26.10.06

Houve um ano

Balthus



Houve um ano em que as andorinhas
se esqueceram de partir.
Comovidos os deuses, adiaram
o começo do inverno.
Nesse ano, uma mulher e um homem
se fundiram em barco feito vento
e partiram sem rumo e sem dar notícias:
como se fora de cinza o nome que usaram.
Agora, nenhum horário retarda o êxodo
das últimas andorinhas em direcção ao sol.

Diz-me, meu amor, onde se cruza
a tua sombra com a minha.
Diz-me em que crónica de espanto
te tornaste o marinheiro
que debandou de encontro
ao deslumbramento das manhãs.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

1 comentário:

Aleph Borges disse...

Fulgura nesse poema a grandeza epifanica do amor em Deus... Alexandre Bonafim.