20.4.11

Da paixão e da morte



Só os lírios roxos me são próximos
no lado mais comovido da manhã
quando a luz margina a solidão
dos meus olhos e dos ardis da memória
irrompe o penitente jogo da paixão e da morte.
Vejo uma cruz. Um homem. Uma túnica rasgada.
Uma coroa de espinhos.
Um rosto com sangue pisado.
O suplício das mãos amarradas ao madeiro.
Vejo-me criança assustada.
Os santos cobertos com pano roxo
na obscuridade da igreja.
O soar das matracas na procissão.
O chicote nas trevas da lembrança.
E eu, criança assustada,
a escolher as palavras certas
para rasgar as sombras com minhas mãos aflitas
e quebrar o cristal onde me serviam o medo.
Expia os teus pecados me diziam,
a mim criança assustada pelas chamas do inferno
que perpetuavam todas as culpas.
Agora tenho a voz estranha aos salmos fúnebres.
Ouço Bach em acordes de incenso,
em cantata e requiem. Esconjuro os sustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011