26.6.23

Uma só visão

Michael Bilotta


Fugir como um herói. 
O medo nas narinas 
e o frio entre os dentes. 
Uma só visão a rebentar no rosto: 
a morte atónita dos homens 
que invocaram para si próprios 
o fascínio da vida. 

Graça Pires 
De Poemas, 1990, p. 29


Este poema faz parte do meu primeiro livro "Poemas" que, no dia 29 de junho, faz 33 anos que foi editado.


19.6.23

Torno-me cúmplice da paisagem

Vicki Mcmurry


Reivindico a identidade daqueles
que proclamam a natureza
em toda a sua resplandecência,
inicial e intacta.
Torno-me cúmplice da paisagem.
As cores e as sombras que o nascer do dia
me revela como se fossem a epifania
de deuses telúricos, celebram o pulsar da terra.
O equívoco do vento de junho à beira do verão
percorre as árvores e alucina as borboletas
escondidas nas trepadeiras,
a quebrarem a monotonia da realidade aparente.
Retardo o passo no ranger da areia
que se oferece e se nega aos pés descalços
e porosos a qualquer afago.
Do fundo da idade, o sal da boca
deixa-me pressentir a alternação das marés.
Cada horizonte é uma revelação
onde, náufrago, o olhar penetra a beleza
sempre excessiva do silêncio.
Tudo o que sei a sede mo disse,
repito para mim própria sem ambiguidades,
sem artifícios, para justificar a invocação
das águas, num argumento convicto.
Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p.61

12.6.23

Seduzido pela escuridão

©Shutterstock



                                                                                 Para o meu filho Pedro

O doloroso rigor do movimento 
de estrelas cadentes a ferir a noite 
adensa teu olhar inquieto 
já impregnado de sinais secretos. 

Seduzido pela escuridão delineias asas 
na fronte enquanto a estrela do norte alinha 
os pássaros nocturnos em sucessivos voos. 

Na hora do crepúsculo voarás devagar 
até anoitecer em ti e distinguires na via láctea 
 a cor de teus olhos bruscamente em chamas. 

Graça Pires 
De O improviso de viver, 2023, p.12

5.6.23

Em seara alheia




POUPANÇA 

Só um poema basta. 
Só uma palavra. 
Só um pingo de sombra 
desinquietando a luz do meio-dia. 

Só uma folha 
manuscrita com os olhos. 
Só o tic tac do despertador 
a marchar pela casa vazia. 

Só uma gota basta. 
Só uma 
se escorrer sem pressa pela fresta da sede. 

Luis Palma Gomes 
In: Fronteira. Edição de autor, 2022, p.30