25.7.08

Memórias de Dulcineia IV

Vermeer
Indecisa, seguro entre as mãos
a carta que um dia recebi:
sem remetente, sem data,
sem perfume.
Com uma haste de fogo
a queimar-me as pálpebras,
eu leio:
dia da minha noite,
prazer da minha mágoa,
norte dos meus caminhos,
estrela da minha ventura.

Os meus lábios, lentamente,
tocando as letras, lambendo
o sonho impresso no papel.
Um aroma de jasmim
devassando o ar.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

21.7.08

O mais secreto brilho do verão

Rachel Giese


Acordei assustada: tinha cortado
os pulsos para matar a sede.
Agora que a sede sangra nos meus lábios,
devoro, gota a gota, o hálito da terra,
ou o cheiro dos morangos,
ou, apenas, o sangue das palavras.
E arrasto o dia pelas sombras,
bebendo, devagar, o mais secreto
brilho do verão.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

16.7.08

Memórias de Dulcineia III



Quando fui ao teu encontro
levei no decote
um rebento de alecrim
para que me avistasses
pelo aroma.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

12.7.08

Em seara alheia



Nau de sonho

Quase roçando a areia, tão beijada
pelas ondas do mar, serenamente,
à luz avermelhada e fulva do poente,
eu paro... passa a minha nau doirada.

É nau forte a errar no mar fulgente,
coberta de luzes a amurada...
Pelo sopro das ondas embalada
parece o amor no coração da gente.

É nau de sonhos, um sonho enorme em flor,
buscando as horas mágicas de cor
em que o sol morre e sente-se a verdade.

Oh minha nau doirada espera um pouco
levas ao leme um timoneiro louco
e fica meu coração doendo de saudade.

Otília Martel
In: Menina Marota : um desnudar de alma. Lisboa, Papiro, 2008

7.7.08

Um rio nasce perto dos lábios

Edouard Boubat


Um rio nasce perto dos lábios
de quem improvisa a sede,
ou sabe usar as mãos para colher
as primeiras amoras do verão.
Às vezes, os frutos derretem-se
na boca, queimando a língua de prazer.
É assim que os amantes se redimem
de consentidos silêncios.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

3.7.08

Retrato improvisado

Picasso

Por dentro da tua voz, posso adivinhar
a cidade longínqua que te perturba o rosto.
Vieste de todos os lugares onde as emoções
se expõem do lado da desordem,
e chegaste com os pássaros transparentes
que, agora, repousam nos teus olhos:
água ou mágoa, a juntar os pedaços da tua sombra,
repartida por quantos silêncios te cercaram?
Não. Não te ausentes ainda.
Deixa-me reaver todo o júbilo das mãos,
na curva do teu peito, onde vejo uma pátria
cor de trigo, que me aquieta o corpo.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

30.6.08

Em seara alheia

QUE FORMALISMO?

De lamber as palavras como se
rasas de silêncio elas fingissem
e não se trucidassem contra o vento
e não voassem fundo
e não ferissem?

De afagar as palavras como se
um aguçado arame não
nos arranhasse
e não despisse em nós
a veste que se cola,
a casca da aparência?

De alisar as palavras como se
não fosse duro e fundo
o solo de onde partiram
e o lancinante grito
que lá mora?

É sempre um homem que
por elas fala,
é sempre um coração
que aí adeja!

João Rui de Sousa
In: Quarteto para as próximas chuvas. Lisboa: Dom Quixote, 2008

26.6.08

É um verso

Claude Monet


É um verso, toda a luz filtrada pelo olhar,
quando me surge, das mãos, um barco desvairado.
Vozes longínquas me interrogam sobre a tinta
azul impressa nos meus dedos: são os mares
da Odisseia a inundar-me a garganta ;
são citações de Homero oscilando
em meus lábios; são, não sei que aves
marinhas, no estuário das mãos.
Como quem usa a luz para esconder as sombras.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

22.6.08

Memórias de Dulcineia II

Daniel Garber
Ninguém imagina
por quantos lugares
a noite me encontrou
em retirada.
Comecei a ler romances de cavalaria
para não temer o peso da saudade
que se me alojava na alma.
Prendi à cintura o cheiro
do feno e da alfazema
e deixei que as minhas ancas
tomassem a forma dos moinhos,
para que o vento se inquietasse
com a minha sombra.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

18.6.08

Ganho asas

Yousuf Karsh

Quase tudo é previsível.
O dilema total é escapar
do calendário dos profetas.
Solto-me. Ganho asas.
Estou no século dos abismos,
mas não quero outra idade.
Interpreto todas as parábolas
para encontrar um pormenor
que sancione a minha biografia.
Habituo-me à ideia do jardim
abandonado nas pálpebras
de fisionomias ao acaso.
Um fio de água emoldura
a sombra de Ícaro,
para que permaneça intacta
na memória do sol.
Tão súbito um estribilho de aves no meu riso.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

14.6.08

A hora propícia

Picasso

Esta noite, do lado mais encoberto do rio,
acercarei o meu corpo do teu.
A hora é propícia à perturbação dos olhos,
disponíveis para a luxúria.
Basta que a lua respire a via láctea
em nosso hálito e que as estrelas
povoem de luz o céu da nossa boca,
para que nada silencie a erótica festa
do meu riso acostado à tua língua.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

9.6.08

Memórias de Dulcineia I

André Kertész


Era tanto o alvoroço dos pássaros
nas árvores mais antigas,
que uma inquieta suspeita
se me ajustou ao coração.
Então tive a certeza que morreste.
Só agora descubro
que esteve ao meu alcance
a tua errância,
a viagem que julguei absurda
e sem destino,
o exílio que abrigavas
dentro do olhar.
Da tua, da minha pátria
te direi: tão ausente de alento,
tão ausente de sonhos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

6.6.08

Os dias de Junho

Robert Doisneau


Neste lugar, onde as giestas
derramam o mel junto aos caminhos,
medimos os dias de junho
pelo exacto despertar do horizonte,
quando os homens se levantam
para soltar o gado
e, por dentro dos seus olhos,
a lua se esconde, perturbada.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.6.08

O mar



Sem hora marcada,
os navios passam ao largo das ondas.
Nenhum mar existe sem a silhueta dos mastros,
para chorar os peixes verdes em extinção.
De tão ausentes, as naus esqueceram
o orgasmo das marés
e permanecem, exaustas,
na memória das conchas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

28.5.08

Os aloendros

Manuel Fazenda Lourenço

Falta, ainda, dimensionar o canteiro
de rosas brancas, frente à porta,
para que se conte, do amor, outros segredos.
Não tenho pressa. Vou abrir as portadas
de madeira, fazer compotas, ajeitar
a dobra do lençol. E deixar alagar,
em tuas águas, os aloendros
que crescem nos meus braços.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

23.5.08

Escrevo rio



Somente a minha sombra
atravessou comigo
o brilho das manhãs
cativas do meu próprio espanto.
Em meus lábios,
tão repousados de beijos,
ocultei a sede
e nenhum horizonte
me apontou um rumor
de nascente.
Por isso, hoje,
escrevo rio
e um estuário
nasce-me nos olhos:
curso de água
à beira do verão.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

18.5.08

Em seara alheia


Debaixo do sigilo

o teu cabelo chove nas minhas mãos. e não vens
ainda sobre a terra. sabes a tempo imóvel e rios
sustenidos. dizes a paisagem como os anjos. as
palavras escorrem da boca uma das outras. e eu
escrevo a tarde que não cai. inscrevo na morte a
nossa eternidade. espero à noite ser uma mulher
por dentro de um homem. um pássaro ancorado
na aorta de deus. que o nervo da morte repugna.

Alice Macedo Campos
In: O ciclo menstrual da noite. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008

15.5.08

Foram embora os pássaros



Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

11.5.08

A suspeita de um poema

Imogen Cunningham

Acordei com a suspeita de um poema
a pontuar a manhã.
Quantas vezes a palavra se demora,
e dói, e deixa na voz uma rara ansiedade.
Sei, agora, que esta imensa luz
passa no meu rosto, inesperadamente,
quando deixo que a noite cresça
por dentro do meu corpo,
como se fora fogo posto.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

7.5.08

Como se viesse o anjo

Leonardo da Vinci

Fecho-me no quarto.
Há demasiada luz
espalhada nas paredes
como se viesse o anjo
que anuncia a extinção
das sombras.
De meus lábios,
interditos a preces,
sai uma canção antiga,
um chamamento
à flor da boca.
Um fulgor suspenso
de meus olhos
tece, sem limites,
o tempo da infância.
Como se me perseguisse
um sonho intacto.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

4.5.08

Todas as mães do mundo

Ansel Adams

Em direcção a um inequívoco conforto,
corro pelos sulcos dos olhos da minha mãe:
planície imensa onde rebolo a infância
e deixo fugir os sonhos enrodilhados na esperança.
A minha mãe: lua cheia de aconchego, rio quente
onde posso albergar o pânico de ter crescido.
Transponho para o coração um tempo mítico,
como uma história de muitos séculos,
perturbadoramente gémea de um futuro
protegido por todas as mães do mundo.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

1.5.08

Há noites



Há noites em que morremos de tristeza,
à espera que uma estrela nos rebente no olhar.
Depois, pela manhã, amontoam-se-nos, na boca,
gritos de combate, como se tivéssemos, no colo,
uma criança correndo perigo.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

27.4.08

Lembras-te?

Ruth Burke

Se eu viesse do mar, falaria do vento,
do sol inclinado para o sul,
ou da sombra azulada das gaivotas.
E diria: o teu corpo é um mastro
afundado em minhas águas.
Mas, retenho nas palavras
o lugar da vertigem.
E recordo. E recordando digo:
Foi no princípio do mundo.
De seda se vestiam minhas ancas
De aconchego se tomavam nossas mãos.
Lembras-te?


Graça Pires
De Afectos: amor, 2008

23.4.08

LIBERDADE

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


25 de Abril de 1974

Sophia



Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.

Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

20.4.08

Refaço a espera

Degas

Veio, devagar, um pássaro
sobrevoar minhas mãos
tão adiadas das tuas.
Refaço a espera.
Digo o teu nome para que voltes.
Foi secreto e breve o nosso encontro.
Nenhum registo o mencionou.
Vieste, lembro,
como quem vem por uma noite:
ansioso e clandestino
Esqueci já o lugar.
Não o brilho dos teus olhos.
Uma sensata loucura
me tornou cúmplice
dessa paixão quase marginal.
Nunca se viu uma história
onde se ache um cavaleiro andante
sem amores
, disseste,
como quem justifica
o paradoxo de um amor assim.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

14.4.08

Convite




Gostava que estivessem presentes
todas as minhas amigas e todos os meus amigos.


Como se fosse a véspera de morrer,
segurei na boca o mais primitivo
silêncio e pus-me em fuga.
Com as mãos cativas
de um amor antigo
toquei, demoradamente,
todas as árvores
que tinham gravadas no tronco
indeléveis palavras: chorou aqui
Dom Quixote ausências de Dulcineia
.
Então risquei, na pedra,
para que se visse,
um enorme moinho de vento.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

10.4.08

Em seara alheia



Busco em cada estrela o fogo capaz
de acalentar os meus olhos mais antigos.
Foi sempre a fome, companheira peregrina,
que me impeliu a seguir os roteiros da lua,
as ondas dos Oceanos, os acordes desse
sopro indelével: a vida. Fiz da solidão minha
nudez mais pura, o meu pão, a minha sede,
e da ausência a ressecar-me os olhos,
os caminhos todos do mundo. Renasço
no fulgor de cada estrela e, no fogo,
desfaço as cinzas do meu ser minguante:
fagulha a incandescer-me no universo inteiro.


Alexandre Bonafim
In: A outra margem do tempo. São Paulo, 2008

5.4.08

Alentejo

Manuel Fazenda Lourenço

Quando as estevas entraram no poema,
souberam, os nossos filhos, que a brancura
das casas se mantém, eternamente, no olhar
de quem se comove com a luz de cada madrugada.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

1.4.08

A melancolia deste instante

Edouard Boubat


Sinto, poro a poro, a alucinação
vegetal da terra, tecendo os seixos
cativos do orvalho, ou lambendo os mastros
por onde passa o vento norte.
Sei que, as mãos férteis das nascentes,
derramam, entre as pedras, um mel diluído,
na secreta explosão da haste dos salgueiros.
Deixem-me dizer palavras sem sentido,
até esquecer o nome,
pelo qual regressei ao tempo das seduções.
Nenhum culto me absolve do detalhe
em que comecei a preparar
a melancolia deste instante?

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

28.3.08

História de amor

Michele Lamontagne


Era primavera em todas as montanhas
tecidas de lilás
e o luar escorria pelas casas,
decifrando alegorias e monólogos.
Ao findar da tade, havia já
no olhar de toda a gente
um itinerário definitivo
de sensações breves e paradoxais.
Das mãos das mulheres
saíam cavalos de barro
com fios invisíveis,
que suspendiam todas as perversões,
e os limos perfumavam a bruma
como um símbolo imortal.
Foi então que, no meio da noite,
um adolescente iniciou,
perturbado e lento,
todos os cambiantes do seu corpo nú,
até à ruptura líquida dos desejos.
E todas as mulheres
o adoptaram como filho.


Graça Pires
De Poemas, 1990

24.3.08

Certos pressentimentos

Alain Jenkins

Os últimos nós do silêncio,
nos cantos da boca gritam
que há lugares onde se cobre de lodo
o destino dos homens e se rasgam,
em dolorosos pedaços,
os sonhos fraternos.
Envelhecem, em meus dedos
certos pressentimentos.
Digo e desdigo a tristeza.
Frente a frente com o texto,
incluo-me na desmedida
demência das palavras.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

20.3.08

O poeta



Contemporâneo dos deuses é o poeta.
Os seus templos têm abóbadas
de silêncio e nostalgia.
Os seus ritos roçam a magia,
a raiva, o exorcismo.
O seu tempo tem a rotação das dunas
no litoral do fogo.
Há multidões partilhando
o ágape fraterno dos seus versos.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

17.3.08

No mês de Março

Menez


Estávamos no mês de março.
Na caixa do correio, encontrei um postal
ilustrado : Menez (guache s/papel).
Era teu. E, entre outras coisas
que guardei para mim, dizia:
Gosto de ti quando sorris ao meu embaraço
de tanto te gostar. Gosto de ti
mesmo quando estás longe, no alvoroço
de te ter perto. Gosto de ti,
mesmo quando não parece
e sempre mais do que parece.
Que noite morna me nasceu,
então, no corpo como se fosse estio?


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

13.3.08

Todos os contrastes

Cleri Biotto


Coloco, ao alcance dos lábios, todas as convicções
e desdobro as palavras sobre a noite.
Regresso à caligrafia indomável dos poemas,
para fixar as imagens que se adivinham
nas entrelinhas daquilo que acontece sem aviso.
Depois, deixo, no coração, à deriva, todos os enredos
que se revezam: inevitáveis, aleatórios, urgentes.
E, na minha mão direita, onde as veias engrossaram
como rios, circulam, agora, todos os contrastes.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

10.3.08

No olhar, um barco

Richard Price

Surpreendida pelo ideário
de um marinheiro sem rota,
o meu olhar abrigou um barco
e reaprendeu, sem dificuldade,
os mesmos gritos dos nómadas.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

7.3.08

Às mulheres do meu país

Matisse


O dia cobre-se de pássaros,
que sobrevoam quotidianas ficções.
No meu país, as mulheres têm a cor
da sede nos seus olhos, ávidos de milagres.
É por isso que as mãos lhes estremecem de prazer.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.3.08

Um relógio parado

Salvador Dali


Que ruído me devolveu o insulto
de espelhos quebrados junto à pele?
Na insónia confidente,
um relógio parado marca o caminho do inverno,
onde os poetas começam a morrer.
Aquém do frio paira uma brisa repousada
e uma bandeira branca irrompe da garganta,
esculpindo a rendição da alma.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

26.2.08

Em seara alheia



DÁ-ME DE BEBER...

Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro.
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga de céu
sem coares as nuvens que passam.


Dora Ferreira da Silva
In: Cartografia do Imaginário. São Paulo, T. A. Queiroz, 2003

21.2.08

Regresso à praia húmida

Edouard Boubat

De costas voltadas para a fadiga dos dias,
regresso à praia húmida onde nasço
quantas vezes eu quero,
livre do movimento das sombras
que influenciam o percurso dos meus olhos.
No leme de todos os barcos leio o protesto
quotidiano dos que nunca se rendem
às imposições previstas em todas as pátrias,
dos que não aceitam morrer sem saber porquê.
E volto, de repente, à absoluta nudez
das árvores despojadas de pássaros,
onde o vento sopra tão rápido
como um rastilho de fé.
Passam, assim, diante de mim
contos de fadas, visões,
ou apenas remorsos sem memória.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

17.2.08

A desordem da noite

Peter Wileman


Quase tudo se articula na sorte
ou na desgraça de resgatar memórias,
como um pretexto rebelde,
marginando os dias.
Quantas vezes sobrepomos as mãos
para chorar amigos, ou aprisionar
a infância, ou dizer, devagar,
palavras intranquilas,
tantas foram as sombras sobre os ombros.
Não inquiram, portanto, com que silêncios
se nomeia a desordem da noite.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

13.2.08

Enamoramento

Edouard Boubat


Agora, que os teus e os meus olhos
se entrelaçam, em que penas se movem
os meus dedos que, de lentos pássaros,
povoam minhas mãos?
Inquieta-se a minha sombra sobre a tua,
quando o sol da tarde nos anuncia
uma festa partilhada e, dos lábios,
enrodilhados no riso e nos beijos,
desliza um súbito mar, onde quase
se pressente o naufrágio dos corpos,
deslumbrados, já, de tanta água incendiada.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

9.2.08

Uma amiga

Hopper

Para a minha irmã

Não sabes se é possível recolher
as últimas estrelas da noite,
para amenizar o peso do silêncio.
Mas, do cume da manhã,
avistas sempre, tu o dizes,
um atalho para a felicidade,
porque as tuas mãos respiram
a irrecusável posse de uma alegria
capaz de multiplicar a voz,
para dizer que, em todos os rostos,
desagua um rio navegável,
onde importa saber ser barco,
ou remo, ou, simplesmente,
o rumor da água corrente.
Ao acaso, repartes o gosto de viver,
sem a lógica de coisa calculada
e sem nunca ficares de fé perdida,
como se usasses o optimismo
em legítima defesa.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

Atenção: há mais poemas meus na voz de José-António Moreira em Sons da Escrita

4.2.08

Um palco de tréguas

André Kertész

Um palco de tréguas.
Esgotei as deixas
que sustentavam o diálogo.
Espectador de mim, aplaudo
e pateio as múltiplas representações
dos dramas, das comédias e das farsas,
encenadas na caligrafia do impossível.
Abuso dos monólogos porque uso na voz
a gargantilha alucinada do silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

29.1.08

Do lado da manhã

Rabi Khan


Do lado da manhã revi o mar,
trazido no olhar de quem partia.

Erectos, os mastros, desnorteiam
as gaivotas que ostentam uma âncora
pintada nas penas.
Um perigoso vento marítimo
inclina-se sobre a noite caiando, de negro,
a deriva dos búzios.
Os barcos ancorados nos meus braços,
impedem-me de abraçar o mar.
O voo impreciso dos veleiros
torna errante a espuma das conchas.
Mas que mar é este, anterior às dunas,
só conhecido pelos náufragos?


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007


Atenção: há mais poemas meus na voz de José-António Moreira em Sons da Escrita

25.1.08

Um olhar

Menez



Deslaço o nó da garganta
na orla quase obscena da pressa
com que passo pelos outros.
Demoro o olhar nos sonhos alheios
que nunca foram ditos
e, neles reconheço, um por um,
o esboço dos meus.
Posso endereçar um verso
para estancar o sangue nas mãos
fracturadas de tanta ausência.
Posso repetir um nome fraterno
que levede os afectos.
Posso desfraldar, no peito, as tréguas
de uma vida rente à inquietação.
Posso?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
Atenção: no blog Sons da Escrita podem ouvir poemas meus num programa feito por José-António Moreira

21.1.08

Chove perto dos olhos

Whilhelm Leisten


Chove perto dos olhos manchados de errância.
Um dilúvio começa ao largo do desespero.
Pensámos que, de noite, a mendicidade
das mãos passava despercebida.
Partilhámos enigmas e abismos,
procurando uma margem, um horizonte,
ou apenas uma sede
tão imediata como as lágrimas.
Porém, a cidade não consente vadios
à porta do futuro.
Por isso nos abrigámos nos indícios
da casa ou do caos.
Hoje não lamentamos a brevidade dos desejos
porque somos personagens
de uma parábola em sangue.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

14.1.08

Em seara alheia



Trazíamos ainda nos ouvidos o canto
acre e fausto das cigarras. Vinham com ele,
amarrados, os bois, as noras, os carvalhos,
e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma
poroso dos rododendros. Porque é deles
que falas onde quer que te dispas, e des-
nudes, desprevenido e inteiro. Da moldura
partida e do retrato caído no degrau mais
fundo das escadas. Sim, por mais que
digas, falas sempre das abelhas, do mel
adolescente escorrendo dos favos loucos
da alegria. Da alegria perdida, reencontrada,
perdida entre os escombros e as abjecções
do real, mais falso e verdadeiro que todas
as verdades aprendidas, que todos os
dogmas e doutrinas acumuladas nos
compêndios por onde te ensinaram a
vida.

Albano Martins,
Rodomel rododendro, 1989
In: Assim são as algas. Porto : Campo das Letras, 2000

9.1.08

De noite

Scotia Luhrs




De noite, o silêncio não apaga as imagens
sulcadas no olhar.
Um calamento, pressentido pelas fêmeas,
desnorteia os animais com cio.
Entre sombras, abordam-se segredos litigiosos.
As mulheres escondem, sob a roupa,
a prenhez da terra e sangram
os nós dos dedos no velho loureiro,
outrora plantado para coroar heróis
sem rosto, da estirpe dos homens.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

5.1.08

Palavras



Em horas escolhidas ao acaso
recordo palavras que me trazem
outras palavras, outros sons,
outras sombras;
palavras redondas como os seios
das meninas, em cujos olhos
se anuncia um brilho inquietante;
palavras que resvalam pela fala
e transformam o vulto
incerto das mãos em pássaros
ébrios de fogo, ou explodindo de luz
como se fossem astros;
palavras sangrando na boca,
ou um desvio, tecido às cegas,
para deixar entrar a noite.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

1.1.08

Um pássaro verde

António Dacosta



Como tu dizias,
um só sonho não importa,
quando um pássaro verde
nos nasce no peito
para antecipar a esperança.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997