26.6.14

Em seara alheia




o Verão não tinha limites.
a mulher lidava com a casa pele com pele
andava todos os dias muito de noite
dias e dias de noite de roda dos fetos
toda dentro do Verão sem nenhum
tornozelo de fora.
era o Verão em hora de ponta
a mulher arrastava-se dentro da mulher.
os dias só faziam sentido existindo noites
as noites só faziam sentido trincando nêsperas
e bordando palavras que dessem sombra no ventre.

uma noite a mulher bordou a palavra mulher
e deitou-se de bruços.
era quase luz quando a primeira letra se ergueu.
e sem que houvesse tempo de escolher canção e vinho à altura
dessa primeira letra saiu o corpo
íngreme
arado
torrencial
do que havia de ser o anjo.

Catarina Nunes de Almeida
In: Marsupial. Lisboa: Mariposa Azual, 2014, p. 16

36 comentários:

Graça Pires disse...

Palavras autênticas, inteiras as deste teu livro, minha querida Catarina. “Marsupial” diz a paixão, o encantamento, a mulher-prenhe, os dias da espera, o parto, o milagre da vida. Fala da mulher e do homem: senhores de todas as esperanças, de todos os sobressaltos, de todo o júbilo. Parabéns. Um beijo imenso.

Lídia Borges disse...


Belíssimo!

Fiquei curiosa quanto ao livro.

Obrigada.


Um beijo

Daniel Costa disse...

Graça Pires

Quem aprecia a linguagem da poesia, tem por força de gostar, da proposta poética, com eu gostei. Na diversidade, está o dom do(a) poeta e da poesia.
Abraços

Marta Vinhais disse...

Um poema sincero e delicado...
Brilhante...
Gostei muito...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde,
O que escreveu despertou a curiosidade pelo livro, tenho sempre interesse em saber os mais variados pensamentos sobre o ser humano.
Dia feliz
AG
http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

André Francisco Gil disse...

Canção de despertar o rosto da terra e de animar os seus dias difíceis.

Embalar as dunas que podem engravidar do vazio fosco.

Cristais floridos que parecem trigos que são conhecidos pelo sogro dono do lucro e do logro.

Poliniza alegria e enrodilha o (per)verso e recorda o drama da matilha.

A canção embala o drama com logros e a dança dos lobos.

Ah,se pudesse recordar o despertar das dunas.

O rosto pode parecer perverso mas por trás desta face dura é só ternura.

Enquanto a terra engravida se colhe o trigo,se retira a rede e se farta a tribo.

Ah,se todos os dias fossem de polinização das flores!

A alegria seria um cristal precioso.

Ives disse...

A palavra bordada reluz em canções que ecoam no tempo, no vento! abraços

Andrea Liette disse...

Querida Graça,

Mulheres parideiras essas poetas em searas luminosas. Maior gratidão é a minha em compartilhar suas visitas.

Grande beijo.

Maria Emilia Moreira disse...

Boa tarde Graça!
Agradeço a visita ao meu blog e ainda esta partilha fantástica. Achei o poema da Catarina ( que eu não conheço)uma maravilha! O poder do mãe-terra fecundada em cama de fetos e de frutos silvestres.O milagre da criação aqui transcrito... Um abraço.

Zilani Célia disse...

OI GRAÇA!
QUE TEXTO MARAVILHOSO, UMA APRESENTAÇÃO POÉTICA EM QUE A AUTORA, NOS COLOCA SUA INSPIRAÇÃO, DE FORMA METAFÓRICA, MAS COMPLETAMENTE INTELIGÍVEL E DE UMA BELEZA ÍMPAR.
AMEI.
ABRÇS

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Fê blue bird disse...

Um poema intenso escrito decerto por uma grande Mulher!

beijinho

heretico disse...

assim cresce uma canção - liberta! - no "corpo íngreme". após o rebentar das águas...

gratidão por dares a conhecer tão belo poema e tão talentosa poetisa.

quero este livro.

beijo, minha amiga

(perturbante? não sei, não...)

© Piedade Araújo Sol disse...

o milagre do nascer....

:)

São disse...

Abraço enorme para ambas: a Catarina pelo lindo poema e a ti pela tua generosidade imensa!

Mar Arável disse...

Boa partilha

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Um poema que toca no mais fundo da alma...Palavras sentidas.
Quero também agradecer o carinho e apoio, estou voltando graças a esse apoio.

Um beijinho
Sonhadora

Nilson Barcelli disse...

Não conhecia nada da autora, que me lembre, mas a julgar por este excelente poema deve ser uma escritora brilhante.
Tem um bom fim de semana, querida amiga Graça.
Beijo.

Evanir disse...

Amo pessoas que cuidam da natureza,
que espalham sementes,
plantam árvores que florescem o mundo
Elas colherão frutos doces,
independente das estações.
Como é bom poder estar aqui
nesse momento,
que tento de todas as formas,
pular obstáculos,
saltar de paraquedas, pular da ponte,
mais tenho medo de cair num abismo sem poder voltar.
Obrigada pela sua amizade que tanto bem me faz.
Um feliz final de semana beijos e meu carinho eterno.
Evanir.

Pérola disse...

Mulher que se divide, que se multiplica.

Beijo

Ailime disse...

Boa noite Graça,
Na verdade um magnifico poema em que a alma do poeta se entranha nas raízes do ser!
Um beijinho e obrigada pela partilha!
Bom domingo,
Ailime

Reflexo d'Alma Fase 2014 disse...

Belíssimo Poema.
Acabei por ter em voz alta para o ar.
Amo poesia!

Bom dia de domingo e uma nova semana
excelente pra nós!
Bjins
CatiahoAlc/ReflexoodAlma

Ana Tapadas disse...

O poema é muito belo, sim. Está tudo dito no comentário da Graça.

bj

Teca M. Jorge disse...

Ô... maravilhoso texto!

Beijo de boa semana.

manuela baptista disse...

tricando nêsperas

e a vida a ganhar asas


um abraço às duas

teresa p. disse...

Belíssimo este poema, assim como todos os que fazem parte do livro "Marsupial".Parabéns à Catarina e um beijinho grande. Obrigada à Graça pela partilha.
Beijo.

manuela barroso disse...

Uma verdadeira obra de arte à mãe-mulher.
Parabéns, poeta!
Beijinho, Graça

ManuelFL disse...

Eu gostei muito do livro "Marsupial", onde se inclui este belo poema da Catarina.
Uma linguagem nova, ainda em construção, um caminho a ser desbravado à nossa frente, que apetece acompanhar.
Parabéns à Catarina e beijo para a Graça.

AC disse...

De patamar em patamar se faz a descoberta da essência da vida.
Muito belo!

Beijo :)

Eduardo Aleixo disse...

Poema lindo sobre o nascimento do milagre do ser.
Luz recebe nos braços o vagido quente da terra, a sabedoria milenária do ventre, o ovo eterno dos cânticos dos homens e das mulheres nos campos das espigas.
Beijinhos.

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Muito bonito, sim...

Gaby Soncini disse...

Extremamente belo!

Mariazita disse...

Não conheço a autora, mas fiquei a conhecer um poema muito belo, de enorme profundidade.
Obrigada, Graça, pela partilha.

Beijinhos

dade amorim disse...

Sempre um lindo poema!!!

Beijos

lupuscanissignatus disse...

só me ocorre uma palavra: portentoso

Agostinho disse...

Nos fetos de verão se bordam palavras.
Uma escolha criteriosa Graça, num tempo de fetos e afetos.

Menina Marota disse...



Redescobrir as palavras e usá-las no sentido de dar vida à Vida.

Uma poeta que irei descobrir.

Um abraço carinhoso e grata pela partilha.