7.5.20

Para aminha filha Ana

Elaborado pelo meu irmão José Pires

2.5.20

De cabeça baixa

Monia Merlo


De cabeça baixa, carregada de nevoeiro
como árvores no rigor do frio, ela ouvia
os sinos ao longe e recordava
aquela dor antiga, a mesma que sentira
na hora desalentada da morte da mãe.
Desde então as violetas brancas
emurchecem sempre que as amanha
com as mãos trementes e geladas.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 34

25.4.20

As minhas mãos se dão



Aqui, onde o coração reclama uma pátria melhor,
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.
Tardei a encontrar o exótico perfume,
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
como a luz transfigurada das manhãs.

Graça Pires

20.4.20

Em seara alheia





Já isolei o coração. Lavei os olhos

com sal até sangrar toda a doçura.

Coloquei as mãos numa gaveta de silêncio.

As lágrimas estão em confinamento desde

o primeiro dia. Adiei o medo para quando

necessário.  Adiei tudo o resto, na verdade.

Vestidos novos, beijos, viagens e poemas.

Adiei até os filhos. O amor pelo amor.

Entretanto, nas legendas de um filme

leio que a esperança é uma coisa

perigosa. E no entanto, digo,

no entanto há concertos nas varandas

e gestos novos nascidos como planetas

antes desconhecidos. E no entanto

há rosas desenhadas nos nossos rostos.

Feridos, os nossos rostos, ardendo de dor.

E no entanto, é o abraço das cicatrizes

Que nos salva.



Virgínia do Carmo, 2020

Lido pela autora no sarau poético, no dia 7 de Abril, dia Mundial da Saúde, em homenagem a todos os profissionais de saúde que, com enorme sacrifício estão na linha da frente deste combate que a todos assombra.


13.4.20

Do meu país vos digo


Do meu país vos digo:
Dos aromas de urze e alfazema.
Dos caminhos de rosmaninho e alecrim.
Dos matizes, no verão,
rasando a terra sem sombra
e demandando os rituais
das uvas pisadas no lagar,
ou em bocas abertas à dádiva da colheita.
Do intenso tom de júbilo
que retorna em cada primavera
com a insondável melodia
dos jacarandás rondando as ruas
pela cercadura sombria dos arbustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, p. 47

6.4.20

Um requiem pelos sonhos

©Shutterstock

Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.

Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.

Graça Pires
De A incidência da Luz, p. 13

30.3.20

Um surdo alvoroço




Francesca Woodman

Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 59

23.3.20

Em seara alheia


À DERIVA

O mundo é essa nau em desgoverno
que insisto em prender
em minhas mãos inábeis
como aqueles barcos de papel
que eu lançava na enxurrada
e interceptava na esquina
antes de adernar no córrego sujo

Não, eu não pude com seu
pesado trajeto
sendo arrastado na correnteza febril
da realidade e dos exílios

É esse objeto sem tamanho e sem rumo
que não cabe nos meus olhos
nem conhece o rosto da minha amada,

de onde emergem as perguntas
que nunca saberei responder

Endereço onde moram
todos os abismos

Ronaldo Cagiano
In: O mundo sem explicação, Lisboa: coisas de Ler, 2019, p.52

16.3.20

Memórias de Dulcineia

Tomaz Hipólito

Do teu lugar, da tua casa
te ausentaste.
A fantasia moldando teu perfil.
O sonho ludibriando o tempo.
Foste a noite e a claridade.
Circunscreveste o eixo das trevas
e da mais inesperada luz te rodeaste.
Estranhas se tornavam tuas mãos
quando esgrimias impossibilidades
no ruído dos dias.
Ferido ou ileso foste herói,
foste visionário, foste poeta.
Um rumor de festa te seguia.
Um jogo encantatória te cercava.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, p. 23

9.3.20

Terra firme

Jean Dieuzaide


À noite conheces de cor os portos
onde confundes os presságios com o destino.
No molhe acostam os navios
que trazem marinheiros sedentos de terra firme
e de outras sedes rompendo suas águas.
E tu, que conheces de cor todos os portos,
deixas que o corpo se ajuste
ao erótico desejo dos olhares.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 40

2.3.20

De muito longe



Conta-se que há laranjais que rebentam
ao pé dos poços deixando um aroma de pétalas
branquíssimas no bordo dos cântaros.
Todos os dias chegam ali mulheres
vindas de muito longe com punhais de luz
por dentro do olhar e um ramo de oliveira
entrelaçado nos dedos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 26

24.2.20

Cigana com criança

Amedeo Modigliani


Sou uma mulher
que ninguém chama pelo nome.

Hão-de nomear-me filha
do vento e dos caminhos. 
Hão-de ver asas em meus dedos
quando danço.

Mas a nenhum lugar pertenço
e intrusa me sinto do futuro
adivinhado em minhas mãos.

Quando embalo o meu filho
antevejo um estranhamento
gravado em sua sina
e um brasido de fogueira em suas veias.

Acoitarei na água da retina
a linha inacabada dos seus passos.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 25  

17.2.20

A vertigem dos temporais



Pelo ângulo interior dos séculos
uma lâmina de sangue golpeou
as pedras onde explodiam as águas.
Agora a vertigem dos temporais
habita todos os lugares do mundo.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 49

10.2.20

Em seara alheia


era uma rapariga de verão

era uma rapariga de verão. 
como beijá-la neste poema
de chuva?


João de Mancelos
In: Luzes distantes, vozes perdidas. Lisboa: Edições Colibri, 2019, p. 23

3.2.20

Cercada de mar

Manuel Fazenda Lourenço

Cercada de mar roço a boca
em sombras que reconheço.
Ressoa no meu corpo a rebentação
violenta das águas estremecendo
nas entranhas como um incêndio secreto.
E procuro recordar o meu primeiro amor.
Contudo só um rosto me perturba:
o único onde a intempérie me salva.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 26

27.1.20

Como um cerco de presságios


Van Gogh

Vem do rio um vento interminável, como um cerco
de presságios que nos gela nos ombros.
As cobras enroscam-se nas pedras,
sobressaltadas com a agitação da terra.
As abelhas escondem-se no regato das chuvas
esperando que as colmeias as procurem.
O chão arde em nossos passos, vítimas
e culpados do desvario dos caminhos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 57

20.1.20

A ondulação intensa nos meus olhos

Andrey Vahrushew 
     

                                                                     À minha mãe com amor, in memoriam


Tenho um caule de sangue
espetado na garganta
e os dedos tremem-me demasiado.
Vestida de negro, repouso
sob a árvore mais frondosa
com as nervuras das folhas
a sulcar-me a carne.
A voz declinante do tempo
envolve, imprecisa,
a ondulação intensa nos meus olhos.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 44

13.1.20

Em seara alheia


99.

Às vezes a vida é uma mulher
a chegar a casa
depois de um dia de trabalho,
lábios sem cor, despenteada,
sacos de supermercado, 
a roupa em desalinho,
os sapatos na mão,
não, os sapatos nos pés,
não se atreve a tanto, 
a sonhar com descalçar os sapatos.
Uma mulher que
sem acender as luzes da casa,
olhos de gato no escuro, 
pode-se viver nos olhos de um gato, 
abre armários, gavetas, arruma o mundo,
o mundo pode ser um apartamento
com duas assoalhadas e as plantas por regar,
amanhã, amanhã sem falta rega as plantas.
Uma mulher que sem jantar,
lavou os dentes, não lavou a cara,
se enfia numa cama malfeita
puxou as orelhas à cama,
se a mãe visse isto puxava-lhe
as orelhas como se fosse uma cama.
Uma mulher sem ninguém,
a vida é só a vida,
a quem dizer boa noite meu amor.

Raquel Serejo Martins
In: Plantas de interior. Braga: Poética, 2019, p. 149

8.1.20

Nas arestas do instante

Solange Firmino


A correnteza da água
nas margens mais agrestes
mancha de lodo os meus dedos aflitos
com o estremecimento dos búzios.
Contudo, amo o equilíbrio dos cactos
presos às areias. Antevejo neles
a quietude da maresia na véspera
dos vendavais quando, nas arestas
do instante, me fere a ausência de uma ilha.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 44

2.1.20

Zombaria

Cristin Atria


Podem zombar de nós aqueles que não gritam nem choram 
nem imploram à vida a fé que já perderam. 
Podem inventar teorias sobre a sorte 
e rezar a um deus qualquer 
como autómatos da fria engrenagem deste tempo. 
Podem ostentar nos dedos os anéis da indiferença 
e usar em pleno peito os adereços inúteis da bondade. 
Podem zombar de nós. 
Trazemos a transgressão perto do sangue 
e um vendaval na voz 
a bradar o sonho desmedido dos poetas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 32

17.12.19

Interacção Fraterna de Natal


A convite da Rosélia Bezerra aqui deixo a minha participação nesta fraterna interacção de Natal. 

A minha Noite de Natal é um encontro da Família. 
O conforto e a alegria que isso nos proporciona enche de amor os nossos corações.

A quantos gostam de ler poesia neste meu espaço, desejo tudo de bom. E digo:


Posso escolher um salmo, ou um poema,
ou um coro de anjos para dizer Natal.
Com uma estrela a oriente do olhar em sobressalto.
Com um presépio escondido por dentro da infância.
Com a memória do silêncio agitando no coração noites antigas. 

Graça Pires, Natal de 2019



Quero palavras brancas como asas de anjos para convocar, neste Natal, a promessa de uma Luz de Paz e Amor.
Quero para todos um ano de 2020 MELHOR.

Até  para o ano. 

9.12.19

A respiração do poema

Federica  Erra


As palavras trancadas no labirinto da boca.
A respiração do poema impondo o glossário
nas veias, como uma queixa.
Os meus versos rompendo os pensamentos
que nascem na alma solitária dos homens
porque um útero de argila
moldou os sonhos, como letras,
em frente do meu nome.

Graça Pires
De Labirintos, p. 29

2.12.19

Em seara alheia



Quero dizer-vos que estou aqui
e me pergunto de onde venho,
como cheguei,
quem me pegou na mão e disse:
Vem e fala, vem e escreve.
E eu falei e eu escrevi.
Depois foi só esperar
que a voz soubesse
o recado das ondas
e as palavras fossem o trilho
onde toda a aventura é uma campina aberta
à espera da semente que a fecunde.
Não sei se sou a terra ou sou o grão,
se sou a mão ou o arado.
Sei que vou continuar na voz do vento,
no vaivém das marés,
sem perguntar se vasta é a planície,
quem me espera na outra face da Lua.
Ninguém me deu o livro das verdades,
mas eu vou.



Licínia Quitério
In: Travessia. Braga: Poética, 2019, p. 62

25.11.19

Escrevemos mar



Derramamento de petróleo atingiu dezenas de praias brasileiras


Escrevemos mar como se fosse a palavra
única que nos circunda a fala.
Quando éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E havia traineiras em que os pescadores manchados
de sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado adeus ao apelo dos corais.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2019, p. 45

18.11.19

Mulher com lenço

Amedeo Modigliani

Guardo, ao lado das jóias,
uma colecção de lenços de seda.
Diariamente, em frente do espelho,
ponho um, e outro, e outro,
até que uma subtil variação de luz
se detenha nos meus dedos,
antecipando o adorno do colo.

Mas, no tumulto inconfidente
das mãos, há outro gesto,
mais delicado, que assume
sinais de sedução,
a prever a nudeza do corpo.

E deixo que se espalhem
pela casa os segredos imperfeitos.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 17

11.11.19

O navio não voltou

Jean Dieuzaide


O navio não voltou – gritaram as mulheres.
O arpão dos gemidos sangrando suas bocas.
Foi o vento – disseram os homens
e desenharam na areia o madeiro e a vela.
Foi o escuro – falaram os meninos.
Tinham sonhado toda a noite com piratas.
E o velho sábio, antigo como as tempestades,
que sabia de cor a braveza dos marinheiros,
há muito que avisara: ninguém se salva
de um naufrágio com a bagagem às costas.(1)

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 24

(1) Séneca - Cartas a Lúcio

4.11.19

Em seara alheia


Há mulheres que falam silêncio. Enchem a vida como um 
batel de sonhos. Se lhes perguntam se querem falar do que
arrastam, respondem que é das gaivotas que preferem falar.
Trocam a terra firme pelo baloiçar das águas. Não têm
âncoras nos barcos, pois é com as mãos e a alma
que querem agarrar as amarras do cais.
Largam abrigos sem consultar as bússolas e os astrolábios
dos navegadores. Não mareiam, deslizam, Não cismam
no que não têm, antes observam as mãos abertas
e encontram-nas vestidas de sonhos.
Aconselham-se com as marés e escutam os peixes
que vêm à tona. Vestem-se para uma festa todas as noites,
mesmo que as noites não se abram ao vento,
Adormecem em almofadas de penas.
Os seus corações não precisam de leme.

Lília Tavares
In: Bailarinas de corda. Braga: Poética, 2019, p. 12 

28.10.19

Marie

Amedeo Modigliani


Oculto no olhar um débil tumulto.
As veredas da infância golpeiam-me
nas pálpebras a tua morte, pai.

Como aves em queda no ensaio do voo.
Como passos sublevados correndo pela noite.
Como os dias em que enrolo
no pescoço o meu cachecol mais negro,
a exprimir a dor vertida sobre o rosto.

O laço branco que uso no cabelo é um aceno
em minhas mãos tão desamparadas das tuas.

Graça Pires
De Fui quase todas as Mulheres de Modigliani, 2017, p. 39

21.10.19

Há um ritual de espera nos teus braços

Oleg Oprisco


Quando os barcos singram lentamente
e as gaivotas descansam nas dunas
vigiando o vento, há um ritual de espera
nos teus braços, ausentes de abraços.
Como se a vida te destinasse,
em cada praia, uma solidão maior.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 41

14.10.19

A sedução da fuga



Seguimos pela noite indiferentes
a todos os ruídos que rebentam
o rigor do silêncio.
Temos nos punhos a navalha afiada
do tempo rasgando diante de nós
o túnel da eternidade.
Vamos até onde nos leve a sedução da fuga.
Queremos avistar o destino das aves
que trazem a luz das auroras riscada em suas penas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p 54

7.10.19

Em seara alheia



Sou Valquíria

Sou valquíria de cavalo à solta
Sem rédeas 
Sem esporas
Pégaso, meu cavalo, sobrevoou comigo todos os rincões
da floresta, seguindo teu rasto.
A atmosfera, grávida de ti, chamava-me.
De lança, sedenta de amor, incitava Pégaso a voar como um louco.
E à medida que nos aproximávamos dos teus sinais,
mais me distanciava de ti.
Por onde te escondes, doce guerreiro,
que foges das lanças do amor?
Um dia Pégaso descobrir-te-á e, nesse dia, vencerei a batalha.

Carmo Baião
In: Dançam corpos em almas inquietas. Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2019, p. 9