12.12.08

Por onde se volta à infância

Inês Gonçalves

Que cilada flutua sobre a espuma
da língua enrolada em vocábulos?
Com que voz se rompe o centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?
No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas,
rodopia o tempo de uma fábula,
por onde se volta à infância,
com a noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

53 comentários:

Maria Clarinda disse...

(...)No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas,
rodopia o tempo de uma fábula,
por onde se volta à infância,
com a noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada.
E é tão bom sempre que regressamos no tempo das fábulas encontar a n/criança ainda bem viva dentro de nós!
Kindo este teu poemas.
Jinhos muitos

mundo azul disse...

...que lindo!!!

As fábulas... Como eram úteis para nos mostrar a ética de um modo leve e gostoso! Hoje as crianças não ouvem mais fábulas...


Beijos de luz e o meu carinho!!!

Paula Raposo disse...

É isso, Graça! Belíssimo poema. Bom fim de semana e beijos.

heatchcliff disse...

a infância dos meninos que não têm infância, com a fome dos olhos dos poetas, que cilada lhes montaram.
não existem os direitos da criança?


que desordem nessas bocas, nesses olhos, na procura inglória de uma infância de fábula, de brancas de neve e bando dos cinco.

apeteceu-me falar de meninos pobres, talvez por se aproximar o Natal.

e deixei passar o poema...

Luis Eme disse...

que "cilada" mais linda...

onde não faltam os contos de fada.

abraço Graça

O Profeta disse...

Pintas...palavras...


Doce beijo

partilha de silêncios disse...

Por onde se volta à infância? Pode ser seguindo a caminho do vento, como na imagem que ilustra este lindo poema ! Consegue sentir o vento acariciar o seu rosto? Há muitos caminhos e alguns tão perto!!

um beijinho

Jaime A. disse...

"noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada"

há muito que não lia 2 imagens tão lindas. Parabéns!!

hfm disse...

fiquei-me por estas legendas.

Mofina Mendes disse...

Tão fácil, sobretudo para quem nem precisa de volta porque vive ainda no útero da vida.

Bom fim de semana...

© Piedade Araújo Sol disse...

sem palavras para comentar, destaco a seguinte passagem:

"No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas"

belo demais.

beij

Só- Poesias e outros itens disse...

Muito profundo essa escrita da memória.

bjs.

JU Gioli

gisela ramos rosa disse...

"Que cilada flutua sobre a espuma
da língua enrolada em vocábulos?"

Encantada Graça! Jeito mais lindo de dizer a travessia do poema, o caminho que ele percorre (o enredo/teia da cultura) para que os sentimentos mais sublimes despertem!

Um abraço encantado!
Gisela Ramos Rosa

maré disse...

"com a noite dilatada nos olhos" regessamos, pela ausência, à boca de todas as histórias onde o poema vive.

_________

e eu com um sol nos olhos ao ler-te...

um beijo Graça, grande!

Eduardo Aleixo disse...

Só vejo uma maneira... é deixar a criança levar o poema pela rua larga...
..Só que ...o Adulto... que vive dentro do Ser...deixa?
Prisão existe, mesmo que se fale de Liberdade.
Não sei se o que disse tem a ver com o teu lindo, sempre, poema. Desculpa, mas se não tem, que não tenha. É o que diz a minha criança, que já não obedece ao Adulto.
Beijos.
EA

teresa p. disse...

"Com que voz se rompe o
centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?"

É um poema líndissimo... sublime...repleto de imagens que surpreendem e emocionam...
Beijo.

viernes disse...

"a boca legendada de contos de fada", talvez seja isso o inverno, a estranha forma de morar no frio... Belo poema!
um beijo

LM,paris disse...

Graça,
o lugar onde os rios se cruzam...
acontece a ruptura, e o que serà uma àgua que se rasga?
Nos olhos dos poetas vivem
as meninas, os meninos que fomos, todos.
Que lindo o seu poema, fico sempre calma e um pouco triste, de uma serena melancolia. Um beijo, dois.
LM

isabel mendes ferreira disse...

:))))))))))))))))nunca seria com toda a certeza um comentário que soubesse traduzir o que aqui sinto, Graça.

sou péssima comentadora. escasseiam-se-me sempre as palavras quando tudo é tão CLARO...

o importante mesmo é que gosto um muito.tanto da sua Poesia.

"adulta" e maior.


beijo G. e um excelente fim de semana.

heretico disse...

a Poesia é assim: inaugural. irrompendo da (des)ordem da Palavra. e "inocente" . como o olhar de uma criança...

excelente .

(não me canso de dizer)

beijos

d'Angelo disse...

Mistérios da poesia, nostalgia, confluência de rios e olhos, o retorno à infância, e a beleza, mais do que nas rimas, fazendo eco em nós. Um final tão lindo que justifica a inveja por não ter escrito semelhante verso.

dona tela disse...

Os rios cruzam-se com os olhos dos poetas? Logo vi...

Muitos cumprimentos.

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Que poema lindo, Graça!
É do livro novo? Que delicadeza de metáforas!
' e a boca legendada de contos de fada', assim fico ao ler teus poemas.
beijo no coração

Bandida disse...

dizes tu - "Com que voz se rompe o centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?" ----------- pergunto eu : com que voz?


magnífico poema.

maría nefeli disse...

Onde nasce o puro nasce o poema: o dia limpo, o sol da infância, também o seu medo...
um beijo

Teresa Durães disse...

essa infância onde tudo era um mistério

Licínia Quitério disse...

Um lugar inicial e puro. Que lindíssima fórmula para o dizer.

Abraço, sempre.

São disse...

Se a infância fosse sempre a terra dos sonhos...
Boa semana, Graça!

Adriana disse...

A língua enrolada,uma cilada é (des)bocada.Uma ruela, a poesia na poça d´água brincando de infância.
Lindo poema.Virei sempre aqui.

Bia Pedrosa disse...

voltar a sentir o cheiro de terra molhada da infância e lembrar dos contos de fadas que alimentavam os sonhos de criança é como olhar para eixo do próprio corpo, para o centro de sua alma...


amei!!!

beijos

de.puta.madre disse...

Como se o poeta fosse um lutador ...

mié disse...

Poeta. Gosto tanto.

e já me deste a pista :)


___esquecemos tanto esses tempos de fábulas e contos de fada.

ser adulto é uma chatice :)

Um beijo

enorme

enorme

Hercília Fernandes disse...

Simplesmente lindo, Glória!

O poeta reencontra a criança que há em si mesmo, quando estimulado por um devaneio "solitário, tranqüilo e imóvel, diz Bachelard.

Linda a sua criança, Glória, parabéns pela expressão sincera!

Obrigada pela leitura.
Beijos,
Hercília.

soledade disse...

«Com que voz se rompe o centro da desordem,/ para deixar passar o poema,/ansioso de uma rua larga»

Vou roubar estes versos para epígrafe de uma "arte poética":)

E fico a pensar como a memória está sempre na génese da poesia, este desejo de *regresso*, de reinstaurar um tempo fracturado...

Um beijo, uma boa semana

isabel mendes ferreira disse...

venho apenas re.legendar a minha admiração!!!!!


para sempre!


.


beijo Graça beijo.

livia soares disse...

Muito inspirador. Deixou-me numa zona crepuscular entre a reflexão e o devaneio...para ler e reler com encantamento.
Um abraço.

Nilson Barcelli disse...

Eu também gostava de saber as respostas às perguntas do teu poema....
Deve ser essa cilada que me impede de escrever o que quero e dessa espuma brotam outras ideias que não as iniciais, e as palavras vão rompendo essa desordem (nem sei com que voz...) até se afirmarem no papel, com a língua de fora a troçarem de mim...
Mas talvez seja nessa volta à infância que perdemos o controlo das palavras de adultos, onde a nossa criança, inocente e livre de preconceitos, resolve manietar a nossa consciência (já distorcida e não pura) e vai escrevendo por nós...
Por vezes até fico irritado, mas eu não tenho culpa nenhuma... nem mérito... tudo é dela...
Este é mais um fabuloso poema. Tu já não sabes fazer pior...
Beijinhos.

Mar Arável disse...

é difícil

mas não impossível

explicar

como cruzam as marés

Bruno Nogueira disse...

Meus caros, estou prestes a alugar um T1 dentro de uma Fnac.
Isto porquê?
Porque esta quinta feira dia 18 de dezembro pelas 21h30 voltarei novamente à Fnac do Colombo, mas desta vez para uma singela sessão de autógrafos juntamente com o João Quadros a propósito do livro das crónicas da TSF, de seu nome "Tubo de Ensaio".
Espero que apareças por lá.
é por aí..

maria m. disse...

nos teus textos, não é raro encontrar a poesia como espaço-tempo primordial de evocação ou retorno à infância. muito bonito!

CNS disse...

Belissimo poema com cheiro de infância.

um beijo

Pena disse...

Só cria poemas fabulosos e fantásticos que adoro imenso ler.
São viagens fantásticas. Deliciosas!
Feliz Natal extensivos à sua linda família e aos que ama.
Beijinhos amigos de pureza e respeito

pena

Victor Oliveira Mateus disse...

Só hoje me apercebi de uma coisa:
alguns dos teus poemas são metapoéticos... Este é um exemplo:
as ciladas que flutuam na espuma da língua que se enrola em vocábulos. Um cismar em torno da língua, da palavra e da poesia e das suas relações entre si. Bom trabalho!!! Mas como é que eu nunca tinha reparado?
Um beijo, Graça.

pin gente disse...

era uma vez um menino que queria apalpar as palavras, metê-las na boca para as provar, guardá-las nos bolsos das calças para com elas brincar na praia. queria atirá-las ao vento e ao mar para ver que outras palavras lhe devolveriam na troca de sílabas e letras. era uma vez um menino, o mesmo que queria provar palavras, que tantas palavras comeu com o olhar que um dia acordou com olhos de poeta... nunca mais deixou de oferecer poesia quando a sua boca abria.

um beijo

O Profeta disse...

Sabia apenas que era um pequenino naquela longa noite
No celeste um luminoso sorriso me chamava
Lançou-me aos olhos raios de deslumbrante luz
Era a minha prenda, uma brilhante…Estrela Alva…



Um Mágico Natal para ti querida amiga que ao longo deste ano me visitaste. Que a Estrela Alva te ilumine neste Natal.






Mágico beijo

Benó disse...

Num verdadeiro rodopio de tempo, é bem verdade que nesta altura do ano voltamos à infância.
Que dentro de todos nós exista sempre, e não só agora, a criança de olhos dilatados que falas no teu poema.

Que tenhas um Bom e Feliz Natal!

fred disse...

Belíssimo poema.
Beijos

babel disse...

É o segundo poema que leio no tempo que tenho andado no seu blogue em que parte da definição da gestação do poema para o assunto principal, neste caso a infância, o que possivelmente será uma marca de água da sua poesia. Tenho de ler poemas para trás para confirmar esta hipótese.

Hercília Fernandes disse...

Querida Graça Pires,

peço-te perdão por ter feito uma confusão entre nomes.

Como sabes, temos, no Brasil, uma atriz que chama-se "Glória Pires". Devido a aproximação entre os nomes, acabei realizando a confusão no comentário acima.

Por favor desculpe-me, relendo hoje o seu poema percebi o "grave" erro cometido.

Saudações poéticas,
Hercília.

mar disse...

um dia uma criança soube que a morte da infância é o suicídio da vida.

é sempre um gosto voltar aqui*

Parapeito disse...

Tal como os contos de fadas...o que escreves faz sonhar :)

vaandando disse...

Passei por indicação do »viver um conto » e fui encontrando boa poesia ...
BOM ANO
cordialmente
_________ JRMARTO

Roberta disse...

Um dos poemas mais lindos da tua seara, por mim já lidos.