29.9.08

Memórias de Dulcineia VII

Goya

Quero que me devolvam o meu riso.
Inocente ou perverso, pertence-me.
Ouço-o, ainda, pela infância
fora quando ecoa na remota
memória da alegria.
Ouço-o na hora
de desocultar segredos,
golpeando palavras
ou inesperados silêncios.
Ouço-o, mesmo sabendo
que já não é possível
forjar, na voz, o breve instante
que vai do espanto
à original pureza do olhar.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

41 comentários:

dona tela disse...

Uma semana muito fixe para si.

Teresa Durães disse...

quando a vida nos sorri

d'Angelo disse...

Um clamor delicado por um riso que não se perdeu, que está presente em quem acaricia palavras, golpeando sim nossos corações com átimos da mais linda poesia.

DE-PROPOSITO disse...

Quero que me devolvam o meu riso.
----------
Há coisas, que quando se perdem, difícilmente voltam. É o caso de se perder a vontade de sorrir. Mesmo que se volte a sorrir, já não será um sorrir.
Fica bem. E a felicidade por aí.
Manuel

hfm disse...

Cada dia esse olhar é mais interior, aquele interior que construtivo, aquele interior que interessa. Um final soberbo.

partilha de silêncios disse...

Lindo!
Remete-nos para a memória do tempo em que o sorriso indicava que o olhar tinha encontrado, aquilo que o coração procurava.
Obrigada

Um beijinho

São disse...

Sim, temos direito ao riso, à alegria!
Sabes que apreciei muito o filme"Os Fantasmas de Goya" e que um dos meus quadros preferidos é dele?
Feliz semana, menina.

João Videira Santos disse...

Gosto!
...E gosto, sobretudo, da frase que "fotografa" o momento. Ei-la:

"...Ouço-o, mesmo sabendo
que já não é possível
forjar, na voz, o breve instante
que vai do espanto
à original pureza do olhar."

Belissima imagem poética! Parabéns!

isabel mendes ferreira disse...

vou dizer um segredo:




(olhar puro? O SEU. definitivamnete.)



______________bjjo. Graça.

Luis Eme disse...

está devolvido...

abraço Graça

JPD disse...

É verdade, Graça.
À medida que vai avançando a nossa idade até parece que o inibidor do riso, do sorriso até, se sobrepõe, como se de uma derradeira melancolia nos fosse impossível livrar.
Excelente poema.
Bjs

JRL disse...

Gostei de te ler, neste teu olhar. Sabes quem aprecia muito Goya? Um escritor de quem gosto. Carlos Vaz. Espreita o blogue dele: "textualino". Um bj

Paula Raposo disse...

O riso. Que podemos devolver a nós próprios quando parece que não...muitos beijos.

Mïr disse...

Remota memória da alegria.

Eduardo Aleixo disse...

ouves o riso. è sinal que ainda não o perdeste. que o vais visitar. que o vais recuperar. ele está vivo. apenas ficou calado para dar lugar ao que a vida nos vai trazendo: dor e mágoas. mas tudo faz parte. depois o riso vem.é com as ondas do mar. é isso o que a vida nos vai ensinando.mas,sim: que o riso venha.há lá coisa mais linda?

Bj.

EA

CNS disse...

Belo. O poema do teu sorriso.

um beijo

Véu de Maya disse...

a lágrima e o riso...o retorno à eterna criança...esse jogo de sensações vem perfumado no seu lindo poema...

abraço

teresa p. disse...

"Quero que me devolvam o meu riso", nem que seja para rir de mim mesma...
Excelente poema, como todos os que escreves.
Beijo

Sophiamar disse...

Que te devolvam o teu sorriso. Mais um bonito poema.

Beijinhos

Benó disse...

O riso puro da infancia ainda chega aos meus ouvidos.Rir é bom mas há momentos em que, até nem um sorriso,a nossa boca é capaz de mostrar.
Um grande abraço.

soledade disse...

"o breve instante /que vai do espanto
/à original pureza do olhar"

Tão bonito, Graça! Lembrei-me de um poema de Char, um daqueles aforismos incríveis, acerca de "rir maravilhosamente". É algo que só a extrema inocência ou a entrega total consentem.
Um beijo, uma boa noite

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Nunca deveríamos perder o riso, a alegria, a luz da vida. São nossos pertences de jornada.
Lindo poema, lindas palavras.
beijo no coração

isabel mendes ferreira disse...

com o tempo possível hei de ser "o olhar"....
:)



Obrigada G. Muito.

Licínia Quitério disse...

"o breve instante que vai do espanto à original pureza do olhar"
- é assim que tem de ser dito. E foste tu que o disseste.

Um grande abraço.

instantes e momentos disse...

maravilhoso blog, parabens muito bom.
Maurizio

heretico disse...

cativante sorriso o que permanece no eco...

beijos

Ailime disse...

Muito belo, intenso, este poema!
O sorriso, esse estará sempre presente, mesmo "quando ecoa na remota memória da alegria"
Simplesmente, lindo...
Beijinhos.

mariah disse...

tocante.

Beijo,
mariah

http://cinzasdecarvalho.zip.net disse...

Se não te devolverem o teu sorriso, toma-o de volta. Se não for possível tomá-lo de volta, cria outro, inocente ou perverso, ou com qualquer outro adjetivo.
As "memórias de Dulcineia" são muito interessantes. Adoro lê-las.
Beijo grande.
Ah! Te falei que tenho material belíssimo aqui? Que recebi de presente livros especiais? de autoria de alguém muito especial? (riso - o meu, não perverso, mas tomado de volta ou recriado).
Outro beijo.
Bárbara Carvalho.

O Profeta disse...

Contigo a cultura é ar que se respira...


Doce beijo

Parapeito disse...

...Eu acredito na força...na magia de um sorriso...
Não quero sequer pensar que algum dia possa deixar de sorrir...

Que tambem tu continues a sorrir***

doisolhinhos disse...

Não esperes que te devolvam o teu riso.
Não foste tu que o perdeste, foi ele que se escondeu.
Brinca às escondidas contigo...
1...2...3... 20... e lá vou eu ao seu encontro... porque ele ainda existe!

Beijo, poetiza.

Rosa Brava disse...

E no sorriso
se descreve
a doçura do teu
sentir...

Um abraço carinhoso e continuação de boa semana ;)

maré disse...

e inesperados silêncios

margens de mar

dedos de sal

vindos do longe...

beijo, Graça

maré

maria carvalhosa disse...

Já publiquei no Multiply, Graça. Agora, já sabes, aproveitei a tua autorização, que entendo sem limite temporal e, como já lá tens um público fiel... há que alimentá-lo!

Beijos, querida amiga.

maria m. disse...

lamento pela perda (ou distância)do riso (ou da inocência) da infância. muito bomito.
um beijo, Graça.

VFS disse...

nada é como no início. tudo evolui!
tudo se desfaz na ausência dos ventos.

daí as lágrimas em papel,
os traços incertos em suspiros.

fica o ensejo de recriar o ser,
do reflexo tangível de outrora.

Obrigado.

pin gente disse...

tenta, nunca se sabe quando a garagalhada dispara no maior dos sorrisos.

um beijo

maría nefeli disse...

Sempre que não tenho palavras é porque amo-las...é um poema que senti muito perto de mim. Chegou devagar, para ficar sempre, com delicadeza...
um encontro belo com a tua poesia...
um beijo

leitor atento disse...

Não aconselho a "cinzas de carvalho" o uso da "burka", pois com o clima tropical do Brasil,seria uma tortura.

Li o poema e é óbvio que a sua simbologia escatológica, como alguém muito bem disse, nada tem da politiqueirice, compêndio de História ou jornalismo que a sua leitura redutora lhe quis imprimir.

"A Torre" ou "Casa de Deus" é uma carta (um arcano maior) do baralho de Tarot. ARCANO se intitula o poema, onde também ressoa duma maneira engenhosa o mito de Babel.

Aliás, o livro, que conheço, de onde é extraído o poema, tem muitos outros, de desapego e desconstrução do conceito de manhã. Daí o seu título que nada tem a ver com leituras políticas simplistas e apressadas.

luís nunes disse...

lindo de tão triste. abraço Graça.