25.10.07

Já não posso olhar as palavras

Amedeo Modigliani

Já não posso olhar as palavras como dantes.
O tempo apagou-me das mãos tantos desejos.
É possível que a minha boca
se encha de silêncios,
à míngua de alegria,
como se uma noite inquieta
me ardesse nos ossos
e as aves me segredassem
ausências sem recuo.
Porém, já outros pássaros
reiniciam um voo mais que perfeito,
à procura de um lugar
onde, transfigurados,
possam tecer, de novo, as suas asas.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

14 comentários:

maria m. disse...

tempo de mudança:
«Já não posso olhar as palavras como dantes.»
uma mudança dolorosa:
«sem recuo»
mas com réstia de esperança:
o desejo não voltará a ser o mesmo, mas talvez volte, quem sabe, «transfigurado», noutro espaço, noutro tempo...

hfm disse...

As palavras, sempre elas, numa viagem de que não se conhece o retorno. Belíssimo.

aLqUimISta disse...

Muito bom. Por mais duras que sejam as mudanças, aprendemos sempre com elas...

isabel mendes ferreira disse...

eu diria o mesmo...:(.


prefiro as tuas. às minhas.



boa noite.

Lia Noronha disse...

Deveríamos aprender com os pássaros..a mudar o rumo...qdo td está errado!!
Abraços mil!!!

Monte Cristo disse...

(re)encontrei-te.

João Carlos

Mar Arável disse...

Nos mesmos pássaros

as mesmas asas

no vento renovado

Luis Eme disse...

Podes, podes...

E elas ficam agradecidas...

Licínia Quitério disse...

As palavras que se(nos) refazem.
Às vezes demoram...

Um beijo.

Anónimo disse...

Adoro todos tus poemas,
gracias por llenar de magia
mis sueños.
parabens.
caterina

herético disse...

gostei das tuas palavras. em vôo perfeito. como "asas do desejo" permanentemente reinventado...

soledade disse...

Às vezes acontece-me sentir uma quase repugnância pela palavra poética; parafraseando o título do poema: "nem as posso ver". Fecham-se portas, instala-se uma saciedade, uma premência de silêncio. Mas no fundo espera-se que outro ciclo se inaugure. Será que haverá sempre um novo ciclo, um outro voo "mais que perfeito"? Que misteriosos são os caminhos da criação...

Graça Pires disse...

Maria e Helena, gostei do modo como leram o poema. A mudança é dolorosa e sem retorno. Fica-nos a vontade de um renascer mais perfeito...Obrigada.

Alquimista, tens razão. Mas às vezes não aprendemos assim tanto.

Isabel, não sei o que te diga porque o que escreves é bastante jovem e vigoroso. Obrigada por vires até este meu espaço.

Lia, os pássaros são um motivo grande de inspiração. Queríamos ser como eles, de facto.

João Carlos, reencontraste-me? Então também te reencontrei e fico feliz. Irei visitar o teu espaço com calma.

Mar arável, sempre poético... Obrigada.

Luis bem hajas por confiares nas minhas possibilidades poéticas.

Licínia, é bom e bonito o que dizes... Obrigada.

Caterina, que bom gostares do que escrevo. Que bom se sentes o que digo. Obrigada e volta sempre.

Herético também gostei das "asas do desejo" e do voo permanentemente reinventado.

Soledade, sim são misteriosos os caminhos da criação. Mesmo quando o cansaço das palavras existe continuamos sempre,como se uma força anímica nos transfigurasse...

Um beijo a todos.

Daniel Gonçalves disse...

poesia com poesia se paga...


tenho para te dizer um estuário de luz que desagua na boca da manhã
tenho para te dizer os lunários e as contradanças do sonho
os anjos que caíram nas asas deste poema

tenho para te dizer qualquer coisa que não sei como trazer no coração das mãos
qualquer coisa que não tem outro movimento
senão no apertado sentido destes versos

como se eu soubesse que tudo isto não passa de um poema
para te dizer precisamente que acordei contigo nos meus olhos