29.4.11

Emudecemos

Dorothea Lange

Emudecemos com a noite calada entre os olhos.
Ao alcance dos espelhos colocamos a luz coada
das janelas para que os filhos não busquem
em vão o rosto da palavra, a primeira,
que lhes quebrou os dentes
quando a inocência em plena boca se desfez.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

24.4.11

Voz activa










Canta, poeta, canta!



Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.
                                                  
                                            Miguel Torga



20.4.11

Da paixão e da morte



Só os lírios roxos me são próximos
no lado mais comovido da manhã
quando a luz margina a solidão
dos meus olhos e dos ardis da memória
irrompe o penitente jogo da paixão e da morte.
Vejo uma cruz. Um homem. Uma túnica rasgada.
Uma coroa de espinhos.
Um rosto com sangue pisado.
O suplício das mãos amarradas ao madeiro.
Vejo-me criança assustada.
Os santos cobertos com pano roxo
na obscuridade da igreja.
O soar das matracas na procissão.
O chicote nas trevas da lembrança.
E eu, criança assustada,
a escolher as palavras certas
para rasgar as sombras com minhas mãos aflitas
e quebrar o cristal onde me serviam o medo.
Expia os teus pecados me diziam,
a mim criança assustada pelas chamas do inferno
que perpetuavam todas as culpas.
Agora tenho a voz estranha aos salmos fúnebres.
Ouço Bach em acordes de incenso,
em cantata e requiem. Esconjuro os sustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

13.4.11

Todas as palavras são adequadas


Obrigada, Cátia Azenha


Todas as palavras são adequadas
para evocar os dias
para sempre agarrados
à cal da casa onde nascemos.
Quase nada sei a meu respeito
desse tempo tão claro
em que as sombras eram apenas
a antecipação da noite.
Tento imitar aquela inocência
próxima da brancura dos lírios
e do frémito do rio
abraçando o mar.
Torna-se difícil encontrar os sinais
sobreviventes da memória:
a prata do chocolate
pacientemente alisada,
as velas dos moinhos,
as cerejas carnudas,
a roupa a corar sobre a erva,
a claridade das mãos da minha mãe
carregadas de tarefas e de presságios.

 Graça Pires
 De A incidência da luz, 2011

6.4.11

Em seara alheia



BILHETE-POSTAL


Voltei aos jardins mas nem sombra de nós vi
na face das coisas - somos filhos do instante.
E no entanto que longos me vão os dias.


Por aqui tudo arde. Secretamente.
Uma raposa desceu das terras altas
e morde-me os dedos se tento afagá-la.

Soledade Santos
In: Sob os teus pés a terra, Lisboa: Artefacto, 2010

28.3.11

Acerco-me de Gauguin



Como se uma quimera dobasse
o desalinho dos desejos
acerco-me de Gauguin
para que me cubra o corpo
com o tom terroso dos países
onde a água e o fogo anunciam a sede.
Quero que molde as minhas mãos
com o barro com que se regressa às fontes.
Quero amarrar os pulsos às palmeiras
e deixar que os barcos
fiquem à deriva em meu olhar.
Será imponderável o biográfico equívoco
em que me instalei com olhos de abismo.


Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

20.3.11

Talvez existam anjos com olhos de musgo

Manet


Caminhamos por entre as árvores
com a boca a saber a menta e a malvas.
Trazemos nas mãos um herbário
de tão fugaz esperança
que nenhuma outra se tece sem desvios
na dobra do peito.
Talvez existam anjos com olhos de musgo
à beira dos abismos por onde se esgueiram
os dias que nos roubam a eternidade.
Talvez a turbulência verde na borda dos ribeiros
unja de seiva a passagem do tempo.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

Agradeço a todas as amigas e a todos os amigos que estiveram na minha Festa. Agradeço também a todos os que queriam estar e não puderam.
Bem hajam !

10.3.11

CONVITE

Para ler, clicar (uma vez) em cima da convite
Gostava de vos ver por lá, se quiserem e puderem.

2.3.11

Círculo de mulheres



Veio primeiro o tempo
em que, pela boca das mães,
se conhecia o aroma do leite
e os filhos, de lábios atravessados
pelo mel, moldavam com sangue
o próprio rosto.
Agora, como num feitiço,
as mulheres rodam em círculo
de mãos dadas.
Dentro da roda permanecem os filhos
que elas protegem com o olhar
para que não venha cegá-los a lua cheia.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

22.2.11

No sal de seus olhos

Isidore Pils



Nenhum caminho é acessível
à tremenda brancura da espuma
que as marés enfurecidas enrolam
nos rochedos enquanto os marinheiros
sussurram, entre eles, a demência
das mãos pregadas ao leme,
antecipando a posição das estrelas
no sal de seus olhos.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

15.2.11

Em seara alheia

Seguiam-se momentos obscuros
decifrados nas docas e nos cais.
Os andantes da noite
procuram prazeres mundanos
e instantes propícios às palavras
palavras indizíveis, sem nome
que atravessam o próprio rosto
e circundam as mulheres de fogo.
Atam as mãos em noites de lua cheia
e despem as noites de breu.
Pisam as areias molhadas e rasgam as sombras
com que percorrem lado a lado
o ponto mais alto do silêncio.
Transformando as palavras em navios.

José M. Silva
In: As sombras. Edição de autor, 2010

9.2.11

Tão hábeis os teus dedos



Talvez não seja inútil
colher, ao fim da tarde,
os miosótis plantados
nos teus pulsos: tão hábeis
os teus dedos manejando afagos.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

2.2.11

Memórias de Dulcineia XX

Katia Chausheva



Ao longo dos anos conservei
uma inesperada tristeza reflectida
em meus olhos cor da sede.
Pedra a pedra, casa a casa,
sombra a sombra vagueio
pelas sensações e aguardo
que se repitam os sonhos
que resistiram à violência do tempo.
Podia escrever com sangue
o instante, sem amparo,
onde reclinei a cabeça
para aguardar a morte
dos desejos.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

26.1.11

Nas casas abandonadas

Ana Pires



Nas casas abandonadas, as silvas
vão tecendo as rédeas do tempo.
A terra inquieta fende o cimento
afagado, desfaz a cal das paredes,
contamina alvenarias.
Um declínio de pássaros na poeira
da tarde, desfoca as mãos
dos que morreram com as árvores.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

18.1.11

Em seara alheia


Partida


Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
- minúscula que fosse – para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam

todos atarefados a viajar, mas de outro modo –
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transacionável, quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes

(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta
para o riso alvar de muitos. Quando parti a buganvília
da moradia em frente estava esplendorosa e havia
um gato a furar a rede. Quando parti uma mulher
no prédio ao lado sacudia um pequeno tapete.

Acenou-me. Sorri. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas duns para os outros,
as conversas. Quando parti ninguém apareceu
para se despedir, havia apenas: eu, um objectivo
incerto, o teu rosto a reflectir-se ao longe
e o sol a dar de chapa nas vidraças.

Victor Oliveira Mateus
In: Regresso. Fafe: Labirinto, 2010

12.1.11

Gosto de objectos geométricos

Manuel Fazenda Lourenço


Gosto de objectos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos prendem como se fossemos árvores.
Preciso e exacto será também o momento
em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

3.1.11

Em litorais longínquos

Paul Cézanne


Em litorais longínquos
as mulheres deitam-se sobre a areia
junto à rebentação das ondas.
Com os braços em cruz
afastam as embarcações costeiras
e aguardam que a lua inteira
inicie um inesperado bailado
perto de suas bocas.
E não há âncora nem cais
que emudeça o júbilo dos mastros.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

22.12.10

De uma memória tão antiga

Gaudiol


dizer Dezembro como se o mar tocasse a voz
ou dizer uma rosa rubra atravessada
por lábios de luz.
dizer o oriente de uma estrela
e vestir a pele de um poema.
mas a palavra é uma criança tolhida de frio
nos cabelos nevrálgicos que a árvore segura.
e assim amanhecemos, tardios e ébrios
no carrossel que orquestra a cidade
com tambores de solidão.

dizer corpo e ser ponte sábia para o outro lado
e a vida ser tão simples como a mão
que toca a pele da sílaba
de uma memória tão antiga

como as solas de uma infância gasta.
dizer amor, esse fósforo que incendeia
e ser fogueira na nervura da palavra.

despir o olhar desta erosão de distância.
agasalhar os pés e resguardar
o dorso lírico do sangue
como se a um poema de Natal bastasse
o verde inflamado de um arbusto:
o labor inteiro do meu coração de terra.


Luísa Henriques


Um Natal de Luz.
Um ano de Amor.

15.12.10

É do mastro mais alto

Claude Simon


Quando, a breve prazo, a caligrafia
transforma as palavras em navio
é do mastro mais alto que o silêncio
adere à pele como um suor salgado
atraindo o golpe de asa onde a língua se fere.


Graça Pires
Em O silêncio: lugar habitado, 2009

8.12.10

Em seara alheia

BARCO

Este é o barco que navega
Muitos mares
Longitudes
Plenitudes
Âmago
Desânimo
É o barco brando verde
Que me sulca
Me cruza
Interpreta
E me devolve ao cais.


Maria Paula Raposo
In: O verbo ser. Lisboa: Apenas Livros, 2010

1.12.10

Insular

Ana Trindade

Entre o outono e a neve
construí uma ilha
e deixei correr nos meus olhos
a véspera de um rio
e a linguagem absurda das ideias
com identidade suspeita.
Na vertente do corpo
havia um lugar frágil,
onde o cheiro das maçãs
se transformava em orvalho
e as mãos escorregavam
pelo lado morno da voz,
até à represa de um chamamento azul.
Vim do lado sul
de todos os caminhos
que vão dar à sede.
Conheci a turbulência
de um verão intacto
e desenhei a curva
incontornável da lua cheia.


Graça Pires
Em Poemas, 1990

24.11.10

A oriente dos sonhos

Dorothea Lange


Aqui já ninguém se comove
com canções românticas.
Noutros lugares talvez.
Não aqui, onde há homens encostados
ao muro do desencanto,
esperando o fuzilamento da sua sombra
a oriente dos sonhos.

Graça Pires
Em Conjugar afectos, 1997

17.11.10

Canções sem palavras

Pouco a pouco desfolharam-se as rosas
em todos os jardins iniciando o enredo
das chuvas sobre as casas.
Estávamos no mês em que os crisântemos
se tornam mais brancos.
Contra a luz não ousávamos quebrar
o silêncio que na música se abrigava.
Schubert e as canções sem palavras.
O arco da voz preso no violoncelo.
O piano e o rumor sublime dos anjos.
Escutávamos a palavra não dita da sonata:
o azul dos lírios em quintais antiquíssimos!

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

10.11.10

Pode ser um grito

Gleb Garanich


Às vezes nascem do silêncio os dedos do medo,
com anéis de falso ouro oxidado pelo brilho
do olhar de quem pressente um luto inesperado
ou um pássaro à beira do sangue.
E sabemos que a morte pode ser um nó
ou um grito ou uma trepadeira enroscada
no corpo ou na lápide onde escreverão
o nome que tivemos.

Graça Pires
De O silêncio : lugar habitado, 2009

3.11.10

Em seara alheia


30.

procura o curso da água
se te acercares do rosto
da cidade.

todos os homens
beijarão as tuas preces à
medida que sobrevives ao
ventre do teu vestido dançando
ao som do alaúde.

retomo o silenciar da romaria
sem, ao menos, chorar as ondas.

Jorge Vicente
In: Hierofania dos dedos. Coimbra, Temas Originais, 2009

27.10.10

A velha nespereira

Ana Pires


Em contraluz, a velha nespereira
tem um perfil de vigília.
Quem dela se aproxima pode ver os múltiplos
ângulos do dia explodindo na ramagem
dando à terra um rosto iluminado.
Ao fundo da noite haverá sempre um luar
marginal com que ilustrarei o poema.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

21.10.10

Habito a deriva dos labirintos

Paul Strand


Habito a deriva dos labirintos,
com vontade de ser cativa de uma presença,
de um nome, de um aceno.
Sou um peregrino.
Recorto nos pés o caminho da terra prometida,
embora um estranho afecto
prenda os meus passos a um rumo incendiado.
Sou Ícaro rasando, imprudente, um amor proibido.
As minhas asas se fundem no absurdo de sensações
que me levam a um qualquer tormento,
abismo do meu próprio imaginário.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

14.10.10

Esperou pela mais baixa maré

Friedrich


Seguindo a linha sinuosa do horizonte,
ele estudou o lento esvoaçar dos pássaros
circunscrevendo o mar.
Esperou pela mais baixa maré
para adormecer sobre as rochas.
Agora, todas as manhãs,
é da sua boca que debandam as aves
litorais em direcção aos ventos do deserto.

Graça Pires
De O silêncio:lugar habitado, 2009

6.10.10

O ofício das mãos

Vermeer




O ofício das mãos não se intimida
com a apressada cadência do tempo.
Não tem fim o silencioso enleio
que se esconde por entre a argila
nos dedos do oleiro; ou se enrola no linho
dos lençóis tecido pelas mães; ou se prolonga
no pão quando chega o mês do trigo.
Porque esse é o destino das mãos,
tão alheio à urgência de cada dia.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

29.9.10

Em seara alheia

Sentaram-se na areia e descalçaram os sapatos.
Puseram-se a contar pelos dedos os barcos
que faltariam para chegar o verão.

Nenhum deles falava. Tinham passado juntos
algumas noites, num quarto sem vista. E, embora
julgassem o contrário, não conheciam um do outro
muito mais do que isso.

Estavam ali sentados para ver se acontecia alguma coisa.

No verão
alguém viria forçosamente buscá-los.

Maria do Rosário Pedreira
In: A casa e o cheiro dos livros. Lisboa: Quetzal, 1996

22.9.10

Sou habitante da cidade

Gérard Castello Lopes



Sou habitante da cidade, como os pombos
que esvoaçam a esperança de lés a lés.
Sou habitante da cidade,
como todos os sobreviventes
do cansaço ritmado dos horários.
As ruas esvaziam-se.
Um som sufocado de baladas protege
os culpados das ruínas do outono.
Em vão me iludo
com a claridade da cidade desperta.
Ninguém chora a noite
depois da passagem dos barcos
pelo olhar das pessoas desprevenidas.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

15.9.10

Faço do pensamento a muralha de um cais

Monet


Sempre foram fortuitas as palavras
na génese da utopia. Eu sei.
O exílio existe num quarto vazio de abraços,
quando a agonia pernoita
no interior aguado dos olhos.
Faço do pensamento a muralha de um cais.
Nos teus dedos vejo um mar
com um barco em primeiro plano.
O teu corpo, húmido aviso dos meus sentidos,
tece cumplicidades na minha língua.
Os nossos movimentos equivalem-se:
Ondulação lasciva. Labirinto de búzios.
Agasalho secreto.
Os teus olhos atónitos com o júbilo dos meus.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

9.9.10

Memórias de Dulcineia XIX

Ana Pires


Morreste sem alarido.
De que morte?
me pergunto.
Descentrado no tempo,
rasgavas o silêncio
dos caminhos que te perseguiam.
A via-láctea, entretecendo
teu delírio, nunca me devolveu
a forma imprecisa do teu vulto.
Inclino o rosto
para a luz dispersa da lua
e vejo o teu nome
nas pupilas das aves nocturnas.
Deixo, então, que soltem tuas cinzas
na mancha desta página,
onde ainda ressoam os teus passos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

1.9.10

À procura das fontes


Manuel Fazenda Lourenço



Ela abria as mãos sobre as pedras e ouvia
o som da água na margem das encostas.
Conhecia o voo dos pássaros aninhados
na trepadeira da latada e o reflexo da luz
escondida na chuva das manhãs.
Lavrara o campo, eito a eito,
com o corpo aguçado de paixão.
Um dia, ao acordar, sentiu que as nascentes
lhe mirravam no rosto.
Por toda a parte as fendas da sede sulcavam o chão.
Nunca mais foi vista.
Enlouquecida anda de terra em terra
à procura das fontes,
com um punhado de lama enrolado em cada pulso.


Graça Pires
De Saudade: revista de poesia, nº 12, Jun 2010. Organ. de Amadeu Baptista

25.8.10

Em seara alheia





Na impossibilidade de hoje te florir apaziguo a saudade muda e áurea singularizando a memória. dirás no teu canto de cinzas que nada mudou. que o tempo é só um coração aberto à espera de ser prado. direi mãe. apenas. e terra. onde a lágrima se fez flor. e luto. despenhado nos teus cabelos brancos.


Isabel Mendes Ferreira
In: As lágrimas estão todas na garganta do mar. Lisboa: Arcádia, 2010

18.8.10

Adormecemos com sede



As águas baixaram.
Amainada a maré vieram as gaivotas
poisar-nos na janela.
O brilho inesperado dos barcos
e das dunas doía no olhar.
De olhos fechados, ainda assim,
nos perturbava a clareira de bruma
que alastrava do mar.
As gaivotas, essas, traziam nas pupilas
um rebentar de ondas que nos ensurdecia.
Ao anoitecer jantámos em silêncio
e adormecemos com sede.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

9.8.10

Sem possibilidade de fuga

Edward Hopper


Sem possibilidade de fuga
habito a luz intensa da treva
e guardo, no olhar, a líquida sombra,
que sobrevive na memória dos barcos,
quando a madrugada se rasga,
devagar, na plenitude dos mastros.
Eu não sei a cor dos navios,
quando os marinheiros avistam as dunas
e o cheiro quente da areia arde em suas bocas.
Apenas sei a cor agressiva de meus olhos,
condenados à errância das sombras.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

29.7.10

Calaram-se os pássaros

Ana Pires

Calaram-se os pássaros.
Regressou enferma
a ave que rasgou a sombra
das árvores em pleno verão
sem encontrar o caminho para a chuva.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

21.7.10

Em seara alheia



Excessos

A partir de hoje vou usar todas as palavras.
Não vou corrigir as sublinhadas a vermelho.
Muito menos escrever a palavra certa dez vezes
ou aceitar castigos. Não vou evitar
as que se conseguem escrever nas entrelinhas,
ainda que tenha que as tornar visíveis.
Vou desbocar a boca na vulgarização do verbo.
Desembargar a voz, libertar do cárcere
o meu malvado espírito,
desvendar mistérios de cabelo farto.

A partir de hoje vou elevar o tom da minha voz.
Proteger-me da resposta.
Afirmar as rebeldes vontades.

A partir de hoje despi-me de roupas escuras.
Cortei o cabelo e pintei-o de preto.
Farei o luto na cabeça, para o aliviar na razão.

A partir de hoje, não darei qualquer espaço ao coração.


Luísa Azevedo
In: PIN - Uma explicação de ternura. Porto: Edita-me, 2009

12.7.10

Pela noite


Pedro Pires

Pela noite, as sardinheiras aprisionam a luz,
para enganar a morte dos desejos.
É por isso que o olhar matinal dos pássaros,
em pleno voo, nos pode enlouquecer.
Pensamos então: um pranto que desagua
nas dunas, não absolve o remorso
dos barcos seduzidos pelo vento.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

29.6.10

Desejo

Magritte

Sei o som dos passos
com que regressas a casa.
No quarto virado a norte,
a prevenir-nos de todos os invernos,
aguardo que prolongues em mim
a tua sombra intacta.
De frutos doces me enfeito.
Uma luz quase clandestina
inunda minhas margens
e deixa-me um rio no vinco da cintura.
O teu desejo terrivelmente puro!


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

17.6.10

No meu país

António Quadros



No meu país havia marinheiros
com braços de tempestade.
Havia um cais e um sonho
ateado em cada mastro.
E havia no vento o chamamento do mar.
Havia no meu país o voo antigo dos pássaros
para adivinhar a sina dos homens.
O mistério do sangue e do parto
e o uivo das fêmeas em noites com lua
havia também no meu país.
No meu país havia a terra e a memória
e os cantares de amigo
e a pressentida eternidade das palavras.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

10.6.10

Em seara alheia

UMA VIDA

A lua lambe os limos fétidos. Aborda o cais. Espreguiça o sono. Isto era um rio.
O nosso. Reconheces aqueles dois? Há três mil anos que ali estão. Uma vida.
Ora acordam, ora adormecem. Às vezes gritam, mas ninguém os ouve.
Às vezes amam, mas o amor pesa-lhes. Da janela vejo-os passar. Buscam.

Alice Fergo
In: Quando junto às horas se ilumina um rio. Fafe: Labirinto, 2010

3.6.10

Consentidas emoções

Edward Hopper




Com flores exuberantes
em torno das ancas rememoro
incontáveis sombras no meu rosto
e traço os caminhos em que me perdi
como quem empunha no fundo
da memória a bandeira ou a espada
de consentidas emoções.
Não voltarei ao sobressalto
dos lugares marcados com sangue de fêmea
para que o instinto me não rasgue
a pele dos seios.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

27.5.10

Do lado mais calado do tempo

Walker Evans

Do lado mais calado do tempo
podemos falar das mãos das mães,
tão frágeis, quando trazem nas costas
a febre dos filhos.
Podemos sentir o rosto perturbado
das crianças que nos mostram a boca
mordida pela fome.
Podemos querer de volta o fascínio
dos papagaios de papel e do tempo
em que não faltava ninguém
nas fotografias da família.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

20.5.10

As papoilas devassam as sombras

M. G. Luffarelli

De costas para o meu rosto
as papoilas devassam as sombras
e assinalam o destino de um grito.
Um grito alucinado que evoca, em todos os tronos,
a perenidade dos gestos sem mágoa.
Aqui, nesta cidade sem voz,
pouco me importa a miscelânea de pretextos
desatada nos meus pés.
A rosa dos ventos altera o norte das interdições
e denuncia os destroços da casa desmoronada
que reconheço nas palavras cruéis.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

13.5.10

O silêncio pressentido

Vincenzo Balocchi

O vento da tarde entra pelas casas sem convite
e enreda nos vidros o excessivo horizonte do mundo.
Em paredes ásperas deixamos escorregar
o silêncio pressentido no clamor do olhar
quando o verão se anuncia com suas farpas de fogo.
Ao redor de tudo, as casas permanecem
encerradas à insistência do sol.
Dentro delas podemos imaginar as mulheres
curvadas sobre os filhos abrindo as blusas
para que o leite e o sangue afugentem
a morte rente às bocas.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

6.5.10

Em seara alheia



Navegação

Não avistarei a terra depois desta nua solidão.
Sem luz e sem imagem, o vazio
inventa-me e consome-me
como este sonho cruel que já não é meu.
Não lembrarei os meu olhos, a minha voz, o meu segredo.
Dobrarei os ventos para apagar a minha forma
e adormecerei meu corpo na doçura terrível do esquecimento.
Não avistarei a terra nem este mar lembrará que existe.
Nenhuma solidão lembra o seu regresso
se dela parte e ela é o seu único destino.


Marta López Vilar
In: La palabra esperada. Versão portuguesa de Marta López Vilar. Madrid: Hiperión, 2007