Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
6.8.14
Em seara alheia
Infinita conversa com as nuvens
Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.
Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.
Rui Miguel Fragas
In: O nome das árvores. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2014, p. 38
30.7.14
Viagem
Sigo os teus passos, caminheiro
perdido em
cidades sombrias.
Não sei manejar as estacas
com que te inclinas no abrigo dos alpendres.
Mas todos os caminhos me desafiam para o desvario
de um lugar, de uma palavra,
de um rosto.
Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
23.7.14
Nada temos para dizer
Federica Erra
Nada
temos para dizer quando lembramos
os
cântaros da sede, a boca alagada
e
o corpo aberto à humidade dos trevos.
Calamo-nos
então para não ferirmos
a
água represada no olhar.
Os
lábios gretando na fenda da secura.
Graça Pires
De O Silêncio: lugar habitado, 2009
16.7.14
Em seara alheia
Os que falam das aves são discretos.
Delas dizem a permanência branca
Acima da corrupção das vozes.
A palavra ave torna-se som.
Falam as aves, mudas, com seus gestos
Dos que falam delas e, falando, voam.
À semelhança dessas aves, voam,
Lendo os sinais do tempo que lhes cabe.
A ele sujeitos, se vão libertando
E por aí avançam como aves.
Rui Almeida
In: Temor único imenso. Fafe: Labirinto, 2014, p. 29
10.7.14
Dança
Degas
Contavam-me quando era menina
que, em noites de lua cheia, havia mulheres nuas
junto às fontes dançando ao ritmo da vertigem
das suas ancas, até de madrugada.
Calavam-se os pássaros e o vento.
Convocavam-se lobisomens e cães negros.
E dizia-se que eram bruxas.
Nunca as vi. Mas sonhei ser uma delas muitas vezes.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
3.7.14
Casa
Dorothea Lange
Antes da casa havia o teu olhar
e a rega
exasperada das rosas
a desaguar imensa em minha boca.
Houve dias e dias em que
se tornou urgente
um ponto de fuga pela noite dentro,
não fosse a alvorada
deixar de ser
uma ave liberta em nosso peito.
Depois,
ninguém sabe de onde veio o fascínio
que nos colou a este chão.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
26.6.14
Em seara alheia
o Verão não tinha limites.
a mulher lidava com a casa pele com pele
andava todos os dias muito de noite
dias e dias de noite de roda dos fetos
toda dentro do Verão sem nenhum
tornozelo de fora.
era o Verão em hora de ponta
a mulher arrastava-se dentro da mulher.
os dias só faziam sentido existindo noites
as noites só faziam sentido trincando nêsperas
e bordando palavras que dessem sombra no ventre.
uma noite a mulher bordou a palavra mulher
e deitou-se de bruços.
era quase luz quando a primeira letra se ergueu.
e sem que houvesse tempo de escolher canção e vinho à altura
dessa primeira letra saiu o corpo
íngreme
arado
torrencial
do que havia de ser o anjo.
Catarina Nunes de Almeida
In: Marsupial. Lisboa: Mariposa Azual, 2014, p. 16
19.6.14
Janela
Toulouse-Lautrec
Abro todas as janelas para que a brisa se
aproxime.
É madrugada e o cheiro da maresia é tão intenso
que as ondas parecem
quebrar-se contra a casa.
Sinto a aragem do sul com sua lâmina de sal a
roçar-me a cara.
E daqui, desta janela, começo a amar o assombro
dos náufragos
atraídos pelo chamamento dos búzios
e pelo alvoroço das aves em redor dos
barcos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
12.6.14
Noite
Onde os vultos escurecem na exactidão do
olhar
desvanecendo a cor dos lírios
começa o enigma da noite:
sombra de uma sombra,
esse outro modo de luz transfigurada.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
5.6.14
Em seara alheia
Importa redimir a inocência das coisas
E libertar a palavra deserta. E no rosto solar dos homens
Estilhaçar o Espelho e verter o vento.
E as mãos doridas. E o barro amassado.
E as dores do parto.
E na imanência redentora das sombras
Escutar a subtil Diferença
E alargar espaços onde os dias sejam
Claros.
Manuel Veiga
In: Poemas Cativos. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2014, p. 54
30.5.14
Alegria
Josef koudelka
Volta de novo, idade
da inocência que foi
minha.
Traz-me nas tranças
a cristalina alegria dos dias
em que no fundo do
coração
nenhum nome me doía.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
23.5.14
Em seara alheia
Se fosses pássaro baterias as
asas para destruir a armadilha
Se fosses insecto deixarias círculos apenas ao redor da luz
Se fosses abelha farias zumbir a revolta
Mas és voo pela sombra
Se fosses formiga carregarias a ordem, armazenarias a fadiga
Se fosses flor polinizarias a terra
Serias coroa incorruptível
Se fosses flor através das estações
Se fosses insecto deixarias círculos apenas ao redor da luz
Se fosses abelha farias zumbir a revolta
Mas és voo pela sombra
Se fosses formiga carregarias a ordem, armazenarias a fadiga
Se fosses flor polinizarias a terra
Serias coroa incorruptível
Se fosses flor através das estações
Daniel Faria
In: Poesia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003, p.
37
17.5.14
O perfil das árvores desafiando o sol
Uma promessa na secreta aventura das sementes
e o cheiro dos pomares alastra sobre a sede
fendendo as
bocas onde nascem as palavras
da desordem e da festa.
Quando as aves atravessam o gume do lume ateado
à prenhez dos trigos enrodilhamos no rosto
os traços da tristeza que nos arde no olhar.
Só o perfil alongado das árvores desafiando o sol
nos devolve a lembrança das cantigas à desgarrada,
na eira, quando a debulha do milho se fazia
com as nossas mãos predispostas a todos os afagos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
10.5.14
Deriva
Menez
Pode parecer imaginário correr
atrás do vento desnorteando as gaivotas
que ferem o sossego dos barcos.
Pode parecer perverso despertar as dunas
para onde avançam as areias tão cheias de deserto.
Pode parecer deriva
procurar a direcção das tempestades
para encontrar a rua onde moramos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
3.5.14
Emoção
Se eu pudesse recordar uma canção de embalar
na voz lentamente doce de todas as mães
escutaria, com certeza, o cantar da minha mãe
só para que, em meu sono, eu não incline
a cabeça para o lado onde ardem as lembranças.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
27.4.14
Pressentimos o abismo
Pier Toffoletti
Se acreditamos que um istmo
viola a intimidade da ilha,
é
porque pressentimos o abismo
ou o embuste de um drama,
de uma suspeita, de
imagens
desfocadas pelo ódio.
É porque sabemos que o pão,
levedado pela fome,
deixa intacta a miséria
e a tristeza na boca das manhãs.
Graça pires
De Ortografia do olhar, 1996
22.4.14
Em seara alheia
Não é ainda a luz de abril
Não.
Não é ainda a luz de abril
que alastra neste chão.
É apenas um sorriso,
um breve rumor a roçar
um breve rumor a roçar
o veludo das ervas.
Ainda não se ouve, ao longe,
a canção do milho sobre os campos,
a sua gloriosa subida às mesas,
Ainda não se ouve nada.
Por agora falo-te da sombra
que sobra deste inverno,
da sombra que se cola à terra nua
E se demora no sono enrolado
dos gatos.
Ficarei por aqui. Aceito ficar
com as mãos magoadas
e o delírio da febre nos olhos
enxotando palavras de vento no escuro.
O sorriso?
Ah!... O sorriso entornou-o aqui a seda
de uma rosa.
Abriu-se, pura, à proa de uma súbita
primavera.
Lídia Borges
In: Sementes Daqui. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2013, p. 70
15.4.14
Sombra
Nelson Gandra
Vem, senhora das trevas
trazer-nos os contornos da luz
nos sulcos da noite
para que a extrema alvura dos gladíolos
ponha em nossas mãos aquele brilho,
quase divino, que só as sombras guardam
na vertical alteração de cada hora.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
8.4.14
Os velhos
Alfredo Cunha
Não é simples envelhecer.
Já um poeta o disse.
Peregrinos do tempo,
aprenderam, pelo olhar,
o caminho do trigo maduro,
o perfil dos navios
que partem sem regresso,
a mudança das estações do ano,
a curta duração das emoções.
Mas, quem se lembra da fadiga
dos seus braços, agora,
que é outono em suas mãos?
Quem fez do banco do jardim
um referente da morte,
o lugar onde a sua solidão se acoita?
Quem esqueceu, nas suas rugas,
a sábia maturidade da vida,
ou antes, um modo diverso
de olhar na direcção da noite?
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
1.4.14
Em seara alheia
APANHADOR DE ESTRELAS
1º
Prémio APPACDM Setúbal – 2013
Estavas sentado a apanhar estrelas no beiral da casa
e eu,
que queria escrever um poema,
um poema luz
franco e aberto,
um poema a sorrir, a gargalhar
escrevi-te a ti,
a ti porque és parte da poesia que há em mim
Já viste, repara:
ninguém sabe apanhar estrelas no beiral de casa
muita gente tenta
mas as estrelas caem e partem-se na noite
mas tu,
tu fazes das tuas mãos: gestos
onde estrelas vão morar
tu sabes
sabes apanhar estrelas no beiral da casa
e é esta diferença de quem sabe apanhar estrelas nos
beirais
que torna feliz e matinal
o olhar de todos os poetas.
Olívia Santos
In: TUDO. Lisboa: Lua de Marfim, 2014, p. 5
25.3.14
Jardim
Quando os ventos da primavera
fustigam os
jardins e as rosas
se desfolham por terem a fragilidade
do silêncio fica na terra
um perfume
tão inquietante que entontece
o cetim das palavras.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
18.3.14
O poeta
Por haver quedas de água nos seus olhos,
é que é possível intuir, no sulco do poema,
a livre aprendizagem da vida.
Incessante, a sua voz se eleva em rotação de luz
e rompe o círculo das sombras
tão próximo dos lábios
que mais parece a íntima alegria de cantar.
Entre os seus dedos uma ave palpita,
perturbada, como se urdisse em seu voo
o perfil azul-claro das manhãs.
O poeta tem sonhos de barro
enrolados na garganta : o lugar
onde os deuses sopram
a pulsação das palavras
e refazem o sentido dos dias.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
11.3.14
Plantei uma hera
Plantei na janela uma hera inclinada para dentro
para acolher
o cheiro das manhãs em que as aves
se fazem aragem nas cortinas de cores vagas.
Encurvei os pulsos para que as mãos
se acrescentassem às sombras do beirais
sem a dor das palavras mutiladas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
4.3.14
Paciência
Cézanne
Hoje, pela tarde, fiz doce de tomate
e
compota de maçã conforme velhas
receitas que minha mãe me ensinou.
Tu agradado
de seres homem
ficaste frente ao mar ouvindo
Schubert (ou era Mozart?)
Mais
tarde elogiaste muito os doces
e a paciência das mulheres para estas coisas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
De Caderno de significados, 2013
25.2.14
Em seara alheia
Há um rumor nesta distância,
um ardil com que tinjo as palavras
em armadilhas que vibram
mas não protegem. Há um porto,
deserto e húmido, como todos os portos
quando não estás, e há também um mapa,
um antiquíssimo mapa sem litorais
nem margens, onde eu refaço
esta insuportável sede de ti
comigo a desenhar ilhas no outro lado
do tempo. Há ainda - ou parece
haver - uma ponte... uma passagem
ameaçada - e tudo isto, tudo, porque
há um rumor nesta distância.
Victor Oliveira Mateus
In: Gente dois Reinos. Fafe: Labirinto, 2013, p. 25
19.2.14
Alheia à engrenagem
Ana Pires
Exponho-me na versão insensata de qualquer episódio.
Misturo as datas dos factos primordiais,
dos ritos de passagem,
do solstício, da lua nova.
Morro e nasço.
Desdobro atitudes,
evocando arautos de estranhas profecias,
alheia à engrenagem
montada por artífices de paradoxos e de teias.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977
13.2.14
Desejo
Nina Leen
nossos lábios frutados e frescos.
Temos sede de nós.
Nossas bocas estremecem levemente
por sabermos que em plena noite a lua
será de chamas nas curvas do corpo.
Tu dizes o meu nome. Eu digo o teu nome.
Não há mais ninguém na terra nesta hora urgente da paixão.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
6.2.14
Labirinto
Eram duas as sombras nas paredes da casa.
Espantadas com a ferocidade do olhar
rasgavam com vozes indecifráveis
os nomes
que amaram.
Como se nada soubessem
das palavras propícias à invenção do prazer.
Como se tivessem envelhecido
prisioneiros de um labirinto sem recuo.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
30.1.14
Com a chuva atravessada nos olhos
![]() |
| Jean Dieuzaide |
Vivem na linha costeira dos continentes
com a chuva atravessada nos olhos.
Respiram demoradamente o odor salgado
das algas que lhes perturbam o corpo.
Enfeitam os pulsos com amuletos feitos de búzios
vermelhos para que o medo das noites de temporal
não os ponha em frente da morte
quando, sonâmbulos, escondem o olhar
à lenta agonia dos peixes.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
De Uma vara de medir o sol, 2012
24.1.14
Em seara alheia
MELODIA
Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.
José Agostinho Baptista
In: Paixão e cinzas. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p.31
18.1.14
Perda
Naquele fim de tarde em que morreste,
mãe,
nós morremos contigo
sobre o sangue de um punhal afiado no peito.
Se
estamos agora presos à vida é porque herdámos
todas as memórias que abrigavas
no olhar.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
10.1.14
Barco
Escrito à minha volta, o som da água
escava o sulco necessário à passagem
de um barco singrando até ao mar.
A criança que fui aninha-se no convés
para amar as gaivotas às escondidas do vento.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
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