10.11.08

Memórias de Dulcineia IX

Darlene Shiels


Há crisântemos
ao longo das estradas.
Um chão orvalhado
rebenta-me nos olhos.
Eu sei: não há lembrança
que o tempo não apague,
nem dor que a morte não consuma.

Por isso, vai perdendo sentido
a distância que me separa
de todas as esperas.
É mais nítido, agora,
o silêncio que me envolve.
Como se a morte
(ou apenas o pressentimento dela)
viesse, de mansinho, ao meu encontro.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

35 comentários:

Paula Raposo disse...

Doce e triste ao mesmo tempo...gosto. Beijos.

Mié disse...

O tempo é um manto branco para a dor e esquecimento

leva a dor mas deixa o vazio no seu lugar

________morte ou serenidade?


um beijo

terno enorme

hfm disse...

Do silêncio que nos confronta.

Pedro Arunca disse...

Há flores e palavras para todas as etapas da vida. Que nunca o poeta se cale.

Bj
PA

Benó disse...

Gostei de ler este poema próprio a esta altura do ano.

Abraços.

Véu de Maya disse...

Comovente... Graça!

abraços

Regina disse...

Sim, comovente e muito belo...

bjnhos

Mésmero disse...

nem dor que a morte não consuma... Graças a Deus!

soledade disse...

Escutar o poema, tanto quanto lê-lo, à procura dessa cama do ritmo onde as palavras se deitam, como escreveu Eugénio de Andrade. É curioso, os versos são curtos, mas a toada é lenta. Tudo no poema se inclina ao fim. "De mansinho".
Um beijo, Graça

hora tardia disse...

tão nítido. Para mim.


tão belo.



que o tempo irá ressalvar.



sempre!



curvo-me.

viernes disse...

"por isso vai perdendo sentido a distância que me separa de todas as esperas"... versos muito certos... parabéns! Antonio Jiménez Millán é um poeta de Granada, junto a Luis García Montero, Álvaro Salvador e Javier Egea iniciu un movimento poético em Espanha conhecido como "A otra sentimentalidade", tem alguma semelhança com poetas portuguesses como o Jorge de Sena, o José Agostinho Baptista, o Fernando Pinto do Amaral, Rui Pires Cabral... Também com alguns poemas teus no que concerta ao tratamento da intimidade do sujeto poético...
http://artespoeticas.librodenotas.com/artes/812/la-otra-sentimentalidad-1983
Um abraço

maré disse...

no último silêncio

um prelúdio
de espera
pressente-se
.
.
.
a finitude.

_____
melancolicamente belo...
BELO.

um beijo, orvalhado.

maré

JPD disse...

Olá Graça

Em «A VIDA ETERNA», Fernando Savater, no capítulo «Autópsia da Imortalidade» Pg60/61, escreve:

«(...) O silogismo fundador da lógica da nossa existência não é o tão repetido «Todos os homens são mortais/ Sócrates é homem/ Logo Sócrtaes é mortal» mas sim, como bem sabemos, este outro: «Todos os homens morrem/ eu sou homem/logo eu devo morrer»

A seguir acrescenta:
«Outros homens morreram, mas foi no passado/ que é uma época propícia para a morte...» disse Jorge Luis Borges no começo de um breve e notável poema apócrifo. «Será possível que eu súbdito de Yacub Almansur, morra também/ como morreram as rosas e Aristóteles?»

Posto tudo isto, acrescento apenas que o teu poema é excelente e que fará parte da condição humana encarar com dificuldade a morte.
Insconscientemente ansiamos por uma certa imortaldade (glosando Freud)
Bjs

Eduardo Aleixo disse...

Este poema é para mim muito bom se por espera entenderes com naturalidade que a morte naturalmente nos espera e nós naturalmente a esperamos como coisa natural. É assim que eu a vejo, como berço e foz da vida.
Beijo.
Eduardo

Luis Eme disse...

bate na madeira, Graça.

dizem que ela foge a sete pés...

abraço

Maria Clarinda disse...

Lindo...e, como a Paula diz triste ao mesmo tempo.
Adorei.
Jinhos mil

Teresa Durães disse...

as memórias podem ser violentas mas abafadas pelo tempo imperdoável

maría nefeli disse...

Fiquei sem palavras...

Um beijo

partilha de silêncios disse...

Encarada com serenidade... é um simples deslizar, um recolher de asas. É assim que quero ver a morte quando espreitar por entre os crisântemos da vida.

Gostei muito do poema.

Um beijo

Márcia disse...

Essa "a distância que me separa/
de todas as esperas." é bela. Melancolicamente bela.

Um beijo daqui.

CNS disse...

Belíssimo compasso de tempo.

um beijo

© Piedade Araújo Sol disse...

comovente e cheio de sentido.

mais um belo poema que nos dá a partilhar.

obrigada!

beij

d'Angelo disse...

Tocante e bela maneira de narrar(e atirar em nossos olhos) a fugacidade da vida e nossos confrontos com o passar dos anos.

Bandida disse...

belíssimo poema, graça.

há crisântemos sim.




beijo

Mar Arável disse...

Da morte estamos todos perto


se houvesse morte

ou princípio

teresa p. disse...

"...vai perdendo sentido
a distância que me separa
de todas as esperas".
Muito verdadeiro este sentimento, e linda e emocionante a forma como o escreves.
Beijo.

Paulo disse...

Terno... como tudo o que leio de ti.

isabel mendes ferreira disse...

beijo. muito muito grato.

heretico disse...

..."vai perdendo sentido
a distância que me separa
de todas as esperas".

e apesar alimentamos a esperança. sempre.

belíssimo.

beijos

Ailime disse...

Lindo poema, em que parece emergir a realidade que a todos nós afluirá!

Até lá que os caminhos sejam muito longos e alegremente cercados de bonitas flores.

Beijo em tons de verde esperança!

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Eu adoro esse poema!
Ele é tão poeticamente doce e melancólico, com imagens únicas.
Lindo, Graça!

batista disse...

há lembrança que se apaga rapidamente. há lembrança que o tempo, como uma única semente de milho, transforma em espigas... quanto à dor... bem, quanto à dor, por vezes se transforma numa canção que resiste ao tempo, fazendo com que aqueles(as) que a ouçam a sintam d’um modo todo especial.

no teu sentir, aqui retratado, como uma lágrima. mas mesmo as lágrimas podem se transmutar.

deixo um abraço fraterno.

LM,paris disse...

A nossa morte serà um espaço mais alargado para um corpo que nos deixa e que fica, estragando-se.
O seu poema é triste, escrever sobre o orvalho que rebenta nos olhos, que lindo, furor e silêncio, serà que esqueçemos mesmo?
beijos,
adoro os seus poemas Graça, necessito-os!!!!lidia
LM

http://cinzasdecarvalho.zip.net disse...

Uma aula de semântica! Sabe que os crisântemos têm inúmeras variações e duas delas, ao que me lembro, são as: despedidas-de-verão e as saudades-de-inverno? E que a acepção metafórica do orvalho relaciona-se com o estado de quem se desabafou, livrou-se de opressões? Alívio, lenitivo, refrigério? Claro que sabe! Esculpiu no poema! A efemeridade das esperas. O desencantamento. O silêncio mórbido resignado da espera sem esperança. A metáfora da morte como conseqüência natural da vida. E para que tudo vive se tudo irá morrer? A perda do sentido das coisas, diante da efemeridade da própria vida. Mas tomo-a por otimista. O tempo não apaga lembrança nenhuma: desbota-as e a morte não consuma qualquer dor: elas nos acompanham o espírito se não modificarmos a atitude mental.
Outra pérola saída da sua pena.
Beijo no coração, com despedidas-de-verão e saudades-de-inverno.
Bárbara Carvalho.

Parapeito disse...

que palavras tao intensas...tao cheias afinal de vida ******