31.10.06

O improviso de viver

Edouard Boubat



Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira 

desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo

o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. 

Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência 

dos momentos em que a madrugada se comove.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

4 comentários:

Anónimo disse...

Se a fotografia de Edouard Boubat me deixava sem palavras, agora encontrei-as. Esta dádiva de escrever com o coração é sua. O prazer ao ler é só meu. Muito obrigado!

Anónimo disse...

Carlinhos

Poesia Portuguesa disse...

Mais uma vez estou aqui a pedir-lhe a sua poesia.
É um prazer partilhar a beleza das suas palavras.
Um abraço carinhoso ;)

Aleph Borges disse...

Graça, é noite alta no Brasil, estou no seu blog fazendo uma roteiro para a aula de amanhã. Esse poema, de contundente lirismo, incendeia meu ser até alto gume do divino. Abraço, amiga.