6.10.08

A cidade

André Kertész

A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

33 comentários:

AnaMar disse...

E esse silêncio contém tanta vida...

Véu de Maya disse...

Viva Graça Pires!

A nitidez cristalina com que desvela o invisível das coisas e das pessoas na sua relação com elas dá um fulgor especial á sua poesia..no seu estilo muito original...aprecio muito esse desvelamento estético...

abraços

maré disse...

nenhum caminhante da noite
se esconde da loucura do silêncio
da devastação das sombras
que é a corrente inquietante
quando a cidade nos projecta as asas feridas do destino.

______
têns razão, Graça. Curiosa coincidência.

e tanto, na partilha da palavra quando te leio.

um beijo

maré

mariah disse...

poema desmbrante.


Beijo,
mariah

d'Angelo disse...

Belo, Graça, esse modo de retratar um cenário onde a poesia espera por um olhar semelhante ao seu. Que caminhante negligenciaria palavra como a sua, qual asa recusaria semelhante ninho?

Sophiamar disse...

Graça, a poesia ficou mais pobre. Está de negro vestida. O meu amigo Fernando Peixoto partiu.

Quanto ao teu poema, a cidade tem de tudo. O sossego, o desassossego, o silêncio, o ruído, a união, a desunião...

Mais uma vez, as palavras cativaram-me. É assim a poesia. Uma sedução permanente.

Beijinhos

Mïr disse...

Belo!

Silente grito
aspergido de solidão.

Obrigada.

Eduardo Aleixo disse...

O silêncio, a confidência, o afago - são a pérola que se esconde na cidade da vida. A vida é uma cidade com sonho de silêncio. Onde há o bosque. E os regatos. E o paraíso perdido. Sem o terrível anonimato da cidade não era possível o sonho do regresso.
Abraço.
EA

TENHODOISOLHINHOS disse...

Às vezes o "silêncio" é demasiado barulhento.
A cidade - "... Paradoxal labirinto de aves migratórias...."
Agrada-me ser ave migratória e voar anónima na cidade.
Regresso todos os dias...

Beijo, poetiza.

maría nefeli disse...

Ás vezes eu sinto assim a minha cidade...
Um grande poema...sim...
um beijo

Charlie disse...

A cidade rasgou a terra para que o homem se juntasse a outros homens e fugissem da solidão.
E quantas vezes as esquinas são testemunhas silenciosas duma multidão de sós, profundamente sós...

Luís disse...

é muito isso, Graça...

sim, os manipuladores do silêncio, são mais citadinos...

abraço

partilha de silêncios disse...

Lindo poema !
Obrigada, pelo seu aconchego de palavras.

Um beijo

Teresa Durães disse...

vejo sempre a cidade como um grande anonimato

maria m. disse...

«Geografia de uma orfandade interior.» esta e outras excelentes imagens com que este poema escreve a cidade!

bjos, Graça.

Maria Clarinda disse...

Excelente, profunda esta tua análise da cidade!!!Comungo da tua opiniºao. A foto ficou optima no post.
Jinhos mil

hfm disse...

"A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio."

como um aforismo.

TINTA PERMANENTE disse...

Ouvi dizer, um dia, que 'as muralhas das cidades são feitas com os destroços das casas das aldeias'. Talvez por isso doa tanto os seus silêncios. Ou os seus barulhos...

abraços!

teresa p. disse...

"Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior".
Excelente retrato poético da cidade e do seu respirar.
Beijo.

Peter Pan disse...

Maravilhosa Amiga:
Um instante muito belo de poesia que escreveu com mãos de ouro.
"...Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra..."

Delicoso e fantástico como sempre.
Beijinhos de respeito, amizade e estima.
Sempre a nutrir por si e pelo que escreve encanto e beleza.

p.pan

soledade disse...

O poema, tal como a cidade, está sobrehabitado: de rumores, olhares, solidão, afecto, imagens de sinal contrário... A fotografia de Kertész é admirável (um labirinto, uma solidão, um segredo?) e abre outros caminhos na leitura do poema.

Um beijo, uma noite descansada

dona tela disse...

E se falássemos de coisas divertidas?

Um beijinho da Tela.

Paula Raposo disse...

Está fantástica esta tua descrição de cidade!! Muitos beijos.

Regina disse...

Bela conspiração pela calada da noite!

beijos

batista disse...

guardo alguns poemas num lugar todo especial. nesse lugar alguns que falam sobre a "cidade". de tua autoria, A Cidade, “incorporei” aos meus guardados. de coração, grato!

um abraço fraterno.

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Lindo! Graça, você traduziu de forma ímpar o espírito da cidade.
Só que com toda essa poesia ela fica muito mais atraente.
beijo no coração

http://cinzasdecarvalho.zip.net disse...

Oi, amiga querida!
Estudando feito louca (rs). Passo para apreciar mais um poema seu e deixar-lhe grande abraço.
Bárbara Carvalho.

Parapeito disse...

...por isso eu vivo no campo :)

Belo poema Graça*********

heretico disse...

gosto de cidades assim povoadas. de emoções e palavras belas.

beijos

Ailime disse...

Lindo este poema pela intensidade das verdades nele contidas.
Por vezes quantos silêncios manipulam gritos contidos, pela indiferença da "multidão anónima, individual", cada vez mais fechada em si mesma.
Beijinhos.

JPD disse...

Olá Graça!

Belo conributo para um ensaio sobre a cidade.

Desde a Polis grega até às Cidades Invisíveis de Calvino, mais recentemente, com a globalização, o relevo das cidades não foi alterado no quotidiano dos seus habitantes mas ter-se-á transformado.
Em consequência as cumplicidades evoluem com a manipulação do silêncio que relatas.
Bjs

d'Angelo disse...

Retorno à beleza irresistível desse poema. Imaginário ou real, ou ainda amálgama de ambos, este cenário nasce na península ibérica e faz eco na pequena cidade onde moro em outro continente. A orfandade e o labirinto descritos, mais os pés errantes, tudo traduzido de forma tão intimista e tão universal.

Eliana Mara disse...

Gosto demais da leveza condensada, desta tua prosa poética.
Gosto da afinidade que encontro da tua escrita com a minha.


Beijo!