10.7.15

Em seara alheia



As palavras asfixiadas,
as mãos irrequietas,
tremem os dedos com medo do som perdido.

Tremo temendo-me.

Quero a libertação,
abraçar as histórias por contar

Teresa Durães
In: Teixo Mulher. Lisboa: Chiado Editora, 2015, p. 40

3.7.15

Todas as memórias

Dorothea Lange
                                                           

                                                                 Para o Manel
Encostado à amurada de um navio
recordas viagens inacabadas.
Vêm de muito longe todas as memórias.
Eras Ismael e amavas a baleia branca.
Quando entraste na baleeira
tinhas uma dor derramada no peito.
Querias apenas vê-la de perto.
Tão perto que não te importavas de morrer.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

25.6.15

Regresso























Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Graça Pires
De Poemas, 1990

15.6.15

Brinca à beira-mar

                                                           
                    
                                                      Para o meu filho Pedro

Recua no tempo.
Ajusta a areia aos teus dedos de criança.
Brinca à beira-mar, o teu espaço mais cúmplice.
Já sobre ti rolam as algas e tu, de olhos
fechados, reténs esse prazer apetecido.
As conchas vêm brincar contigo.
Falam do sussurro dos peixes escondidos
nas ervas marinhas, da ancoragem dos barcos
e da lisura das quilhas submersas.
Um bando de pássaros abre-te no peito
um estuário onde as marés se abraçam.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

7.6.15

Em seara alheia



XV


Este silêncio que à noite se infiltra como presença 
há muito esperada. Este silêncio que a brisa 
aconchega e pelos claustros sobrevoa o negrume 
da vida. É um bater de asas nas copas das árvores, 
uma doçura a escorrer pelas cornijas 
tão pelo tempo esbeiçadas 
e é também o reflexo da minha sede. 
Uma sede sem limites nem fim e onde uma ânsia 
de Amor me antecipa visões e êxtases. 
Este é o silêncio que sempre quis, 
aquele que à noite atravessa 
corredores e celas desenhando nas lajes 
as minhas Moradas - caminhos que nunca cedo, 
como se num antiquíssimo sonho uma nítida mão 
a mim me salvasse.
                                          
Victor Oliveira Mateus
In: Negro Marfim. Fafe: Labirinto, 2014, p. 29

31.5.15

Logro

Walker Evans

Como se tivessem aves afogadas no olhar, 
os meninos desenham com cinza 
as flores do jardim. 
Cresceram. Os berlindes perderam a cor. 
As fadas que lhes embalavam o sono 
desapareceram dos livros. 
Os navios dos piratas seguiram outros rumos. 
Um fuso imaginário alterou certeiro 
o pulsar dos segundos no lastro dos dias.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

24.5.15

Antes de anteciparmos o futuro

Ansel Adams


Antes de anteciparmos o futuro acrescentemos
à voz da terra o sobressalto das fontes
refugiando a sede.
Nenhuma nascente escapa à exigência,
tão vulnerável, da secura do barro
que nos separa das nuvens.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

17.5.15

Em seara alheia



Não há lucidez
nem no percurso das vítimas, nem no fel dos
carrascos

É essa a realidade carregada: a compreensão
suicida-se

Quando as frases correm telegráficas
ou tolhidas pelo receio de tropeçarem da boca
Não é fácil amar

NÃO É FÁCIL AMAR

Não é fácil amar
depois dos braços torcidos, das olheiras fundas
ou do marejar de lágrimas
de quem vê viscosos vultos
a derramarem calúnias. não é fácil
que o temor se despenhe na lama
e disperse todas as bondades, mesmo aquelas
que ainda arredam as cortinas das casas
com toda a delicadeza

Na grande ironia do sorriso de esguelha
antes de baterem contra a janela
os corvos saem.

Marília Miranda Lopes
In: Victorianas. Labirinto de Letras, 2015, p. 62-63

11.5.15

Nome


Cristin Atria

Interpelamos as palavras à procura 
de um nome para a casa onde moramos. 
Um nome que se ajuste inteiro 
à memória do olhar e do silêncio. 
Um nome tão secreto como as cantigas 
que as mães cantam baixinho 
enquanto embalam nos braços os filhos e a noite 
para não perderem o poder de repartir a sede.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

5.5.15

Para incendiar o vento



                                 Para a minha filha Ana

Junto ao cais não digas adeus ao teu amado.
Esquece a vastidão dos campos,
o toque dos sinos, as montanhas,
as cidades, a infância.
Pega nos remos.
Do outro lado da margem ele estará lá,
à espera do teu aroma para incendiar o vento.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

29.4.15

Bailarinos: o gesto e a leveza


Monica Stewart

Não usam máscara.
Têm a cara marcada pelo fogo-preso
do corpo prestes a incendiar o chão
onde rastejam, se desmoronam e se rasgam
até ao abraço mais feroz de quem os cerca.
Não usam sapatilhas.
Têm, nos pés descalços, o ritmo
inocente e perverso dos movimentos
que a dança lhes consente
e os torna possessos de volúpia.
Não usam cenário.
Têm a envolver-lhes a cintura, o reflexo
das sombras que os desliga do palco
com a intimidade de um impulso,
mesmo quando fincam as unhas
na madeira à procura de equilíbrio.
Querem a música. Sim, a música.
Uma sonoridade que lhes perturba o gesto e a leveza.
Que os desnuda.
Que arrasta o rio que lhes rebenta no olhar.


Graça Pires
In: CNB e os poetas, 2014, p. 3

Poema feito na sequência de ter assistido ao bailado "Orpheu e Eurídice", a convite da direcção da CNB, através de João Costa. Bem hajam pelo convite.

23.4.15

Desenho uma flor




Desenho uma flor.
Toco-a ao de leve.
Uma espécie de afago rubro
habita minhas mãos
que guardam, na bainha das palavras,
a voz do espanto
trauteada por insuspeitos lábios.
Escrevo devagar para não ferir
a vertigem da madrugada
que se rasgou em todos os olhares.
Toco a flor, levemente.
Há, de novo, no ar um aroma inesquecível.

Graça Pires
In: Abril: 40 anos. APE, 2014, p. 249

18.4.15

Em seara alheia



Tão pouco foi o que mudou.

A porta ainda a mesma, com seu chiar nos gonzos, seu gemer de cansaços.

O céu semeia oiro ou água ou vento, a entontecer donzelas, a agoniar os velhos.

Bem vês, pequena é a mudança.

A farinha ainda é pão e o pão é corpo e o corpo é alimento da vontade.

Os sonhos continuam, mais imprecisos, mais voláteis, e as vigílias mais longas, a segurar a terra na encosta.

Se queres saber do sobressalto dos pardais, posso dizer-te que já não bato palmas, que aprendi o sossego das ramadas.

Solto os braços, embrulho-me na tarde, abro o livro.

Um novo conto há-de começar.

Licínia Quitério
In: O livro dos cansaços: textos poéticos. Ed. da autora, 2015, p. 22

11.4.15

Até que haja chuva nos meus olhos

Pedro Domingues


Quando se dissipam as neblinas
da manhã, o mar cabe inteiro
nos meus gestos sequiosos,
mortificando-me os lábios
carregados de estiagem.
Ao fim da tarde escreverei
no diário de bordo: um dia
hei-de beber de um trago a água
de uma fonte até que haja chuva
nos meus olhos.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

4.4.15

Em seara alheia



Entre ervas

Era pequena como um grão de café.
Habitava entre as ervas,
Brincando com os bichos rasteiros,
Diluindo-se, reunindo-se de novo,
Inteira uma e outra vez.

Numa certa manhã, a lagarta disse:
- Deves regressar a casa
E quebrar a tristeza da tua mãe.
Quando esta a viu, chorou de alegria.
Há muito que havia perdido aquele rebento,
Uma gota entre tantas.

A filha da Chuva, gota de água morna,
Voltara transformada em orvalho.

Nesse dia houve aguaceiros
E o céu, em festa, encheu-se de cor.

Vera Vilhena
In: Fora do Mundo. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2014, p. 172

28.3.15

Tristeza


Federica Erra

Deixámos para trás a geografia 
dos sonhos luminosos 
porque as noites são líquidas 
e, de rosto enconchado 
em nossas mãos 
choramos o aroma 
quase magoado das madressilvas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

25.3.15

HERBERTO HELDER (1930-2015)





Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas 

dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
- Uma frase, uma ferida, uma vida selada.


Herberto Helder
In: ou o poema contínuo. Lisboa: Assírio & Alvim,  2004, p. 468

19.3.15

Poema


Não procures o poema, me disseste.
Deixa que ele venha por sinuosos trilhos, 
ou pelo riso das crianças, 
ou pelo cantar dos pássaros, 
ou pelo nome rasurado dos mortos, 
ou pelo transparente caminho do coração.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

3.3.15

Cumplicidades

David Hill e Robert Adamson


Não gosto de me vestir com cor laranja, disseste. 
Sentes-te mundana, libertina. 
Com uma euforia que não habita 
o teu olhar aprisionado de sombras.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

24.2.15

És um navegante solitário

                                             Edward Hopper                                

                                               Para o Victor Oliveira Mateus

És um navegante solitário.
Cartografas com precisão
todos os vórtices.
E deixas que uma luz coada
entre no convés, pela escotilha,
para esqueceres como são brutais
e longas as cordas da noite
quando recolhes os despojos
dos naufrágios mais secretos.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

17.2.15

Em seara alheia



Depois poderás dizer que a esperança é um rio
que atravessa os pés de quem anda
descalço sobre as pedras

Gisela Gracias Ramos Rosa
In: As palavras mais simples. Macedo de Cavaleiros, 2014, p. 94

8.2.15

Tão longe e tão próximo do teu nome

Amanda Cass


                     Para a minha irmã Teresa

As ondas do mar salgado
andam correndo à vontade.
Levam barcas de desejo,
trazem barcas de saudade.
Cantiga de roda.
Tempo de criança: tão longe
e tão próximo do teu nome.
Tempo que já não volta.
Que tiveste de inventar para ser teu.
Como quando o odor dos limos
benzia tuas mãos até à inocência
dos gestos mais discretos
e escondias, debaixo do travesseiro,
o teu olhar verde-mágoa.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

1.2.15

Um mar a inundar-te o olhar

Katia Chausheva

Para a Marta López Vilar

No ventre da tua mãe começaste a amar as águas.
E soubeste como se abrem os diques da pele
para jorrarem em litorais onde explodem
as marés assediadas pela lua.
Depois quiseste ser cais e barco,
âncora e vela, abrigo e naufrágio.
Tens agora um mar aberto a inundar-te o olhar.
Para sempre.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

24.1.15

Em seara alheia



Chamei-te mar

No mais íntimo da pele
desgrenhei o vento
para te desassossegar os cabelos

escrevi na água
da chuva
para ver
como as palavras
se desmoronam

No mais íntimo da pele
lá estavas azul
tão azul tão azul
que te chamei mar

e já é tanto
                                          
Eufrázio Filipe
In: Presos a um sopro de vento. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2014, p. 59

18.1.15

Deixaste que o rio te levasse


Falavas longamente de um rio, mãe.
Um rio com pedras tão brancas que cegavam.
Para o encontrares pisaste todos os vales,
doaste à paisagem a cor dos teus olhos:
tons de mel, tons de mágoa, tons de chuva.
E deixaste que o rio te levasse.
Depois disso, mãe, em todas as margens
se avistam aves muito brancas
que atravessam o olhar alarmado das mulheres.

Graça Pires, 2015

8.1.15

A inundar todas as mágoas

The Economist

Só em frente ao mar
posso inquirir e afirmar
ao mesmo tempo a lonjura
da enchente que começa
na cavidade do olhar
e se faz linguagem líquida
a inundar todas as mágoas.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

3.1.15

Em seara alheia




Geometria

Medir a terra
a régua e esquadro
e traçaria o limite
do justo e da
beleza.

Aos homens a privação
do agir livre, da decisão
de que são senhores.
Medir a terra
a régua e esquadro
é castrar a lonjura
do possível.

Quebrem-se as réguas
os esquadros e as linhas
que nos cercam.
Aos olhos de quem nos mede
a terra não tem medida.
                                          
Samuel Pimenta
In: Geo Metria. Lisboa: Livros de Ontem, 2014, p.83