1.2.16

Em seara alheia


Junto ao muro
do nosso quintal cresciam junquilhos. As galinhas
subiam as escadas da varanda e catavam caruncho
e formigas. Uma nespereira à beira do poço olhava
as águas paradas no fundo do tempo. Os
pessegueiros eram tão delicados

que bastava soprar para que os pêssegos nos
caíssem nas mãos. As galinhas eram livres até
serem degoladas ao domingo antes da missa. E o
milagre das manhãs era a luz clara dos junquilhos

o ardor dos pêssegos na palma das mãos, a água
fresca do poço. Talvez por serem assim delicados
há muito que os pessegueiros morreram. Mas a
nespereira era eterna

e também já não existe.

Quando alguém mandou tapar a boca do poço já as
galinhas tinham perdido a liberdade.  Aparecem
agora depenadas embrulhadas em película nas
prateleiras do hipermercado

do outro lado do quintal.

A nossa casa caiu para dentro de si própria. À beira
da estrada de alcatrão entre telhas e barrotes ainda
crescem junquilhos. Não deve tardar de certeza um
qualquer decreto

a corrigir tão ostensivo anacronismo. O céu anda
baixo e o tempo não está para bucólicas poesias: há
muito que nos abandonaram os deuses às ímpias
sombras.

Rui Miguel Fragas
In: Não sei se o vento. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2015, p.14

56 comentários:

Graça Pires disse...

Abri o livro “Não sei se o vento” de Rui Miguel Fragas e soube, de imediato, que se me tornava necessário lê-lo. Confrontei-me, desde a primeira página, com uma serenidade apenas aparente. Porque este é um livro de sobressalto da memória, onde se procura esclarecer o passado e captar, do presente, toda a luz possível. O Poeta entrelaça vozes e paisagens, o quotidiano e a tradição como se fossem faces de um mesmo espelho. É um livro belíssimo! Parabéns Rui!

Cidália Ferreira disse...

Bom dia
Que poema fantástico e belo de se ler! Amei de verdade.

Beijinho e uma excelente semana
http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

Blog da Gigi disse...

Ótima semana!!!!!!!!!!! Beijos

regina disse...

Não conhecia o autor mas, tal como a Graça, foi uma agradável surpresa.
Parabéns a ambos
Regina Gouveia

UIFPW08 disse...

Bela poesia...Espectacular....
Cumprimentos
Beijos meus
Morris

Cristina Sousa disse...

Boa tarde,

Excelente poema. Fiquei curiosa para ler o livro.
Obrigada Graça
Beijinhos e boa semana

Lídia Borges disse...


Um poema de saudade e uma consentida desolação onde meus olhos se revêem.

Um beijo meu, Graça!

Lídia

Nequéren Reis disse...

Que belo texto arrasou amei, tenha uma semana abençoada.
Blog:http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
Novo vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=apP6eHn5PlI

© Piedade Araújo Sol disse...

Graça

uma boa escolha de um poema cheio de memórias do Rui Miguel Fragas

rico e muito belo!

uma boa semana.

um beijo

:)

Agostinho disse...

O perfume que paira na nostalgia dos afectos, que teima em preservar o chão do nosso coração.
O poema projecta de forma límpida quadros de um filme que foi e é o nosso.
Bj.

Ana Freire disse...

Um belíssimo poema... saboreando uma agradável nostalgia de tempos passados... mas de bons tempos... que sempre permanecerão na memória de quem os recorda... ainda que o presente apenas possa mostrar as ruínas, desse tempo bonito que já passou...
Um belo e tocante poema!!! E uma grande partilha, por aqui...
Beijinhos, Graça! Boa semana!
Ana

Lucinalva disse...

Olá Graça
Belo poema. Um forte abraço.

O Puma disse...

Belo este desassossego de memórias
Bj

Marta Vinhais disse...

Memórias cheias de cor e cheiros....
Lindo.... Gostei muito...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Fê blue bird disse...

Que poema tão belo este que nos trouxe amiga Graça.
Um olhar para uma realidade tão diferente das memórias.

Um beijinho

ONG ALERTA disse...

Muito lindo, Bjbj Lisette.

Ailime disse...

Boa noite Graça,
Que poema tão belo!
Poesia de memórias numa cadência sublime, comovente, como se as palavras desenhassem as próprias memórias.
Beijinhos e uma boa semana.
Ailime

Benó disse...

Um belo poema que nos confronta o passado com o presente. Gostei muito, Graça.

Isa Sá disse...

Bonito poema.


Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Luis Coelho disse...

Bom dia
Este é um alto preço que todos pagamos.
Dentro de cada um de nós ainda mora um quintal povoado de memórias e de sons que ouvimos.
Gostei muito de me rever nesse passado recente que nos roubou a infância.

Poções de Arte disse...

Triste como tudo se acaba com o passar do tempo.
A simplicidade me lembrou a casa da vó na infância, com seu poço, suas galinhas, seus pés de frutas e tudo tão simples e tão lindo...

Abração e ótimo dia.

Bell disse...

Recordações marcam sempre o que foi bom.

bjokas =)

Sinval Santos da Silveira disse...

Oi, querida amiga, Graça Pires !
Que belas recordações, em alma de poesia,
compartilhadas, generosamente, por ti, ao
homenagear o Autor, Rui Miguel Fragas.
Muito grato pelo refinado texto.
Um carinhoso abraço, aqui do Brasil.
Sinval.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, recordações que ficam para sempre, ter capacidade para guardar na memoria os pêssegos na palma das mãos, a água fresca do poço é maravilhoso.
AG

Suzete Brainer disse...

Uma poética profunda, analítica e aciona uma inquietação,
um desassossego da lucidez (gosto muito)!...
Grata pelas boas partilhas, Graça!
Beijo.

São disse...

Parabéns pelo teu trabalho de divulgação.

Abraço para ambos, linda

Mariangela do Lago Vieira disse...

Na memória sempre permanecerá os dias felizes de outrora, apesar das velhas ruínas de agora...
Linda escolha Graça!
Obrigado pela partilha.
Beijos,
Mariangela

Cadinho RoCo disse...

O tempo se mostra sempre implacável.
Cadinho RoCo

MARILENE disse...

Uma análise tão lúcida! Não nos acostumamos com a ideia de que as coisas simples e belas se foram. Ótima escolha! Bjs.

Toninho disse...

Uma definição perfeita dos lados das coisas numa bela reflexão,
sobre o passar do tempo e a vida
analogia bem fundamentada ao sabor de belos pêssegos
no fundo do quintal que mora em minhas lembranças.
Bonito Amiga.
Abraços com carinho.
Bjs de paz.

Blog da Gigi disse...

Lindo dia!!!!!!!!!!!! Beijos

Marli Terezinha Andrucho Boldori disse...

Bom dia, Graça, sua postagem me fez recordar muita coisa, confesso que chorei quietinha . Belíssima e bem construída comparação com os dias que ( talvez) foram mais felizes para mim. O progresso vem e tira de nós aquela magia da vida simples que o conforto nos dá, mas sem alma , sem sentimentos. Parabéns! Grande abraço!

Gabriel disse...

Este texto fez-me lembrar da infância, da 'liberdade das galinhas' e de quando não se tinha muro na frente de casa. Os primeiros versos me trouxeram imagens, como se estivesse ali.

E como tudo, o passar do tempo, talvez esta a única certeza absoluta.

Adorei a escolha do texto.
Abraço!

Anete disse...

Bonitas lembranças em versos.
Muita paz!

Alfredo Rangel disse...

Graça, como sempre recebo tua visita com muito prazer. Você que tem sido tão carinhosa com teus comentários, tuas críticas e, sobretudo, com o incentivo que dás aos poetas que mastigam as palavras" literalmente, Como eu. Não conhecia Rui Miguel Fragas. Gostei muito. Gosto muito da poesia portuguesa, terra dos meus avós. Rui Miguel será agora motivo de pesquisas minhas para conhecê-lo melhor. Sempre um enorme prazer ter tua presença aqui no meu pequeno espaço. Agradeço sua gentileza. Sempre. Beijos.

Rangel

tulipa disse...


http://tempolivremundo.blogspot.pt/

Hoje é dia do 2º aniversário.
Vem beber um chá comigo.
Beijinhos.

(passarei com mais tempo para ler a bela poesia)

heretico disse...

O Rui Miguel Fragas faz parte (contigo, querida amiga) de uma galáxia de poetas que me são inspiração e afecto.

e este poema é uma lucidez arrepiante - ou não estivéssemos "abandonados às ímpias sobras!..."

beijo, Graça

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite querida Graca.
Uma bela partilha minha amiga, um poema marcante de Rui Miguel, um feliz més de fevereiro. Enorme abraço.

Arroz Di Leite disse...

Oi Graça,
passei para lhe desejar um final de tarde abençoado.

Bjs

Tânia Camargo

Zilani Célia disse...

OI GRAÇA!
ASSIM É A HISTÓRIA DE MUITOS DE NÓS, PASSOU, MAS AS SAUDADES NÃO.
BELO DEMAIS.
ABRÇS
http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

Ana Tapadas disse...

Belo poema a sublinhar a minha imensa nostalgia...

Beijo, Graça.

Odete Ferreira disse...

Foi uma leitura em crescendo: da serenidade depressa passei ao espanto, como se fosse um antes e um depois. Surpreende pela acutilância...
Obg pela partilha, Graça :)
(Li o teu comentário inicial e, por esta amostra, tenho a certeza que é mesmo assim.)

teresa p. disse...

Um belo poema, muito bucólico e nostálgico, que trás à memória sensações intensas, também já vividas.
Os meus parabéns ao autor e obrigada Graça por o divulgares "Em Seara Alheia".
Beijo

Rita Freitas disse...

Belíssimo. Palavras lúcidas e cheias de sabedoria Obrigada por partilhar.

Beijinhos e bom carnaval

Ani Braga disse...

A descansar ou na balada, não se esqueça de celebrar a vida. Bom final de semana e um ótimo carnaval.

Beijos
Ani

Jaime Portela disse...

Um poema que retrata uma realidade mais comum do que parece.
Não conhecia o autor, mas gostei do poema, que é excelente.
Graça, bom fim de semana e bom carnaval.
Beijo.

Daniel Costa disse...

Graça, um poema, de certo modo, bucólico me transportou à infância, junto da cidade de Peniche. Curiosamente me fez também recordar a casa do meu avô Foz de nome, por ser oriundo da Figueira da Foz.
Abraços

Silenciosamente ouvindo... disse...

Pois é retrata bem como tudo se foi transformando
para pior.
Gostei muito.
Beijinho amiga e bom fim de semana.
Irene Alves

Maria Sem Limites disse...

E eu acabei por me identificar tanto com este poema, que saudades de como era a minha casa na infância. Beijo.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Votos de resto de domingo feliz.
AG

Magia da Inês disse...


Esse é o preço que pagamos pelo progresso!...

Bom fim de semana!
Beijinhos.
❤ه° ·.

manuela baptista disse...

não sei se o vento e as sombras

e no entanto, os pessegueiros estão em flor


grata, por nos ter dado a conhecer o Rui

um beijo, Graça

Blog da Gigi disse...

Bom restinho de domingo!!!!!!!!!! Beijos

Majo disse...

~~~
«O Nome das Árvores»
tem poemas muito interessantes,
que nos tocam de modo muito particular...

~~ Excelente semana, Graça.

~~~~ Abraço amigo. ~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Sissym Mascarenhas disse...



Eu nao conhecia o autor, achei o poema muito bucolicamente belo.

Bjs

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Graça.
Autor sensível na descrição das memórias, na demonstração do que era e já não é.
É exactamente essa sensação de "sobressalto da memória" que fica ao ver-se a casa que era vida a pulular "caída para dentro de si própria".
Boas escolhas, Graça.

bj amg