21.5.18

Anna com vestido branco

Amedeo Modigliani


Gosto de me levantar de madrugada,
quando ainda são anilados
os vultos de quem passa.

Gosto de reter, no fundo do olhar,
o instante primeiro do dia, para recuar
ao tempo em que coleccionava barcos
de papel e deles me tornava marinheiro.

As vagas, lembro, começavam
nos meus dedos quando sobrepunha
o mastro sobre a quilha, com búzios
cristalinos a enfeitar os pulsos.

E visto-me de branco
como se fosse a menina
que descobre a primeira sede,
ou a primeira nascente,
ou a primeira paixão.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 38

62 comentários:

✿ chica disse...

Linda tela e poesia da Anna vestida de branco...Branco prta uma semana linda iniciar...beijos, tudo de bom,chica

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo poema e sou fascinado pela pintura de Amedeo Modigliani.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

teresa dias disse...

Belo poema!
Que todos os instantes primeiros dos dias da poeta sejam inspiradores, para continuar escrevendo versos deslumbrantes.
Gostei MUITO, amiga Graça.
Beijo.

Marta Vinhais disse...

As memórias... quando a luz ainda é só nossa....
Lindo...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

AC disse...

Há um tempo em que tudo se desenha, com as cores mais claras, há um tempo em que tudo parece ao alcance da mão. Depois, na obediência a rituais sagrados, tudo se desvanece no dever, quse escravidão.
Nunca me canso de o dizer: é tão bom lê-la, Graça!

Abraço :)

María Perlada disse...

Muy bella tu poesía, un placer leerte.

Que tengas una feliz tarde, preciosa.

Besos enormes.

Maria Eu disse...

Nada como o branco recortado no azul do mar!
Sempre belas, as palavras deste recanto!

Beijos, Graça :)

Alfredo Rangel disse...

Graça, impressiona-me grandemente a qualidade e sensibilidade de tuas palavras, e a profundidade das imagens que crias. É sempre mágico mergulhar em tuas letras e delas retirar tantos prazeres.
Grande beijo, Mestra. Sabes mesmo como encantar pessoas...

Poções de Arte disse...

Fui levada a uma simplicidade de vida...
Gostei demais de suas palavras e da tela.

Abraços e feliz dia.

© Piedade Araújo Sol disse...


e nas madrugadas ainda escassas de luz
é mais puro o pensamento
o sonho
o enleio
e o branco condiz sempre

com a pureza da alma

:)

silvioafonso disse...

Adoro essa maneira gostosa
de como você faz suas poe-
sias. Suas, não. Nossas, pois
as faz para nós, seu povo,
seus amigos. Adoro a pintu-
ra desse italiano que nas-
ceu muito bem, mas morreu
em Paris, muito melhor.

Beijos, Graça.

deep disse...

Belas as palavras, bela a imagem, Graça.

Boa semana. Beijo

Larissa Santos disse...

Excelente poema. Parabéns. Adorei :))


Hoje:- [ Poetizando e Encantado]-Conto as pétalas, e almejo a tua graça .

Bjos
Votos de uma óptima Segunda- Feira

Teresa Almeida disse...

Uma mulher de branco é um diamante mulltifacetado. Atrai as cores do universo. Como este poema, Graça.


Beijinho.


Gracimar Martins disse...

Boa tarde Graça! Lindo poema, o branco é a cor da paz e da pureza e nos transmite tranquilidade.
Abraço.

Daniela disse...

Brilhantes palavras!
Adorei!

=)

Bjinhos

Mar Arável disse...

Nesta selva
poesia ao poder
Bj

Cidália Ferreira disse...

Poema lindo de mais!!

Beijo. Boa noite

Emília Pinto disse...

E esta Anna pode ser qualquer uma de nós, mesmo que não estejamos vestidas de branco; revi-me nela ao voltar atrás , na minha meninica, bricando com vários elementos da natureza que nos permitam a construção de belas casinhas onde dentro dormiam as bonequinhas por nós imaginadas. Corriamos pelas areias da praia, procurando as conchinhas mais perfeitas e quando encontravamos um búzio pequenino, por nos chamados de beijihos, era como se tivessemos descoberto uma pedra preciosa; tempos que não voltam, mas que fizeram de nós as mulheres que somos hoje, pessoas maduras , mais sábias, mas, por vezes, mais nostálgicas; tudo mudou e, forçosamente, mudamos nós, embora continuemos a usar a cor branca e com ela tentemos sempre transmitir paz à nossa volta. Inevitavelmente, a minha alma clareou ao ler-te, Graça. Muito obrigada! Um beijinho e boa noite
Emilia

Luis Eme disse...

Lindo.

abraço Graça

Ani Braga disse...

Olá Graça querida


Lindo poema...
Beijos e uma semana linda pra você.


Ani

Toninho disse...

Que lindo Graça.
Um poema que passa uma ternura embrulhada num saudosismo lindo.
Viajei nos barquinhos e senti o gosto dos primeiros pingos das chuvas,
que deslizavam pelo rosto de menino feliz com seus barcos.
Semana proveitosa e maravilhosa querida amiga.
Beijos

angeloblu disse...

Sempre molto belle le tue poesie, i miei complimenti è sempre un piacere poterle leggere.
Un saluto ed un abbraccio carissima.

tecas disse...

«E visto-me de branco
como se fosse a menina
que descobre a primeira sede,
ou a primeira nascente,
ou a primeira paixão.» Revejo-me no seu poema, querida poetisa Graça Pires.
Além da beleza ímpar faz-nos viajar até à infância.
Belíssimo. Aplauso.
Beijinhos poéticos.

Isa Sá disse...

Bonito poema.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Marli Terezinha Andrucho Boldori disse...

Bom dia, Graça,
seu poema é como um ritual, vestir- se de branco para relembrar
o tempo da infância, quando tudo era possível, magia dos olhos ao ver ainda na madrugada
vultos, pessoas vestidas com a cor da madrugada.
A imagem é também muito sugestiva.
Grande abraço!

Sinval Santos da Silveira disse...

Querida Mestra Poetisa, Graça Pires !
Enxerguei no texto, tão claro, todos os
detalhes inseridos.
Simplesmente, maravilhoso !
Parabéns, nobre Escritora.
Aceita, por favor, o meu fraternal abraço,
aqui do Brasil !
Sinval.

Patrícia Pinna disse...

Boa tarde, Graça. Uma poesia tão delicada e linda. A lembrança incorporada no presente, muitas vezes faz bem.
Eu me vi aqui.
Parabéns.
Beijos na alma e linda semana de paz.

Ana Freire disse...

A pureza do pensamento... e da nossa verdadeira essência, nas memórias primordiais de criança, no simbolismo do vestido... brilhantemente traduzido em palavras, Graça!
Mais um belíssimo momento poético... profundo e sublime! Características habituais, em tudo o que vou apreciando, por aqui...
Um beijinho grande! Continuação de uma feliz semana!
Ana

CÉU disse...

Graça, minha querida amiga, como vai?

Grata pela sua visita e carinhoso comentário. Vou fazendo o que posso e sei, melhor ou pior.

Olhando a foto, não direi que a acho bonita ou sensual, mas tem a sua própria beleza, que me parece austera, mas a Anna de Modigliani era assim. Talvez os meus olhos não saibam ou não estejam preparados para apreciar pinturas deste calibre. É isso, pois!

O poema é um misto de tantas coisas, sobretudo emoções e lembranças. Que fazer delas e com elas? Pô-las no papel e deixar que os outros as interpretem e as vivam, um pouco, também.

Os barquinhos de papel, que a Graça fez, julgo, e eu também, proporcionavam-nos tanta felicidade e até parecia, que íamos partir. Mas não, ficávamos ali na nossa casinha esperando as ondas da mente para galgarmos o mar e o espaço que queríamos alcançar. E como se isso não bastasse, vestíamo-nos de branco, vestido feito pela costureira, para personificar a candura, o primeiro namorado, enfim, a paixoneta, esquecida depois, naturalmente.

Embora eu esteja a imaginar estas "cenas" na infância e/ou a adolescência, as suas palavras bem podem pertencer ao estado adulto. Tudo fica bem e se adapta, logo que o queiramos.

Gostei mto do que escreveu, indireta e eruditamente, ao seu modo, afinal, embora nunca seja fácil para mim interpretar o que pretende transmitir, mas isso é tarefa só minha, pke o poeta, apenas, escreve.

Um beijo com imensa estima e consideração.

Ailime disse...

Boa noite Graça,
Um poema muito belo em que a Poeta utiliza as suas sublimes metáforas para, por momentos, viajar até ao tempo da infância em que tudo era branco e puro como a "primeira sede".
Um beijinho, minha Amiga, e continuação de uma boa semana.
Ailime

Cristina Cebola disse...

Olá Graça!
Um belo poema , onde cabe um pouco da vida de cada um de nós...revi-me em muitas coisas e na saudade também.

Aproveito para agradecer a visita e o carinho que pressinto sentir por mim, e pelas palavras que muito de vez em quando, vou deixando no meu espaço.

São essas, as visitas que me enchem a alma!

Beijinho afectuoso com muita admiração.

ANNA disse...

Hola guapa que xuli las fotos.
Gracias por el paso por el blog y dejar tu huella.

Besos

Luísa Fernandes disse...

https://poemasdaminhalma.blogspot.pt/
Boa noite, Graça!
Bela poesia... e veste-se de branco, como se fosse uma menina.
Uma infância de vivas reecoradações.
Beijinhos e continuação de boa semana.
Luisa Fernandes

ManuelFL disse...

Madrugada, o instante primeiro do dia, a primeira sede, início de todas as sedes.
E o branco, mistura de todas as cores, paleta da vida onde inscrevemos os nossos sonhos.
Beijo, Graça, e obrigado por tanta beleza.

Victor Barão disse...

Encantadora ode às primeiras, oníricas, lembranças e aos sucessivos primeiros marcantes momentos ao longo da vida!

Muitos parabéns e obrigado por partilhar beleza que alimenta o mais profundo do espírito

Bom resto de semana

Beijo

VB

Nadine Granad disse...

E eu gosto demais dos teus poemas!

Lindo! Imagem e poesia, mágicas!

Beijos! =)

LuísM Castanheira disse...

A Poeta 'captou', neste olhar duma profunda tristeza, a mulher-menina que vê os barcos partirem, com todos os sorrisos em arcas ancoiradas, num mar de segredos.
E o cais, vazio, vira as costas à barra, quando o tempo deixa as marés suspensas na memória.

Gosto muito deste poema, e do motivo que a inspirou: este rosto
enigmático, por vezes sereno, mas a transparecer uma tristeza, na pose que o Pintor tão bem expressou.

Um beijo, minha Amiga Graça.

PAULO TAMBURRO. disse...


GRAÇA,

a cada nova postagem uma superação evidente e para nós seus leitores um prêmio literario e continuado.
Excepcionais as usas postagens!
Um abração carioca.

Anete disse...

Um poema maravilhoso e puro...
Tenha uma boa noite e um lindo amanhã...

Tais Luso disse...

Uma das recordações mais belas ficam na infância, o branco do vestido já dá um certo sinal de ternura ao poema. Jamais teríamos um saudosismo que não fosse agradável, puxado lá da memória feliz. Barquinhos, casinhas, bonecas, sonhos e a ânsia de crescer. Tem uma canção que diz:
"É melhor ter um joelho ralado, dói bem menos do que um coração partido". Lá atrás, ainda dava para sonhar sonhos ternos.

Belo poema, amiga, estilo Graça Pires!!!
Beijo, amiga.

Gil António disse...

Sedução impar inserta neste maravilhoso poema. Lindo demais.
Deixando um Abraço

* Amor em Desejos Indefinidos *

Teresa Durães disse...

Uma doçura de poema!

teresa p. disse...

Memórias doces da idade da inocência, plenas de encanto e sedução.
A menina vestida de branco "que descobre a primeira sede, ou a primeira nascente ou a primeira paixão."
Muito, muito belo!
Beijo.

Ana Tapadas disse...

É lindíssimo, este poema!

Beijinho

Jaime Portela disse...

Eu não gosto nada de me levantar de madrugada...
Mas gostei muito do teu poema. É excelente, parabéns.
Bom fim de semana, amiga Graça.
Beijo.

Marta Moura disse...

Sempre que cá venho e a leio fico com um sorriso nos lábios. Maravilhoso Graça. :)

São disse...

Belisssimo poema, Graça, belissimo !

Beijinhos com amizade e admiração, bom fim de semana

Suzete Brainer disse...

Este seu poema é belíssimo, inscrito da voz feminina
no patamar da sua excelência poética, Graça.

As artes excelentes (obras de Modigliani) e seus
poemas a se conjugarem e em uma unidade brilhante
expressiva.

Um beijo, bom fim de semana.

Agostinho disse...

Olá, Graça Pires
Primeiro quero dar nota da circunstância de haver semelhança no tema do trabalho que publiquei, ontem, com o magnífico que agora aqui encontro. Até nos vocábulos. Já tinha lido há mais dum ano o seu livro "Fui quase todas...", não houve intencionalidade pelo que direi que há coincidências! Não na qualidade que sou um aprendiz.
O que escrevi foi ditado por um "filme" em que sou protagonista de forma expontânea e afectiva. A motivação surgiu da morte de Júlio Pomar.

Agostinho disse...

Há pouco, não cheguei a concluir o meu comentário, como era perceptível. A gaiata do barco sobrpõe viagens imprevistas.
Comentando o poema...
Levanta-se,a Anna, todas as anas, consoante o negro se revela no olhar (magoado), inundada de certezas passadas. Tem a noite e o dia, em livre arbítrio, para dilatar as madrugadas da caminhada que é (ainda) o tempo da esperança. E revê-se na constância do ar que respira.Por isso quer:" me visto de branco / como se fosse a mesma"...
A Poeta tem na mão sempre uma réstia para me/nos iluminar. As metáforas, as imagens e os símbolos do sagrado, guardados no "eu", são expostos, delicadamente, numa poética que brilha pela sua transparência, que (en)caminha para a "transcendência".
Resta-me agradecer, um bj.

Minhas Pinturas disse...

Lembranças da infância da época da ingenuidade, de sonhos impossíveis... Lindo poema, carrega-nos para uma época lúdica de saudades.
Beijinhos, Léah

Pedro Luso disse...

Olá, Graça!

Um poema belíssimo, delicado poema, querida amiga, que se encerra com esta estrofe bela e de grande significado:

E visto-me de branco
como se fosse a menina
que descobre a primeira sede,
ou a primeira nascente,
ou a primeira paixão.


Parabéns, querida amiga.
Bom final de semana.
Beijo.
Pedro

Manuel Veiga disse...

cântico(s) singular(es) o teu, minha amiga
nesta tua revisitação poética às "mulheres de Modigliani, vestidas de todas e cores.
e todas as dores.

hoje, de branco, uma verdadeira celebração primaveril
a fermentar a(s) primeira(s) sede(s)...

muito belo, Graça.

beijo

solfirmino disse...

Graça, querida,
Levantar de madrugada traz o frescor do dia, o primeiro instante da manhã...
Já a pureza do branco que se quer reter ao se vestir com essa cor, é algo até cultural.
Acho que me enrolei, mas me fiz entender, estou com sono...
Beijo

Maria Rodrigues disse...

E na tranquilidade do amanhecer se soltam as recordações.
Maravilhoso poema
Beijinhos
Maria
Divagar Sobre Tudo um Pouco

manuela baptista disse...

anilados os vultos e a ante-manhã

eu ainda gosto de fazer barcos de papel e a Anna veste-se de branco


um abraço, Graça

A Nossa Travessa disse...

Minha querida Gracinhamiga II

Se a Poesia não existisse - e felizmente existe - eras tu quem a criava toda vestida de branco qual Anna pincelada por Modigliani. Sempre te disse que se se pode definir Poesia basta definir-te o que não é, de todo, tarefa fácil, mas é empolgante. Este poema cuja brancura, cuja pureza é sinónimo de candura é mais do que um poema é um hino ao nascer do Sol e também ao nascer da humanidade que nos deixa embevecidos perante tanta beleza aliada a tanta doçura e tanta alegria mas também tanta melancolia. Lindo, lindo, lindo.

Muitos e muitos qjs deste teu amigo e adorador
Henrique, o Leãozão
_____
Tal como havia avisado acabo de publicar na Nossa Travessa um novo artigo de minha autoria intitulado É difícil viver com um irmão mongoloide. Com ele inicio uma saga que se inspira nas narrativas da nossa Amiga Elvira Carvalho a quem agradeço o “empurrão”…

Lu Dantas disse...

Oi, querida! Gosto tantos dos seus poemas, do seu olhar para a vida e de toda sensibilidade que encontro em cada palavra ;)

Boa semana!

beijos!

https://ludantasmusica.blogspot.com.br

mz disse...

As primeiras horas, os primeiros instantes como se tudo nascesse de novo, intacto e puro; as horas da inocência.

Um abraço.

Odete Ferreira disse...

"E visto-me de branco..."
Cada poema teu é como se também me vestisse de branco. Neste, o branco ainda é mais branco.
Bjo

Parapeito disse...

Gosto de a ver aqui neste poema.
Primeira nascente
Primeira paixão,doce Graça
Adorei.
Abraço e brisas doces **