Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
29.1.09
24.1.09
Em fuga
Somos agora quase tudo no desconcerto da cidade
que nos proibe de ver crescer as flores
e constrói grades sobre grades
para esconder os nossos medos em fuga.
Não podemos explicar a passagem
Não podemos explicar a passagem
do tempo no rosto dos dias porque há um túnel
sem espelhos a ocultar-nos a inocência.
Conivente com o círculo vazio
Conivente com o círculo vazio
que me esconde de mim partirei amanhã.
Em volta do teu olhar não há sinais
Em volta do teu olhar não há sinais
de surpresa ou de suspeita.
Apenas um aceno tão lento como o teu ritmo de viver
Apenas um aceno tão lento como o teu ritmo de viver
me antecipa a anunciação de um silêncio absoluto.
Sim. Partirei amanhã para aprender o idioma
das nascentes e escrever o teu nome
na água dos meus olhos.
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
Sim. Partirei amanhã para aprender o idioma
das nascentes e escrever o teu nome
na água dos meus olhos.
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
21.1.09
Da chuva
Edouard Boubat
No contorno das pedras, se imagina
a impaciência das águas no inverno,
quando a terra se encharca
do lamento dos ventos.
Carrego, comigo, um pavor de relâmpagos,
incendiados na rama das oliveiras.
E ando descalça, no ribeiro,
a procurar indícios da infância.
Graça Pires
a impaciência das águas no inverno,
quando a terra se encharca
do lamento dos ventos.
Carrego, comigo, um pavor de relâmpagos,
incendiados na rama das oliveiras.
E ando descalça, no ribeiro,
a procurar indícios da infância.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
16.1.09
Em seara alheia

UMA CASA EM PEDRA
Uma casa em pedra é um lugar onde se fabricam
os utensílios mais fraternos, talvez o lugar próprio
para descobrir a nossa vocação para plantar lírios
à beira das veredas, no caminho interior do lar.
Nela se redescobre a teimosa mão do poder das cinzas
à lareira, um jarro de água sobre a mesa, o pão amassado
na véspera, ante o alvoroço anónimo das crianças
ao odor das leveduras ainda frescas, transfiguradas.
Dentro das pedras se erguem as vozes vindas da planície
como se viessem da própria casa, do mais íntimo da terra,
misturando-se o apelo das águas e as narrativas
de animais nocturnos, obscuros, na fronte das montanhas.
E é daí que se lê a premonição das estrelas circundando
o destino de ervas e bichos que se fundem aos processos
por onde o vento soa, geométrico, um tempo sem data,
uma verdadeira abstracção de objectos nus, imaginários.
Vieira Calado aqui
Uma casa em pedra é um lugar onde se fabricam
os utensílios mais fraternos, talvez o lugar próprio
para descobrir a nossa vocação para plantar lírios
à beira das veredas, no caminho interior do lar.
Nela se redescobre a teimosa mão do poder das cinzas
à lareira, um jarro de água sobre a mesa, o pão amassado
na véspera, ante o alvoroço anónimo das crianças
ao odor das leveduras ainda frescas, transfiguradas.
Dentro das pedras se erguem as vozes vindas da planície
como se viessem da própria casa, do mais íntimo da terra,
misturando-se o apelo das águas e as narrativas
de animais nocturnos, obscuros, na fronte das montanhas.
E é daí que se lê a premonição das estrelas circundando
o destino de ervas e bichos que se fundem aos processos
por onde o vento soa, geométrico, um tempo sem data,
uma verdadeira abstracção de objectos nus, imaginários.
Vieira Calado aqui
In: Itinerário. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008
12.1.09
Memórias de Dulcineia XI
André Kertész
Com as árvores e com as águas
partilho os meus pensamentos.Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: a boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.
Graça Pires
partilho os meus pensamentos.Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: a boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
7.1.09
A guerra
A morte vem em todos os jornais.
É a razão de ser das reportagens.
Morre-se porque se ousa carregar na pele
a marca de diferentes etnias.
Morre-se em nome de um topónimo
no mapa do mundo, em nome do poder,
em nome de planos de paz.
Morre-se para baixar o stock das armas,
para testar a perícia dos beligerantes.
Morrre-se à queima roupa, como se a vida
estivesse entrincheirada num contra-senso
onde a noção de dignidade se perde.
Os refugiados só têm a voz
das cidades bombardeadas.
O pranto e o terror cativos do mesmo olhar.
As mãos doendo desalentadas.
Os rumores da guerra na respiração dos meninos
sitiados no silêncio dos abrigos.
Toda a demonstração de um equívoco, ou de um logro
na parábola que fala da fraternidade dos homens.
Graça Pires
O pranto e o terror cativos do mesmo olhar.
As mãos doendo desalentadas.
Os rumores da guerra na respiração dos meninos
sitiados no silêncio dos abrigos.
Toda a demonstração de um equívoco, ou de um logro
na parábola que fala da fraternidade dos homens.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
2.1.09
Os pássaros
David Valle
Junto ao pelourinho da cidade
as gaivotas convivem com as pombas.
Que aventuras permutam entre si,
quando as manhãs de janeiro
se decoram de quantas viagens
nos cabem nos olhos?
Em seu lento voo, as gaivotas
transportam as habitações sem alma
para incendiar as quilhas
com que as pombas hão-de reinventar
a cúmplice peregrinação da luz.
Este é o tempo em que amamos
o desamparo das mãos.
Os mastros, donde avistámos o sul,
ainda são os mesmos.
Graça Pires
as gaivotas convivem com as pombas.
Que aventuras permutam entre si,
quando as manhãs de janeiro
se decoram de quantas viagens
nos cabem nos olhos?
Em seu lento voo, as gaivotas
transportam as habitações sem alma
para incendiar as quilhas
com que as pombas hão-de reinventar
a cúmplice peregrinação da luz.
Este é o tempo em que amamos
o desamparo das mãos.
Os mastros, donde avistámos o sul,
ainda são os mesmos.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
28.12.08
Mãesagem

É possível que as arestas das montanhas
se arredondem de paixão pelo brilho da seiva,
quando a manhã se acende.
É possível que revoadas de pássaros
sulquem o céu, reinventando uma terra,
maternal e verde.
É possível.
Pode ser um recomeço,
uma promessa, um sobressalto,
um sinal da nossa inquietação,
neste planeta quase estrangulado,
em que nos vamos tornando forasteiros
assustados, não vá a morte surpreender-nos
na fronteira de qualquer negligência.
Pronunciemos, devagar, um acto de contrição,
até que a luz penetre, nua, o útero da paisagem,
e a fecunde, ou não teremos rio algum
que purifique a nossa sede.
Graça Pires
se arredondem de paixão pelo brilho da seiva,
quando a manhã se acende.
É possível que revoadas de pássaros
sulquem o céu, reinventando uma terra,
maternal e verde.
É possível.
Pode ser um recomeço,
uma promessa, um sobressalto,
um sinal da nossa inquietação,
neste planeta quase estrangulado,
em que nos vamos tornando forasteiros
assustados, não vá a morte surpreender-nos
na fronteira de qualquer negligência.
Pronunciemos, devagar, um acto de contrição,
até que a luz penetre, nua, o útero da paisagem,
e a fecunde, ou não teremos rio algum
que purifique a nossa sede.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
Mãesagem é o nome de uma escultura de João Cutileiro
19.12.08
Em seara alheia
O Natal
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto António Ramos Rosa, Campo e Corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto António Ramos Rosa, Campo e Corpo
Nascerei sempre
que a palavra vier ter comigo
como a paisagem de uma manhã de Natal
mesmo quando as pedras sem cor
me conduzirem por entre as calhas
e no horizonte só os barcos ausentes navegarem
nascerei sempre que as palavras amanhecerem
como fogueiras vermelhas de presença
e a tua voz incendiar o silêncio
ainda que minhas mãos
nem sempre encontrem uma janela
mas muros que crescem mesmo quando derrubados
mas nascerei, nascerei sempre que
na palavra encontrar o teu rosto
Gisela Ramos Rosa
07-12-08
Desejo a todos um Natal cheio de Amor e Luz...
que a palavra vier ter comigo
como a paisagem de uma manhã de Natal
mesmo quando as pedras sem cor
me conduzirem por entre as calhas
e no horizonte só os barcos ausentes navegarem
nascerei sempre que as palavras amanhecerem
como fogueiras vermelhas de presença
e a tua voz incendiar o silêncio
ainda que minhas mãos
nem sempre encontrem uma janela
mas muros que crescem mesmo quando derrubados
mas nascerei, nascerei sempre que
na palavra encontrar o teu rosto
Gisela Ramos Rosa
07-12-08
Desejo a todos um Natal cheio de Amor e Luz...
12.12.08
Por onde se volta à infância
Que cilada flutua sobre a espuma
da língua enrolada em vocábulos?
Com que voz se rompe o centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?
No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas,
rodopia o tempo de uma fábula,
por onde se volta à infância,
com a noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada.
Graça Pires
da língua enrolada em vocábulos?
Com que voz se rompe o centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?
No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas,
rodopia o tempo de uma fábula,
por onde se volta à infância,
com a noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
8.12.08
Memórias de Dulcineia X
De tão longe me tocaste.
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.
Graça Pires
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
3.12.08
Da tua ausência
Voltarei sempre às paisagens da tua sombra
enfeitada de madressilvas.
Gravarei o teu nome em todas as árvores,
sem marginalizar as razões da tua ausência.
Cantarei palavras sem espessura,
como moinhos de vento,
ou o frágil sabor da chuva.
Dançarei contigo na periferia da manhã
e direi onde começa e acaba
o secreto destino do silêncio.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
enfeitada de madressilvas.
Gravarei o teu nome em todas as árvores,
sem marginalizar as razões da tua ausência.
Cantarei palavras sem espessura,
como moinhos de vento,
ou o frágil sabor da chuva.
Dançarei contigo na periferia da manhã
e direi onde começa e acaba
o secreto destino do silêncio.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
30.11.08
Em seara alheia

UM POEMA
Não tenhas medo, ouve:
É um poema.
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...
Miguel Torga
In: Diário XIII. Coimbra, 1983
26.11.08
O lugar interior
Mark RothkoQueria descrever, ao pormenor,
o lugar interior onde o poema recomeça
o seu esboço de contornos invisíveis,
rodeando os pulsos.
A língua, distorcida pelo súbito tumulto
da água, engolindo a sede,
agrafa de gritos minha boca.
As letras enrolam-se-me na saliva,
como um choro, que torna sombrias
todas as definições de paixão.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
22.11.08
A casa

A minha irmã a trouxe: a foto da casa onde nasci,
como se fora uma gaivota de névoa.
Agora, a casa respira a meias com o longe
que nos separa da infância. As suas raízes
sobrevoam, tão cúmplices, tão subtis,
os nossos corações atordoados de menina.
Do fundo da tarde adivinhamos, sei lá,
o sótão pintado de pretéritas inocências,
a janelinha por onde as bolas de sabão
nos levavam, em estado de sonho,
por lugares que só o imaginário sabe.
Onde está o retrato do medo,
que sabíamos de cor, mesmo sem o olhar?
Onde está a outra menina
que connosco partilhava os frutos
de todas as estações e a quem,
também, chamávamos irmã?
Em vão, esperar a mais perfeita lágrima
para, em nome da sua ausência,
reconstruirmos a casa.
Graça Pires
como se fora uma gaivota de névoa.
Agora, a casa respira a meias com o longe
que nos separa da infância. As suas raízes
sobrevoam, tão cúmplices, tão subtis,
os nossos corações atordoados de menina.
Do fundo da tarde adivinhamos, sei lá,
o sótão pintado de pretéritas inocências,
a janelinha por onde as bolas de sabão
nos levavam, em estado de sonho,
por lugares que só o imaginário sabe.
Onde está o retrato do medo,
que sabíamos de cor, mesmo sem o olhar?
Onde está a outra menina
que connosco partilhava os frutos
de todas as estações e a quem,
também, chamávamos irmã?
Em vão, esperar a mais perfeita lágrima
para, em nome da sua ausência,
reconstruirmos a casa.
Graça Pires
De Ortografia do Olhar, 1996
17.11.08
Por dentro da noite
As mulheres, de passo
travado de amargura,
espreitam no escuro
espreitam no escuro
uma emoção perdida.
Na sua frente, a noite resolve
todos os problemas de ódio,
ou todos os equívocos
que lhes pesavam nas ancas,
impedindo-as de dançar.
Boca a boca se respira
um erotismo deslumbrante.
Há um mundo sensual
debaixo dos seus pés.
Graça Pires
Na sua frente, a noite resolve
todos os problemas de ódio,
ou todos os equívocos
que lhes pesavam nas ancas,
impedindo-as de dançar.
Boca a boca se respira
um erotismo deslumbrante.
Há um mundo sensual
debaixo dos seus pés.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
13.11.08
Regresso
Claude SimonSacodes do corpo a poeira do exílio.
Os destroços de uma agonia,
duplamente perigosa, incharam-te nos pés.
Vem. Dir-te-ei o que mudou
neste lugar de ventos e de mastros.
Dir-te-ei como me senti intrusa,
sempre que um navio aportou neste cais.
São sombras familiares, as que precedem
o teu anonimato. Um cortejo de pássaros,
antecipa-te o regresso. E chegarás
cansado do rumor da morte,
que na boca dos deuses se ocultava.
Os destroços de uma agonia,
duplamente perigosa, incharam-te nos pés.
Vem. Dir-te-ei o que mudou
neste lugar de ventos e de mastros.
Dir-te-ei como me senti intrusa,
sempre que um navio aportou neste cais.
São sombras familiares, as que precedem
o teu anonimato. Um cortejo de pássaros,
antecipa-te o regresso. E chegarás
cansado do rumor da morte,
que na boca dos deuses se ocultava.
De Uma certa forma de errância, 2003
10.11.08
Memórias de Dulcineia IX
Darlene Shiels
Há crisântemos
ao longo das estradas.
Um chão orvalhado
rebenta-me nos olhos.
Eu sei: não há lembrança
que o tempo não apague,
nem dor que a morte não consuma.
Por isso, vai perdendo sentido
a distância que me separa
de todas as esperas.
É mais nítido, agora,
o silêncio que me envolve.
Como se a morte
(ou apenas o pressentimento dela)
viesse, de mansinho, ao meu encontro.
Graça Pires
ao longo das estradas.
Um chão orvalhado
rebenta-me nos olhos.
Eu sei: não há lembrança
que o tempo não apague,
nem dor que a morte não consuma.
Por isso, vai perdendo sentido
a distância que me separa
de todas as esperas.
É mais nítido, agora,
o silêncio que me envolve.
Como se a morte
(ou apenas o pressentimento dela)
viesse, de mansinho, ao meu encontro.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
6.11.08
Em seara alheia

DERAM-ME O NOME
Deram-me o nome
da mãe
da avó
e de outras ancestrais que não conheci
a avó fez jus ao nome
e de Andaluzia onde foi menina
trouxe a espantosa solidão
da cama desabitada
dos filhos todos
perdidos
na guerra
a mãe foi artesã
da alegria
(da minha não da sua)
e passou breve
cisne ao sol
sacrificado
e agora
eu herança
no longe dos seus olhos.
Soledade Santos Aqui
In: Quatro Poetas na Net. Maia: Sete Sílabas, 2002
3.11.08
Irremediavelmente
Alfredo Cunha
Talvez não valha a pena
amarfanhar palavras
para fugir do medo.
A vida não é um jogo.
É uma espécie de nudez,
onde se perde o pé,
irremediavelmente.
Graça Pires
amarfanhar palavras
para fugir do medo.
A vida não é um jogo.
É uma espécie de nudez,
onde se perde o pé,
irremediavelmente.
Graça Pires
30.10.08
Quem me disse?
Marco Somoni
Encostada às paredes interditas do futuro,
vou desenhando as memórias do caos
em que me escrevo, neste cansaço de pedra.
Como um exorcismo inadiável, tudo
Como um exorcismo inadiável, tudo
o que aceitei sem reservas percorreu
a cor evasiva dos contrastes
que, nos meus joelhos descuidados,
linearmente se desfizeram.
A caminho de todas as fragilidades,
A caminho de todas as fragilidades,
os fantasmas do amor acotovelam-se
na minha voz, condenados a um sonho
mudo, gravando no silêncio o eco
dos abraços que não deram.
E vêm todos calados, como se a morte
das palavras tivesse acontecido.
Quem me disse que nunca tinha fim
Quem me disse que nunca tinha fim
o tempo dos desejos?
Graça Pires
Graça Pires
De Outono: lugar fágil, 1993
27.10.08
Inventar nascentes
Cartier-BressonA minha profissão era inventar nascentes.
Eu nada sabia da ressonância das ondas,
até que fiz dos sonhos um alibi
e arrisquei qualquer fuga,
com a manhã rebentada no peito.
Indiferente à respiração dos peixes,
sigo Ícaro até às profundas águas
de um amor em fogo,
enquanto me crescem, na garganta,
as raízes do delírio.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
26.10.08
PRÉMIO

Este prémio foi uma gentileza das Amigas e Amigos de:
À beira de água;ao longe os barcos de flores;As mãos por dentro do corpo;Linha de Cabotagem;marulhos;Menina Marota;Tenho dois olhinhos;Viver um conto.
Agradeço muito sensibilizada e ofereço o Prémio a todos os que visitam o "Ortografia do Olhar" e principalmente aos que gostam da minha poesia.
23.10.08
Memórias de Dulcineia VIII
Repito as palavras.
Lentamente as pronuncio.
Tão límpidas que me dói dizê-las:Ela batalha em mim
e vence em mim
e eu vivo e respiro nela.
Guardo as palavras,
secretamente,
como quem esconde,
com pudor, o lado
mais sensual do corpo.
Guardo as palavras.
Assombro-me com elas.
E choro a meio da noite
com os olhos carregados
de inocência.
Como se fora uma criança.
Graça Pires
Lentamente as pronuncio.
Tão límpidas que me dói dizê-las:Ela batalha em mim
e vence em mim
e eu vivo e respiro nela.
Guardo as palavras,
secretamente,
como quem esconde,
com pudor, o lado
mais sensual do corpo.
Guardo as palavras.
Assombro-me com elas.
E choro a meio da noite
com os olhos carregados
de inocência.
Como se fora uma criança.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
20.10.08
Em seara alheia

tinha a sopa a arrefecer e a mãe chamava.
tremiam-me as pernas no complicado anseio
de saber se ela estava. já não me lembrava do nome.
rosalina seria. era quase um instante quando o lençol
era aconchegado no pescoço. eu não sabia.
poderia ser maria ou carmo ou antónia.
mas não. acho que era rosalina e de mãos atadas
no silêncio da mesa, eu achava que era morna
a lembrança. sabia que o momento não era próprio.
e eu ainda com as meias até ao joelho
e uma fita nos cabelos. descia a mão
até ao princípio do dia.
e a luz chegava para cegar de medo o meu sono.
e os dedos aconchegavam as pernas.
e as mãos no destino húmido do desejo.
Maria Quintans aqui
In: Apoplexia da ideia, il. João Concha. Lisboa: Papiro, 2008
16.10.08
Sabor a romãs
Manuel Fazenda Lourenço
Fico à entrada do outono cativa de hábitos estivais.
A palidez do sol arde nos beijos dos adolescentes
e tem um acentuado sabor a romãs.
Apetece cantar até à extenuante cor
dos campos lavrados e nenhum calendário
mudará o clima que os meus olhos reclamam.
Sei hoje que o amor e a morte são a matéria
A palidez do sol arde nos beijos dos adolescentes
e tem um acentuado sabor a romãs.
Apetece cantar até à extenuante cor
dos campos lavrados e nenhum calendário
mudará o clima que os meus olhos reclamam.
Sei hoje que o amor e a morte são a matéria
preferida dos que pernoitam debaixo
de roseiras bravas e sabem
que tanto as garças como os papagaios de papel
voam sempre mais alto no outono.
Vou no vértice desses bandos
numa migração de risos transparentes.
Graça Pires
voam sempre mais alto no outono.
Vou no vértice desses bandos
numa migração de risos transparentes.
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
13.10.08
Alguns apontamentos
Paul Strand
Antes que a memória me apanhe desprevenida,
tomo alguns apontamentos de lavoura:
os cestos de vime escondem os sobressaltos
do vento de outono, no meio do azinho
cortado no verão;
os sulcos de trigo inquietam-se
com as chuvas estivais, quando os guizos
das cabras soam de nordeste;
um temporal pode explodir no bico dos melros,
se o tempo das cerejas sair do calendário,
ou o sol não brilhar no mês de março;
na próxima floração acenderemos o forno
e o pão que comermos será caseiro.
Graça Pires
tomo alguns apontamentos de lavoura:
os cestos de vime escondem os sobressaltos
do vento de outono, no meio do azinho
cortado no verão;
os sulcos de trigo inquietam-se
com as chuvas estivais, quando os guizos
das cabras soam de nordeste;
um temporal pode explodir no bico dos melros,
se o tempo das cerejas sair do calendário,
ou o sol não brilhar no mês de março;
na próxima floração acenderemos o forno
e o pão que comermos será caseiro.
Graça Pires
9.10.08
É possível
António CarneiroÉ possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
6.10.08
A cidade
André Kertész
A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.
Graça Pires
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
2.10.08
Em seara alheia

ARCANO
As altíssimas torres
foram trespassadas por pássaros
alucinados. Um deus ofendido
pelos povos terem inventado
os dicionários, para fugir
ao castigo de Babel,
fez explodir essas formas
de arranhar o céu, sacrificando
milhares de vítimas. Algumas lançaram-se
das alturas, na fuga às chamas
para a enganosa respiração
da manhã. Consta que deus,
disfarçado de mortal
se escondeu nas montanhas.
Inês Lourenço
In: A Enganosa Respiração da Manhã. Porto: Asa, 2002
29.9.08
Memórias de Dulcineia VII
GoyaQuero que me devolvam o meu riso.
Inocente ou perverso, pertence-me.
Ouço-o, ainda, pela infância
fora quando ecoa na remota
memória da alegria.
Ouço-o na hora
de desocultar segredos,
golpeando palavras
ou inesperados silêncios.
Ouço-o, mesmo sabendo
que já não é possível
forjar, na voz, o breve instante
que vai do espanto
à original pureza do olhar.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
25.9.08
À míngua de um abraço
Henri Cartier-Bresson
Como por aqui se afirma os rouxinóis saltitam
de árvore em árvore com medo da morte
dissimulada nos ramos das figueiras mais estéreis.
Persigno-me ajoelhada no restolho entretecido
pela meia-luz do poente.
A fonte que me atravessa a boca
confina, agora, com a mágoa das mulheres
que, à míngua de um abraço, envelheceram.
Graça Pires
de árvore em árvore com medo da morte
dissimulada nos ramos das figueiras mais estéreis.
Persigno-me ajoelhada no restolho entretecido
pela meia-luz do poente.
A fonte que me atravessa a boca
confina, agora, com a mágoa das mulheres
que, à míngua de um abraço, envelheceram.
Graça Pires
De Quando as estevas entaram no poema, 2005
22.9.08
Reencontro com o Outono
Gérard Castello Lopes
Reencontro-me com o estado primitivo
do outono e deixo-me seduzir
pelo paradoxal destino das gaivotas.
Dentro das minhas mãos ávidas de ter
Dentro das minhas mãos ávidas de ter
encalham navios vindos de todos os mares.
Depois exibo nos pulsos as marcas
de naufrágios inexplicáveis
enquanto percorro um cenário vazio
no mutismo de árvores que se despem
lentamente com o sopro magoado do poente.
Graça Pires
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
18.9.08
Apesar da sede
Picasso
Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.
Graça Pires
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
15.9.08
Em nome do teu nome
Em nome do teu nome, invoco o sul do silêncio
e arrimo o corpo ao vagar dos teus dedos.
Depois, deixo que me invadas, poro a poro,
que me cerques, me sacies e que a luz ilícita
dos teus olhos me ajuste ao teu abraço.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
12.9.08
Em seara alheia
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.
Herberto HelderIn: Ou o poema contínuo. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.
Herberto HelderIn: Ou o poema contínuo. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004
8.9.08
Memórias de Dulcineia VI
Não vislumbro
qualquer sinal de enleio
nos meus ombros.
Ao longe envelhecem,
em mim, as planícies
cobertas de giestas.
E lembro os dias
em que ouvia falar
de um homem:
quase um peregrino,
quase um nómada,
quase um louco.
Um homem deambulando
no rumo dos animais bravios
que povoavam sua mente.
Uma vasta mancha de sonhos
me perturbou para sempre.
Graça Pires
qualquer sinal de enleio
nos meus ombros.
Ao longe envelhecem,
em mim, as planícies
cobertas de giestas.
E lembro os dias
em que ouvia falar
de um homem:
quase um peregrino,
quase um nómada,
quase um louco.
Um homem deambulando
no rumo dos animais bravios
que povoavam sua mente.
Uma vasta mancha de sonhos
me perturbou para sempre.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
5.9.08
Nenhum tumulto
Nenhum tumulto denuncia a hesitação
das mãos colhendo os frutos.
Apenas o restolhar das folhas
no extremo do estio, chora,
em surdina, a privação do sumo
e da polpa, no bico dos pássaros.
das mãos colhendo os frutos.
Apenas o restolhar das folhas
no extremo do estio, chora,
em surdina, a privação do sumo
e da polpa, no bico dos pássaros.
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
2.9.08
Penélope

A pouco e pouco, aloja-se-me
no coração a cicatriz da espera.
Alheio-me da minha cronologia
Alheio-me da minha cronologia
porque o passado se tornou permanente.
Caminho tão perto do mar,
que Ulisses avalia a direcção
que Ulisses avalia a direcção
do vento pelos vestígios
do meu respirar, lento ou apressado.
do meu respirar, lento ou apressado.
De Uma certa forma de errância, 2003
29.8.08
26.8.08
Em seara alheia

Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência.E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do teu chão.
Daniel Faria
In: Poesia. Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2003
22.8.08
Ariadne

Ariadne nada sabia da morte.
Quis ter a eterna idade das águas.
Naxos foi o exílio
onde levou aos olhos a curva do luto.
Sobre as rochas desabou a noite,
impregnada de paixões.
E o silêncio a chamou de muito longe.
Graça Pires
Quis ter a eterna idade das águas.
Naxos foi o exílio
onde levou aos olhos a curva do luto.
Sobre as rochas desabou a noite,
impregnada de paixões.
E o silêncio a chamou de muito longe.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
18.8.08
Poema de amor
Manuel Fazenda Lourenço
Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.
Graça Pires
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
14.8.08
Na data prevista
Maurício Abreu
Na data prevista, agosto arde
e nem sequer uma sombra indaga
a desolação da terra nos montados.
Os pássaros trancam o verão em suas asas,
acenando à luz coalhada das nascentes.
Um sorriso, ajustado ao abandono,
envelhece nos olhos das crianças.
Graça Pires
e nem sequer uma sombra indaga
a desolação da terra nos montados.
Os pássaros trancam o verão em suas asas,
acenando à luz coalhada das nascentes.
Um sorriso, ajustado ao abandono,
envelhece nos olhos das crianças.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
11.8.08
Memórias de Dulcineia V
Alvarez Bravo
Ponho nestas memórias
a íntima clandestinidade
dos amantes.
Hei-de dizer o nome
de quantas aves se perderam
por roçarem o vazio da noite
em vagaroso voo.
Hei-de ocultar a cara
próximo de uma fonte,
para colar a boca
ao trilho das chuvas.
Hei-de cercar com águas
nocturnas o lume dos seios.
Depois, sei que vou estremecer de aflição,
quando o ranger das portas se confundir
com o chamamento da tristeza.
Graça Pires
a íntima clandestinidade
dos amantes.
Hei-de dizer o nome
de quantas aves se perderam
por roçarem o vazio da noite
em vagaroso voo.
Hei-de ocultar a cara
próximo de uma fonte,
para colar a boca
ao trilho das chuvas.
Hei-de cercar com águas
nocturnas o lume dos seios.
Depois, sei que vou estremecer de aflição,
quando o ranger das portas se confundir
com o chamamento da tristeza.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
7.8.08
Se viesse do mar
Se viesse do mar o silêncio
transparente desta mágoa,
eu podia desenhar
um barco para fugir,
ou esperar que a maré
levasse a água
que outras sedes me trouxeram.
Graça Pires
transparente desta mágoa,
eu podia desenhar
um barco para fugir,
ou esperar que a maré
levasse a água
que outras sedes me trouxeram.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
4.8.08
Em seara alheia

Franz von Suppe:
Poeta e Camponês
A jovem camponesa que faz versos.
Não os passa ao papel porque não sabe escrever,
mas diz que os preserva em cada árvore que vê,
e na chuva que cai,
e no sol que se põe.
Uma pequena erva pode ser um poema,
ou a água que corre no leito de um ribeiro
onde uma luz se esconde ou uma sombra vibra.
Como cuidar da imperfeição
senão sofrendo pelo que é perfeito?
Às vezes – diz ela -, passa-me pela cabeça
uma onda de música que não tem lugar
e eu sei pertencer a um mistério sem nome
que dói no coração muito devagar.
Amadeu Baptista
In: O bosque cintilante, Maia: Cosmorama, 2008
Poeta e Camponês
A jovem camponesa que faz versos.
Não os passa ao papel porque não sabe escrever,
mas diz que os preserva em cada árvore que vê,
e na chuva que cai,
e no sol que se põe.
Uma pequena erva pode ser um poema,
ou a água que corre no leito de um ribeiro
onde uma luz se esconde ou uma sombra vibra.
Como cuidar da imperfeição
senão sofrendo pelo que é perfeito?
Às vezes – diz ela -, passa-me pela cabeça
uma onda de música que não tem lugar
e eu sei pertencer a um mistério sem nome
que dói no coração muito devagar.
Amadeu Baptista
In: O bosque cintilante, Maia: Cosmorama, 2008
30.7.08
25.7.08
Memórias de Dulcineia IV
Vermeer
Indecisa, seguro entre as mãos
a carta que um dia recebi:
sem remetente, sem data,
sem perfume.
Com uma haste de fogo
a queimar-me as pálpebras,
eu leio: dia da minha noite,
prazer da minha mágoa,
norte dos meus caminhos,
estrela da minha ventura.
Os meus lábios, lentamente,
tocando as letras, lambendo
o sonho impresso no papel.
Um aroma de jasmim
devassando o ar.
Graça Pires
a carta que um dia recebi:
sem remetente, sem data,
sem perfume.
Com uma haste de fogo
a queimar-me as pálpebras,
eu leio: dia da minha noite,
prazer da minha mágoa,
norte dos meus caminhos,
estrela da minha ventura.
Os meus lábios, lentamente,
tocando as letras, lambendo
o sonho impresso no papel.
Um aroma de jasmim
devassando o ar.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
21.7.08
O mais secreto brilho do verão
Rachel Giese
Acordei assustada: tinha cortado
os pulsos para matar a sede.
Agora que a sede sangra nos meus lábios,
devoro, gota a gota, o hálito da terra,
ou o cheiro dos morangos,
ou, apenas, o sangue das palavras.
E arrasto o dia pelas sombras,
bebendo, devagar, o mais secreto
brilho do verão.
Graça Pires
os pulsos para matar a sede.
Agora que a sede sangra nos meus lábios,
devoro, gota a gota, o hálito da terra,
ou o cheiro dos morangos,
ou, apenas, o sangue das palavras.
E arrasto o dia pelas sombras,
bebendo, devagar, o mais secreto
brilho do verão.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
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