14.1.08

Em seara alheia



Trazíamos ainda nos ouvidos o canto
acre e fausto das cigarras. Vinham com ele,
amarrados, os bois, as noras, os carvalhos,
e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma
poroso dos rododendros. Porque é deles
que falas onde quer que te dispas, e des-
nudes, desprevenido e inteiro. Da moldura
partida e do retrato caído no degrau mais
fundo das escadas. Sim, por mais que
digas, falas sempre das abelhas, do mel
adolescente escorrendo dos favos loucos
da alegria. Da alegria perdida, reencontrada,
perdida entre os escombros e as abjecções
do real, mais falso e verdadeiro que todas
as verdades aprendidas, que todos os
dogmas e doutrinas acumuladas nos
compêndios por onde te ensinaram a
vida.

Albano Martins,
Rodomel rododendro, 1989
In: Assim são as algas. Porto : Campo das Letras, 2000

20 comentários:

Maria Clarinda disse...

Excelente este exerto que nos trazes do livro Assim são as Algas - "Rodomel rododentro", do Albano.
Obrigada pela partilha

Maria Luar disse...

Excelente poema. A natureza, vida, viva, bela, apelativa.
Abracinho

*
,

*

Pena disse...

Estimada e Linda Amiga:
Verseja com beleza, com encanto, deslumbre, a vida e o quotidiano das pessoas.
A mensagem do seu poema, sinto que comporta vivências menos agradáveis que o seu lindo ser sente e explica com delicia.
Uma alegria perdida. Uma alegria encontrada. A realidade do sentir e estar. Falso e ao mesmo tempo verdadeiro.
Penso que tudo é profundamente sentido. Existiu.
Compõe versos com o coração enorme.
Gigantesco!
Adorei!
Beijinhos amigos de estima grandiosa
Com todo o respeito

pena

maria m. disse...

o «mel adolescente». perdido.reencontrado.

há muito que não lia Albano Martins. obrigada.

boa semana.

isabel mendes ferreira disse...

é sempre um prazer não É?????



beijo.Te.




Poeta.

alice disse...

aqui está um poema de alguém a quem eu gostava de poder chamar "tio" :) beijinho, graça *

Luis Eme disse...

É vivo e bonito...

abraço

herético disse...

muda-se de pele. mas permanece o "canto acre das cigarras"! sempre...

enorme. o poeta.

Mar Arável disse...

Excelente

Vieira Calado disse...

Um belo poema!
As coisas dos campos também me fascinam.
O meu livro de poesia Terrachã
é todo sobre essas coisas simples, mas eternas.
Cumprimentos

TINTA PERMANENTE disse...

Aí está um belo local para ir ao pé-coxinho ou, sei lá, jogar a apanhada!...

abraço amigo.

teresa p. disse...

"...por mais que digas, falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria..."

Belíssimo!

De Amor e de Terra disse...

Olá Graça, boa noite!
É com muito prazer que vejo por cá um Poema de Albano Martins, que tenho o prazer e a honra de conhecer pessoalmente e que considero um dos Grandes Poetas actuais.
Parabéns Amiga, por lembrares aqui este Grande Homem das Letras.

Beijos

Maria Mamede

Paula Raposo disse...

Imagens magníficas deixadas pelas palavras da sensibilidade. Adorei. Beijos.

hfm disse...

Do gosto pela palavra, pela imagem e pela necessidade imperiosa de questionar a sua formulação. Tão belo!

Monte Cristo disse...

Texto belíssimo e que me faz pensar no seguinte: daqui a uns anos (20, 30...) de que memórias falarão os poetas?

De que cigarras? De que aromas? De que abelhas? De que mel? Alguém, então, saberá a cor dos olhos das galinhas? Quem saberá o cheiro do mosto e o gosto do mel sem aditivos?

Ainda virão, na primavera, as andorinhas?

Ó Graça, responde-me!

Um abraço

São disse...

Obrigada por me dares aconhecer esta escrita tão agradável!

Feliz semana, amiga.

lena disse...

excelente partilha de um poeta que há muito leio

direi alegria reencontrada

lembre-me:

Como um eco

Não tinhas nome. Existias como um eco do silêncio. Eras talvez uma pergunta do vento.

Albano Martins



a ternura do meu abraço para ti Graça Pires

beijinhos

lena

Soledade disse...

Eu conheço pouco Albano Martins e gostei de ler este poema que afunda as raízes na substância da vida, na sua afirmação. E destacaria, como teresa p., os versos
«por mais que /digas, falas sempre das abelhas, do mel /adolescente escorrendo dos favos loucos /da alegria.» - para dizer da poesia da própria Graça.
Um beijo, boa semana

Graça Pires disse...

Minhas amigas e meus amigos, desculpem lá esta minha ausência (se por ela deram). Ainda bem que gostaram do texto do Albano Marins. O livro "Assim são as Algas" contém toda a poesia do autor de 1950 a 2000. É um excelente livro, que se lê com todo o prazer. Agradeço-vos os comentários. Um beijo.