25.9.08

À míngua de um abraço

Henri Cartier-Bresson

Como por aqui se afirma os rouxinóis saltitam
de árvore em árvore com medo da morte
dissimulada nos ramos das figueiras mais estéreis.
Persigno-me ajoelhada no restolho entretecido
pela meia-luz do poente.
A fonte que me atravessa a boca
confina, agora, com a mágoa das mulheres
que, à míngua de um abraço, envelheceram.


Graça Pires
De Quando as estevas entaram no poema, 2005

37 comentários:

d'Angelo disse...

Os simulacros da morte, o ocaso, nós diante da vida e do tempo. Resta-nos somente a genuflexão ante este canto de rouxinol que é a sua poesia, Graça.

Eduardo Aleixo disse...

A identificação da figueira com uma espécie de maldição é signo presente na tradição. Os rouxinóis, esses, como sabem cantar, cantam, exorcizando a morte. Uma mulher reza ajoelhada nos restolhos. Os próprios restolhos, que são o que fica, após a colheita, significam aqui a solidão, o desamparo, o que restou...O sol, no poente, está a condizer. É um poema triste e direi de pinceçladas trágicas.Trágicas as mulheres confrontadas com a sua condição de verem o tempo ter passado sobre a idade fértil. A paisagem podia ser no Alentejo. Ou na Grécia do Zorba.Belo. Muito belo. Um beijo

EA

Teresa Durães disse...

o tempo da solidão

O Profeta disse...

Tu és escritora...e das boas...


Doce beijo

© Piedade Araújo Sol disse...

é sempre com grande prazer que te leio.

acho que aprendo sempre algo contigo.

fica um beijo

maria carvalhosa disse...

Dizes tanto em tão poucas (e lindas) palavras, Graça.
Absolutamente belo e comovente!
Associei este teu poema a certas pinturas da Graça Morais, de quem também gosto muito.
Beijos, amiga-

hfm disse...

solidão, solitário, só.

Sophiamar disse...

Tens magia nas palavras. Isso é ser poeta. Gosto de te ler.

Beijinhos

JPD disse...

O inexorável "voo" do tempo que, não alterando as contigências do quotidiano, sublinha a evolução das mesmas.

Escreves muito boa poesia.
Bj

Victor Oliveira Mateus disse...

Num lado os rouxinóis, no outro o
medo da morte e a esterilidade das
ávores... entre os dois pontos
as mulheres que envelhecem, ou seja, que passam do canto (como o rouxinol)para a mais absoluta esterilidade (a morte). Excelente poema! Muito bem conseguido, como é hábito!
Um beijo, Graça.

isabel mendes ferreira disse...

Bom dia Graça....por um abraço dava um salto....


________________. por este abraço salto os dias.


ressalvo.Os.


sempre a admirar a sua ESCRITA!

Luís disse...

é verdade...

envelhece-se assim, com e sem poesia...

abraço Graça

(luis eme)

Benó disse...

Como um rouxinol saltitão desejo um óptimo fim de semana vendo as árvores se despirem.

Um abraço.

teresa p. disse...

"À míngua de um abraço".
Os rouxinóis e a luz do poente, sabem do longo tempo da espera, da mágoa e da solidão...
Poema muito belo!

soledade disse...

Não é um poema macio, tudo nele se inclina ao fim e à amargura do que se deixou por fazer e em balanço final se revela demasiado central na vida para ter sido adiado.
A fotografia ilustra o poema com mão de mestre, o rosto das mulheres desfigurado pela maquilhagem e por uma espécie de avidez, o enquadramento, o preto e branco de Cartier-Bresson... Uma entrada excelente, Graça. E também gostei muito de ler alguns dos comentários aqui publicados.
UM beijo e um bom fim-de-semana

doisolhinhos disse...

... solidão... o ser só... o estar só... ser ou estar...

... mas os abraços são como as nascentes - desiguais - há sempre alguém que nos abraça... há sempre alguém que abraçamos.

Rith@ disse...

É um prazer ter acesso às suas belas palavras, dona Graça, e um orgulho saber que lê as minhas.

Obrigada pelo apoio, e pelos agradáveis dois dedos de conversa que tivemos oportunidade de trocar (experiência que espero repetir).

Beijinhos, e parabéns pelo dom da escrita.

maré disse...

envelhecem as mulheres
à mingua no restolho que ficou.

cinzas/ tempo


toda a velhice futura

um beijo.

maré

maría nefeli disse...

Graça,obrigada pelas tuas palavras. É verdade que o José é uma grande pessoa e um grande poeta. Eu agora estou mais perto de Portugal e da sua poesia do que antes. Vou ler o teu blog, acho vou encontrar um lugar muito habitável...
um beijo

isabel mendes ferreira disse...

Graça...tão bom re.encontrá-la....



mas tão bom mesmo!!!!!




________________dois beijos. o outro é para uma Pessoa que tb gostei muito de conhecer.


Obrigada Graça.

Marinha de Allegue disse...

As imaxes do mestre, tenhen a capacidade de conmoverme e as túas palabras complementan...

Unha aperta.
:)

LM,paris disse...

Querida Graça,
é lindo até às làgrimas.
Beijos carinhosos,
merci,
LM, Paris

Véu de Maya disse...

Um estado de alma pesado numa poesia leve....com a pureza que a fortalece.

BFS
abraço

isabel mendes ferreira disse...

há dias Querida G. em que as suas palavras me "afundam" na generosa e doce compreensão dos afectos que se estabelecem para lá da "estrada".


abraço muito muito especial.

Sophiamar disse...

Vim deixar-te um beijinho e um abraço.

Bem hajas, amiga!

Ailime disse...

Grande poema onde ressalta a evidência do nosso entardecer...
Um beijo grande.

São disse...

Como sempre, um poema muito tocante.
Boa semana, linda.

João Norte disse...

Não foram só mulheres que envelheceram assim, foram também muitos homens que, pela estúpida educação que nos deram, têm vergonha de o confessar.

AnaMar disse...

Deixo um abraço, para que não envelheça.
E porque as suas palavras são demasiado valiosas e marcam quem as lê. Sentidas.

Mar Arável disse...

São mimos

os sonhos

dos jovens experientes

Belo

Assis de Mello disse...

Eis aqui um baú de jade repleto de ouro poético. Belíssimo blog. Arte de primeira. Estou te linkando ao meu.
Beijo, Graça !!

heretico disse...

..."a mágoa das mulheres... à mingua de um abraço". doem-(me) as "Mulheres de Atenas". assim tão sofridas.

... e no entanto tão "esperançosas"! por isso rezam.

muito belo

ivone disse...

é. as mínguas dos abraços envelhecem_nos. e de que maneira.

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Graça, tu entendes tão bem a alma feminina e a consagra divinamente em metáforas. Sempre perplexa com a tua poesia, sempre.
Sou muito feliz que tu existas para dar-me o prazer de te ler.
beijo grande

maria m. disse...

imagens de medo, solidão e proximidade de morte, neste teu belo poema.

um beijo, Graça.

Paula Raposo disse...

Lindíssimas as tuas palavras! Um abraço que nos faz tanta falta!! Beijos.

Parapeito disse...

Ninguem devia nunca de envelhecer...com falta de abraços.

Gostei muito Graça****