Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
6.6.08
2.6.08
O mar

Sem hora marcada,
os navios passam ao largo das ondas.
Nenhum mar existe sem a silhueta dos mastros,
para chorar os peixes verdes em extinção.
De tão ausentes, as naus esqueceram
o orgasmo das marés
e permanecem, exaustas,
na memória das conchas.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
28.5.08
Os aloendros
Manuel Fazenda Lourenço
Falta, ainda, dimensionar o canteiro
de rosas brancas, frente à porta,
para que se conte, do amor, outros segredos.
Não tenho pressa. Vou abrir as portadas
de madeira, fazer compotas, ajeitar
a dobra do lençol. E deixar alagar,
em tuas águas, os aloendros
que crescem nos meus braços.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
de rosas brancas, frente à porta,
para que se conte, do amor, outros segredos.
Não tenho pressa. Vou abrir as portadas
de madeira, fazer compotas, ajeitar
a dobra do lençol. E deixar alagar,
em tuas águas, os aloendros
que crescem nos meus braços.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
23.5.08
Escrevo rio

Somente a minha sombra
atravessou comigo
o brilho das manhãs
cativas do meu próprio espanto.
Em meus lábios,
tão repousados de beijos,
ocultei a sede
e nenhum horizonte
me apontou um rumor
de nascente.
Por isso, hoje,
escrevo rio
e um estuário
nasce-me nos olhos:
curso de água
à beira do verão.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
18.5.08
Em seara alheia

Debaixo do sigilo
o teu cabelo chove nas minhas mãos. e não vens
ainda sobre a terra. sabes a tempo imóvel e rios
sustenidos. dizes a paisagem como os anjos. as
palavras escorrem da boca uma das outras. e eu
escrevo a tarde que não cai. inscrevo na morte a
nossa eternidade. espero à noite ser uma mulher
por dentro de um homem. um pássaro ancorado
na aorta de deus. que o nervo da morte repugna.
Alice Macedo Campos
In: O ciclo menstrual da noite. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008
o teu cabelo chove nas minhas mãos. e não vens
ainda sobre a terra. sabes a tempo imóvel e rios
sustenidos. dizes a paisagem como os anjos. as
palavras escorrem da boca uma das outras. e eu
escrevo a tarde que não cai. inscrevo na morte a
nossa eternidade. espero à noite ser uma mulher
por dentro de um homem. um pássaro ancorado
na aorta de deus. que o nervo da morte repugna.
Alice Macedo Campos
In: O ciclo menstrual da noite. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008
15.5.08
Foram embora os pássaros

Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
11.5.08
A suspeita de um poema
Acordei com a suspeita de um poema
a pontuar a manhã.
Quantas vezes a palavra se demora,
e dói, e deixa na voz uma rara ansiedade.
Sei, agora, que esta imensa luz
passa no meu rosto, inesperadamente,
quando deixo que a noite cresça
por dentro do meu corpo,
a pontuar a manhã.
Quantas vezes a palavra se demora,
e dói, e deixa na voz uma rara ansiedade.
Sei, agora, que esta imensa luz
passa no meu rosto, inesperadamente,
quando deixo que a noite cresça
por dentro do meu corpo,
como se fora fogo posto.
Graça Pires
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
7.5.08
Como se viesse o anjo
Leonardo da Vinci
Fecho-me no quarto.
Há demasiada luz
espalhada nas paredes
como se viesse o anjo
que anuncia a extinção
das sombras.
De meus lábios,
interditos a preces,
sai uma canção antiga,
um chamamento
à flor da boca.
Um fulgor suspenso
de meus olhos
tece, sem limites,
o tempo da infância.
Como se me perseguisse
um sonho intacto.
Graça Pires
Há demasiada luz
espalhada nas paredes
como se viesse o anjo
que anuncia a extinção
das sombras.
De meus lábios,
interditos a preces,
sai uma canção antiga,
um chamamento
à flor da boca.
Um fulgor suspenso
de meus olhos
tece, sem limites,
o tempo da infância.
Como se me perseguisse
um sonho intacto.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
4.5.08
Todas as mães do mundo
Ansel Adams
Em direcção a um inequívoco conforto,
corro pelos sulcos dos olhos da minha mãe:
planície imensa onde rebolo a infância
e deixo fugir os sonhos enrodilhados na esperança.
A minha mãe: lua cheia de aconchego, rio quente
A minha mãe: lua cheia de aconchego, rio quente
onde posso albergar o pânico de ter crescido.
Transponho para o coração um tempo mítico,
como uma história de muitos séculos,
perturbadoramente gémea de um futuro
protegido por todas as mães do mundo.
Graça Pires
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
1.5.08
Há noites

Há noites em que morremos de tristeza,
à espera que uma estrela nos rebente no olhar.
Depois, pela manhã, amontoam-se-nos, na boca,
gritos de combate, como se tivéssemos, no colo,
uma criança correndo perigo.
Graça Pires
à espera que uma estrela nos rebente no olhar.
Depois, pela manhã, amontoam-se-nos, na boca,
gritos de combate, como se tivéssemos, no colo,
uma criança correndo perigo.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
27.4.08
Lembras-te?
Ruth BurkeSe eu viesse do mar, falaria do vento,
do sol inclinado para o sul,
ou da sombra azulada das gaivotas.
E diria: o teu corpo é um mastro
afundado em minhas águas.
Mas, retenho nas palavras
o lugar da vertigem.
E recordo. E recordando digo:
Foi no princípio do mundo.
De seda se vestiam minhas ancas
De aconchego se tomavam nossas mãos.
Lembras-te?
Graça Pires
De Afectos: amor, 2008
23.4.08
LIBERDADE
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
25 de Abril de 1974
Sophia

Conquista
Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
Miguel Torga
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
25 de Abril de 1974
Sophia

Conquista
Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
Miguel Torga
20.4.08
Refaço a espera
Degas
Veio, devagar, um pássaro
sobrevoar minhas mãos
tão adiadas das tuas.
Refaço a espera.
Digo o teu nome para que voltes.
Foi secreto e breve o nosso encontro.
Nenhum registo o mencionou.
Vieste, lembro,
como quem vem por uma noite:
ansioso e clandestino
Esqueci já o lugar.
Não o brilho dos teus olhos.
Uma sensata loucura
me tornou cúmplice
dessa paixão quase marginal.
Nunca se viu uma história
onde se ache um cavaleiro andante
sem amores, disseste,
como quem justifica
o paradoxo de um amor assim.
Graça Pires
sobrevoar minhas mãos
tão adiadas das tuas.
Refaço a espera.
Digo o teu nome para que voltes.
Foi secreto e breve o nosso encontro.
Nenhum registo o mencionou.
Vieste, lembro,
como quem vem por uma noite:
ansioso e clandestino
Esqueci já o lugar.
Não o brilho dos teus olhos.
Uma sensata loucura
me tornou cúmplice
dessa paixão quase marginal.
Nunca se viu uma história
onde se ache um cavaleiro andante
sem amores, disseste,
como quem justifica
o paradoxo de um amor assim.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
14.4.08
Convite

Gostava que estivessem presentes
todas as minhas amigas e todos os meus amigos.
Como se fosse a véspera de morrer,
segurei na boca o mais primitivo
silêncio e pus-me em fuga.
Com as mãos cativas
de um amor antigo
toquei, demoradamente,
todas as árvores
que tinham gravadas no tronco
indeléveis palavras: chorou aqui
Dom Quixote ausências de Dulcineia.
Então risquei, na pedra,
para que se visse,
um enorme moinho de vento.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
segurei na boca o mais primitivo
silêncio e pus-me em fuga.
Com as mãos cativas
de um amor antigo
toquei, demoradamente,
todas as árvores
que tinham gravadas no tronco
indeléveis palavras: chorou aqui
Dom Quixote ausências de Dulcineia.
Então risquei, na pedra,
para que se visse,
um enorme moinho de vento.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
10.4.08
Em seara alheia
Busco em cada estrela o fogo capaz
de acalentar os meus olhos mais antigos.
Foi sempre a fome, companheira peregrina,
que me impeliu a seguir os roteiros da lua,
as ondas dos Oceanos, os acordes desse
sopro indelével: a vida. Fiz da solidão minha
nudez mais pura, o meu pão, a minha sede,
e da ausência a ressecar-me os olhos,
os caminhos todos do mundo. Renasço
no fulgor de cada estrela e, no fogo,
desfaço as cinzas do meu ser minguante:
fagulha a incandescer-me no universo inteiro.
Alexandre Bonafim
In: A outra margem do tempo. São Paulo, 2008
de acalentar os meus olhos mais antigos.
Foi sempre a fome, companheira peregrina,
que me impeliu a seguir os roteiros da lua,
as ondas dos Oceanos, os acordes desse
sopro indelével: a vida. Fiz da solidão minha
nudez mais pura, o meu pão, a minha sede,
e da ausência a ressecar-me os olhos,
os caminhos todos do mundo. Renasço
no fulgor de cada estrela e, no fogo,
desfaço as cinzas do meu ser minguante:
fagulha a incandescer-me no universo inteiro.
Alexandre Bonafim
In: A outra margem do tempo. São Paulo, 2008
5.4.08
Alentejo
Quando as estevas entraram no poema,
souberam, os nossos filhos, que a brancura
das casas se mantém, eternamente, no olhar
de quem se comove com a luz de cada madrugada.
Graça Pires
souberam, os nossos filhos, que a brancura
das casas se mantém, eternamente, no olhar
de quem se comove com a luz de cada madrugada.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
1.4.08
A melancolia deste instante
Edouard Boubat
Sinto, poro a poro, a alucinação
vegetal da terra, tecendo os seixos
cativos do orvalho, ou lambendo os mastros
por onde passa o vento norte.
Sei que, as mãos férteis das nascentes,
derramam, entre as pedras, um mel diluído,
na secreta explosão da haste dos salgueiros.
Deixem-me dizer palavras sem sentido,
até esquecer o nome,
pelo qual regressei ao tempo das seduções.
Nenhum culto me absolve do detalhe
Sei que, as mãos férteis das nascentes,
derramam, entre as pedras, um mel diluído,
na secreta explosão da haste dos salgueiros.
Deixem-me dizer palavras sem sentido,
até esquecer o nome,
pelo qual regressei ao tempo das seduções.
Nenhum culto me absolve do detalhe
em que comecei a preparar
a melancolia deste instante?
Graça Pires
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
28.3.08
História de amor
Michele Lamontagne
Era primavera em todas as montanhas
tecidas de lilás
e o luar escorria pelas casas,
decifrando alegorias e monólogos.
Ao findar da tade, havia já
no olhar de toda a gente
um itinerário definitivo
de sensações breves e paradoxais.
Das mãos das mulheres
saíam cavalos de barro
com fios invisíveis,
que suspendiam todas as perversões,
e os limos perfumavam a bruma
como um símbolo imortal.
Foi então que, no meio da noite,
um adolescente iniciou,
perturbado e lento,
todos os cambiantes do seu corpo nú,
até à ruptura líquida dos desejos.
E todas as mulheres
o adoptaram como filho.
Graça Pires
tecidas de lilás
e o luar escorria pelas casas,
decifrando alegorias e monólogos.
Ao findar da tade, havia já
no olhar de toda a gente
um itinerário definitivo
de sensações breves e paradoxais.
Das mãos das mulheres
saíam cavalos de barro
com fios invisíveis,
que suspendiam todas as perversões,
e os limos perfumavam a bruma
como um símbolo imortal.
Foi então que, no meio da noite,
um adolescente iniciou,
perturbado e lento,
todos os cambiantes do seu corpo nú,
até à ruptura líquida dos desejos.
E todas as mulheres
o adoptaram como filho.
Graça Pires
De Poemas, 1990
24.3.08
Certos pressentimentos
Alain Jenkins
Os últimos nós do silêncio,
nos cantos da boca gritam
que há lugares onde se cobre de lodo
o destino dos homens e se rasgam,
em dolorosos pedaços,
os sonhos fraternos.
Envelhecem, em meus dedos
certos pressentimentos.
Digo e desdigo a tristeza.
Frente a frente com o texto,
incluo-me na desmedida
demência das palavras.
Graça Pires
nos cantos da boca gritam
que há lugares onde se cobre de lodo
o destino dos homens e se rasgam,
em dolorosos pedaços,
os sonhos fraternos.
Envelhecem, em meus dedos
certos pressentimentos.
Digo e desdigo a tristeza.
Frente a frente com o texto,
incluo-me na desmedida
demência das palavras.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
20.3.08
O poeta

Contemporâneo dos deuses é o poeta.
Os seus templos têm abóbadas
de silêncio e nostalgia.
Os seus ritos roçam a magia,
a raiva, o exorcismo.
O seu tempo tem a rotação das dunas
no litoral do fogo.
Há multidões partilhando
o ágape fraterno dos seus versos.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
17.3.08
No mês de Março
Menez
Estávamos no mês de março.
Na caixa do correio, encontrei um postal
ilustrado : Menez (guache s/papel).
Era teu. E, entre outras coisas
que guardei para mim, dizia:
Gosto de ti quando sorris ao meu embaraço
de tanto te gostar. Gosto de ti
mesmo quando estás longe, no alvoroço
de te ter perto. Gosto de ti,
mesmo quando não parece
e sempre mais do que parece.Que noite morna me nasceu,
então, no corpo como se fosse estio?
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
Na caixa do correio, encontrei um postal
ilustrado : Menez (guache s/papel).
Era teu. E, entre outras coisas
que guardei para mim, dizia:
Gosto de ti quando sorris ao meu embaraço
de tanto te gostar. Gosto de ti
mesmo quando estás longe, no alvoroço
de te ter perto. Gosto de ti,
mesmo quando não parece
e sempre mais do que parece.Que noite morna me nasceu,
então, no corpo como se fosse estio?
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
13.3.08
Todos os contrastes
Cleri BiottoColoco, ao alcance dos lábios, todas as convicções
e desdobro as palavras sobre a noite.
Regresso à caligrafia indomável dos poemas,
para fixar as imagens que se adivinham
nas entrelinhas daquilo que acontece sem aviso.
Depois, deixo, no coração, à deriva, todos os enredos
que se revezam: inevitáveis, aleatórios, urgentes.
E, na minha mão direita, onde as veias engrossaram
como rios, circulam, agora, todos os contrastes.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
10.3.08
7.3.08
2.3.08
Um relógio parado
Que ruído me devolveu o insulto
de espelhos quebrados junto à pele?
Na insónia confidente,
um relógio parado marca o caminho do inverno,
onde os poetas começam a morrer.
Aquém do frio paira uma brisa repousada
e uma bandeira branca irrompe da garganta,
esculpindo a rendição da alma.
Graça Pires
de espelhos quebrados junto à pele?
Na insónia confidente,
um relógio parado marca o caminho do inverno,
onde os poetas começam a morrer.
Aquém do frio paira uma brisa repousada
e uma bandeira branca irrompe da garganta,
esculpindo a rendição da alma.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
26.2.08
Em seara alheia

DÁ-ME DE BEBER...
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro.
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga de céu
sem coares as nuvens que passam.
Dora Ferreira da Silva
In: Cartografia do Imaginário. São Paulo, T. A. Queiroz, 2003
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro.
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga de céu
sem coares as nuvens que passam.
Dora Ferreira da Silva
In: Cartografia do Imaginário. São Paulo, T. A. Queiroz, 2003
21.2.08
Regresso à praia húmida
De costas voltadas para a fadiga dos dias,
regresso à praia húmida onde nasço
quantas vezes eu quero,
livre do movimento das sombras
que influenciam o percurso dos meus olhos.
No leme de todos os barcos leio o protesto
No leme de todos os barcos leio o protesto
quotidiano dos que nunca se rendem
às imposições previstas em todas as pátrias,
dos que não aceitam morrer sem saber porquê.
E volto, de repente, à absoluta nudez
das árvores despojadas de pássaros,
onde o vento sopra tão rápido
como um rastilho de fé.
Passam, assim, diante de mim
Passam, assim, diante de mim
contos de fadas, visões,
ou apenas remorsos sem memória.
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
17.2.08
A desordem da noite
Peter Wileman
Quase tudo se articula na sorte
ou na desgraça de resgatar memórias,
como um pretexto rebelde,
marginando os dias.
Quantas vezes sobrepomos as mãos
para chorar amigos, ou aprisionar
a infância, ou dizer, devagar,
palavras intranquilas,
tantas foram as sombras sobre os ombros.
Não inquiram, portanto, com que silêncios
se nomeia a desordem da noite.
Graça Pires
ou na desgraça de resgatar memórias,
como um pretexto rebelde,
marginando os dias.
Quantas vezes sobrepomos as mãos
para chorar amigos, ou aprisionar
a infância, ou dizer, devagar,
palavras intranquilas,
tantas foram as sombras sobre os ombros.
Não inquiram, portanto, com que silêncios
se nomeia a desordem da noite.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
13.2.08
Enamoramento
Edouard Boubat
Agora, que os teus e os meus olhos
se entrelaçam, em que penas se movem
os meus dedos que, de lentos pássaros,
povoam minhas mãos?
Inquieta-se a minha sombra sobre a tua,
quando o sol da tarde nos anuncia
uma festa partilhada e, dos lábios,
enrodilhados no riso e nos beijos,
desliza um súbito mar, onde quase
se pressente o naufrágio dos corpos,
deslumbrados, já, de tanta água incendiada.
Graça Pires
se entrelaçam, em que penas se movem
os meus dedos que, de lentos pássaros,
povoam minhas mãos?
Inquieta-se a minha sombra sobre a tua,
quando o sol da tarde nos anuncia
uma festa partilhada e, dos lábios,
enrodilhados no riso e nos beijos,
desliza um súbito mar, onde quase
se pressente o naufrágio dos corpos,
deslumbrados, já, de tanta água incendiada.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
9.2.08
Uma amiga
Para a minha irmã
Não sabes se é possível recolher
as últimas estrelas da noite,
para amenizar o peso do silêncio.
Mas, do cume da manhã,
avistas sempre, tu o dizes,
um atalho para a felicidade,
porque as tuas mãos respiram
a irrecusável posse de uma alegria
capaz de multiplicar a voz,
para dizer que, em todos os rostos,
desagua um rio navegável,
onde importa saber ser barco,
ou remo, ou, simplesmente,
o rumor da água corrente.
Ao acaso, repartes o gosto de viver,
sem a lógica de coisa calculada
e sem nunca ficares de fé perdida,
como se usasses o optimismo
em legítima defesa.
Graça Pires
as últimas estrelas da noite,
para amenizar o peso do silêncio.
Mas, do cume da manhã,
avistas sempre, tu o dizes,
um atalho para a felicidade,
porque as tuas mãos respiram
a irrecusável posse de uma alegria
capaz de multiplicar a voz,
para dizer que, em todos os rostos,
desagua um rio navegável,
onde importa saber ser barco,
ou remo, ou, simplesmente,
o rumor da água corrente.
Ao acaso, repartes o gosto de viver,
sem a lógica de coisa calculada
e sem nunca ficares de fé perdida,
como se usasses o optimismo
em legítima defesa.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
Atenção: há mais poemas meus na voz de José-António Moreira em Sons da Escrita
4.2.08
Um palco de tréguas
Um palco de tréguas.
Esgotei as deixas
que sustentavam o diálogo.
Espectador de mim, aplaudo
e pateio as múltiplas representações
dos dramas, das comédias e das farsas,
encenadas na caligrafia do impossível.
Abuso dos monólogos porque uso na voz
a gargantilha alucinada do silêncio.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
29.1.08
Do lado da manhã
Do lado da manhã revi o mar,
trazido no olhar de quem partia.
Erectos, os mastros, desnorteiam
as gaivotas que ostentam uma âncora
pintada nas penas.
Um perigoso vento marítimo
inclina-se sobre a noite caiando, de negro,
a deriva dos búzios.
Os barcos ancorados nos meus braços,
impedem-me de abraçar o mar.
O voo impreciso dos veleiros
torna errante a espuma das conchas.
Mas que mar é este, anterior às dunas,
só conhecido pelos náufragos?
Graça Pires
trazido no olhar de quem partia.
Erectos, os mastros, desnorteiam
as gaivotas que ostentam uma âncora
pintada nas penas.
Um perigoso vento marítimo
inclina-se sobre a noite caiando, de negro,
a deriva dos búzios.
Os barcos ancorados nos meus braços,
impedem-me de abraçar o mar.
O voo impreciso dos veleiros
torna errante a espuma das conchas.
Mas que mar é este, anterior às dunas,
só conhecido pelos náufragos?
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
Atenção: há mais poemas meus na voz de José-António Moreira em Sons da Escrita
25.1.08
Um olhar
Menez
Deslaço o nó da garganta
na orla quase obscena da pressa
com que passo pelos outros.
Demoro o olhar nos sonhos alheios
que nunca foram ditos
e, neles reconheço, um por um,
o esboço dos meus.
Posso endereçar um verso
para estancar o sangue nas mãos
fracturadas de tanta ausência.
Posso repetir um nome fraterno
que levede os afectos.
Posso desfraldar, no peito, as tréguas
de uma vida rente à inquietação.
Posso?
Graça Pires
na orla quase obscena da pressa
com que passo pelos outros.
Demoro o olhar nos sonhos alheios
que nunca foram ditos
e, neles reconheço, um por um,
o esboço dos meus.
Posso endereçar um verso
para estancar o sangue nas mãos
fracturadas de tanta ausência.
Posso repetir um nome fraterno
que levede os afectos.
Posso desfraldar, no peito, as tréguas
de uma vida rente à inquietação.
Posso?
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
Atenção: no blog Sons da Escrita podem ouvir poemas meus num programa feito por José-António Moreira
21.1.08
Chove perto dos olhos
Chove perto dos olhos manchados de errância.
Um dilúvio começa ao largo do desespero.
Pensámos que, de noite, a mendicidade
das mãos passava despercebida.
Partilhámos enigmas e abismos,
procurando uma margem, um horizonte,
ou apenas uma sede
Partilhámos enigmas e abismos,
procurando uma margem, um horizonte,
ou apenas uma sede
tão imediata como as lágrimas.
Porém, a cidade não consente vadios
Porém, a cidade não consente vadios
à porta do futuro.
Por isso nos abrigámos nos indícios
da casa ou do caos.
Hoje não lamentamos a brevidade dos desejos
porque somos personagens
Por isso nos abrigámos nos indícios
da casa ou do caos.
Hoje não lamentamos a brevidade dos desejos
porque somos personagens
de uma parábola em sangue.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
Graça Pires
De Labirintos, 1997
14.1.08
Em seara alheia

Trazíamos ainda nos ouvidos o canto
acre e fausto das cigarras. Vinham com ele,
amarrados, os bois, as noras, os carvalhos,
e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma
poroso dos rododendros. Porque é deles
que falas onde quer que te dispas, e des-
nudes, desprevenido e inteiro. Da moldura
partida e do retrato caído no degrau mais
fundo das escadas. Sim, por mais que
digas, falas sempre das abelhas, do mel
adolescente escorrendo dos favos loucos
da alegria. Da alegria perdida, reencontrada,
perdida entre os escombros e as abjecções
do real, mais falso e verdadeiro que todas
as verdades aprendidas, que todos os
dogmas e doutrinas acumuladas nos
compêndios por onde te ensinaram a
vida.
Albano Martins,
Rodomel rododendro, 1989
In: Assim são as algas. Porto : Campo das Letras, 2000
acre e fausto das cigarras. Vinham com ele,
amarrados, os bois, as noras, os carvalhos,
e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma
poroso dos rododendros. Porque é deles
que falas onde quer que te dispas, e des-
nudes, desprevenido e inteiro. Da moldura
partida e do retrato caído no degrau mais
fundo das escadas. Sim, por mais que
digas, falas sempre das abelhas, do mel
adolescente escorrendo dos favos loucos
da alegria. Da alegria perdida, reencontrada,
perdida entre os escombros e as abjecções
do real, mais falso e verdadeiro que todas
as verdades aprendidas, que todos os
dogmas e doutrinas acumuladas nos
compêndios por onde te ensinaram a
vida.
Albano Martins,
Rodomel rododendro, 1989
In: Assim são as algas. Porto : Campo das Letras, 2000
9.1.08
De noite
De noite, o silêncio não apaga as imagens
sulcadas no olhar.
Um calamento, pressentido pelas fêmeas,
desnorteia os animais com cio.
Entre sombras, abordam-se segredos litigiosos.
As mulheres escondem, sob a roupa,
a prenhez da terra e sangram
os nós dos dedos no velho loureiro,
outrora plantado para coroar heróis
sem rosto, da estirpe dos homens.
Graça Pires
sulcadas no olhar.
Um calamento, pressentido pelas fêmeas,
desnorteia os animais com cio.
Entre sombras, abordam-se segredos litigiosos.
As mulheres escondem, sob a roupa,
a prenhez da terra e sangram
os nós dos dedos no velho loureiro,
outrora plantado para coroar heróis
sem rosto, da estirpe dos homens.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
5.1.08
Palavras

Em horas escolhidas ao acaso
recordo palavras que me trazem
outras palavras, outros sons,
outras sombras;
palavras redondas como os seios
das meninas, em cujos olhos
se anuncia um brilho inquietante;
palavras que resvalam pela fala
e transformam o vulto
incerto das mãos em pássaros
ébrios de fogo, ou explodindo de luz
como se fossem astros;
palavras sangrando na boca,
ou um desvio, tecido às cegas,
para deixar entrar a noite.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
recordo palavras que me trazem
outras palavras, outros sons,
outras sombras;
palavras redondas como os seios
das meninas, em cujos olhos
se anuncia um brilho inquietante;
palavras que resvalam pela fala
e transformam o vulto
incerto das mãos em pássaros
ébrios de fogo, ou explodindo de luz
como se fossem astros;
palavras sangrando na boca,
ou um desvio, tecido às cegas,
para deixar entrar a noite.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
1.1.08
22.12.07
O Natal
A festa encenada num presépio familiar
como um anúncio excessivo.
Não é fácil rotular a mensagem de um Deus
como um anúncio excessivo.
Não é fácil rotular a mensagem de um Deus
comprometido com a humanidade,
que precisou das fraquezas do homem
para se cumprir. Não é fácil.
Por isso, em todos os pinheiros,
há, agora, uma estrela a inquietar o mundo.
Graça Pires
que precisou das fraquezas do homem
para se cumprir. Não é fácil.
Por isso, em todos os pinheiros,
há, agora, uma estrela a inquietar o mundo.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
FELIZ NATAL E UM BOM 2008
16.12.07
Um encontro
Deambulei em volta do mundo,
à procura do lado mais selvagem da noite.
Encontrei-te no lugar onde o arco-íris
entorna o excesso de cor.
Havia, no teu olhar, um sinal
de sentido obrigatório,
uma passagem secreta
ajustada ao desejo,
um brilho inocente e cúmplice
que aqueceu o tumulto dos meus olhos.
Subleva-se, agora, um rio no meu corpo,
enquanto, à flor da pele, a urgência da sede,
toma o pulso dos dias
e redime a mendicidade das mãos.
Graça Pires
à procura do lado mais selvagem da noite.
Encontrei-te no lugar onde o arco-íris
entorna o excesso de cor.
Havia, no teu olhar, um sinal
de sentido obrigatório,
uma passagem secreta
ajustada ao desejo,
um brilho inocente e cúmplice
que aqueceu o tumulto dos meus olhos.
Subleva-se, agora, um rio no meu corpo,
enquanto, à flor da pele, a urgência da sede,
toma o pulso dos dias
e redime a mendicidade das mãos.
Graça Pires
De Ortografia do Olhar, 1996
10.12.07
Chamando um verso

Não relembrar os campos
mas o múltiplo verde entranhado no olhar.
Dizer quero ser feliz com a boca grávida de espanto,
como se fosse possível lembrar a hora de nascer.
Regressar à liturgia do silêncio
com palavras perturbadas chamando um verso.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
6.12.07
O fascínio da lua

Mais perto da infância, anda no ar
uma nova relação com a felicidade.
Cada manhã evoca o cantochão
inaugural da vida
e, nem as pequenas perturbações,
toldam o fascínio da lua nos meus olhos
consumidos de procurar a luz.
Graça Pires
uma nova relação com a felicidade.
Cada manhã evoca o cantochão
inaugural da vida
e, nem as pequenas perturbações,
toldam o fascínio da lua nos meus olhos
consumidos de procurar a luz.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
3.12.07
Deixo-me guiar
Pascal Renoux
Deixo-me guiar pela cor
indefinível das marés.
Enrolo, em cada frase,
toda a areia da praia,
para ancorar as mãos.
Panos de luto nas velas
de um navio assinalam
a solidão dos pássaros
quando a tempestade
lhes aprisiona as asas.
Graça Pires
indefinível das marés.
Enrolo, em cada frase,
toda a areia da praia,
para ancorar as mãos.
Panos de luto nas velas
de um navio assinalam
a solidão dos pássaros
quando a tempestade
lhes aprisiona as asas.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
30.11.07
27.11.07
Nómada da noite
Nómada da noite, entro no coração do texto,
para dizer o exílio nos olhos de Ulisses.
Tenho a idade dos barcos que sonhei.
Um traço de infortúnio atravessa meus lábios,
espessando o sangue que, nas veias, vai cerzindo
a distância que me separa do absurdo.
Há quem enlouqueça a olhar o mar,
com barcos sangrando sobre as costas.
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
26.11.07
PRÉMIO
O Vieira Calado poesia de vieira calado teve a gentileza de me oferecer este prémio.O regulamento:
Eis os parâmetros inerentes à condição:
1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons,entende-se como bom os blogs que costumasvisitar regularmente e onde deixas comentários.
2. Só e somente se recebeste o prémio “Diz que até não é um mau blog”,deves escrever um post:- Indicando a pessoa que te deu o prémio com um link para o respectivo blog;
- A tag do prémio;
- As regras;
- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio.
3. Deves exibir orgulhosamente a tag do prémio no teu blog,de preferência com um link para o post em que falas dele.
Indico os seguintes blogs:
Eis os parâmetros inerentes à condição:
1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons,entende-se como bom os blogs que costumasvisitar regularmente e onde deixas comentários.
2. Só e somente se recebeste o prémio “Diz que até não é um mau blog”,deves escrever um post:- Indicando a pessoa que te deu o prémio com um link para o respectivo blog;
- A tag do prémio;
- As regras;
- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio.
3. Deves exibir orgulhosamente a tag do prémio no teu blog,de preferência com um link para o post em que falas dele.
Indico os seguintes blogs:
a luz do voo
cabana de palavras
Largo da Memória
Linha de Cabotagem
Menina Marota
PIANO
Plan(o)Alto
25.11.07
Contra a violência
ABAIXO A VIOLÊNCIA DE GÉNERO :
É preciso reagir. Não ter medo. Ter coragem para denunciar.

E aqui estou à espera!...
-- com este destino
de dar sombra aos muros...
Mas à espera de quê?
Que o despenhar no abismo
me crie enfim asas?
José Gomes Ferreira
HUMANIDADE NÃO TEM SEXO !!

É preciso reagir. Não ter medo. Ter coragem para denunciar.

E aqui estou à espera!...
-- com este destino
de dar sombra aos muros...
Mas à espera de quê?
Que o despenhar no abismo
me crie enfim asas?
José Gomes Ferreira
22.11.07
Era novembro
Almada Negreiros
Pelo lado interior do tempo
assinalo, com traços de luz,
a cidade litoral onde nasci,
rente à fragilidade do outono.
Era novembro
e uma estranha sede
pairava sobre a terra,
ávida de líquidas paisagens,
quando minha mãe
me tomou nos braços
e disse: esta é a minha filha.
O seu corpo doía de tanta comoção.
Graça Pires
assinalo, com traços de luz,
a cidade litoral onde nasci,
rente à fragilidade do outono.
Era novembro
e uma estranha sede
pairava sobre a terra,
ávida de líquidas paisagens,
quando minha mãe
me tomou nos braços
e disse: esta é a minha filha.
O seu corpo doía de tanta comoção.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
18.11.07
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