21.10.07

Um espaço rival da minha sombra

Willy Ronis

Inesperadamente indago um suposto dia
em que o assombro ganhou asas de albatroz
no meu corpo e voou, a grande altura,
para o sul de um contexto sem remédio.
Ouço a exuberância do prazer
repleta de nocturnos muros,
dissimulados no rito corporal
de uma solidão indiferente a todas as consequências
e espreito o teu rosto por cima do ruído da cidade.
As minhas pernas lentas vincam, no chão,
um espaço rival da minha sombra,
e um aceno indicia todos os sítios,
desertos de palavras onde perigosamente te procuro.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.10.07

A fome



Lidar as mais indignadas palavras,
e deixá-las em sangue,
a coberto de qualquer expiação.
A fome é um insulto, longamente
desenhado rente à boca.
O negativo que o peso da história nos legou.
Em nome dela, inventamos, desesperadamente,
uns deuses de estimação, a quem culpamos
dos desacertos do mundo.
E dormimos tranquilos, sem lamentarmos
a nossa própria indiferença.
Os nossos protestos não chegam, sequer,
a ser palavras de ordem para uso caseiro.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

14.10.07

Contra o peito da noite

Christian Hang


Contra o peito da noite me aconchego
sem medo da manhã.
Sei que não sou rival do vento,
nem é minha irmã a lua cheia.
Urgente de viver, simulo o futuro,
como quem saboreia a pureza
no limiar do pecado.
Deitada sobre a terra gravo,
nas paredes côncavas do firmamento,
uma palavra de amor recém-nascida.
E, nem o mais leve movimento das mãos,
abertas sobre a fantasia,
mostrará a dança das sílabas sobre a boca,
onde existe um barco de vidro gritando por um rio.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

10.10.07

A ninguém revelaste o teu nome



Disfarçado na melancolia das trevas,
a ninguém revelaste teu nome.
Eras um vulto, em primeiro plano,
tão indeciso como um pássaro.
Vinhas carregado de remorsos e paixões.
Cicatrizes antigas, denunciaram teu retorno.
Uma mulher rememorou, em teu perfil,
quantos barcos avistou pela proa do olhar.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

8.10.07

O debandar das andorinhas

Stephen Alvarez


Quando o inverno se anuncia,
com o debandar das primeiras andorinhas,
empilhamos a lenha no telheiro.
O frio há-de devassar, sem explicação,
o cheiro da casa e a terra,
impiedosamente alagada,
ocultará a seiva dos pomares.
Junto à lareira, buscarei o teu olhar
para aquecer as mãos.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

6.10.07

Um lugar de sobrevivência

Marc Chagal

Apesar de tudo, a noite
continua a ser um lugar de sobrevivência,
a contraluz sensual de todas as rotinas,
um barco acostado ao largo dos astros.
Há prosas de fascínio a assinalar improvisos
nas pálpebras da manhã
quando, à mercê do acaso,
um abraço é o secreto anúncio de uma festa.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

3.10.07

A rotação da lua nos meus olhos

Andre Kertesz


Na hora em que o poente escurece as minhas pálpebras,
só um secreto rumor me diz, que o meu corpo principia
na inclinação do silêncio: íntimo, profundo, confissão
de si próprio, espaço onde, desamparadas, as pernas
se desinibem e aguardam, inquietas, a rotação da lua
nos meus olhos.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

1.10.07

Em seara alheia



NASCIMENTO DA MÚSICA

Uma das mais recuadas imagens dos meus dias é uma mulher a cantar. Com a sua voz antiquíssima e branca, aquela mulher, à distância de mais de cinquenta anos, continua a embalar-me o coração. As palavras eram de um romance popular, sumarentas, cheias de sol; falavam de amor e de morte, de paz e de guerra, de coisas que não sabia exactamente o que fossem, mas que permaneciam em mim como pequenos nós de sombra ou breves manchas luminosas. O tecido da vida deveria ter a transparência daquelas palavras, já que o pulsar do universo não podia deixar de ser idêntico àquele ritmo amplo e seguro, em perpétua expansão.
A esta imagem, transbordante de ser, não tardaria a juntar-se outra mais secreta: a música do harmónio. Numa aldeia da Beira Baixa, provavelmente em julho ou agosto,quando a força da canícula entra até pelas frestas mais estreitas da noite e nos impede de dormir, uma melodia sobe no clarão da lua, e inesperadamente acaricia o corpo pequeno, intranquilo e solitário que era então o meu.
Acabo de falar do nascimento da poesia e da música, como se ambas jorrassem da mesma fonte; acabo de falar da arte do desejo, embora só alguns anos mais tarde viesse a pedir àquelas águas o que outros pedem ao amor: que me matasse a sede de alegria.

Eugénio de Andrade

In Poesia e Prosa. Lisboa, Círculo de Leitores, 1987

28.9.07

Filho a filho se doendo

Gertrude Kasebier

Há momentos
em que uma orfandade,
esquiva e indefesa,
se me cola ao sangue,
como se me habituasse
às sombras.
A meia-luz que envolve
meus ombros percorre,
longamente, os gestos
das mulheres, intrusas de si próprias,
filho a filho se doendo.
Sobre o meu corpo paira
um insensato rumor que torna
vertical a minha sombra.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

23.9.07

É Outono

Georges Seurat

Faço um barco de papel e embarco, rumo às cenas
baralhadas de um sonho qualquer.
É outono e não sei dizer quem sou ou o que quero ser.
Os meus olhos são rios de palavras afogadas,
onde só posso ver a minha imagem disfarçada de mim.
Percorro então, uma a uma, as horas por viver
e descubro um arco-íris na minha boca
a gritar uma insónia íntima.

Dentro do meu sono ainda me perturba
a tua imagem, miragem do meu deserto
vencido, demora da minha espera.
Era feito de mármore o silêncio
dos teus olhos e por ele escorriam
as palavras que eu dizia, como se fossem água.
Esse silêncio doeu na minha voz,
quando as minhas mãos violaram os gestos
e, entre nós, ficou intacto o diálogo.
Sei agora a cor exacta do vinho
com que brindei à primavera em nome
da presença que tu eras e hoje, ao recordar-te,
sublinhei o sentido dos sonhos e do vento.
Foi o tempo em que a neve presente no teu rosto
gelou os meus lábios até à transparência.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

20.9.07

O olhar vagabundo

August Sander

Tão náufrago como se fora um órfão,
fixou no vazio o olhar vagabundo.
Um estremecimento no seu pescoço,
manchado de juventude,
fez ecoar solitários ventos
sobre os ombros de um destino
ébrio de luz.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.9.07

Próximo de Setembro



Próximo do rosto, partilhamos
o sopro e as sílabas de setembro,
quando as cores monótonas
atingem o delírio da mudança
como uma febre alucinante.
Nos nossos lábios,
o naufrágio da voz,
onde cabe inteiro
o soluçar de um corpo
grávido de ausência.
Nenhum regaço se quebra
no abraço ilícito das sementes,
se o tempo das vindimas se aproxima
e, em todos os recantos,
interiorizamos a revolta
como um húmus imprevisto.

Graça Pires
De Poemas, 1990

14.9.07

A família

Paul Strand

Refazemos o dia, pacientemente,
e mastigamos as raízes de um compromisso
quotidiano e social.
Temos em comum o coração
e sabemos que o mesmo fio de sangue
nos tece o equilíbrio.
Por isso modelamos o itinerário de um conforto
partilhado, como se, desse modo, nos fosse
prorrogada a morte e ficássemos cúmplices,
uns dos outros, na teia da vida.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

11.9.07

Em lábios imperfeitos

Manuel Fazenda Lourenço
Com efeitos coloridos
no balancear das pernas
cobri meus lábios de cinza.
Talvez seja necessário
permanecer em silêncio,
ou reinventar palavras
que denunciem uma suspeita
indecifrável, distante, intransponível.
Falo de todos os crepúsculos
carregados de presságios
e do ciúme da palavra
em lábios imperfeitos.
Falo da solidão do olhar,
quando o corpo apenas sente
a coragem que a alma lhe consente.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

9.9.07

Estranhas cumplicidades

Ansel Adams

Nenhum nome rasga o hálito da escrita.
Nenhum poema nasce de um cansaço submisso.
Corre em minha língua um rio transtornado
e sobe-me, à altura do peito, a raíz de caligrafias
ocultas. Digam-me: em que areal escondem,
as gaivotas, o desterro de seus voos ?
Há sempre uma história ligada à deriva dos navios,
que anuncia a aprendizagem de estranhas cumplicidades.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

6.9.07

Vamos falar de poesia



Nunca te procurei. Não te procuro, tão indolente que sou. E, no entanto, acabas sempre por vir: de mansinho, insidiosa... Ó terrível desventura que salva! Em mim te aconchegas com teu tropel de vozes: lúcida desrazão que acalma, êxtase do que pressinto. E vens, misto de assombro e agonia, estranho dizer, talvez poesia.

Victor Oliveira Mateus
In Pelo deserto as minhas mãos. Sassoeiros: Coisas de Ler, 2004

4.9.07

Castelos encantados



Que podemos fazer, se as nuvens
tecem no azul castelos encantados?
Ou serão as sombras dos barcos sem rota,
esperando os marinheiros perdidos
e desvairados do apelo do mar?
Que fazer quando, de olhar assombrado,
é infrutífera qualquer tentativa
de suspeitar dos sentidos?


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

1.9.07

Uma armadilha no peito

Paul Strand


Em madrugadas, vagamente obscuras,
descrevo sombras longínquas,
que perseguem a minha sombra.
Os mais premonitórios sulcos nocturnos
brilham-me nos pés.
Uma armadilha no peito relembra
a exacta adolescência das pálpebras,
quando exibia, no sorriso,
a luz da primavera.
Era menina e havia nos meus olhos tanta fé
que, nem o céu nem o mar excediam,
em grandeza, o meu olhar.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

30.8.07

Um rubor de malvas floridas



Com uma perturbação herdada das sombras,
a luz excessiva de agosto adormeceu nos olhos
das aves fatigadas pela travessia das manhãs.
É possível improvisar, agora, a nesga de cor
que lhes define as asas: um rubor de malvas
floridas, deslumbrando o sol.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

27.8.07

Em seara alheia


Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsenquente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira
in Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990

23.8.07

Madrugada de pássaros

G. Braque

Madrugada de pássaros, nos disseram.
E falavam do alvoroço matinal do silêncio,
perseguindo a luz.
Era verão. À roda da cintura,
pendurávamos o musgo da manhã
e íamos, de lábios molhados, regar o pomar.
Os teus olhos ardendo no meu corpo.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

18.8.07

Uma mulher

Ansel Adams
Um resto de Agosto.
Uma mulher conhece
o caminho da fonte
porque o seu corpo
é um desvio do mar.
Talvez ela nos mostre
um céu líquido
por detrás dos seus ombros.
Não só as mãos morrem
fatigadas de desejo.
Há cascatas de pedra
nos olhos da memória.


Graça Pires
De Poemas, 1990

14.8.07

A nitidez do tempo

Alex Jawdokimov

A quem anunciarei a súbita clareira,
onde a lua do meio-dia
anula a morte das aves nocturnas?
Há uma cilada de palavras a envolver a volúpia,
no vértice de um sexo quase puro.
A vigília do poema acende-se numa linguagem única
e a forma adejante das letras traça ficções de solidão
nas minhas veias, por onde circulam ódios e paixões.
Qualquer eternidade me aguarda,
porque ouço a nitidez do tempo retocando o meu olhar.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

11.8.07

Orfeu Rebelde

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MIGUEL TORGA
12.08.1907-12.08.2007


Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Miguel Torga
In Orfeu Rebelde, Coimbra, 1970

9.8.07

Encho os olhos de mar

Michael F. Wood
Encho os olhos de mar
e abro, de par em par,
os meus sentidos,
para deixar passar
todos os barcos perdidos.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

6.8.07

A memória das mãos



Com luz e sombra se desenha
a memória das mãos :
Primordial labirinto dos anjos.
Receptáculo onde o tempo divino é perene
e se manobram os pormenores biográficos
dos que recusam a morte.
Dédalo estava enganado.
Quaisquer asas começam rente ao sol.
O pressentimento do voo tem raízes no fogo.
Um pássaro reflecte nos olhos o cume dos sonhos
e respira luz, à tangente da noite.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

2.8.07

O verão

Vitali

Agosto aqueceu, sem aviso, a margem dos dias.
Por isso, não dizemos o quebranto do sol
sem silabar a ânfora de água fresca,
ou reclamar o sazonal fruto
que anuncia nos lábios uma mitigada sede.
Nenhum hálito enfuna as velas do prazer,
nem inventa o vento que as motiva.
Descoberta a praia onde o corpo se aquenta,
sobeja um mar, no litoral da voz,
para navegar o verbo e incluir, no texto,
as palavras que servem para dizer
trigo, árvore, asa, nascente,
e soletrá-las sem profanar a sombra
que se desprende das pálpebras
daqueles que, à lembrança de um abraço,
se enternecem.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

30.7.07

Até à perturbação

Ansel Adams

Em noites de verão,
povoadas de sombras,
não ouso confessar a solidão.
O tempo altera na voz o destino da luz.
Os sons familiares tornam-se sombrios.
O luar, humidamente cheio,
encobre a raiva,
na boca agitada do poema.
A imagem invertida da lua,
a ferir as mãos
e a desmesurar as palavras
arrasta-me o pensamento
até à perturbação.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

26.7.07

Amanhecer

Pascal Renoux


Quisera perseguir o ângulo mais nítido do olhar
e encher de pressentimentos felizes
o exacto momento, em que a noite
adia um movimento de asas e se faz luz,
amando, maravilhada, as múltiplas
penumbras da paisagem.
Mas, apenas o vento permanece para adivinhar,
sem alarido, a textura da vertigem, em que se
movem as angústias de um azul exposto
à velada brisa da manhã.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

23.7.07

Uma inesperada tristeza

Gérad Castello Lopes

No verão, as mulheres caiam as casas e as memórias.
De branco : como as estevas e a lua cheia.
Os seus anseios se espalham, com a brisa,
na quentura das noites.
Por isso, conservam no olhar
uma inesperada tristeza.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

19.7.07

Ao sol de julho

Pedro Alvarez

Ao sol de julho dançámos um tango.
Subia da terra um aroma estonteante.
Sem receio de levantar os olhos,
tocámo-nos maravilhados.
Um húmido musgo cobria-nos as pernas,
enquanto a luz se bifurcava nas pedras,
e rebentava nas ondas,
e nos estremecia nas veias.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

16.7.07

Em seara alheia


A CONSTRUÇÃO DO POEMA
A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.

Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.

Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restablece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.


António Ramos Rosa
In Volante verde. Lisboa : Moraes, 1986

13.7.07

Como um enigma

Édouard Boubat
Rasgo, dentro de mim,
imagens desfocadas
com que encenei obsessões.
Uma linha de luz subverte
a penumbra do olhar,
como um enigma,
ou um remorso sem retorno:
um feitiço quebrado reinventando culpas,
caixa de pandora dispersando sombras.
Exponho-me no disfarce transparente
da linguagem, para que a intimidade
se insinue nos meus dedos.
Apodero-me da malícia das sílabas
a entreter a língua.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

11.7.07

Na lisura da areia

Henri Cartier-Bresson

De mãos a arder, risco uma cruz
na lisura da areia, para confessar
o remoto exercício da tristeza.
Já não sei, se são de asas ou de velas,
os sons que aportam meus ouvidos.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

10.7.07

Na entrada porosa da noite

Simon Tysko


Na entrada porosa da noite,
uma canção de embalar reconduz-me à inocência,
pela mão de qualquer encantamento.
Um negro perfume exala dos meus cabelos,
ateando-me, na cara, a remissão de todas as culpas.
Sou uma criança receosa
que salta um muro, denso de heras
e procura, por sombras invisíveis,
o caminho de casa.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

9.7.07

Em seara alheia


Ambição

Desenhar:
de um pássaro,
o vinco do vôo
no azul.

Sônia Barros
In Mezzo Vôo, São Paulo: Nankin, 2007

8.7.07

Para dizer trigo

Jean Dieuzaide


No fim da primavera, há homens que enchem
as mãos de terra para dizer trigo.
Lendas em desuso esquivam-se-lhes da voz.
No interior da fome, reconstroem a boca,
recuperando todas as expressões de indignação
e raiva. Nas suas queixas, hibernam os deuses
que lhes teceram a intriga do destino: tão efémeros
que resvalam nas palavras que omitem.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

7.7.07

É sempre em julho

John Dunn

Foi em julho, que bandos e bandos de gaivotas,
planaram sobre o olhar de tua mãe,
para que ao nascer, herdasses a secreta
violência das marés.
Agora, é sempre em julho que, dos teus olhos,
se avista um oceano inteiro,
enquanto um navio te cresce, perfeito,
sobre os lábios, soletrando íntimas paragens.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

21.6.07

Para tornar legível a emoção

Édouard Boubat

Agora, que uma luz difusa me fascina
retenho a idade em que não ousava
fazer do coração um lugar de conflito.
Escoa-se, de meus lábios,
sem aviso prévio,
um excessivo odor a maresia,
como se o verão atasse em meu pescoço
a sombra das dunas e todos os ventos
afugentassem a inevitabilidade da morte.
É de musgo, a vertigem
onde demoro as mãos,
para tornar legível a emoção.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

20.6.07

A cor do entardecer

Manuel Fazenda Lourenço

Planto urzes brancas
em redor do caminho.
No começo do verão,
será tão intensa
a cor do entardecer,
que os frutos hão-de devorar-me
a boca, para conter a sede.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

15.6.07

Repara


Para o meu filho Pedro

Senta-te perto de mim, meu filhoNão tenho a tua idade. Eu sei.
Também já tive tanta pressa
de desafiar o vento.
Repara :
não há ninguém à entrada da noite.
Deixa que, do teu peito,
se avistem as estrelas.
e arde numa delas. Arde.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

14.6.07

Quem sabe



As ruas têm anjos escuros, ocultos na expressão
das mulheres com ancas de fogo.
Quem sabe, a tristeza seja o rumo dos sonhos,
pesando sobre os olhos, como máscaras
e haja amoras maduras na idade da noite.
Quem sabe, seja a lua a hierofania
com que deuses e demónios preparam
o banquete predilecto dos que amam,
para que os seus corpos se vistam de malícia.
Pouco sei do vocabulário onde se confundem
o delito e a ascese dos encontros marcados.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

12.6.07

Vieram os pássaros

Bates Littlehales

Vieram os pássaros, como um poema,
em louca cavalgada por paredes de luz.
Eu ouvi um tumulto de asas.
Ou era a minha própria voz,
enrouquecida pela sede?
Não posso aquietar a boca,
porque me ardem nos pulsos
os escombros de nomes interditos
e o orvalho de meus olhos seca-me a garganta.
Os pássaros, eu sei, voltaram,
e trazem no bico as nascentes do sul.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

11.6.07

Em seara alheia



OPUS 133

Escreveu-me cartas. Enviou-me
uma roldana de ferro
daquelas que se usam para tirar
água dos poços. Enrolou-lhe um poema
em vez da corda que tem de
suster o balde. Podes falar -
-me de ti: quando estou cansado
eu sou um bom ouvinte.

João Miguel Fernandes Jorge
In Não é certo este dizer. Lisboa, Presença 1997

10.6.07

Os meus olhos doendo nos dela

Balthus

Sem pressa, formulo a urgência
de sombras inquietas
na neblina do olhar,
como se recuperasse um tempo
tão decisivo como a infância.
Circunscrevo recordações sem voz
e perdem-se-me, nas mãos,
os gestos de menina.
Persigo-lhe a imagem,
ou a sombra dessa imagem.
Os meus olhos doendo nos dela.
O meu rosto medindo, no seu rosto,
toda a intensidade da inocência.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

6.6.07

Vamos falar de poesia



A fascinação pela poesia tem sido, até hoje, uma das constantes da situação humana. Seria, contudo, um erro supor por detrás dessa fascinação um sentido e uma significação sem ambiguidade. O amor pela poesia, como todo o amor, é a história dum equívoco. Para a maioria dos homens o convívio com a poesia é a forma simples de ter ao alcance das mãos um mundo cómodo, mais tranquilo que o mundo de todos os dias, ou então a maneira de se alienarem num universo brilhante e raro, equivalente do sonho e do desejo. Pérola de imagens segregada pelo entusiasmo, o terror ou a esperança, a poesia oferece a cada homem o céu e o inferno portáteis de que precisam para iludir a necessidade de buscar no inferno real o céu possível. O amor que os homens lhe manifestam é esse amor aos céus ou infernos particulares, refinamento de um egoísmo inalterável. Adorno ou cócega da alma a poesia suscita em todos os homens, nem que seja uma só vez na vida, um começo de metamorfose semelhante à do autêntico amor, mas é raro que esse instante seja outra coisa do que a promoção de um último egoísmo. É mais a exaltação do mais radical dos nossos desejos que a sua destruição, a morte do «eu» e a ressurreição no «outro» de todos os amores reais. Amando na poesia o pior ou o melhor do que se é, vive-se a ilusão de um amor que não é senão o confortável amor de nós. É desta espécie o entusiasmo e a fascinação que a poesia exerce sobre o comum dos homens, quer dizer sobre todos os homens, pois ninguém pode supor-se permanentemente ao abrigo de ser como o comum dos homens [...].


Eduardo Lourenço
In Tempo e Poesia. Lisboa, Relógio d'Água 1987

5.6.07

Uma ilha escondida na memória

Ansel Adams

Rodeada de mar, convoco o límpido diálogo
dos abismos, para gritar, com Ulisses,
o desejo de ser livre e mortal.
Havia , assim o dizem, uma tempestade em sua boca.
As sereias tomavam-lhe o pulso dos sentidos,
como sulcos de aves no contorno da luz.
A música das marés enfurecia seu sexo.
Contra os rochedos, morriam as gaivotas
enlouquecidas de prazer.
Mas, os deuses fixaram-se no litoral da eternidade,
para lhe indicarem o caminho da morte,
porque ele era, apenas, um homem,
com uma ilha escondida na memória.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

4.6.07

Em seara alheia


Antigamente havia sempre aquela música
tu sabes. Era a música feita à beira da seara
o cântico da sede e das ceifeiras. E nosso
era o direito a entrar na casa onde
tínhamos o fresco dos lençóis, o púcaro

de barro de água fresca, o livro de
palavras feitas verso, o gato persa, o ruído
que provoca o silêncio quando excessivo
a um ouvido surdo, uma maçã de
estio cujo sumo escorre sobre o peito

se trincamos a polpa e entre os dentes
se ilumina um sentido, entre os
dedos um frémito súbito se instala.
Porque a brisa nem sempre é um rumor
às vezes é também parte de um

verso. Antigamente havia sempre a
música do sono que chegava sem pressa e
sem vagar, porque tudo acontecia nessa casa.
Lá dentro havia o corpo à sombra espessa.


Nuno de Figueiredo
In Amargas Cores do Tempo. V. N. Famalicão: Quasi, 2006

3.6.07

Era o tempo das colheitas

Manuel Alvarez Bravo
Era o tempo das colheitas.
Coroada de silvas, uma mulher
dançava, nua, no meio do trigo.
Tão líquida, a luz, contornava-lhe o olhar,
num movimento lento, quase discreto,
como se lhe pusesse, nos olhos,
o improvisado voo das estrelas.
Nunca se soube o que lhe aconteceu.
Mas, às vezes, de noite, ainda um rumor
de solidão se confunde com o vento.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.6.07

Conjugar afectos

Menez
Regresso ao modo e ao tempo
de conjugar afectos por instinto.
Distorço a forma, do lado controverso dos fonemas
e não me excluo das palavras mais ousadas,
ou inesperadamente sóbrias,
denunciando vertigens e sossegos.

Nos meus olhos prevalece a morfologia íntima
dos nomes que revestem a garganta dos amantes
quando desatam o silêncio no contorno das bocas.
No meu peito cresce um poema desmedido, peregrino,
que pode ser um rosto, ou uma fonte,
ou, apenas, um barco que se afasta.
Sublinho, então, deliberadamente, as sílabas
do meu nome em tudo quanto leio.
Um vazio de jade molda, em mim, um útero
que se auto-destrói, como uma dádiva
a ignoradas divindades.
Estou a oriente do porvir
e tenho, amarrada aos pulsos,
a disponibilidade dos pontos cardeais.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997