13.11.08

Regresso

Claude Simon


Sacodes do corpo a poeira do exílio.
Os destroços de uma agonia,
duplamente perigosa, incharam-te nos pés.
Vem. Dir-te-ei o que mudou
neste lugar de ventos e de mastros.
Dir-te-ei como me senti intrusa,
sempre que um navio aportou neste cais.
São sombras familiares, as que precedem
o teu anonimato. Um cortejo de pássaros,
antecipa-te o regresso. E chegarás
cansado do rumor da morte,
que na boca dos deuses se ocultava.

De Uma certa forma de errância, 2003

38 comentários:

viernes disse...

não se podem entender as cidades sem a espera dum barco, duma palavra a chegar do mar... Muito belo esse poema, acho que pode explicar Lisboa...

Paula Raposo disse...

Gosto dos teus poemas (mas já o disse, não já?). Poucas palavras, como gosto e onde se consegue dizer tanto. É lindíssimo. Beijos.

VFS disse...

os instantes da vida também são pós.

e as vivências permanecem na memória até que as lembranças se esvaneçam.

só depois (re)nascemos.

Obrigado!
Vicente

Véu de Maya disse...

Belíssimo poema e forte...

abraços

rouxinol de Bernardim disse...

Sintético q.b. quem será o feliz contemplado?!
Parabéns pela simplicidade...

hfm disse...

Os deuses, Graça, os deuses nos seus conflitos e sabedoria.

Huma Senhora disse...

Nunca consegui definir o sabor do regresso.
Um beijo

São disse...

Mais um belo poema, Graça.
Abraço.

DE-PROPOSITO disse...

a poeira do exílio.
-----------
Acredito que para nós já não há a necessidade de exílio, pelo menos aquele exílio em que pessoas eram obrigados a abandonar o país porque não pensavam, como lhe 'mandavam'.
No entanto há o outro exílio. Aquele que é forçado (por vezes) pela ilusão duma vida melhor.
Fica bem.
E a felicidade por aí.
Manuel

AnaMar disse...

Deixo um poema que li há tempos (como o tempo passa) num tempo em que o amor parecia ser tudo.
ainda é. Como este poema de amor forte traduz.
Um beijo.

Canto de Penélope
(para Ulisses, enquanto aguardava pacientemente que ele regressasse de suas épicas aventuras por mares que o prendiam na demora)

Quero já os teus olhos cor de ameixa
perdidos pelos Gregos lá no mar;
sabes,
só tu és a vontade que me impele a
ficar aqui para te encontrar. eu vergo
a força imunda da tormenta que
Tétis enviou para me arrasar e lanço
a noite num arco de papel, na espera de
te ter para te largar.

Corre e solta os anais que te escrevi e
marulha neste seio entre-aberto.
Sabes,
quero de volta o afago onde nasci
ora quero a folha de papiro que
te dei.

Lê as memórias em meu corpo
a descoberto e traz contigo o sumo dos
teus olhos que guardei.

Teresa LPL

em http://talvezpeninsula.blogspot.com/

Benó disse...

É sempre bom regressar, mesmo que isso aconteça,muitas vezes, por causas menos boas.

Um grande abraço.

Sophiamar disse...

A leitura dos teus poemas é, para mim, um dos momentos agradáveis da blogosfera. Gosto muito da tua poesia.

Beijinhos, amiga!

Bem-hajas!

isabel mendes ferreira disse...

e regresso. como sempre.


da viagem dos momentos turbulentos. aqui. para me aquietar.



à sombra de uma palavra. redentora.



abraçoooooooooooooooooooo.

TINTA PERMANENTE disse...

Pelo meio das palavras há sonoridades cheias de marés!...
Gostei!

abraços!

© Piedade Araújo Sol disse...

poesia sempre muito boa.

forte e cheio de historia.

a foto, a condizer.

um beij

teresa p. disse...

O regresso de Ulisses, depois de tanta errância...
Um poema intenso e uma imagem magnífica.
Beijo.

batista disse...

gosto do (desse teu) Regresso... assim como gosto de regressar a um certo lugar, mesmo que já não exista nenhum vivente à minha espera... tenho comigo a lembrança dos que se foram (de certa forma, mais que lembranças).

deixo um abraço fraterno.

heatchcliff disse...

uma metáfora muito bem conseguida
excelente.são sempre as sombras
que precedem o anonimato.
gosto muito

d'Angelo disse...

Impossível navegar impune pelos seus versos, Graça. Nossa roupa, nossos olhos, nossa alma, tudo enfim fica impregnado de beleza e emoção. Grandioso na musicalidade e nas imagens.

Eduardo Aleixo disse...

"Um cortejo de pássaros antecipa-te o regresso" - é lindo o teu poema de regresso.
Abraço.
Eduardo

maré disse...

Belíssimo
.
.
.
como "um cortejo de pássaros"

voo

antecipando todos os regressos.

Obrigado, Graça.

maravilhei-me...

um beijo

maré

Teresa Durães disse...

os regressos difíceis de serem inseridos no verbo dos Deuses

Bandida disse...

brilhante!!!


beijo, graça

Luis Eme disse...

mas chegarás...

abraço Graça

De Amor e de Terra disse...

...e há tantos exílios numa vida, tantos, Amiga...no corpo, no coração, na mente, na alma!
Felizes os que podem regressar!!!

Beijos. Amei!

Maria Mamede

soledade disse...

Já uma vez, aqui no Ortografia, a propósito de um outro poema que, como este, tinha sabor a Ítaca, citei a Ursula K. Le Guin: "A verdadeira viagem é o regresso". E apetece citar de novo porque nenhum regresso é simples. Como sacudir o pó do exílio, se Ítaca não é um ponto fixo? -"Dir-te-ei o que mudou". Só Penélope, afinal, é imutável. Não admira que por ela Ulisses desistisse de deusas, ninfas, imortalidade. Que tivesse deslindado a grande armadilha:
«rumor da morte,
que na boca dos deuses se ocultava»
Gosto muito dos seus poemas nesta linha temática :)
E a fotografia, esse calado de navio a crescer, a preencher o espaço todo, é óptima!
Um bom fim-de-semana, Graça, um beijo

Regina disse...

O que será mais intenso, a partida ou a chegada?

JRL disse...

mas não és intrusa. tu és o porto ;) um beijinho

Menina_marota disse...

"...Dir-te-ei como me senti intrusa,
sempre que um navio aportou neste cais."

A ausência torna-se mais evidente quando deixa sulcos de marés que se tornam impossíveis...

Um abraço querida Graça.


A sua presença foi uma enorme alegria para mim. E um privilégio. OBRIGADA!

Nilson Barcelli disse...

Um regresso cansado nas sombras...
Abraço.

Márcia disse...

"São sombras familiares, as que precedem
o teu anonimato. "

Coisa mais bonita, Graça. Belo demais.

Beijo daqui.

http://cinzasdecarvalho.zip.net disse...

Maravilhosos poema e imagem. A Soledade esgotou, inteligentemente, o que comentar.
A leitura, como a ela, me reportou à mitologia grega (que me apaixona). Obrigada, por aqui e por ter deixado lá o comentário encorajador. Não fosse por vc (e tb o Victor) teria de sobra inspiração para escrever sobre o Saara. Beijo grande. Bárbara Carvalho.

Monte Cristo disse...

De partidas e regressos se faz a vida. Ou só de partidas? Vamos. E quando voltamos somos outros, porque outros seríamos, mesmo que ficássemos.

Só a tua poesia continua bela. E doce

Marco Rebelo disse...

boa imagem :)

Ailime disse...

Poema muito inspirado e, como sempre, o que admiro na sua poesia
a forma esmerada como recorta e constrói as palavras que a compõem.
Divino.
Um beijo.

heretico disse...

regresso a Ìtaca...
que bom o calor da espera. apesar do capricho dos deuses.

belíssimo.

beijos

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Graça, desenhaste lindamente este regresso. Como sempre fico impressionada com as imagens que crias.
beijo no coração

Nuno de Sousa disse...

Linda belas cores amiga.
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