20.10.08

Em seara alheia


tinha a sopa a arrefecer e a mãe chamava.
tremiam-me as pernas no complicado anseio
de saber se ela estava. já não me lembrava do nome.
rosalina seria. era quase um instante quando o lençol
era aconchegado no pescoço. eu não sabia.
poderia ser maria ou carmo ou antónia.
mas não. acho que era rosalina e de mãos atadas
no silêncio da mesa, eu achava que era morna
a lembrança. sabia que o momento não era próprio.
e eu ainda com as meias até ao joelho
e uma fita nos cabelos. descia a mão
até ao princípio do dia.
e a luz chegava para cegar de medo o meu sono.
e os dedos aconchegavam as pernas.
e as mãos no destino húmido do desejo.

Maria Quintans
aqui
In: Apoplexia da ideia, il. João Concha. Lisboa: Papiro, 2008

34 comentários:

Paula Raposo disse...

Um belo poema da Maria Quintans. Gostei. Beijos.

isabel mendes ferreira disse...

o meu abraço!




enrolado de uma cumplicidade. doce.



!!!!

Bandida disse...

obrigada, graça!!


beijo

d'Angelo disse...

Sutilezas tais como "cegar de medo o meu sono", "descia a mão até o princípio do dia", "destino húmido do desejo", todas atadas com a delicadeza de uma fita nos cabelos, beleza posta sobre o "silêncio da mesa".

Lia Noronha disse...

Td lindo por aqui...como smepre!
Abraços diretamente do meu Cotidiano.

joâo Norte disse...

Um poema disfarçado. Um belo texto subjectivo que tem de ser lido com atenção.

Véu de Maya disse...

belo texto...

abraço

hfm disse...

Como ela sabe das palavras com que se alimenta.

Teresa Durães disse...

muito sensual

Thiago disse...

Gostei do que li. Um abraço do meu eu e dos meus outros eus

São disse...

Desconhecia esta autora: agradeço-te a apresentação.
Fica bem, linda.

Regina disse...

Mais um fruto de boas searas!

Sophiamar disse...

Deixo-te um beijinho e desejo-te uma boa semana.

JPD disse...

Belo texto.
Bj

(Não deixarei de visitar a Maria Quintans.)

maré disse...

e eu o agradecimento por me dares a conhecer quem tão "diz" a palavra.

"e a luz chegava para cegar de medo o meu sono"


Vou procurar, apesar de ser tão precário, por estas bandas, encontrar o que procuramos...

beijo

maré

ivone disse...

"descia a mão
até ao princípio do dia."


quantas mas quantas vezes isso me acontece. muito bem ilustrado à custa de matisse que adoro.nessas colagens quase serve de pano de fundo à toalha da mesa

AnaMar disse...

Belo momento.
Sem palavras...

Victor Oliveira Mateus disse...

Duas palavras para este poema: quotidiano e autenticidade. Um quotidiano de sentires, de afectos
(até de discretos desejos, como no final), de hesitações... Autenticidade, porque o eu-poético
se expõe, se rasga ante nós crua
e inexorávelmente.
Um poema sem retórica de circunstância e sem abcessos estilísticos...Gostei!
Um beijo para a Maria Quintans
e outro para ti, Graça.

Peter Pan disse...

Linda Amiga:
Um poema fabuloso a que deu viva voz.
Diferente. Num estilo peculiar.
Brilhante. De uma magia poética linda.
Adorei!
Bj amigos de imenso, respeito, estima e admiração.
OBRIGADO pela sua terna amizade.
O renascer da significação adolescente do amor.

p.pan

Maria Clarinda disse...

Obrigada pela partilha...adorei!
Jinhos

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Muito poético, Graça, adorei!
Como sempre tens mãos de fada-poeta para nos presentear com pérolas como essa.

DE-PROPOSITO disse...

Um texto cheio de metáforas. Cada um que o interprete 'como souber'.
Fica bem.
Felicidades.
Manuel

Mésmero disse...

Não a conheço. Mas gostei deste poema.

PiresF disse...

Gosto do que a Maria diz e também do que não diz mas que se percebe. Gosto de quem assim escreve e se revela até nos silêncios. Gosto da Maria, também pelo que escreve.

Um beijo cúmplice e um enorme obrigado por merecer a sua ilustre visita.

O Profeta disse...

Subtilmente...sensual...

Doce beijo

Menina_marota disse...

"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras."

Agradecia que passasse pelo MM para recolher o Prémio que foi atribuído a este Blogue.

Um abraço ;)

teresa p. disse...

Poema com um halo de mistério e sensualidade...
Gostei muito.
Beijo.

Nilson Barcelli disse...

Até ao fim convenci-me que o poema era teu. Tu escreves mais ou menos assim e, por isso, poderias ser tu a autora deste excelente texto.
Beijinhos.

Eduardo Aleixo disse...

Graça

Qd quiser, vá ao meu blogue, tem lá uma prendinha.
BJ.
EA

soledade disse...

A infância, a seu modo, também é um lugar estranho, e a inocência tem muitos rostos.

Ailime disse...

Um belo poema onde cada palavra é subtilmente bem utilizada na interpretação que a autora pretende significar.
Um beijo.

JRL disse...

E eu gostava muito de a conhecer, porque deve ser, com toda a certeza, uma das tais pessoas especiais. Obrigada, Graça.

nana disse...

que lindo, lindo, lindo, graça...


que honesta
que verdade

esta partilha

também....


..



obrigada por tudo o que (me) é todo este tanto de ti.

e tudo o resto, há já tantos anos.



..


:,o)


x

Parapeito disse...

...mais um belo poema que fiquei a conhecer...e a gostar :)