10.6.07

Os meus olhos doendo nos dela

Balthus

Sem pressa, formulo a urgência
de sombras inquietas
na neblina do olhar,
como se recuperasse um tempo
tão decisivo como a infância.
Circunscrevo recordações sem voz
e perdem-se-me, nas mãos,
os gestos de menina.
Persigo-lhe a imagem,
ou a sombra dessa imagem.
Os meus olhos doendo nos dela.
O meu rosto medindo, no seu rosto,
toda a intensidade da inocência.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

9 comentários:

lena disse...

Poeta

aqui entro sem presa, essa deixo-a presa ao tempo que há-de vir

senti o olhar, os gesto de menina e prendi-me à tua poesia

a inocência de um olhar que brota bem dedilhado de cada verso teu

encantas Poeta

obrigada por estes momentos


o meu abraço terno

beijinhos

lena

Teresa Durães disse...

gostei imenso deste desenrolar de ternura!

boa tarde

mafalda disse...

Poema belo, belo, de cortar a respiração. Gostava tanto de saber escrever poesia... nem precisava de ser de tanta qualidade como a tua... mas não dá. Aprecio quem escreve, sobretudo quem escreve bem desta maneira, aprecio os escritos, encanto-me com alguns deles, delicio-me. Mas daí a fazer uns versinhos, que fosse, vai um longo e difícil caminho. Isto de se ser poeta não é para quem quer, é para quem sabe (e sente... apesar de eu sentir mas não saber!).

Beijos, Graça.

Graça Pires disse...

Minha amiga Lena, é sempre tão bom partilhar os poemas com quem gosta deles assim,como tu, que ficaste presa à poesia e à inocência de um olhar. Obrigada e um beijo.

Teresa, obrigada pelo desenrolar de ternura... Um beijo.

Mafalda, então? Tu escreves tão bem... Todos temos a nossa maneira de comunicar e felizmente não é igual em toda a gente. Mas se gostas de ler poesia, já estás a ser poeta, reinventando o poema em cada leitura. Um beijo.

Anónimo disse...

As teias difusas e persistentes que a memória tece. Belo!
L.
(Laura)

alice disse...

estas palavras é que são a cura da dor dos olhos, graça. um beijinho.

Graça Pires disse...

Laura, é bom relembrar a infância e a inocência... Obrigada pela visita. Um beijo.

Alice,tens razão. Um beijo.

soledade disse...

Eu diria algo na linha do que disse L. E acrescento que o título do poema (quem é "ela"? este desdobrar de uma consciência que se volta para trás no tempo) me traz à ideia a mágoa linda do "Menina e Moça". Balthus, tantas vezes perverso, também aqui se vela de uma melancolia que nunca tinha visto noutros quadros dele. A combinação do poema com a imagem é excelente.
Escrevi demais :-O Desculpe
Um beijo

Graça Pires disse...

Soledade, bem-haja pelo comentário. Diz bem é o "desdobrar de uma consciência que se volta para trás no tempo", para ela a infância que não volta, para inocência que nunca se recupera.
Um beijo.