6.9.07

Vamos falar de poesia



Nunca te procurei. Não te procuro, tão indolente que sou. E, no entanto, acabas sempre por vir: de mansinho, insidiosa... Ó terrível desventura que salva! Em mim te aconchegas com teu tropel de vozes: lúcida desrazão que acalma, êxtase do que pressinto. E vens, misto de assombro e agonia, estranho dizer, talvez poesia.

Victor Oliveira Mateus
In Pelo deserto as minhas mãos. Sassoeiros: Coisas de Ler, 2004

6 comentários:

Manuel Lourenço disse...

A poesia, como tudo aquilo que nos deslumbra e nos faz exaltar o mistério da vida e do amor, chega-nos sempre pelos caminhos mais inesperados.
Pela via da indolência, só pode chegar de mansinho e insidiosa.

soledade disse...

A relação do poeta com a poesia, essa "terrível desventura que salva" e que chega inesperada, insidiosa, é muito difícil de explicar. O belo excerto de Oliveira Mateus levou-me à Conta-Corrente, onde Vergílio Ferreira tantas vezes se indaga enquanto escritor. Deixo aqui um excerto que aprecio muito e que a Graça de certeza conhece. Com um beijo e votos de bom fim de semana:

«Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. [...] Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão»

hfm disse...

Que simbiose de palavras belas!

Graça Pires disse...

Obrigada Manuel pelas palavras tão cheias de sabedoria. É, sim,"pelos caminhos mais inesperados" que nos chega a poesia. E sempre como se fosse a primeira vez.

Soledade, gostei da sua apreciação ao texto do Victor Mateus. Não conhecia o texto do Vergílio pois não tenho a Conta-Corrente. Mas acho as razões que ele refere tão maravilhosas quanto toda a escrita que ele nos deixou. Obrigada e um beijo.

Um beijo Helena e obrigada pelas palavras.

Alexandre disse...

A poesia, sempre vinda do âmago profundo e oculto da vida, nos conjuga na face dos nossos semelhantes e, nesses instantes, somos amor, esperança, êxtase. Octávio Paz chamou a essa chama, a poesia, de "A outra voz", a voz que vem do mistério, do profundo sagrado, de nossa esperança viva. Creio que, o poeta Victor Oliveira Mateus, autor dessa obra prima, o "Pelo deserto as minhas mãos", desejava, justamente, abarcar a vida em suas múltiplas riquezas, em suas raízes essenciais. É isso. Graça, minha queria da amiga, é por acreditar nesse mito pessoal, a poesia, que me faço força e pulsação.
Grande abraço do Alexandre.

Graça Pires disse...

Você disse, Alexandre. E eu gostei do que disse, como sempre. Um beijo.