no olhar
uma cintilação quase divina
e os descrentes procuram um deus
no claustro da morte.
Os poetas ofertam-nos as primícias
com os frutos a gretarem-lhes a boca.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

14.3.16

Guerra


Para se abrigarem dos ventos contrários 
o abraço dos amigos lhes bastava. 
Mas a guerra cercou-os 
e deixou-lhes no movimento do olhar 
uma pátria ultrajada. 
Em suas bocas pisadas de silêncio 
sangram agora todos os afectos.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

3.3.16

Convite - Figueira da Foz: Volto à memória do mar

Muito obrigada a todos os que partilharam comigo mais esta festa da poesia.



Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.


Volto à memória do mar,
ao fundo salgado do abismo,
ao sepulcro das cinzas,
ao meu chão de múltiplas névoas.
Muito longe serei ilha, ou rochedo,
ou pérola na fenda da concha.
Uma litania, um cântico,
um grito ao vento serei ainda.
Amarrando os barcos.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

22.2.16

Em seara alheia


POEMA PARA UM VERSO DE FERNANDO ASSIS PACHECO

Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa
No instante da sua força ao meio-dia
Como se a cidade fosse uma pessoa
A entrar na eternidade da fotografia.
A preto e branco como são as colinas
No coração de quem amou esta cidade
Em encontros e mensagens clandestinas
Para o sonho que se perdeu e é saudade.
Este prédio já foi o Palácio Galvão Mexia
Ficaram os alicerces da antiga construção
As paredes contam a história de cada dia
A quem as souber escutar com atenção.
Depois é o ruído da água em surdina
Na fonte onde o garoto vende jornais
Descalço e de barrete chega à esquina
Duma vida feita de horas sempre iguais.

José do Carmo Francisco
In: Poemas de Lisboa e Borda de Água, Lisboa: Apenas Livros, 2014, p.59

15.2.16

A caligrafia do silêncio

E. O. Hoppe


Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente  me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

8.2.16

Um pássaro alucinado

Ana Pires

Quando em minhas mãos dança
a nudez de um rosto,
há um pássaro alucinado
que voa de costa a costa
até encontrar um búzio verde
para se aninhar
e aí desfalecer de paixão.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

1.2.16

Em seara alheia


Junto ao muro
do nosso quintal cresciam junquilhos. As galinhas
subiam as escadas da varanda e catavam caruncho
e formigas. Uma nespereira à beira do poço olhava
as águas paradas no fundo do tempo. Os
pessegueiros eram tão delicados

que bastava soprar para que os pêssegos nos
caíssem nas mãos. As galinhas eram livres até
serem degoladas ao domingo antes da missa. E o
milagre das manhãs era a luz clara dos junquilhos

o ardor dos pêssegos na palma das mãos, a água
fresca do poço. Talvez por serem assim delicados
há muito que os pessegueiros morreram. Mas a
nespereira era eterna

e também já não existe.

Quando alguém mandou tapar a boca do poço já as
galinhas tinham perdido a liberdade.  Aparecem
agora depenadas embrulhadas em película nas
prateleiras do hipermercado

do outro lado do quintal.

A nossa casa caiu para dentro de si própria. À beira
da estrada de alcatrão entre telhas e barrotes ainda
crescem junquilhos. Não deve tardar de certeza um
qualquer decreto

a corrigir tão ostensivo anacronismo. O céu anda
baixo e o tempo não está para bucólicas poesias: há
muito que nos abandonaram os deuses às ímpias
sombras.

Rui Miguel Fragas
In: Não sei se o vento. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2015, p.14

25.1.16

Os números

Andy Warhol

Aprendi a dizer os números
quando era criança.
Como toda a gente.
Contava tudo: as pedras, os barcos,
os frutos, os degraus,
os pássaros, as pessoas.
Contava pelos dedos.
Do princípio ao fim.
Do fim para o princípio.
Mas, desde sempre, preferi
os números ímpares:
únicos, solitários, caprichosos.
Não, não é superstição.
Fascina-me aquela exactidão assimétrica
a corromper a ordem dupla.
Como se ficasse assim anulado
o intuito de atingir uma forma definitiva.
“Os números ímpares agradam
aos deuses”, terá dito virgílio.
Tão oculto, o valor simbólico da razão!

Graça Pires

De Uma claridade que cega, 2015

18.1.16

Recordo as mãos da minha mãe



Pode parecer absurdo
este cantar de dor a meia voz,
este cantar de amor em grito mudo. 
Recordo as mãos da minha mãe: o sabor
do pão quente, do leite, do mel;
as memórias, a coragem, o amor;
uma canção de embalar
que em luz se transfigura, 
e se faz puro afago no meu peito.

Sei agora que a terra é menos árida
nos lugares onde as mulheres
não morrem por terem as mãos
presas à pele dos filhos.

Graça Pires, 2016

11.1.16

Em seara alheia


As asas

Ícaro falou-me da urgência do vôo
da construção das asas
e do salto.
Falou-me da visão
do ar
e fez-me acreditar no invisível.

As asas estão prontas
à espera do momento da
ruptura.

Samuel Pimenta
In: Ágora. Livros de Ontem, 2015, p. 33

3.1.16

Um recomeço

Turner

Hesitantes, as palavras
procuram um ponto de partida,
um recomeço.
Manejo a corda de amarrar
as dobras do tempo
diluindo os nós de sangue
no recuo dos lábios.
Quero descobrir, num vinco de texto,
a caligrafia ajustada ao barro
que molda um favo de puríssima luz
só visível em gramáticas de espanto.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

21.12.15

Kyrie

Christophe Boisvieux

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!


José Carlos Ary dos Santos
In: Vinte Anos de Poesia, 1963-1983. Lisboa: Distri, 1983, p. 21 




Com uma prece ou um cântico de Natal preso na voz desejo-vos 
BOAS FESTAS.

15.12.15

Lado a lado com os poemas

Alfredo Cunha

Lado a lado com os poemas desenrolo
nas entrelinhas um glossário reticente
para dizer o que dói neste país de mar
onde se sobrevive amarrando
os pulsos às fragas.
Pesa-me no peito a fadiga das mãos
enrugadas e o choro silencioso
das mães com a fome no colo.
Ferem-me a boca os gritos mudos
em que se desfazem os sonhos
adolescentes previstos no destino.
Há por todo o lado palcos improvisados
onde, em bocas distorcidas, se anunciam
perigos e presságios, ameaças e avisos.
Este é um país de sombras tão baldias
que magoa.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

7.12.15

Em seara alheia



Folhas secas

E quando os meninos da escola
atraídos pela luz inconfundível do outono
vierem procurar folhas secas,
encontrarão palavras.
Umas baloiçando em meios círculos
bêbadas de prazer,
outras tapetes de cores estendidas ao sol
umas vendaval outras brisa, umas lume outras água.

Hão de querer colecioná-las, os meninos,
hão de querer colá-las em forma de poema
numa página do caderno.
Hão de ficar espantados
quando os pássaros vierem
fazer ninho na folhagem dos poemas
ali plantados.

                                          
Lídia Borges
In: Baile de cítaras. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2015, p. 18

30.11.15

Sempre em novembro

Obrigada a todas as amigas e a todos os amigos pelo caloroso acolhimento no Porto.


Isenta de mim estarei pronta para riscar
os dias no pó que será barro de oleiro,
em mãos que talham enredos.
Prendo no pescoço um friso
de alecrim e sigo, por atalhos,
a linhagem das árvores de troncos espessos.
É agora meu o tempo acutilante do silêncio.
Faço o inventário inexplicável
dos pássaros que morrem todos os anos,
sempre em novembro,
sempre no fundo de meus olhos,
sempre ao som das primeiras chuvas.
E morro também, de morte lenta,
no cetim das flores desfolhadas
sobre o musgo dos sentidos.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

Fico à espera dos meus amigos mais a Norte para o lançamento do livro no dia 4 de Dezembro, na Livraria Unicepe, às 18.30 h.

Aproveito para informar a 12 de Março de 2016 haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.