24.6.19

Em seara alheia




Ainda não sei


Ainda não sei como contar-te que cresci
sem mar. Que andei a verter sangue a vida
toda, de coração golpeado pelas cercas vivas
dos meus lugares. Não sei como contar-te 
da minha ânsia de fugir, de correr até à praia
e cegar a memória, de como me atirei
em desespero contra os espinhos, e de como
sangrei, exausta, na sombra dos fracassos.

Agora cheguei ao mar e o sal arde-me
nas feridas. Tenho um chão de areia quente
que me queima os pés, tão gastos de correr.
Cheguei ao mar. Ao espanto comovente 
do mar, e permaneço imóvel. Tão quieta
como as rochas ao longe.
Sou livre e não me movo.
Não sei como se faz isto de viver.

Virgínia do Carmo
In: Ecos de Green Rose. Poética, 2019, p. 35

45 comentários:

Marta Vinhais disse...

Mas, depois avançamos... Por muito duro que pareça o caminho, as tempestades e mesmo a fúria do Mar... encontramos a força para o desbravar...
Lindo...
Beijos e abraços
Marta

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo poema, gostei e aproveito para desejar uma boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

chica disse...

MARAVILHOSA poesia! Adorei ler, reler e a intensidade é tocante! bjs, chica, linda semana!

LuísM Castanheira disse...

Um belíssimo poema construído a dois tempos
e tendo o mar como objecto-anseio e fronteira
intransponível do desassossego.
Esta “… ânsia de fugir, de correr até à praia
e cegar a memória…” traduz uma vontade de
sarar todo o passado e enfrentar uma nova forma
de viver.
Muito bom, mesmo. Isto é poesia, simples e transparente.
Parabéns, minha Amiga Graça, por esta partilha-selecção.
E, da Virgínia do Carmo, já eu tinha a certeza de ser uma
enorme poetisa. Parabéns a ela, também.
Uma boa semana, com um beijo amigo.

Olinda Melo disse...


Um dos poemas mais belos que já li.
À força de não se ser livre, quando isso
acontece não se sabe bem o que fazer com
tamanha liberdade. E então, a assimilação
só se fará a pouco e pouco de forma a curar
as feridas, sabendo que o mar - mar de
onde eu venho - com os horizontes a bordarem
o infinito, será a sua expressão maior.

Parabéns à autora e a si, amiga Graça, por
trazê-la ao nosso conhecimento.

Beijo

Olinda

Kodak Khrome disse...

o mar sempre existiu nos meu sonhos de menina
uma espécie de obsessão calma e racionalmente
perturbada.

descobri mais tarde o mar ser mágico e ao
entrar nele preenchia toda a minha imaginação
como se ele fosse o meu nascimento
e a minha morte.

digo

belíssimo a poesia de Virgínia
Boa semana Graça

Teresa Durães disse...

Um poema muito bonito

Sinval Santos da Silveira disse...

Mestra, Graça Pires !
Parabaéns por haveres selecionado, e depositado
em " Seara Alheia", um texto tão belo, da lavra
de Virgínia do Carmo.
Realmente, Amiga, de apurada qualidade.
Um ótima semana e um carinhoso abraço,
aqui do Brasil !
Sinval.

Agostinho disse...

Um belíssimo poema em cuja cifra me revejo.
Também eu não sei. Ainda.
Sei da sede do suor, do sal mais frio que corta a golpes, as mãos, os pés e
a alma e sei que o sangue esvaido
na areia foi em vão.
Beijo, Amiga Graça.

Bell disse...

Gostei, ainda bem que a gente cresce.

bjokas =)

São disse...

Mesmo sem saber , toda a gente acaba por desbravar os caminhos a que chamamos viver.


Beijinho e linda semana

carlos perrotti disse...

"Não sei como se faz isto de viver..."

Poeta de pura emoção... Adorei, Graça, muito obrigado por apresentar. Ótima tarefa de divulgar a sua, amiga. Vou procurar mais poesia dela.

Abraço grande.

Ailime disse...

Boa tarde Graça,
Um poema belíssimo da Virgínia Carmo, uma excelente Poeta também.
"Não sei como se faz isto de viver".
Será que algum dia saberemos?
Beijinhos, minha Amiga Graça, e uma boa semana.
Ailime

Manuel Veiga disse...

Excelente escolha, Graça

a nossa amiga Virgínia do Carmo para além do notável trabalho de edição (POÉTICA Edições)
é uma Poeta extraordinária. Outro fosse o mainstream cultural e a Virgínia do Carmo seria uma poeta conhecida e reconhecida!

abraço as duas,
com carinho e admiração.

Teresa Almeida disse...

Gostei muito de ler "Ecos de Green Rose". Virgínia do Carmo tem sensibilidade poética apurada. Estive no Sardão e fiquei fascinada pela envolvência do lugar e pelo intimismo da apresentação do livro. Parecia ser uma homenagem à terra e às pessoas. Uma ação de graças.

Escolha acertada, querida Graça!

Beijinhos.

A Paixão da Isa disse...

amiga mais um lindo poema obrigada pela tua partilha gostei mt bjs

bea disse...

Uma poeta que se inspira em Sophia :). E é jovem, tem muito mundo e tempo para o desbravar.
E que assim seja.

JUAN FUENTES disse...

Moderno y bonito poema

Maria Emilia B. Teixeira disse...

Triste,lindo e com uma escrita impecável.
Boa semana Graça Pires.Bjs

Tais Luso disse...

Olá, amiga Graça, mas que belo poema de Virginia do Carmo!
Viver não é de uma hora para outra que se aprende, às vezes se leva uma vida inteira e tudo acaba em frustração. Poema que nos mergulha fundo em reflexões, em querer acertar diante das decepções e da inexperiência. Um poema sofrido mas extremamente belo.
Gostei imenso, amiga!
Vou procurar saber mais dessa poeta.
Beijos as duas.

Isa Sá disse...

Mais um bonito poema.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Lucinalva disse...

Olá Graça
Belo poema, desejo um ótimo dia. Bjs

Larissa Santos disse...

Um poema sublime :)) Obrigada :))
Voltei... Quando o sol surge pela aurora.

Bjos
Votos de uma óptima Terça - Feira

deep disse...

É sempre um gosto ler as palavras da Virgínia.
Boa semana, Graça. :)
Beijo

José Carlos Sant Anna disse...

Também "ainda não sei" o que dizer da inquietante, indomável e a livre palavra poética de Virgínia do Carmo. Vigoroso Poema. Gostei muito desta partilha!
Um beijo, minha amiga Graça!

Majo Dutra disse...

Uma carga dramática muito pesada...
Para quê fazer a vida mais pesada do que é na realidade?
De facto há casos especiais em que assim acontece, mas
merecia uma referência.
Hiperbolizar o sofrimento? Acho que é imaturidade.
Dias muito agradáveis, minha Amiga.
Um terno abraço.
~~~~

Victor Barão disse...

Da minha modesta perspectiva, diria que é um magistral retrato poético dos desencontros e paradoxos que, também, quando não mesmo, essencialmente compõe o mistério da Vida: ...após "crescer sem Mar", com todas as intermédias e "sangrentas feridas"... "Agora cheguei ao mar e o sal arde-me
nas feridas. Tenho um chão de areia quente
que me queima os pés, tão gastos de correr.
Cheguei ao mar. Ao espanto comovente
do mar, e permaneço imóvel. Tão quieta
como as rochas ao longe.
Sou livre e não me movo.
Não sei como se faz isto de viver"

Fantástico!
Parabéns e obrigado por criar Arte própria e no caso partilhar Arte alheia, em qualquer caso com Arte como denominador comum.
Excelente resto de semana
Beijo
VB

baili disse...

one of the most powerful piece of poetry dear Grace!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

sometimes we take granted what we have and run after mirage

or sometimes it is too late to reach dream destination and things are not as glittering as they used to be earlier

thank you for such sensitive and intriguing poem my friend !

Cidália Ferreira disse...

Lindo!
Resolvi voltar aos poucos, agradecendo todo o apoio e carinho que me têm endereçado. Peço desculpa por ser mensagem “ copy past” mas só assim posso “ chegar a todos” porque o merecem. Obrigada!
.
Soltando aquela criança, enquanto deambulava
Beijos e um excelente dia.

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Lindo poema, prezada amiga! Mas deprime um pouco. Gosto de me elevar com a poesia, mas já fui fã de Augusto dos Anjos, poeta da morte: "ninguém assistiu ao formidável enterro da tua última quimera, / Somente a ingratidão, essa pantera, / Foi a tua companhia inseparável. / Amigo, acostuma-te a lama que te espera, / Pois quem nessa terra miserável habita entre feras, / Sente a inevitável necessidade de também ser fera"....
Porém é válido! Como disse Fernando: "ninguém se perde na vida - tudo é verdade e caminho." Meu abraço fraterno e gratidão! Laerte.

Anete disse...

Lindo poema, forte, vibrante e gritante!
Um abraço carinhoso...

Humberto Maranduva disse...

Denso, rico e vibrante, este poema de Virgínia do Carmo, com o qual nos brinda hoje. A liberdade é uma prisão que embriaga, quando se torna, finalmente, tangível. A vida é complexa, contraditória, angustiante e incompreensível, mas deve ser vivida mesmo que, para a esmagadora maioria das pessoas, seja apenas soletrada.
Bjs.

Toninho disse...

Bela sempre sua generosa partilha e escolha em searas alheias.
Lindo poema com um final maravilhoso e fatal da inquietude humana.
Carinhoso abraço Graça.
Beijo amiga.

Lua Azul disse...

Desconfio que ninguém sabe!
Voltei mais cedo. A inspiração é caprichosa!
Bjo e uma boa quinta-feira!

Fá menor disse...

Belíssimo!

Andamos toda uma vida com um vazio por preencher, a esfarrapar-nos contra esquinas agrestes que nos cerceiam; quando, por fim, nos libertamos ficamos, tantas vezes, mudos e quedos sem conseguir absorver a realidade.

Beijinhos, amiga Graça!

Jaime Portela disse...

Gosto da poesia da Virgínia do Carmo e este magnífico poema não foge à regra.
Graça, continuação de boa semana.
Beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

Graça

uma excelente escolha.

sempre gostei do trabalho da Virgínia do Carmo, pois sempre nos pautou com excelentes poemas.

beijinhos para ambas.

bom fim de semana.

beijinhos

:)

Ana Freire disse...

Uma bela, poderosa, e comovente inspiração... e testemunho!...
Fico imaginando, quantas pessoas ainda viverão toda a sua vida, longe do mar... de nem sempre terem a possibilidade de com ele conviverem e o poderem apreciar...
Sublime partilha, Graça! Adorei!!!
Um beijinho grande! Bom fim de semana!
Ana

A Casa Madeira disse...

Poema de quem muito lutou.
Boa entrada de mês de julho.
abçs

Zilani Célia disse...

OI GRAÇA!
LINDO DEMAIS GRATA PELA PARTILHA AMIGA.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.bcr/

lanochedemedianoche disse...

Muy bello.
Abrazo

ANNA disse...

Hola gracias por tu visita y comentario
te lo agradezco mucho
espero que estés bien
cuídate mucho
no sé si te comenté que publique otro libro de poemas te paso la web por si deseas verlo

https://editorialcirculorojo.com/se-vende/

Besos

teresa dias disse...

Olá, querida amiga!
Também «não sei como se faz isto de viver», e acho que morrerei sem saber.
Mas sei... que as tuas "searas alheias" são sempre maravilhosamente bem escolhidas.
Beijo.

Duarte disse...

Às vezes também se colhe bem em searas alheias, e que frutos!
Tampouco sei, esse mar sem fim, como diz o fado, pode levar-nos a portos complexos. Olha os leixões de Leixões!
Beijinhos desde terras valencianas

solfirmino disse...

"Sou livre e não me movo.
Não sei como se faz isto de viver."

Que maravilha!