25.11.06

Conta-se

Jean Dieuzaide


Falava de barcos e naufrágios,
da luz incerta das cidades,
de mulheres de longos e húmidos cabelos.
Cabia em sua boca a mudez dos outros
e, por isso, lhe escorria dos lábios
um visível silêncio.
O mar fascinava-o tanto como a lua,
ou como o cais onde amarrava o barco,
quando o vento exercitava
o seu modo desavindo de lhe afagar o corpo.
Conta-se que as ondas lhe rebentavam nos olhos
sempre que entristecia.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

3 comentários:

Hugo Milhanas Machado disse...

"Cabia em sua boca a mudez dos outros/ e, por isso, lhe escorria dos lábios/ um visível silêncio."

um poema belissímo.
apetece regressar-lhe, citá-lo, escrevê-lo...

HMM

Graça Pires disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Graça Pires disse...

Hugo:
Obrigada pela maneira bonita como comenta os meus poemas. Sensibiliza-me que um rapaz tão jovem goste da minha escrita.
Parabéns pelo seu blog "poema em forma de nuvem", que é de facto original.
GP