2.11.06

Por detrás das estrelas procuro um amigo

Manet



Por detrás das estrelas procuro um amigo que morreu.
O seu passado pressagiava a subversão
e tomava o pulso da esperança.
Era poeta.
Na sua vida havia um muro branco,

onde cada um de nós podia escrever o nome.
Será a morte, passo a passo,
esta asfixia de recordações
que me torna deliberadamente comovida?
São astutos os mortos
com quem me cruzo na memória todos os dias.
Talvez sejam magos da vida que debitam,
ciumentos, a lembrança da eternidade,
num amor não correspondido.
Tudo é efémero longe dos retratos
que guardo, ao lado de pétalas secas
em forma de coração.
Numa fenda da paisagem
escondem-se as gaivotas
cansadas do ruído do mar.

As gaivotas e os poetas.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

3 comentários:

Anónimo disse...

Querida Gracinha como sempre rendi-me à sua sensibilidade, onde me encontro, nos bons e maus momentos. Porque somos amigas!!
Maria de Fátima

Anónimo disse...

Achei lido o escreveu,pois muitas pessoas passam por muitas coisas que não podem lutar por elas e ficam sofrendo a vida toda!

Aleph Borges disse...

Esse poema pertence à grandeza do sublime. Não tenho palavras para expressar a minha admiração por ele. Diante desse texto, somente o silêncio pode desatar a perfeição do que é inaugural, mítico, primevo (essa perfeição do itacto é semente a latejar no fundo de cada palavra dessa bela criação). Não se esqueça, amanhã será dia de celebrar sua poesia, aqui, no Brasil. Onde eu deixei meus comentário, tracei o meu roteiro de leituras. Minhas palavras no seu blog marcam os textos a serem lidos amanhã. Beijão do Alê Bonafim.