30.4.16

Soletro as palavras maternas


Espreito pelos dedos a memória
mais longínqua da infância.
Procuro-a intensamente.
Nas árvores, nas latadas,
nos vãos de escadas,
nos telhados, nos rochedos.
E retalho a pele dos seios.
Rapo o cabelo.
Envolvo-me de fumo.
Soletro as palavras maternas.
Mas um sopro invisível
dispersou o berço e os brinquedos
como um eco sem volta.
Coloco na ara sacrificial
a candura recortada
de um cenário imaginado,
para que me seja paisagem na lembrança.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

57 comentários:

✿ chica disse...

Que linda poesia e foto! Lembrabças.... Aproveito pra desejar lindo Dia das Mães pra todas mamães de Portugal! bjs,chica

Catarina H. disse...

Adorei o texto e tocou-me no coração. Palavras fortes, de saudades...
Um bom fim de semana, beijinhos

sandrinha disse...

Oi querida,gostei dessa fotografia a preto e branco que deixaste nesta tua postagem!! O poema desta tua postagem também é imensamente lindo e fantástico!!

sandrinha disse...

Oi novamente,venho agradecer-te o comentário que me fizeste nesta minha postagem: http://sandrasofiagoncalvesafonso.blogs.sapo.pt/desafio-dos-trinta-dias-dia-3-2113,respondendo ao teu comentário,eu adoro participar em desafios,mas com toda a certeza que o blogue não é só de desafios,quanto à divulgação,eu já comentei em muitos,mas muitos deles não me retribuem as visitas,mas já conto com algumas visitas e,também,alguns comentários,desde que comecei o blogue!! Espero que continues a passar no meu cantinho!! Muitos beijinhos e excelente fim-de-semana!! Eu voltarei mais vezes,com toda a certeza!!

LuísM Castanheira disse...

Um poema tão belo, como bela é a memória. Deixar o tempo escorrer
na viagem duma vida, é voltarmos
a nascer.
Gostei muito, minha amiga e obrigado
por partilhar páginas dum livro tão
especial.
Um bj.

José Carlos Sant Anna disse...

Rendo-me à tua sensibilidade. Rendo-me á tua escrita, "à memória dos teus dedos", como se escrevêssemos com as mãos, com os dedos". Rendo-me à tua memória e à tua imaginação.
Beijo, Graça

Majo disse...

~~~
Sabemos que foi um tempo de sublime amor...

Muito belo, querida Graça.

Beijinhos.
~~~~~

manuela baptista disse...

a privação primeira


que seja a voz materna, ainda, a juntar todas as paisagens


um abraço, Graça

Marta Vinhais disse...

A saudade... As memórias de infância sempre presentes...Os retratos a sépia...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

P.S.: Em resposta ao comentário no "Minha Página", o livro é sobre a última mulher de Henrique VIII. A Ana Bolena já morreu, mas fala-se da Princesa Elizabeth e da educação que está a receber. O desafio é ler um determinado nº de livros, manter as pessoas informadas sobre o que estou a ler e escrever um pequeno comentário. Adoro ler, tenho sempre um livro comigo e achei o desafio interessante. Obrigada pelo interesse.

Cidália Ferreira disse...

Excelente! Foto e poema! Adorei de verdade.

Beijinhos
Bom fim de semana

http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

Mariazita disse...

Tudo passa. E o que passa não volta. Porque aquilo que nos parece que volta não é o mesmo que passou, é outro tempo, é outra paisagem, são outras palavras, é outro vento…
Por isso é tão importante conservar as memórias, quanto mais longínquas melhor.
Excelente! Obrigada pela partilha.

Um muito feliz DIA DA MÃE.

Bom Fim-de-semana
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

José Vilhena Moreira disse...

tão belo, Graça.
É bom quando lemos quem escreve do que sabe.
um beijo

Aline Goulart disse...

A poesia só é poesia quando toca direto na morada dos sentimentos, ou seja, o coração. E a tua poesia, pelo pouco que eu li, parece fazer isso de forma tão consistente e bonita. Não há memória mais singela do que a lembrança da nossa infância. Lindo poema. Beijinhos.

Suzete Brainer disse...

O título é uma metáfora encantadora sobre o amor materno tão
simbiótico e infinito...

Como compreendo este sentir:
"Para que me seja paisagem na lembrança."
Emocionada e tão tocada com este teu magnífico poema,
inscrito de afeto e da poesia maior, querida Poeta Amiga!

Beijo.

Pedro Luso disse...

Graça,
Um poema sensível, nessa busca que fazemos todos, de nossa infância. E você tenta ainda construir, de suas lembranças, uma paisagem da infância. Parabéns.
Um bom final de semana.
Abraços.

Alfredo Rangel disse...

Como é doce recordar. Muitas vezes mais doce que a própria recordação. E você escreve, descreve estes prazeres como poucos, Graça. Como é doce ler-te. Sempre!

heretico disse...

e nessa(s) paisagem(s) transfigurada(s) nos celebramos!

também me acometem essas "recaídas", Graça.
mas não sei dizer assim belo, como tu dizes...

Beijo, minha Amiga

Graça Sampaio disse...

Que bonito! Suave sentimento tão bem (d)escrito!

Beijinho.

Maria Rodrigues disse...

O tempo passa rápido, ficam as memórias para aliviar as saudades de tempos passados.
Nostalgico e belo poema.
Beijinhos
Maria

Odete Ferreira disse...

Centrar a memória no tempo e em espaços da infância é sempre um exercício de reflexão, ainda que o não pareça. Muito do que somos vem desses lugares mágicos. Estar dentro de momentos da infância, como se fora um presente histórico e reescrevê-la, é POESIA!
Fantástico, sobretudo a partir de "E retalho a pele dos seios".
Bjo, Graça :)

Isa Sá disse...

Muito bonito!
Tenha um ótimo domingo!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

helia disse...

Excelente Texto e Linda Foto !
Bom Domingo

ManuelFL disse...

De onde saíram três meninas tão bonitas?

Frescura, encanto, maravilha. Memória, tempo reencontrado da infância, mítico paraíso perdido, «candura recortada de um cenário imaginado».
Neste primeiro domingo de maio, a poeta soletra as palavras maternas e comove-nos. Tanta beleza.

Beijo, Graça, e bem-haja por partilhares connosco o teu talento.

Agostinho disse...

Lida e vista à transparência
a candura de ti
nesta luminosa poesia
é dádiva de ternura
de comoção em mim

Bj

Patrícia Pinna disse...

Bom dia,Graça. Lindo poema,forte como sempre.
As lembranças maternas ficam em nosso peito para a eternidade.
Que apaguemos o que foi ruim e deixemos o bom florescer.
Minha mãe está no céu, triste viver sem ela.
Tudo de bom.
Beijos na alma.

Maria Luisa Adães disse...

Seus versos são lindos
a procura da infância a invade
A vida tem sido complexa

E a única fuga
é o passado
em que a infância foi mesmo infância

E ainda bem que tem a que se agarrar no declinio
...a uma infância que nunca se perdeu...

Eu neste instante
deixei de ter infância
deixei de ter passado
Me perdi...

Maria Luísa

As Mulheres 4estacoes disse...

Lembrar a infância...saudade de tanta inocência.
Abraços

© Piedade Araújo Sol disse...

poema excelente a lembrar a infância e a lembrar a mãe.
feliz dia da mãe!
um beijo
:)

teresa p. disse...

As memórias da infância trazem emoções fortes, onde a Mãe é uma presença constante.
A foto das três meninas, no longínquo tempo da inocência, é uma saudade imensa.
Lindo poema para assinalar o dia da Mãe.
Beijo.

São disse...

Minha querida, feliz Dia da Mãe!


Abraço grande a desejar bom Maio.

Gaby Soncini disse...

"Mas um sopro invisível
dispersou o berço e os brinquedos
como um eco sem volta".

Tão bem descrita essa sensação que a infância não vai voltar.

Imenso abraço!
E muito obrigada por ter assistido meu canal!

Humberto Maranduva disse...

Uma bela e sentida homenagem à mãe. Nos recônditos meandros da memória jazem plasmadas as lembranças do que fomos delas, com elas e por elas.

Um beijo.

Ailime disse...

Boa tarde Graça,
Não tenho palavras para comentar este sublime poema que me tocou e de que maneira.
«Envolvo-me de fumo. Soletro as palavras maternas. Mas um sopro invisível dispersou o berço e os brinquedos como um eco sem volta». Leio e releio e só posso dizer-lhe como a admiro tanto e respeito, minha amiga.
Um momento de poesia de excelência.
Muito obrigada.
Beijinhos,
Ailime

Fê blue bird disse...

As memórias perpetuadas em pura poesia.

Um beijinho emocionado amiga Graça

sandrinha disse...

Olá,minha querida Graça,venho-te desejar uma excelente primeira semana do mês de Maio,espero que esteja tudo bem contigo,muitos beijinhos!!

Anete disse...

Lindíssimo poema, Graça!
Recordar esperançosamente é sublime e vital...

Abraços

Teresa Durães disse...

Uma lembrança que nos ensina no presente. Belo!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Muito significativo. Gostei.
Bjs.
Irene Alves

Mariangela do lago vieira disse...

Paisagem que permanecerá para sempre!
Lindo demais!
Beijos,
Mariangela

MARILENE disse...

Não é fácil voltar a momentos específicos. A memória só os apresenta após exaustivos exercícios, ou acordada por imagens que já estavam nela gravadas. Preciosos versos, Graça!
Está tudo guardado em saudosas lembranças. Bjs.

ruma disse...

Olá.

obras brilhantes.
Obrigado por sua visita sempre.

Desejo a todos o melhor.
Saudações e abraço.

Do Japão, ruma ❃

Marli Terezinha Andrucho Boldori disse...

Boa tarde, amiga Graça!Belíssimo poema, construindo e trazendo à memória todas as lembranças da infância, quanta saudade de coisas que ficaram escondidas , porém se há saudade é porque muitos fatos devem ser trazidos para o presente. Pura emoção! Beijos!

Jaime Portela disse...

A realidade longínqua vai sendo reconstruída até à desconstrução total...
Um poema excelente, com a tua marca de qualidade poética habitual.
Bom fim de semana, querida amiga Graça.
Beijo.

Ana Freire disse...

As memórias... e a possibilidade de nos resgatarmos um pouco ao tempo, através das mesmas...
Um poema muito belo... que nos remete para a infância... e para o Dia da Mãe... que espero que a Graça o tenha passado da melhor forma...
Um beijinho grande! Bom fim de semana, pedindo desculpa, no atraso da minha passagem por aqui... mas tenho andado numa fase mais ocupada, que ainda se prolongará um pouquinho mais...
Tudo de bom!
Ana

Sinval Santos da Silveira disse...

Amiga, Graça Pires !
Essas " viagens", aos tempos de criança,
são necessárias para abastecer a alma,
que se nega, no amor, ficar adulta...
Parabéns, querida, pelo destilar das
mais profundas emoções.
Um carinhoso abraço, aqui do Brasil.
Sinval.

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Graça.
Tão sentido, tão emocionante que, imagino!, há-de ter sido o parto deste poema, minha cara.
Porque ir buscar às memórias esses retalhos vividos e torná-los palavras e, usar dessas palavras para transmitir a emoção é tarefa árdua à criatura que é poeta.
Lindo. Ela gostaria, decerto ;)
um bj amg

Marineide Dan Ribeiro disse...

Só mesmo uma poetisa de talento poderia ir tão fundo para escavar a duras penas estas memórias...Emoção pura!!!

Bjus e feliz dia das mães!!!

José María Souza Costa disse...


Olá, Graça Pires.
Que tenhas um fim de semana bom.
E um dia das Mães, maravilhoso. Confesso, que não tenho mais a minha, ao meu lado aqui na terra. Mas, tenho a esperança de reencontrá-la um dia, em algum lugar de tempo e espaço, por que creio na ressurreição, em nome de Jesus Cristo.
Um abraço, para você.

graça Alves disse...

Que lindo, Graça!
Como sou sensível a este tema tão bem soletrado!
Parabéns!
Beijinho

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite querida Graça.
Um belo poema, um feliz dias das mães. Enorme abraço.

Evanir disse...

Estou passando para deixar
um carinho e matar as saudades.
Desejar um feliz dia das mães,
Um Domingo abençoado.
Se for do seu gosto deixei mimos
na postagem.
Beijos.
Evanir..

Daniel Costa disse...

Graça
Majestoso poema a homenagear uma mãe, decerto a tua. Boa homenagem poética no dias das mães do Brasil.
Beijos

AC disse...

A Graça tem um pacto com as palavras, só pode.
Muito bom, o poema!

Um beijinho :)

Lourdinha Vilela disse...

A mais linda paisagem que nossa memória já pôde registrar. Eu ainda me agarro À barra da saia de minha mãe que graças ao Bom Deus ainda tenho ao meu lado. Graça, me emocionaram as tuas palavras. Um grande abraço.

Arthur Claro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Batalha disse...

Passando pela net encontrei o seu blog, estive a folhear achei-o muito bom, feito com muito bom gosto.
Tenho um blog que gostava que conhecesse. O Peregrino E Servo.
PS. Se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais faça-o de forma a que eu possa encontrar o seu blog para o seguir também.
Que haja paz e saúde no seu lar.
Com votos de saúde e de grandes vitórias.
Sou António Batalha.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

Alfredo Rangel disse...

É realmente um prazer poder estar aqui, vasculhando tua obra. Prazer estar com vc, Beijo